Peccare

1 Prólogo


Notas iniciais
Repostando uma nova versão do prólogo. To postando aqui só pra não perder o arquivo. Versão Julho 2017.

Quando os primeiros flocos de neve surgiram, caindo das nuvens, a princesa não ficou surpresa, muito menos feliz. Estava desesperada. Suas palavras profanas e sua ingrata bisbilhotice haviam amaldiçoado seu pequeno reino, Peccare. Aproximando-se da pequenina, mas graciosa janela do cômodo observou os guardas do Palácio Real serem atingidos em seus ombros pelos singelos flocos e eles, esquecendo-se de suas tarefas, distraíam-se com a novidade, pois em um país subtropical como Peccare, nevar era algo muito raro.

Apesar da doçura da neve, o vento aos poucos demonstrava-se com violência, e o inverno mais uma vez marcava sua presença com o tempo nublado que se formava cada vez mais. Onde estava o sol?, aquele que tanto aquecia a grama, esta acostumada com o calor intenso. Faltava-lhe o tempo quente, típico daquela região de planícies e pequenas colinas, marcadas uma vez ou outra por rios e, quase sempre, pela presença de árvores frutíferas e tropicais. Os pássaros voavam de um lado para o outro, sem saberem o que fazer. Afinal, o inverno natural de Peccare só chegaria em 6 meses, e nem os animais estavam preparados para isso.

Um tremor correu por toda a espinha da princesa. Sensação estranha aquela. Era frio ou era culpa? Provavelmente os dois, mas ela não soube ao certo. Tentou fugir dos dentes venenosos daquele sentimento, procurando a calmaria. No entanto, ela tinha aberto a Caixa de Pandora; uma mistura de sensações impediam a sua paz, trazendo sua maior preocupação do momento: o que iria acontecer com si mesma?... Egolatria. Os julgamentos massivos apontariam para seu crime mortal, e a filha do símbolo do poder monárquico daquele reino condenado à morte lenta e agonizante seria considerada culpada. Afinal, a mudança brusca de estação e o gélido fenômeno não eram nada comparado ao que estava vindo.

A alteza mordeu o lábio inferior e inspirou forte rapidamente, e com dificuldade expirou. Engoliu seco. Ignorância! Que criancice a dela. Dor! Agarrou impulsivamente o batente da janela e, cabisbaixa, fechou os olhos. Suas mãos suavam frio, e a princesa tremia pela culpa que já se instalava. Pensou nele, como mal conseguiria olhá-la quando descobrisse.

Seu pai havia-lhe comentado sobre o objeto e suas desgraças a um tempo. Disse a ela que iria queimar o diabo, para que nenhum outro monarca cometesse o pecado. Porém, tomada pela curiosidade de ver o livro pela primeira e última vez, Winasaki foi até o esconderijo do objeto e encontrou-o enquanto o rei Odrien estava presente na festa do Solstício de Verão, que começava naquele dia.

“Que curiosidade ingrata!” – ela ralhou e, novamente esquecendo-se das graciosidades reais como lhe foram tão ensinadas, fechou o punho e socou o batente da janela com tanta força que sentiu sua mão lesionar.

Já de olhos abertos, observava de longe a festa que ocorria na rua do Palácio. Os ornamentos perdiam a graça colorida e agora estavam quase brancos. Os donos das barracas de comida tentavam a todo custo cobrir as guloseimas, mas a ventania fria levava os tecidos de um lado para o outro, derrubando até algumas barraquinhas mais modestas. Os estandartes caiam aos montes. E nem se fala da estrutura do palco da banda de rock que tocava: com a confusão, a tenda que cobria a plataforma remexia-se tanto que foi preciso recolher os instrumentos e finalizar o show.

Algumas pessoas esfregavam os braços nus, enquanto olhavam para o céu tão admiradas quanto as crianças que corriam de um lado para o outro — exceto aquelas que se escondiam atrás das saias e bermudas dos pais, e choravam porque estavam com frio e com medo.

Maldita seria aos olhos de qualquer um se descobrissem que fora ela. Esperava que ninguém soubesse do culpado, pois o livro, mesmo que temido e conhecido por todos do reino, poderia ser lido por qualquer um. Mas ela sabia que o pai, assim que olhasse a desgraça, a culparia. Pois logo, as mortes viriam, além... deles.

Winasaki forçou-se a lembrar do trecho que tinha lido sobre eles. Terríveis! Terríveis! Repugnantes...

Subitamente, a jovem princesa congelou, e como se tivesse recebido um choque, arrepiou-se até os pelos das pernas. Ao mesmo tempo, seus olhos arregalaram, e assim ficaram por muito tempo. Estrondo! O tão longo tempo que prendeu a respiração assemelhava-se ao primeiro grito de pavor que ouviu. Medonho! Ela não olhou para a direção do som, entretanto continuou focada no horizonte, tão calada quanto um cadáver. "O pior logo vai chegar", afirmava para si mesma. Trovões; o frio que sentia não era apenas da tempestade que começava a se formar no negro céu. Espera, o que eram aquelas coisas que desciam com os raios?

Um tremor fortíssimo se iniciou, e as pessoas ficaram ainda mais desesperadas, correndo de um lado para o outro. Medo! A convicção de Winasaki se confirmara, e a decisão de manter-se fixada ao horizonte era certa, pois teve a certeza que foi a primeira a vislumbrar o crescimento rápido de árvores tão esquisitas como aquelas. Surgiam em todos os cantos, bem como os gritos do povo.

Sozinha no quarto, sabendo que não suportaria ver o terror final — mesmo que bem curiosa para vê-lo!, a menina virou-se de costas para a janela e caiu sentada no chão com os joelhos juntos, as mãos cruzadas sobre as canelas. Sua expressão era de tristeza; enquanto os gritos de horror e os zumbidos do vento ecoavam na sua mente, Winasaki sussurrou perdão, e perdão, e perdão novamente, e parou quando já não conseguia mais suportar porque a garganta já lhe doía, enquanto as lágrimas finalmente caíam de seus olhos. Tão pequena, mas tão desgraçada!

Notas finais
Não é oficial mas espero que tenha gostado! (。’▽’。)♡