—Padre, eu vou lhe contar o que aconteceu devido a essa paixão proibida.

—Quer dizer que você ter um caso com a sua cunhada não foi o pior que aconteceu?

—Não padre, foi pior, muito pior que o senhor é capaz de imaginar. Ele me explicou totalmente frio e insensível.

Neste momento ele suspirou forte, coçou a barba e olhou em meus olhos enquanto começou a me contar sobre uma noite, uma noite como todas as outras, eles transaram, mas nesta em especial, houve uma consequência.

Era um dia qualquer, seis anos se passaram com Helena em coma, faltava pouco menos que dois meses para o natal e como de costume, lá estava Ângela chegando em casa com a minha filha que logo correu até mim, feliz e me abraçando disse:

—Papai hoje nós aprendemos a contar até vinte.

—Que legal!-Falei compartilhando sua felicidade.

Ela começou a contar- Tem algo importante este fim de semana? Perguntei.

—Não. Por quê? Ela perguntou curiosa.

—Olha papai! Onze, doze...

—Estou ouvindo filha –respondi- Vamos viajar este fim de semana? Ofereci.

—Como pôde fazer isso? Perguntei espantado.

—Já havia passado seis anos longos e sofridos sem Helena. Ângela por outro lado, estava comigo, me apoiando, me ajudando, nós desenvolvemos uma afinidade, não foi apenas sexo. Ele tentou explicar.

—Mas ainda assim. Isto me parece que você não está tentando se manter fiel à ela. Argumentei.

—E não estava padre. Depois de tanto tempo, tudo caiu na rotina. Vê-la dormindo todas às vezes quando a visitava, era o mesmo de vê-la morta.

Ficamos algum tempo calados, eu estava pensando em mais um argumento, mas David parecia não pensar em nada. Depois percebi que não importava argumentar, o que ele me contara, já havia passado.

—Continue. Pedi.

Ângela surpresa me olhou estranho e perguntou duvidando de algo:

—Você está bem?

—Sim, estou.

—Então você realmente quer viajar com sua filha e eu? Lembre-se que sou sua cunhada.

—Dezoito, dezenove e vinte! Ela gritou ao contar o último número.

—É exatamente isto que eu estou dizendo. Quero saber se você concorda.

Ela sorriu feliz e acenou positivamente com a cabeça. Passamos o fim de semana inteiro e um chalé alugado, para todos os efeitos, nós ficávamos em quartos separados, não queria que Laura visse algo, mas como o senhor já pode imaginar, eu fui visitar o quarto dela.

—David... Falei pessimista e decepcionado com isso que ele acabara de me contar.

—Padre eu juro que a cada passo que eu dava em direção ao quarto de Ângela, eu pensava na minha noiva e era um grito na minha mente gritando o nome de Helena, mas ao abrir a porta, que estava entre aberta, vi uma bela mulher coberta apenas da cintura para baixo, seus cabelos negros soltos pela cama, ao me aproximar senti seu cheiro e ao tocá-la, percebi que não havia mais como tentar resistir. Foi então que parei de pensar em qualquer coisa que não fosse naquele momento.

—O que teve demais nesta noite David? Perguntei.

—Eu só iria descobrir no natal. Ele respondeu.

Minha mãe queria reunir a família, como eu não poderia deixar Ângela sozinha fiz questão de convidá-la explicando-a todos a situação em que ela se encontrava, lembrando-me também de Helena, eu pensei em gravar um vídeo.

—Olha como está mesa está farta! Falei filmando todos sentados e se preparando para jantar.

—Helena, quando você acordar eu faço questão que prove da minha comida. Disse mamãe já se servindo.

—É uma pena que não vai dar para sentir o cheiro, está uma delícia. Disse Leandro puxando com a mão a coxa do peru.

—Deixe que eu corto! Mau educado. Brigou mamãe com meu irmão que ficou envergonhado diante da esposa.

—É do mesmo jeito em casa. Comentou Laryssa.

—Com licença. Pediu Ângela se levantando e com a mão na boca.

Isso havia me preocupado, mas continuei gravando a família reunida.

—Coloca o meu vovó! Pediu Laura.

Parei de filmar e depois de jantarmos, brincamos também de amigo secreto, foi uma reunião de família simples, mas todos estávamos felizes.

Ângela colocou Laura na cadeirinha que ficava no banco de trás do carro e ao entrar no veículo eu lhe comentei:

—Você comeu quase nada.

—Não estava com fome. Ela respondeu.

—E é frequente este seu enjoo? Perguntei diretamente.

Ela nada respondeu.

—Sua mestruação atrasou? Insisti.

—Eu não estou grávida. Ela respondeu diretamente já demonstrando está com raiva.

—Como pode ter certeza?

—Porque passei meses tentando com meu marido e nunca consegui engravidar.

—O problema poderia está com ele. Argumentei.

—Claro. Temos um caso há anos e só agora cumpriu seu papel de macho. Ela criticou.

Suspirei forte para manter a calma, uma criança não seria boa ideia.

—Posso marcar uma consulta para você e... Fui interrompido.

—No seu trabalho não. Lembre-se da Rute.

—Tem razão. Concordei.

—Se é para você ficar mais calmo eu posso fazer um teste de farmácia.

—Está tudo fechado hoje.

—Eu já havia comprado, mas não tive coragem.

—Você já desconfiava e escondeu isto de mim? Perguntei espantado.

—Por acaso você assumiria essa possível criança? Ele rebateu.

