Peccare
2 Capítulo 01
A garota desencostou a mão da gélida janela do carro, e sorriu satisfeita ao ver que foi formada uma marca transparente e pode observar a paisagem. As árvores da floresta de coníferas eram enfeitadas pela neve em suas folhas de Natal e a grama era acarpetada com o branco mais puro. O céu estava decorado por nuvens brancas e acinzentadas, relatando o rigoroso inverno de mais de uma década no país. Além do ambiente, observou também os guardas reais na estrada, de costas para a floresta. Uau! Haviam muitos guardando por ali, com armas esquisitas nas mãos. Alguns conversavam entre eles, mas a maioria estava séria. Ela se sentiu triste de repente, como se lembrasse de alguma coisa.
No entanto, o carro estava quente por estar em movimento: o vidro, depois de minutos, novamente ficou abafado. Desistiu, finalmente. Voltou sua atenção para os noticiários do rádio de pilha.
— ...milhares de pessoas estão em frente ao Hospital Central da capital desde o início da madrugada para receberem as vacinas anuais contra a Gripe Fria.
Ângela não estava no melhor dia: as horas intermináveis dentro daquele carro fétido por causa do cheiro horrível de vômito no banco ao lado, o frio e o cansaço — além do fluxo do mês, que resolvera visitá-la bem naquele dia, não contribuíam muito. Mesmo assim, ela não desistiria assim tão fácil. Em poucos minutos chegariam a Argan e seus objetivos do dia finalmente se completariam.
—...a informação é de que todos os hospitais de toda Peccare não receberam nenhum lote de vacinas, mas isso não inclui a capital. Ainda não sabemos o motivo, mas testemunhas afirmam que...
— Isso é totalmente vergonhoso – o homem que dirigia o carro desligou o rádio, fazendo um gesto de negação na cabeça – Os outros hospitais deveriam fornecer a vacina também.
— Ora, querido, mas isso não é para tanto. Argan é a capital, é o centro de tudo — a mulher sentada ao seu lado apoiou delicadamente a mão sobre o ombro dele.
Will suspirou frustrado. Simplesmente não acreditava o quão inocente Miranda estava sendo ultimamente. Finalmente ela estaria se entregando à capital? Ou pior: à rainha?
— Deixe de pensar neles, Miranda. Pense em nós, em nós! – disse, levantando a voz cada vez mais e estimulando-a a tirar a mão do ombro dele — Tenho que dirigir vários quilômetros da nossa cidade até lá a cada um ano, levando nossos dois filhos a quase cinco horas de viagem, parando de quinze em quinze minutos para George vomitar!
— Na verdade, papai, acho que não tenho mais nada pra pôr pra fora – George, o filho mais novo, admitiu ansiando pelo vômito.
A garota riu deleitando-se da situação vergonhosa do irmão.
— Não se esqueça de vomitar suas tripas, George!
— Minhas tripas? – cabisbaixo, olhou para a própria barriga e a cutucou — Onde elas ficam?
— Aqui! – a menina se jogou contra o irmão e lhe fez cócegas. O menininho não resistiu e gargalhou alto, tentando se esquivar a todo instante.
— Ângela, para com isso. É sério. Desse jeito, ele vai vomitar de novo – o pai alertou impacientemente, sem tirar a atenção da pista molhada.
— Oh, não! A Garra vai comer as tripas dos dois! – Ângela agarrou seu próprio pulso e dobrou seus dedos, imitando uma garra – Vamos, Garra Júnior, ataque o monstro!
Entusiasmado, o irmão mais novo fez a mesma coisa. Esboçou um largo sorriso de criança e olhou todo esperançoso para a irmã. No entanto, ainda sentado no banco do passageiro, apenas ele estendeu a mão rígida e fingiu que atacava o pescoço do próprio pai. A mãe e Ângela demonstravam contentamento ao ver a cena.
— Uah! Uah! Minha garra faz este som! Uah! Uah! – a criança se divertia, fazendo cócegas na orelha do pai.
Ângela sabia que isso animaria William. Era óbvio: ele mesmo inventou a brincadeira a muitos anos atrás.
— Não acredito que você se lembrou disso, Ângela. – o homem admitiu com um sorriso no rosto, orgulhoso da graça, olhando-a nos olhos pelo retrovisor.
Subitamente, o celular do homem tocou ao lado dele.
— Miranda, você poderia pegar para mim? Está na minha bolsa. – pediu o homem.
— Sim, só um minuto... – ela se curvou, a procura do objeto no chão do carro. Pegou a bolsa, abriu o zíper e remexeu o acessório. Afastou uma carteira e uma caneta e finalmente achou o aparelho. – Aqui, está aqui.
— Obrigado. – ele pegou o celular e atendeu — Pronto?
