Pecadores ocultos (Reescrita)
21 Cap. 21 Somos pecadores
A morte de Carlos me afetou bastante, mas não tanto quanto Ângela que ficou arrasada, mesmo cheio de boas intenções, depois do que eu senti quando ela dormiu na minha casa decidi não convidá-la de novo. Conhecia meus limites e para evitar o pior era melhor apenas visitá-la e deixá-la cuidar de Laura que já tinha dois anos.
—Isso mostra que ele tentou resistir padre João.
—Da mesma forma como foi com a estagiária? Como se chamava mesmo?
—Bruna. Infelizmente padre o diabo sabia desta fraqueza de David.
—Não concordo. Mas prossiga.
Em alguns momentos importantes como quando Laura estava engatinhando e logo depois, andando, estava sempre ali, filmando, não queria que Helena perdesse nada e foi em uma destas gravações que Laura pegou um quadro de Helena que havia caído do criado mudo.
—Sim padre, foi o Loki. Disse David.
Depois de rir um pouco perguntei:
—Você não o estava treinando?
—Ele sabia o que tinha que fazer, mas só fazia quando queria.
Dei uma gargalhada e depois ele prosseguiu.
Ao pegar o quadro –que por sorte não havia quebrado- Laura olhou bem para a foto e com um sorriso no rosto veio correndo até mim e me mostrou a fotografia perguntando:
—Mamãe?
Abaixei a câmera e concordei:
—Sim Laura. É a mamãe.
Várias vezes eu mostrei fotos de Helena para Laura ver.
Depois deste dia decidi que já estava na hora dela conhecer a mãe. Pessoalmente! Parei na floricultura e para comprar um buquê de rosas. A mesma rosa que eu comprava sempre que passava por lá.
—Sua filha? Perguntou o senhor.
—É sim. Respondi pegando o dinheiro da carteira.
—Ela linda.
—Obrigado. Agradeci e lhe entreguei o dinheiro.
Peguei o buquê e fomos para o hospital.
Do lado de fora do quarto, atrás da porta que estava fechada, liguei a câmera e comecei a filmar.
—Helena já faz dois anos e sete meses que você está em coma e neste tempo houve mais uma perda, cinco meses atrás, Carlos faleceu. Eu falei que um dia o cigarro ainda o matava, o pior que eu estava certo. Outro problema é que neste período todo, Laura não viu você, não além das fotos que eu lhe mostrava, só que não é a mesma coisa, então hoje é a primeira vez que a trago aqui –Passei a filmar nossa filha- Diga oi Laura.
A garota ficou envergonhada e elevou as duas mãos ao rosto.
—Parece que ela puxou a timidez do pai –Comentei a filmando virando de costas para a câmera, entreguei o buquê para Laura, abri a porta e prossegui- Aqui estamos. Laura esta é a mamãe.
A garotinha ficou olhando para o que pra ela, não passava de uma mulher qualquer dormindo, era possível ver em seus olhos uma expressão de confusão. Ela olhou para mim sem saber o que fazer. Continuei filmando e disse:
—Entrega pra mamãe. E apontei para Helena.
Ela observou o buquê, se aproximou da maca e ficando de ponta do pé, esforçou-se para deixar as rosas próximo ao braço da mãe. Percebendo que ela parecia assustada deixei a câmera na mesinha e ajustei para continuar gravando.
—Filha, é a mamãe –Falei a pegando em meus braços, beijei Helena na testa e tentei um novo argumento- Ela está dormindo, só isso.
Ela virou o queixo para direita, parecia confusa, esticou a mão com o dedo indicador apontado, se jogando para perto da mãe, a segurei para que fosse capaz, Laura cutucou o rosto dela inocentemente e rapidamente olhou para mim. Em seu olhar era possível saber que ela me perguntava: “Por que ela não acordou?” Fiquei calado, ela ainda não era capaz de entender o que nos havia acontecido. Não fiquei muito tempo, achei que estava pressionando demais nossa filha. Na volta passamos então na casa de Ângela.
—Como foi a visita? Ela perguntou depois de nos acomodar na sala.
—Bem. Claro que Laura não entendia por que a mãe estava dormindo, mas acho que já está na hora dela ter este contato.
