Pecadores ocultos (Reescrita)
24 Cap. 24 Coisas de criança
—Padre Tomás, não me leve a mal, mas este homem ao lhe contar a história, sempre tem alguma desculpa, por menor que seja, ele tenta justificar seu erro, mesmo que não tenha como.
—Padre João, viver sem a pessoa amada e com uma filha para cuidar, além de perder a sogra, pouco tempo depois o amigo de infância, tudo isto não é sofrimento demais para o senhor?
—Ele de certa forma causou o acidente, ele não precisava ter ido ao quarto de Ângela, David causou tudo e me parece que conseguiu também ludibriar você.
—Não acredito que me disse isto! David, sofreu muito com tudo que lhe aconteceu, o senhor que deveria orar para ter um coração mais brando.
—Igual o seu? Não obrigado –ele balançou a cabeça negativamente- Continue a história, quero saber o que aconteceu de tão grave.
—Está bem.
—Por quanto tempo vocês... Continuaram com isso? Perguntei interessado em saber.
—Por muito tempo –Ele respondeu vagamente- Foi uma loucura, mas foi aos poucos, tudo começou com um beijo acidental, depois outro proposital, fomos para a cama, tentamos evitar, mas não conseguimos, até chegar ao ponto de que ambos não eram mais capazes de se conter, não havia ninguém para nos impedir, não havia forças e talvez, não houvesse nem vontade.
—Até minha filha que estava crescendo sofreu muito.
—Diga-me o que aconteceu com Laura?
—Não aconteceu nada aparentemente, mas uma pergunta me afetou bastante.
—Qual pergunta? Insistir.
Cinco anos desde que Helena entrou em coma, meu caso com Ângela apenas piorou, não sei por que, mas passamos a nos divertir muito juntos, ela me convenceu a deixar Laura com uma amiga dela e saíamos para o cinema, restaurantes, parques e praia, principalmente a praia, Ângela simplesmente amava o mar, de certa forma isto aliviava a tensão entre o que estávamos passando, começamos então, depois de muito sofrimento, a ficarmos felizes. Apesar de termos poucos conhecidos de nossa situação, evitávamos agir como um casal em público, a todo custo eu queria passar a imagem de apenas amigos, entretanto, é óbvio que quando estávamos sozinhos, fazíamos o que amigos não fazem. A situação se agravou na proporção em que Laura foi crescendo, ela já estava compreendendo o mundo e eu não podia deixar que ela compreendesse o que acontecia ao seu redor. Certa vez, Laura que brincava sozinha no quarto, correu para a cozinha e viu que estávamos nos beijando, ela nada fez, apenas parou e ficou olhando, com certeza acho estranho, já que até o momento, ela não tinha visto nada, rapidamente e bem envergonhados tentamos disfarçar a situação, mas acho que isto foi o começo para o que aconteceria depois.
—O que aconteceu depois? Perguntei. Ele apenas respirou fundo e disse:
Certo dia, estávamos reunidos em casa, eu preparava o almoço, estava ficando bom na cozinha, então decidi preparar algo especial para aquela tarde de domingo, ao terminar o almoço fui para o quarto e fiquei encostado a porta, percebi que Ângela e Laura brincavam, mas nenhuma das duas havia notado minha presença, apesar de ter um certo receio, eu gostava de vê-las brincando.
—Veja mamãe. Disse Laura mostrando um brinquedo para Ângela.
Aquilo me espantou, porém, permaneci quieto, pois achava que Ângela faria alguma coisa, só que ela não fez.
—Estou vendo querida. Disse ela para minha filha passando as mãos em seu cabelo.
—Querida? –Perguntei alto- É só isso que tem a dizer para ela?
—Quê? Falou assustada ao me ver ali.
—Laura te chamou de mãe –Disse gritando com ela e se aproximando ferozmente- E você não faz nada? Perguntei irado com aquela situação.
—Não foi nada demais. Ela tentou se justificar.
—Nada demais? Helena é a mãe de Laura. A verdadeira mãe! Destaquei e percebi que tinha magoada Ângela.
