Pecadores ocultos (Reescrita)
20 Cap. 20 Vício? Escapismo? Ambos?
O tempo foi passando de maneira diferente para cada um de nós. A cada dia uma luta, uma tristeza sem motivo, uma alegria inexplicável, muito trabalho ou simplesmente estava vivendo mais um dia que me era concedido. Voltei a ver Allan e sua esposa, Glória, ambos falavam sobre planos de Deus e que aquilo era apenas uma provação que eu estava passando.
—Vou lhe ser sincero padre. Eu não gostava, mas ficava calado apenas por educação. Confessou David.
—Tudo bem David. A maioria das pessoas afastadas de Deus são assim.
—Tudo bem? Padre Tomás que blasfêmia que este homem falou! Não é a toa que tenha passado por tudo isto.
—Padre João, David passava por um momento difícil e estava sem Deus, então era mais que esperado ele agir assim.
—Eu não concordo em nada com seu ponto de vista.
—Talvez seja por isto que Deus tenha feito ele se confessar para mim.
—Talvez tenha razão. Mas então, por que você precisa da minha ajuda?
—Você saberá. Deixe-me te contar o resto. Depois do que eu disse, ele apenas continuou a falar.
Toda a minha vida tinha caído em uma lastimável rotina, não havia planos, objetivos, lazeres e a felicidade era para mim, escassa como água em deserto. Creio que a única felicidade que eu tive durante todo este tempo em que passei com Helena em coma foram o sorriso da minha filha e a satisfação que eu tinha toda vez que eu a via feliz. Isto fazia com que todo meu sofrimento valesse a pena.
Carlos se virava como podia, evitava como podia, levar sua esposa consigo para o médico, evitava falar sobre a doença e quando necessário, mentia.
—Mentir é pecado meu filho. Contei-lhe.
—Sinceramente padre, me perdoe pelo que irei lhe falar, mas depois que eu conheci melhor Ângela, percebi que Carlos fez bem em não lhe contar, por mais que ela tenha sofrido naquela noite.
—E que noite fora esta? Perguntei. David coçou a cabeça e prosseguiu.
Ângela fazia planos, certa vez, chegara inclusive, a me falar que iriam viajar para Argentina, como se fosse uma segunda lua de mel, Ângela parecia não perceber da gravidade do estado de Carlos, que tinha sua parcela de culpa pelas idealizações da esposa. Sempre que conversávamos eu insistia para que lhe contasse, ele porém, dizia a mesma resposta todas as vezes: “Ângela não precisa sofrer comigo.” E ele cumpriu o que fez, ela acreditava fielmente na recuperação do marido, que iriam viajar e que ela seria mãe e que o pai, logicamente seria Carlos. Infelizmente, o destino foi devastador com Ângela. Às vezes fico a pensar se talvez, ela tenha sofrido mais do que eu.
Dois sofridos e deprimentes anos havia se passado, viver sem Helena era triste, mas já tinha se tornado aceito, foi da pior forma que eu descobri que não adiantava pedir que voltasse estando jogado no sofá, falar em seu ouvido que acordasse segurando sua mão. Era tudo em vão. Teve uma vez padre, que estava conversando com ela, futilmente, relembrando quando éramos crianças, pensei em aproveitar seu coma e explicar o que havia acontecido naquela minha última noite, mas seria inútil, eu sabia, ao invés disto, lembrei-me que sempre indo visitar Helena eu passava por uma floricultura, no dia seguinte, parei e conheci o dono, era um pouco idoso, deveria ter uns sessenta anos, os poucos cabelos que a calvície não lhe roubara, eram grisalhos, era possível perceber que lhe faltavam alguns dentes sempre que sorria, o que era muito comum, era um senhor simpático e muito gentil, por isso não me senti constrangido em descrever a rosa que foi capaz de encantar Helena ainda adolescente, ele não demorou muito e logo foi ao fundo da loja e quando voltou, trouxe-me um pequeno vaso e me mostrou a rosa, tão linda quanto naquele dia, tinha um cheiro delicioso e pétalas delicadas que fazia medo tocá-las. Encomendei um buquê e deixei ao lado de Helena.