William, após uma longa pausa com uma série de murmúrios concordantes, franziu o cenho.
— Espera aí, o quê? Não, não é possível... – respondeu e logo em seguida pigarreou, endireitando-se no banco. – Não, não. Thomas, entenda. Estou dirigindo faz mais que cinco horas, já estou próximo da capital com minha família, está me entendendo? O hospital de Seda não recebeu os lotes, e o que está sendo noticiado é que nenhum outro hospital recebeu. Não vou voltar. Não agora que cheguei – houve uma pausa – Sim, há alguns carros voltando e...
Miranda fitava-o curiosa, pois tinha a certeza de que algo incomum havia acontecido. Nunca tiveram problema algum com a ida à capital para receber a vacina, e ainda assim, seria a sexta vez que se vacinariam.
— Ouça, Thomas, estamos cansados demais para voltar... te ligo depois, certo? — outra longa pausa, e antes de finalmente responder, ele assentiu — tudo bem.
E desligou o aparelho, entregando-o à mulher, esta, que por sua vez, perguntou a ele o que tinha acontecido.
Ele suspirou e olhou de relance para ela, com desdém. Ângela, também curiosa com a resposta, desligou por um instante o celular para prestar a atenção no que o pai iria dizer.
— Thomas disse que o Hospital da própria capital não tem mais nada. Acabaram-se todas as vacinas. Nenhuma sobrando. Uma multidão está quebrando um pau por lá, protestando por mais, o que eu acho mais que correto! — ele disse, com a cara fechada.
— Como assim? Isso nunca aconteceu! — Ângela exclamou como se um ponto enorme de interrogação pairasse acima da sua cabeça.
— Esse lugar é amaldiçoado mesmo — Miranda estava inconformada enquanto fechava o zíper da bolsa — Você disse ao seu irmão que não iríamos voltar. Você está certo. Não vamos voltar hoje — afirmou séria, enquanto observava as dezenas de carros que iam na direção contrária, na pista ao lado. Suspirou, entediada — Vamos procurar por um hotel por aqui e amanhã a gente vê o que acontece.
E todos concordaram silenciosamente.
O filho da família Mantire se aninhou no colo da irmã mais velha durante o caminho, enquanto ela acariciava o cabelo dele e descansava os olhos. Enquanto isso, os pais discutiam sobre o que iriam fazer no dia seguinte.
De repente, ele se endireitou no banco e se aproximou da irmã. Então, aproveitando que os pais estavam distraídos, ele sussurrou:
— Ângela, quando você vai receber aquela carta daquele negócio lá?
— Que "negócio"? — ela sussurrou de volta, com o cenho franzido, mas logo entendeu e sorriu — Você quer dizer, lá da Academia?
— Acho que sim.
— Bem, — ela suspirou e abriu um largo sorriso — Eu já recebi.
George levantou a cabeça e a olhou com os olhos arregalados. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela continuou:
— Mas ainda não a abri.
— O quê? Mas porquê?
— George, você sabe que não posso abrir na frente deles. Mas… não vamos falar disso aqui, está bem?
George assentiu frustrado, mas sabia que a irmã queria entrar para a Academia de Caçadores e era proibida pelos pais. Desde que ela tinha 16 anos, inúmeras vezes havia presenciado a garota mentindo, dizendo que iria estudar na casa de algum amigo ou ir para algum curso. Às vezes, Ângela o deixava na porta de casa depois da escola e corria com a mochila nas costas para o Centro de Treinamento, enquanto os pais estavam fora de casa o dia todo. Para sua sorte, não eram todos os dias em que a chamavam para os treinos, e assim conseguia levar as mentiras sem que suspeitas muito fortes fossem levantadas contra ela. Então, depois de dois anos dessa rotina, Ângela receberia uma carta com a resposta da aceitação ou da negação na entrada como caçadora — e, quem sabe, finalmente alcançaria a promessa feita a anos atrás. Mas o que George não sabia era a causa da proibição.
O motivo não era simples, mas difícil de ser relembrado por aqueles que o conheciam. Antes de George, havia outro membro da família, o filho mais velho, Nicolas. Ele conseguiu entrar para a Academia aos 25 anos, mas morreu antes que pudesse segurar uma arma em um real combate. Desde a morte violenta dele, William e Miranda haviam proibido que qualquer membro da família pudesse se tornar um caçador de seres mitológicos, pois queriam, entre outros assuntos, evitar que outro filho se tornasse até irreconhecível. E eles tinham total razão.