—Mas Helena não está aqui! -Gritou Ângela se levantando e me olhando furiosamente nos olhos- Eu estou e também estou cansada de você apenas querer me usar, mas não deixar que eu faça parte desta família, ou pelo menos o que sobrou dela!
—Papai, mamãe. Choramingou Laura.
—Ela não é sua mãe! Gritei pausadamente com minha filha, o que me deixou triste um pouco depois.
—Ela pode não ter sido gerado do meu ventre, mas foi comigo que ela cresceu.
Ângela e eu discutimos diversas vezes sobre isto, acho que para ela, Helena não iria acordar nunca, como deixou claro na nossa discussão e como sua chance de ser mãe tinha sido enterrada, ela viu em Laura, a única saída e que estava disposta a ir até o final. Ouvi Laura a chamando de mãe, deixou clara a ausência de Helena.
—O que acha que vai acontecer quando Helena acordar e souber que sua filha não a reconhece como mãe?
—Helena não vai acordar! Já se passou cinco anos e não vimos nenhuma melhora.
—Esse é seu plano? Substituir Helena nas nossas vidas.
—Helena está morta, Laura está crescendo e convivendo com este sofrimento, não tem que ser assim. Disse-me Ângela passivamente e me tocando o ombro.
Dei um passo para trás ao entender o que ela poderia estar inferindo.
—O que quer dizer? Perguntei não acreditando.
—Podemos ser uma família, eu posso cuidar de Laura como fosse minha filha, darei a ela tudo que precisar e eu quero ficar com você David. Sempre quis, agora parece que é o destino fazendo nossos caminhos se cruzarem novamente – Ela falava achando que tudo aquilo poderia realmente acontecer. Se aproximando de mim, pôs as mãos no meu rosto, aproximou também nossas bocas e baixinho, quase que sussurrando, terminou- Porque eu te amo David.
Ângela me beijou e eu fiquei ali parado, não respondia a seu toque, mas ela continuava.
—Não –Eu falei entristecido, ela beijou minha boca, a empurrei- Eu disse não!
Sai correndo, desci as escadas desesperado, pulei os últimos três ou quatro degraus, peguei as chaves do carro e saí. A que ponto eu tinha chegado? Substituir Helena por Ângela era impossível, tínhamos uma história juntos, uma vida e era uma boa vida. Fazíamos planos, perguntas sobre o futuro, cuidávamos um do outro, nos amávamos de verdade. Se o destino realmente existe, por que tinha feito tudo isto acontecer? Perdi minha sogra, perdi meu amigo, perdi Helena e duas vezes. Isto que me acontecia não era justo, não havia justiça, substituir Helena das nossas vidas era imperdoável. O que Laura me perguntaria quando soubesse que Ângela não é sua mãe? Só que eu também não aguentava mais sofrer por alguém que está dormindo. “Helena não vai acordar! Já se passou cinco anos.” Lembrei-me do que Ângela me disse, e se ela estivesse certa? Se Helena nunca mais acordar, eu tinha frequentemente esta dúvida, mas não pensava, não queria pensar. “A cada dia era uma chance de Helena acordar.” Eu acreditava todo dia, ao me levantar.
Totalmente desatento percebi por uma buzina que havia passado pelo sinal vermelho, não estava bem para dirigir, decidi então visitar Helena, o silêncio dela me acalmaria.
Puxei uma cadeira para perto dela e sentei-me, peguei sua mão e tentei conversar.
—Sabe Laura está Linda, travessa, mas linda –Ventou forte, percebi que a janela estava aberta e a fechei- Não é fácil cuidar dela, sabia?
Sentia-me um idiota, um verdadeiro idiota.
—Lembra quando nós brigamos naquela noite? Eu disse que não precisava de você cuidando de mim? Pois eu sabia me cuidar sozinho –Comecei a chorar, mas tentava me conter futilmente- Eu estava errado, completamente errado, por favor -Gritei seu nome- Helena! Volta pra mim, acorda, volta pra casa, estão tentando apagar nossa história. Laura sempre me pergunta de você e eu não sei como explicar para ela, pois nem eu sei o que está acontecendo.
Ao ver que ela continuava deitada e que o único movimento que ela fazia era respirar, abaixei minha cabeça e encostei sua mão na minha testa.