—Talvez tenha razão –Concordou ela, mas logo seguida entrou em contradição- Vá mais devagar com ela, ainda é uma criança.
Continuamos a conversar e Laura brincou bastante, depois de um pequeno lanche ela adormeceu. Ao perceber isto comentei:
—Parece que já está na hora de irmos embora.
—Não vá! Vai acordar a menina. Argumentou ela.
—Ela não pode dormir aqui. Expliquei.
—Então vamos esperá-la acordar.
—Ela dorme bastante.
—Então ela nos deixará assistir um filme. Falou Ângela bem animada.
Fiquei em dúvida se aceitava ou não, aquilo me parecia estranho.
—Por favor, não me deixe sozinha. Insistiu Ângela.
—Está bem –Concordei- mas quando ela acordar, vamos para casa.
—Tudo bem. Afirmou Ângela que estava animada.
Enquanto ela preparava o filme fui à cozinha fazer pipoca para nós. Nos divertimos muito, era um bom filme, Laura também estava contribuindo bastante, dormindo, e até o momento, agíamos como dois amigos, dois velhos amigos. Cheguei a acreditar que não passaríamos disto, mal imaginava eu, que pequenas atitudes, como esta, seriam o suficiente para arruinar minha vida.
—Não acredito que ela ficou com ele! Indagou Ângela.
—Eu disse que isto iria acontecer. Comentei.
—Quê? Você não disse nada! Protestou ela.
Nossas risadas e comentários pareciam ter acordado Laura, que nos chamava.
—Bem, agora temos que ir. Disse levantando-me do sofá.
—Já está tarde. Argumentou Ângela apontada para o relógio atrás de nós, bem no alto da parede.
Vi as horas e constatei que ela estava certa, suspirei forte e de queixo baixo, a encarando falei:
—Algo me diz que você planejou isto.
—Talvez. Deixou Ângela a dúvida, virando o rosto para a direita e ergueu o ombro do mesmo lado.
Devido a rotina, havia algumas coisas de Laura na casa. Já eu, não tinha nada.
—Você pode usar as roupas de Carlos. Indicou abrindo a porta do guarda roupa.
E no fim, ali estavam elas, todas muito bem cuidadas e limpas.
—Você não as jogou fora? Perguntei espantando com aquilo.
Ela pegou uma blusa de Carlos com a mão esquerda e olhando para ela, sorriu.
—Vou guardar tudo que puder dele. Justificou-se Ângela.
—Bem. Então vou escolher a melhor que tiver. Falei empolgado tentando mudar o rumo daquela conversa.
—Que folgado! Repreendeu-me Ângela.
—Eu quero esta. Escolhi a primeira blusa que me veio à mente.
—A melhor é esta! Impôs Ângela trazendo para mim uma que parecia estar escondida de tão longe que estava.
—Uma calça? Pedi.
—Esta é ótima para noites frias como hoje. E parece que vai chover. Ela escolheu para mim.
—Vou confiar na sua intuição feminina. Comentei.
—Ela nunca falha. Ângela afirmou confiante sobre isto.
—Onde é o banheiro? Pode usar o do meu quarto mesmo. Vou ver como Laura está.
—Tudo bem. Concordei entrando no banheiro e ela saiu.
No banho fiquei pensando se a visita à Helena tinha feito bem para Laura ou se eu havia exagerado. “Acho melhor esperar que ela cresça mais um pouco.” Falei para eu mesmo, fechando o chuveiro. Percebi que as roupas tinham ficado do lado de fora, dei uma olhadinha e vi que a porta do quarto estava fechada e achei as roupas estiradas na cama. Enxuguei-me e esfregando a toalha na cabeça, para enxugar o cabelo eu fui andando pegar as roupas, neste momento, fiquei surpreso ao ver que Ângela simplesmente abriu a porta, entrou e me viu nu.
—Ah meu Deus! -Gritou ela fechando os olhos e pondo a mão à frente para me cobrir- Eu só vim pegar meu celular.
—Desculpe-me! Gritei assustado cobrindo minha genitália com a toalha.
—Eu que peço desculpa, deveria ter batido. Explicou Ângela menos nervosa depois de perceber que eu já estava de toalha.