Dez anos atrás. Os monstros que desceram do céu pelos raios da tempestade no Dia do Horror caíram sobre a população e, assustados e sem saberem o que estava acontecendo, esmagaram o povo e suas casas, derrubaram prédios e destruíram ruas, enquanto corriam com angústia para dentro daquela floresta nova ao longe do horizonte, que consumiu algumas casas e que pertencia à dimensão dos seres estranhos. O rastro que deixaram era de sangue e restos de construções.
Neste dia terrível, mais de vinte mil pessoas foram mortas ou feridas. Que desastre! Corpos destroçados, esmagados pela correria e queimados por raios e explosões... Fora as casas e os prédios, que estavam devastados pelo tremor e foram atingidos pelos monstros. Puxa! Parecia cena de pós guerra.
Nos meses que se passaram, o rei foi terrivelmente pressionado pelo povo que protestava em todas as partes de Peccare. Mas o que ele poderia fazer? Aqueles seres animalescos surgiram do nada e se recolheram para as partes mais profundas da região, e revelavam-se repentinamente em grupos outras muitas vezes para furtos. Entretanto, Odrien era o rei. O monarca. Sentia seu orgulho terrivelmente ferido e a necessidade de uma vingança bruta e violenta batia à sua porta todas as manhãs. Então, vários meses depois do terrível dia, fez um pronunciamento de cunho nacional, e com a ajuda do Exército, inaugurou uma sede da Academia de Caçadores num antigo prédio da polícia da capital. Com os anos, mais prédios como esse foram espalhados por algumas cidades com maioria de classe baixa e de classe média, para receberem mais e mais pessoas pobres aptas a matarem ou morrerem.
Quando a primeira leva de caçadores se formou, ele recebeu glórias por todos os lados, por trazer segurança à Peccare! Que rei! Crianças não morriam mais às moscas, e o dinheiro gasto aos montes na reconstrução de edifícios era revertido para outras melhorias no país.
Infelizmente, Odrien usou apenas o seu lado da brutalidade irracional, mas isso era o que o povo queria — e que sempre quer. A população, desde o começo das eras, sempre opta pela ignorância! Nada foi o que investiu em medidas pacifistas, algo que era pedido por um pequeno grupo que apoiavam esses monstros, e se autodenominavam como Refratários. Que loucura!
Para o rei Odrien, todos os que entrassem para a Academia não poderiam, de maneira alguma, ter compaixão sobre aqueles seres mitológicos. E era assim que estava se seguindo: a Academia arrancava a piedade de qualquer coração de caçador que pudesse sustentar.
Em contrapartida, haviam muitas coisas boas na criação da Academia, pois quanto mais vagas eram preenchidas — e não eram de graça! O lucro tinha que rolar — mais os índices de morte caiam. É verdade: nos primeiros anos, apenas policiais despreparados para tal inimigo atacavam os monstros que apareciam causando grande baderna aqui e ali. Esses guardas não davam conta de cuidarem da segurança das regiões, prendendo ladrões, serial killers e matando monstros. Alguém teria que cuidar desse serviço novo de segurança e fazê-lo com experiência.
Além da queda de mortes, os prédios e construções menores agradeciam silenciosamente por não serem mais destruídos em massa! Os heróis e as heroínas de Peccare impediam que seres mitológicos chegassem perto de escolas, prefeituras, hospitais, e garantiam, consequentemente, a preservação de todo monumento abstrato e concreto. É claro: muitas vezes os campeões morriam tentando...
Nos últimos anos, a faixa mínima de anos de candidatura à vaga na Academia foi diminuindo dos 23 para os 16 anos, e agora qualquer um poderia se candidatar sem nem ter feito faculdade — E para quê?
Mais de dois anos depois da inauguração da sede na sua cidade, Nicolas Mantire recebeu a carta que comunicava que ele deveria comparecer na sede da capital para resgatar seus equipamentos, roupas e distintivo. Ele foi um dos primeiros caçadores de Seda a serem aprovados depois de dois anos de treinamento árduo envolvendo atividades físicas e manuseio de armas.
Desabou de felicidade na própria cama enquanto suas mãos tremiam segurando a carta. Sentindo-se afortunado, comemorou com a família com um grande jantar. Apesar disso, sabia que seus familiares não estavam muito felizes com a ideia, e relutantemente o apoiaram.
— Foi difícil, Nicolas? – Ângela perguntou, enquanto os dois caminhavam pela calçada e se protegiam do frio. Ele estava a acompanhando até a escolinha do bairro.
— Foi sim – ele riu.
— E quando você vai começar a caçar?
— Eu não sei, provavelmente daqui poucos dias — ele sorriu — Primeiro tenho que viajar amanhã para Argan e depois tenho uma formatura da Academia por lá.
— Puxa! Isso parece legal! Eu também quero ir, Nic! — a menina quase pulou de alegria, com grandes esperanças de finalmente sair daquela cidadezinha industrial e partir para alguma aventura.
