Pecadores ocultos (Reescrita)

22 Cap. 22 Continuamos pecadores


—Você deveria ter sido mais forte David! Briguei com ele.

—Mas padre! Ele protestou.

—Mas nada! Ela é sua cunhada!

—Ela deixou isto acontecer e não se esqueça de que eu fui beijado! David usou isto como desculpa só que não era suficiente.

—Por que você foi para o quarto dela então? Perguntei.

—Senti-me culpado pelo beijo e ouvindo-a chorar me sentir pior. Ângela sempre gostou de mim!

—Do que está falando? Perguntei espantado com o novo argumento que ele me apresentava.

—Eu vou terminar de lhe contar sobre o que aconteceu depois que eu peguei a rosa com o papa-léguas.

Respirei fundo e me ajustei à cadeira.

—Então conte.

David começou a se lembrar de tudo e bem triste começou a falar.

—Nem eu sabia que podia correr tanto. Disse meu amigo ainda com as duas rosas na mão.

—Lá vem Ângela, me dê minha rosa e eu vou deixá-los sozinhos.

Ele me entregou e disse:

—Acho que Helena foi para casa da Joana. Cogitou Carlos.

Consenti com a cabeça e já tinha um destino, me sentia estranho, fui pegue, mas consegui escapar, meu coração batia mais rápido só de imaginar entregando a rosa para Helena, enquanto caminhava eu sorria, infelizmente ao dobrar a rua percebi que ela não estava apenas com Joana, mas com o irmão dela também e que estavam sentados muito próximos. Senti meu coração pulsar forte de fúria e pensei em ir logo para lá, mas não fazia o meu estilo, suspirei um pouco entristecido, mas aquilo não queria dizer nada. Só que Joana havia entrado em sua casa os deixando sozinhos na rua que já não estava tão movimentada como de costume. Parei e fiquei apenas observando, não tive reação alguma a não ser esta. Não demorou muito para que o desgraçado a beijasse.

—Estamos na casa de Deus David. Reclamei.

—Desculpe-me padre. Ele se desculpou.

De longe observei, senti a raiva voltando para dentro de mim, soltei a rosa no chão e a pisei com força, esta fora a maneira que encontrei para extravasar a sensação de raiva e desapontamento, também não fiquei muito tempo ali, voltei para a praça, cabisbaixo. Do que adiantou pegar aquela rosa idiota para que no fim isto acontecesse? Começou a chover e procurando um lugar para me abrigar percebi que Ângela estava sozinha, decidi ir até ela.

—Onde está Carlos? Perguntei sentando-me do seu lado.

—Foi para casa.

—Ele nunca vai neste horário. Estranhei o ocorrido.

—Sua mãe o chamou. Ela explicou girando o caule de rosa que Carlos lhe dera.

—Quem lhe deu? Perguntei como se não soubesse.

—Estou com frio. Ela disse evitando me responder.

Passei o braço em sua volta e a aconcheguei em mim.

—Por sorte temos esta árvore. Comentei.

—Por sorte eu tenho você. Ela falou olhando para mim.

—Lógico que tem, somos amigos não é?

Na época, devido a imaturidade da idade, só tinha olhos para Helena e não era capaz de ver Ângela de uma forma diferente.

Começou a ventar mais forte, até eu comecei a sentir o frio e me abracei mais a ela. Ficamos mais perto, ela pôs a mão em meu rosto e ficamos nos olhando, primeiramente pensei: “Com a irmã de Helena?”, logo depois que lembrei como ela estava muito bem com o irmão da Joana, que ela sabia que era meu rival em praticamente tudo, não tive nenhuma sensação de culpa e a beijei.

Senti sua língua à minha tão intensamente como o frio que nos assolava, encontrávamos calor no corpo do outro, senti algumas gotas me atingirem, mas eu apenas aproveitei o momento, aproveitei sem culpa confesso. A chuva ficou mais forte e pouco depois de terminarmos o beijo ouvi meu irmão me chamar.

—Depois nós terminamos o que começamos. Falei muito empolgado com aquilo tudo.

Até me esqueci de que Ângela era para o Carlos. Ela simplesmente sorriu e abaixou a cabeça.

—E Helena? Ela perguntou.

—David! Chamou-me Leandro novamente.

—Você é melhor. Falei como se pudesse ter trocado tudo tão simples assim.

E fui para casa, correndo pela chuva, confuso com aquilo. Fiquei preocupado se Leandro havia visto algo, mas como ele não comentou nada, concluí que havia chegado depois.

—E o resto o senhor já sabe. Falou David.

—Sua mãe saiu de casa com você e seu irmão.

—Exatamente. Ele concordou.

—E é só por isso que você acha que ela sempre gostou de você?

—Depois do ocorrido entre nós, percebi várias situações em que Ângela parecia conspirar contra Helena e eu.

—Mas ela já estava com Carlos quando vocês se reencontraram. Argumentei.

David apenas se calou e ficamos assim por um bom tempo, de certa forma, a sua tese fazia sentidos em alguns pontos, todavia, era possível refutá-la com Carlos.

—Independente se ela sempre gostou de você, vocês transaram. Foi apenas uma vez?