—A casa é sua, eu que deveria ter lembrado que deveria levar as roupas para o banheiro.
—Você já está vermelho de vergonha – Ela riu de mim e eu fiquei sem o que dizer: Ela havia me visto nu! –Tudo bem, somos adultos não é?!
—Sim! Afirmei, entretanto não era um bom argumento.
—Eu vou sair e quando você terminar me avise! Disse Ângela dando um passo para trás.
—Pegue o celular. Falei estendendo a mão para a cômoda.
—Acho melhor não –Ela recuou mais- eu não sei onde está, enfim, quando terminar me avise. E ela saiu.
Depois percebi que eu não deveria ter falado aquilo porém, peguei a roupa e me vesti no banheiro.
O olhei com um sorriso maldoso.
—Só por precaução padre. Justificou David.
Depois de vestido, fui para o quarto onde eu ia dormir, fiz questão de que Laura ficasse comigo.
—Como ela está? Perguntei entrando devagar e sentando na beirada da cama.
—Dormindo –Ela respondeu rapidamente, fiquei observando minha filha, Ângela sentou ao meu lado e continuou- você é forte.
—Faz algum tempo que eu decidi voltar a me preocupar com minha saúde. Respondi a olhando em seus olhos.
Não eram como os olhos de Helena, para ser sincero, eram completamente diferentes, mas ela tinha um encanto em seu olhar, por algum motivo ela não o desviou, encarava-me diretamente e se aproximou um pouco a ponto que, sentia seu hálito, não sei por que, mas me aproximei mais um pouco também e por um momento, juro que ouvi sua respiração que parecia tensa, assim como a minha.
Entrei em confusão mental. Amo Helena e sei que não posso lhe fazer isto, mas...
David parou.
—Mas? Insisti para que ele continuasse.
—Há quanto tempo eu não sentia o calor de uma mulher? Fui fiel padre! Até aquele momento, não toquei nenhuma outra mulher com segundas intenções, eu juro! Justificava-se David apreensivo.
—Só que nesta noite você não se manteve fiel, não foi? Perguntei recusando-me a acreditar no óbvio.
—Sim padre. Ele confessou abaixando a cabeça e perdendo o seu olhar para o chão.
Ela tocou meu rosto e passou seus dedos pela minha barba um pouco crescida, senti um flashback, depois segurou meu queixo como se fosse me puxar, mas não puxou, nem precisou, não resisti e avancei, a beijei intensamente, a abracei com força e ela parecia corresponder a tudo aquilo. Depois me tomei de conta do que estava fazendo e parei imediatamente. De quem eram aqueles olhos? Afastei-me e fiquei olhando para o chão, envergonhado. Percebi que ela pôs a mão sobre a boca e saiu.
—David, vocês chegaram a... Ele concluiu a pergunta:
—Transar?
Fiquei sem jeito, mas confirmei.
—Naquela mesma noite, mas não cheguei a dormir.
Ângela acertou, naquela madrugada choveu, fazendo bastante frio, como estava acordado ouvi, além do som da chuva, ela chorando, os quartos dividiam a mesma parede. Senti-me o pior homem na face da terra. Beijei a irmã da minha esposa em coma e ainda a fiz chorar, com o peso na consciência se tornando insuportável respirei fundo, tomei coragem e fui até o quarto dela para me desculpar. “O que eu fiz?” Questionava-me enojado de mim mesmo.
—Ângela? Perguntei batendo na porta que estava entre aberta.
—Entre. Ela permitiu.
Sentei-me na beirada da cama e ela se aproximou.
—Eu queria me.. Fui calado com um beijo.
Sei que imediatamente eu teria de ter parado e me controlado, não poderia aproveitar-me do descontrole dela, mas eu também estava descontrolado, faltaram-me forças, ao invés de parar, prosseguir, deitamos juntos na cama.
—Somos cunhados. Ela me disse segurando meu rosto com as duas mãos.
—Agora somos pecadores. Expliquei a beijando novamente.
E naquele momento nos entregamos de corpo e alma aos desejos da carne.
—Que Deus te perdoe David. Falei fazendo o sinal da cruz.
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