Parece estúpido e talvez até seja, mas as rosas em pouco tempo eram capazes de deixar o quarto tomado pelo seu cheiro agradável e bem no fundo, eu acreditava que de alguma forma, Helena reconhecesse e acordasse. Helena não tinha talento algum com plantas, mas já tentou cultivar rosas em nosso jardim, não deu certo.
Todas estas ideias foram aos poucos parecendo irracionais, até que não havia mais nada a se fazer, além de esperar, esperar por algo que eu não sabia se iria acontecer. Enquanto Ângela sonhava com Carlos uma vida perfeita, ela parecia ter esquecido Helena, acho que ela só não queria sofrer mais, perder a mãe parecia o suficiente. Que pena que o destino não pensou assim!
Em uma noite qualquer, não me lembro de muita coisa, eu dormia tranquilamente, fazia muito frio e chovia forte no momento em que meu celular tocou, olhei para o criado mudo próximo a mim e comecei a pensar se atenderia ou não. Era de madrugada, deveria dormir, tinha plantão no dia seguinte e eu precisava descansar, depois que Laura aprendeu a andar e correr o trabalho havia dobrado –O telefone parou de tocar- Por outro lado, ninguém me ligaria de madrugada se não fosse realmente importante – O telefone voltou a tocar- Terminei minha dúvida filosófica e tive que me esforçar contra o sono e o cansaço.
—Alô? Perguntei deixando bem claro que eu estava muito sonolento.
—David me ajuda, por favor! –Pediu Ângela do outro lado da linha desesperada o que me assustou- Carlos desmaiou na cozinha, eu não sei o que fazer.
Levantei na cama rapidamente e disse abrindo o guarda-roupa:
—Ligue para uma ambulância eu já estou indo.
—Está bem. Ela desligou.
Coloquei uma roupa mais apropriada, fui até o berço da minha filha e fiquei em dúvida se a levaria ou não. Decidi não levar, a cobri com o cobertor e sair:
—Não vou demorar. Falei para Laura que lógico nem se quer ouviu.
Quando cheguei à casa deles, vi Carlos sendo levado em uma maca, rapidamente desci e perguntei a um paramédico:
—Como ele está?
—Não sabemos ainda, mas o caso dele é grave. Ele me respondeu, subiu na ambulância e Ângela subiu com ele.
Eu segui a ambulância de carro até chegarmos ao hospital. Carlos morreu a três e trinta e sete da manhã seguinte. Como ele mesmo havia previsto, Ângela ficou arrasada e eu me senti no dever de cuidar dela como ele havia me pedido, mesmo que eu não tivesse prometido.
Depois do enterro, Ângela estava visivelmente abalada e eu achei melhor ela não se isolar em casa, como ela estava fazendo e continuaria a fazer, então convidei-lhe para dormir na minha casa, achei que cuidar de Laura a fizesse bem, parecia que eu compreendia a dor dela, mesmo sendo meu amigo de tantos anos o laço matrimonial era incomparavelmente mais forte.
—Quer um café? Perguntei me ajustando confortavelmente no sofá.
—Não, obrigada. Recusou Ângela que olhava sempre para o chão como se tivesse perdido algo.
Alguns segundos se passaram e aquilo estava me irritando.
—Não fique assim! –Falei a puxando para mim e dando-lhe um abraço- Ele não iria gostar.
—Não é isso. Ela falou correspondendo ao meu abraço.
—E o que é? Perguntei.
—Aquele safado mentiu para mim! Ela explicou furiosa.
—Ele fumava muito, já sabíamos que seria assim. Argumentei.
—Ele tossia sangue, emagreceu muito e eu o via se sentir mal várias vezes, só que ele insistia que não era nada, que o tratamento estava surtindo efeito e que ele ficaria bem. Eu vi cada estúpida tentativa dele de parecer está bem! E mesmo sabendo que não, eu acreditava, porque em fim, eu queria acreditar. Disse Ângela que começou a chorar em meus braços.