Dias depois decidi que Laura já estava crescida o suficiente para ver a mãe, não sei por que, mas Ângela insistiu para vir conosco. Antes de irmos para o hospital passamos na floricultura e eu fiz o pedido de sempre.
—É a sua filha? Perguntou o senhor.
—Sim. Respondi.
—A última vez que eu lhe vi, você era bem pequenininha.
—Mas agora eu sou grande. Disse Laura se sentindo uma gigante.
O senhor riu um pouco e Ângela estranhou, ela nunca tinha ido lá.
—Quem é o senhor? Perguntou inesperadamente.
—Ah, me desculpe. Eu sou Nonato. Ele se apresentou.
—Eu sou Laura. Disse ficando de ponta dos pés e estendendo a mão pelo balcão.
—Olá Laura. Ele a cumprimentou.
—Eu sou Ângela e este é David.
—Seu marido? Perguntou Nonato.
—Oh, não! –Falei imediatamente- É minha cunhada.
—Desculpem então a idiotice de um velho.
—Tudo bem. Eu falei.
—Vamos papai, levar as flores para mamãe.
Depois de muito conversar e explicar, finalmente Laura parecia entender.
—E onde ela está princesa? Perguntou Nonato.
—Dormindo. Ela respondeu o deixando confuso.
—Ela está em coma. Expliquei;
—Sinto muito –Ele disse indo para o fundo da loja- Levem esta flor e a ponha perto dela, ajuda a absorver más energias. Ele disse ao retornar.
Ângela pegou o pequeno jarro e olhou para aquela única flor, lilás que ela tinha. Era pequena e parecia frágil, mas era linda.
—Obrigado. O agradeci e fomos para o Hospital.
—Olá Helena! Já se passaram cinco anos e desta vez eu vim lhe fazer uma surpresa, trouxe Laura para lhe ver, sei que da última vez não deu muito certo, mas agora eu acho que ela já está crescida.
—Eu tenho isso aqui de idade. Disse Laura fazendo cinco com a mão.
A filmei e disse:
—Exatamente filha –Filmei Ângela que estava desconcertada- Ângela também está aqui para te ver.
—Oi Helena. Disse ela sem jeito e apenas acenou timidamente com a mão.
—Diga alguma coisa para ela; Comentei.
Ela olhou para irmã que estava do lado, mas não muito perto e começou a falar:
—Eu sinto a sua falta Helena, sinto falta da amiga que cresceu junto comigo, sinto falta das nossas conversas –Ela piscou mais rápida e olhou um tempo para o alto- Eu te amo, minha irmã.
Ela parecia estar sendo sincera, todavia eu tinha minhas dúvidas.
—E não se preocupe, eu prometo cuidar do David e de Laura por você. Disse Ângela me surpreendendo.
Aquilo parecia uma afronta, fiquei estarrecido mas rapidamente tentei disfarçar.
—E você filha o que tem pra dizer para mamãe?
—Nada. Ela respondeu.
—Nada? Estranhei.
—Papai, a mamãe está morta? Ela me perguntou um pouco sem jeito, parecia que entendia o significado da pergunta.
Ângela olhou para mim, mas não teve reação, coloquei a câmera em cima da mesa e apontei para nós. Ajoelhei-me ficando de frente para ela e disse:
—Não filha, a mamãe só está dormindo.
—É que lá na escola um menino perguntou para professora o que acontece quando a gente morre, e ela disse que a gente fica dormindo. Ela disse juntando as duas palmas, colocando por cima do ombro esquerdo e aproximando a cabeça até encostar-se à mão.
Fiquei impressionado com o que ela me dissera, parei um pouco para pensar em uma resposta. Mas qual resposta se dá para uma criança de cinco anos?
—Filha, o sono da mamãe é diferente.
—Diferente como? Ela insistia.
—É como o sono da branca de neve Laura. Tentou explicar Ângela.
—E o papai não pode dar um beijo nela para ela acordar?
Eram tantas perguntas das quais, encontrar uma resposta era muito difícil.
—E o que você disse para ela David?
—Nada — Ele respondeu cabisbaixo – Eu não tinha resposta para a pergunta de Laura.
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