— Eu gostaria muito que você fosse, mas você sabe o que nossos pais pensam sobre... Além disso, ainda é muito perigoso viajar.
— Perigoso? — a pequenina franziu a testa — Porquê?
— A estrada para a capital é cercada pela floresta nova, e é lá onde os monstros vivem. O projeto do governo é colocar os novos caçadores para guardar a estrada, e eu vou ser um deles!
A garotinha ficou em silêncio por um tempo. Inesperadamente, ela parou de andar e soltou a mão do irmão, ficando-lhe frente a frente. Ela cruzou os bracinhos e, depois de um longo hiatus, lentamente perguntou como se tentasse digerir cada palavra:
— Você acha que vai… morrer?
Ele parou um pouco para pensar, apesar do frio no estômago. Puxa! Que pergunta complicada. Coçou a barba rente e depois colocou as mãos nos bolsos do casaco. Ele não tirou os olhos dela.
— Me responde, Nic.
Depois de refletir um pouco mais, o irmão mais velho se agachou diante da irmã. Ele não sabia o que dizer, tampouco qual resposta soaria melhor. É verdade que ele tinha total consciência de mortes de companheiros de trabalho, mas ele se sentia apto demais para ser apenas um dos corpos a definhar. Não, não! Morrer seria terrível, ele não queria ser absorvido para a morte. Resolveu, portanto, encarar a realidade com otimismo sobre si próprio, para quem sabe, o Universo garantir sua vida.
— Não, eu não irei morrer... Mas eu sei que as caças vão ser perigosas, isso não posso te negar — respondeu, ajeitando a gola alta da cacharrel da garota, que estava todo desarrumado — Mas eu prometo que nada me acontecerá até que tudo esteja terminado.
— E quando tudo vai terminar? Vai demorar muito?
Ele suspirou e colocou as mãos nos ombros da garota. Murmurou para pequena menina, tentando passar alguma verdade no que iria dizer:
— Quando os monstros morrerem, teremos o mundo só para nós dois. E isso será logo.
— Você me promete? – ela sussurrou de volta.
Por essa ele não esperava! Caramba, porque ela simplesmente não disse que concordava logo, para acabar de vez com aquele assunto? Esse medo do voto de juramento não escaparia tão fácil assim, mas ele teria de enfrentá-lo, mesmo que tivesse receio de não conseguir cumprir. E o rapaz sabia jamais iria realizar, pois a morte só iria visitar por completo aqueles seres horrendos quando fosse o fim dos tempos. Ele desviou o olhar.
— É, claro…
— Sendo assim, — ela abriu um sorriso enorme, até marcar as bochechas — está decidido! Eu também vou me tornar uma caçadora quando crescer. Eu te prometo. Vamos trabalhar junto nessa, certo? — e assentiu como se esperasse a confirmação dele.
Ao ouvir isso, ele voltou a fixar o olhar no fundo dos olhos dela com as sobrancelhas enrugadas. Um sério silêncio se rompeu entre os dois, e Nicolas pode até ouvir o som do vento forte e dos carros passando atrás dele. Ele mordeu os lábios. Espera, o que ela tinha acabado de lhe dizer? Angela era só uma criança de dez anos, logo mudaria de ideia ao ver a situação real do mundo além de Seda, uma cidadezinha pobre e pacata. Mas… e se esse desejo fosse tão forte quanto a vontade dele? Ele não queria que ela tivesse o mesmo destino, ainda que voluntariamente. Nicolas até a compreendia, visto que no início também imaginava que esse trabalho seria bom para ele ao invés de um "mero trabalho baseado em esmolas e assistencialismo", como incentivava o próprio rei ao se referir aos trabalhos sociais. Logo, um frio ardente correu-lhe por todo o corpo agasalhado e abraçou a irmã de súbito. Queria lhe dizer para que escolhesse outra carreira e, mesmo assim, não conseguiu contrariá-la, pois desta maneira se tornaria um grande hipócrita. Amargurado, se agarrou como um forte abraço de saudade à esperança de que ela mudasse de ideia e esquecesse essa bobagem. Certificou-se que a faria enxergar, o mais breve possível, o lado sombrio de ser um caçador em um lugar como Peccare.
— Certo, nós vamos... — murmurou enquanto se levantava — Mas não diga isso para ninguém, escutou? Nem para nossos pais, nem para… sei lá, seus amiguinhos da escola. Nem uma pessoa.
Ela olhou para ele e assentiu, e lhe entregou um sorriso bem-disposto. O irmão, no entanto, apenas devolveu-lhe um olhar triste.
Infelizmente, Nicolas não teve tempo de afastar aquela ideia de Ângela. O jovem rapaz morreu seis dias depois.
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