—Ele estava tentando lhe proteger. Tentei um novo argumento.
—Ele não tinha o direito de me esconder isto.
—Você teria sofrido junto com ele se ele falasse a verdade. Disse o que Carlos havia me justificado.
—Sim. Mas como esposa eu deveria saber e tentado ajudá-lo.
—Nem os médicos podiam ajudá-lo. E você conseguiu. Expliquei.
—Como? Ela questionou.
—Sendo feliz com ele. Expliquei.
Ela me olhou bem nos meus olhos, percebi seu esforço para conter suas lágrimas, entretanto não conseguiu, chorou por muito tempo nos meus braços e eu não tinha mais nada para falar, mesmo que eu já soubesse, também estava sendo difícil para mim, mas se eu demonstrar fraqueza, como ficaria Ângela? Loki se aproximou e vendo aquela cena pôs a cabeça no sofá próximo a nós.
—Agora não rapaz. Falei tentando afastá-lo.
—Não brigue com o cachorro! –Disse Ângela se recompondo rapidamente- Ele só quer ajudar.
—Ela acha que você é bonzinho. Disse para o cachorro que latiu e pôs as duas patas dianteiras no sofá.
—David não te entende não é Loki? Ela falou passando a mão no cachorro que parecia feliz.
Vendo que mesmo se tudo isto fosse forçado, seria melhor do que a tê-la chorando.
—Eu já falei Loki: No sofá não!
Ângela e Loki formavam uma dupla incrível, os dois juntos apenas me desobedeciam e Loki parecia preferir obedecer mais à Ângela ao invés de mim. Havia se passado dois dias desde que Carlos morreu e Ângela brincava com meu cachorro. Será que eu estava lhe fazendo mal? Ela não faz o tipo de mulher que chora em público, mesmo na frente de um amigo, talvez ela preferisse chorar sozinha, mas não quisesse me ofender recusando minha proposta. Naquele momento fiquei pensando se deveria contar ou não que Carlos e eu já sabíamos o destino dele. Só que ao ver Ângela deixar escapar uma pequena lágrima ao brincar com meu cachorro, percebi que ela realmente não queria sofrer e eu não precisava contar aquilo, pelo menos, não agora. Talvez Ângela já soubesse.
Passamos a tarde juntos lembrando-se dos bons momentos que tivemos com Carlos, passamos a rir muito, contamos sobre a história das rosas, e Ângela não tocou naquele assunto, do que havia acontecido naquela noite e pela situação achei melhor também não falar.
Mas lembro-me que naquela noite, eu desci para a cozinha e encontrei com Ângela, meu coração acelerou e confesso que tive uma ereção.
—David?! Falei surpreso com a franqueza dele.
Não tive como evitar, eu estava sendo fiel a ausência de Helena só que não pude evitar de perceber aquela bela mulher na minha cozinha, ela estava sem sutiã e apenas com um vestido velho e curto, sedutoramente curto. Tossi forçadamente para ela perceber minha presença, pois eu já estava observando-a tempo demais.
—Sede? Ela me perguntou.
—Sim e você? Falei enchendo meu copo com água.
—Apenas não consigo dormir. Ela respondeu e foi embora.
Fiquei envergonhado ao perceber que eu tinha desejado a mulher do meu amigo, mesmo que por pouco tempo e ele tinha falecido havia poucos dias. Senti-me muito culpado por isto, mas depois fiz questão de não pensar mais.
—Isso não vai acontecer Helena. Eu te prometo. Falei para mim mesmo subindo as escadas.
—David? O interrompi.
—Sim padre?
—Você cumpriu esta promessa? Perguntei.
Ele respirou fundo e confessou-me:
—Não padre. Não fui capaz de resistir.
—Então David não é tão bom assim padre Tomás?
—Padre João! Ele é um pobre pecador assim como nós.
—Ele traiu a sua esposa em coma!
—Deixe-me explicar como aconteceu padre.
—Está bem.
—David, como aconteceu? Perguntei.
—Padre, vou lhe contar como foi a nossa primeira vez.
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