Eu fiquei sem resposta. Ângela riu irônica e disse:

—Está vendo? Ter um caso com a irmã de sua esposa em coma está tudo bem, desde que ninguém saiba, desde que não haja nenhuma prova. Ela começou a reclamar.

—Do que está falando?

—Estou cansada de ser a sua vagabunda! Ela gritou.

—Você não é minha vagabunda! –Gritei mais alto- Você é minha cunhada, minha amiga, você é a única pessoa que me ajudou a passar por tudo isso, mas infelizmente nós erramos ao deixar isto ir longe demais.

—Na cama você me diz palavra bonitas me seduzindo.

—Seduzindo? Você que me seduz. Contra argumentei.

—Ah claro, você não consegue conter seu instinto -Mudei o caminho- O que está fazendo? Ela perguntou.

—Vamos para sua casa, você irá fazer este teste hoje! Respondi.

Ela não disse mais nada até chegarmos em casa, onde Ângela foi logo entrando, peguei minha filha que ainda dormia e a coloquei na cama. A procurei em seu quarto e a vi feliz cobrindo a boca com a mão direita enquanto segurava o teste em sua mão esquerda.

—Estou grávida! Ela disse ainda não acreditando.

Levantei as mãos ao rosto passando-as pelo cabelo, sentei-me na cama.

—Estou grávida –Ela repetia sorrindo olhando várias vezes para o teste, como se não acreditasse- Sou mãe.

Eu não disse nada, apenas me levantei e fui para outro quarto. Comecei a pensar em absurdos, primeiro que Helena não poderia acordar, pois como eu iria explicar? Não havia como esconder, pensei em pedir para Ângela abortar, mas ela estava tão feliz, pela primeira vez ela seria mãe, o que ela sempre quis ser. Não poderia ser assim tão insensível, o erro foi meu. Foi então que me lembrei daquela noite. A culpa era minha, se eu não tivesse ido para seu quarto, nada disso estaria acontecendo, mas eu poderia estar me desesperando à toa, é só um teste de farmácia, não é um teste totalmente confiável, um ultrassom iria responder isto definitivamente, Ângela ficaria arrasada, mas iria superar, eu iria terminar isto de uma vez por todas e Helena iria acordar, ficaríamos juntos... Eu só queria acordar no dia do meu casamento e descobrir que os últimos seis anos foram apenas um pesadelo, um longo e cruel pesadelo.

Ângela fez o ultrassom e estava confirmado, um feto de aproximadamente quatro semanas. O médico percebeu que eu não estava tão contente e que Ângela já esperava por isto e também não teve uma reação alegre como se é de se esperar.

—Vocês não parecem felizes pela notícia. Comentou o médico.

—Não é isso –Respondi- só -Tentei achar as palavras certas- não estava esperando.

—Vocês querem ter este bebê? Insisti o médico.

—Como assim? Perguntou Ângela assustada.

—Só perguntei. Respondeu o médico.

—Já sabemos o que queríamos, obrigada.

Ângela teve pressa em sair daquele lugar e foi logo passando pela porta. O médico pôs a mão no meu ombro e me entregou um cartão dizendo:

—Se você quiser, podemos dar um jeito nisso. Apenas uma ligação e depois resolvemos tudo para vocês.

Não sei o que me deu, mas eu o guardei em meu bolso.

À tarde naquele mesmo dia eu deixei minha filha com Ângela e fiquei pensando naquilo tudo que estava acontecendo. Pensei várias vezes em pedir para Ângela abortar, mas mudei de ideia ao lembrar de sua felicidade ao descobrir que seria mãe... Finalmente mãe... Eu também iria sofrer bastante, pedir para matarem meu filho? Eu não posso fazer isso, não é culpa desta criança, a culpa é minha e eu deveria assumir todas as consequências, mesmo que me custasse o amor de Helena, peguei um isqueiro e queimei o cartão na pia da cozinha. Fui para um bar e bebi até tarde, não me lembro das horas, só voltei para casa porque enfim, não me aguentava mais.

No dia seguinte a sós com Ângela, tivemos uma conversa séria.

—Eu quero dizer que vou assumir pelo que fiz. Argumentei.

—Eu tenho minha parcela de culpa também.

—Mas não posso lhe abandonar nesse momento.

—Já pensou em como vai contar para Helena se ela acordar?

—Não. Na verdade acho que nem preciso, seis anos e nenhum sinal, talvez você esteja certa. Ela não vai acordar.

—Está pensando em... Ela não terminou a pergunta.

—Eutanásia? Completei.

—Exatamente. Ela confirmou.

—Não, jamais faria isto com Helena. Vamos resolver um problema de cada vez. Acho que deveríamos morar juntos, vai precisar de cuidados quando a barriga começar a crescer.

—Você poderia vir para minha casa.

—Acho melhor também.

—Então David, você engravidou sua cunhada!? Mas no que estava pensando com isso.

—Eu só queria resolver um problema de cada vez padre, eu tinha uma mulher grávida para cuidar, as chances de Helena acordar eram mínimas depois de tanto tempo. Minha mãe sempre me disse que devemos assumir pelos nossos atos, se não ela arrancaria o que nos tornava homens.

—Sua mãe está certa, menos na parte de arrancar o que lhe torna homem.

—Bem, a situação só começou a piorar daí em diante.

—Acho difícil. Comentei.

—Na semana seguinte, Deus ouviria minhas preces, mas não para ajudar.