—Não padre -Ele consentiu- Passamos algum tempo separados, na manhã seguinte ficamos igualmente chocados. Pela necessidade não havia como evitar e voltamos a ficar juntos. Para a segunda vez Ângela esta mais incontrolada do que nunca.

Ela me empurrou contra a parede da cozinha e começou a me beijar.

—Não devemos fazer isto. Falei mas não resistindo a suas carícias.

—Somos pecadores não é? Deus há de nos perdoar. Argumentou Ângela.

—E Helena? Perguntei ficando imóvel.

—Você gosta de mim David? Ela me perguntou não respondendo a minha pergunta.

Ela era baixa para mim, olhei para baixo e vi seus belos seios, senti a abundância que havia onde as minhas mãos estavam e lembrei que ela me ajudava a cuidar de Laura.

—Sim. Respondi ainda não certo enquanto a isto.

—Então eu estou aqui e agora. Falou Ângela tirando minha blusa.

A fiz deitar seu dorso no balcão e fizemos sexo ali mesmo.

—Ainda há algo que possa justificar o que ele fez padre Tomás?

—Sei que é difícil, mas não se esqueça de que David sofreu muito nestes anos sem Helena e Ângela de certa forma, também.

—Isto não justifica.

—Deixe-me continuar.

David às vezes sorria, noutras parecia sentir nojo.

Minha cabeça estava confusa, amava Helena, mas com Ângela eu encontrava um alívio. Não carnal, mas em todas as formas, eu tinha alguém novamente do meu lado, alguém que me ajudava, sem Donabela e sem o Carlos era insuportável passar por tudo sozinho. Ainda que eu ache que Ângela seja a maior culpada pelo o que nos aconteceu, não posso negar que ela me ajudou bastante com Laura. Tudo isto fazia minha cabeça doer.

Meses passaram e acordei na minha cama, olhei ao redor e vi roupas femininas espelhadas pelo chão.

—A que ponto cheguei? Perguntei consentindo minha vergonha por estar transando com Ângela na cama em que eu costumava dormir com Helena.

Lembrei-me de algumas cenas fazendo amor com Helena porém, decidi parar depois, pensar só fazia piorar a situação, tomei um banho e desci. A casa estava arrumada e senti enquanto ainda descia as escadas, o cheiro de um bom café sendo feito.

—Ângela? Perguntei não entendendo nada.

—Bom dia. Ela veio até mim, beijou-me no rosto e voltou para perto do fogão.

Apesar de incomum, me sentia bem com aquela cena, Ângela preparando o café, Laura sentada na sua cadeirinha junta à mesa e até o Loki passou esbarrando em mim como se dissesse bom dia e se deitou próximo da escadaria. Era como uma família tinha que ser, era como eu tinha sonhado viver.

—Sei que você gosta de café, então preparei um bem forte. Disse Ângela me servindo.

—Obrigado –Agradeci e experimentei- Está ótimo! Nunca tomei um café tão bom. Exagerei.

—Obrigada –Ela puxou uma cadeira e se sentou de frente para mim- Você vai trabalhar hoje? Ela perguntou.

—Não, mas vou sair. Respondi comendo do pão que parecia ótimo.

—Vai sair para onde? Ela insistiu.

—Qualquer lugar, não sei ainda. Falei não gostando desta curiosidade, se é que era apenas isto.

Queria um tempo só para mim.

—Não chegue tarde, por favor. Ela pediu segurando minha mão.

Percebendo do que estava acontecendo, tentei impedir que continuasse.

—Você sabe que não é minha esposa não é? Falei separando nossas mãos.

—Sei! Ela afirmou mudando rapidamente de humor.

Levantou-se grosseiramente e tentou ir para sala.

—Espere! –Falei a pondo contra a parede, entre a passagem da cozinha para sala- Não foi o que eu quis dizer.

—E o que você quis dizer? Ela me perguntou olhando em meus olhos.

Seus olhos castanhos me arrepiavam, ela parecia buscar algo na minha alma que nem eu sabia o que era.

—Do que nós somos. Respondi.

—E o que nós somos David? Ela me indagou.

Até hoje nunca soube responder. Pecadores não me parecia correto, mas nós não éramos casados, muito menos namorados e sim cunhados. Carlos morreu e Helena está em coma, não era justo fazer isto com eles. Nós sofríamos também, será que talvez não pudéssemos?

—Diga-me David, você senti algo por Ângela além de desejo.

—Por tudo que ela me ajudou, tenho uma consideração enorme por ela, além de que, um foi como o consolo do outro. Comigo, Ângela não estava sozinha, tinha quem a protegesse, com quem falar! E eu encontrava nela pedaços dos meus sonhos destruídos.

—Sonhos que você teve com Helena. Argumentei.

—Sonhos que eu não pude realizar com Helena. Respondeu David.

Ficamos calados, depois ele concluiu:

—Depois que ela me perguntou aquilo, eu não soube responder, mas ela sim: “Somos pobres coitados.” Ela disse e olhou perdidamente para o chão. Levantei seu queixo com os dedos e a beijei e daquela vez foi diferente, não era paixão, não era carnal.

—Era o que então? Perguntei.

—Eu não sei –Respondeu David que me parecia estar sendo sincero- Apenas sei que senti uma lágrima.

—De quem era a lágrima?

—De nós dois. Respondeu-me o homem suspirando forte.