Pecadores ocultos (Reescrita)

19 Cap. 19 Fazendo o que se gosta


—Padre Tomás no que exatamente você precisa que eu lhe ajude? Afinal, ambos apenas se confessaram e foram embora.

—Na verdade padre João, David quer voltar.

—Quando?

—Quando tudo der certo. Ora padre, deixe que eu termine a história, não seja apressado.

—Padre Tomás, eu poderia ter lhe ajudado se tivesse falado qual o problema. Tudo que fizestes até agora, foi contar sobre o que David lhe confessou e que você não deveria estar me contando.

—Deus há de me perdoar, pois ele já sabe por que preciso falar para o senhor.

—Pelo amor de Deus! Diga-me logo.

—Vou prosseguir a história.

—Está bem. Continue então!

Depois de alguns longos segundos de silêncio, comentei:

—Sinto muito por Donabela. Que Deus a tenha, tenho certeza de que fora uma boa mulher.

—Sim. Ela foi! Concordou David.

—Voltando ao que aconteceu, eu ainda não entendi o que você fez de errado? Perguntei intrigado, pois a história ainda me parecia confusa.

—É porque, até o momento, eu não tinha feito nada errado, mas logo me viria à mente o meu primeiro pecado. Ele me respondeu, tossindo um pouco.

—Conte mais David. Estou lhe ouvindo. Pedi-lhe que continuasse.

Tudo começou quando eu tive que voltar a trabalhar, o que era ótimo de alguma forma. Por ser minha melhor opção, deixei minha filha com Ângela e fui ao hospital.

—David! Como você está? Perguntou-me Ana percebendo-se da minha chegada até o balcão.

—Estou ótimo –menti- E você? Perguntei de volta.

—Estou muito atarefada hoje. Ela respondeu.

—Pelo visto o hospital está movimentado hoje.

—Tivemos vários pacientes, vítimas de um incêndio aqui perto. Ela explicou.

Fui para os leitos e vi que Ana tinha razão, um prédio comercial no horário de trabalho teve um curto circuito, iniciando um incêndio.

—Que bons ventos o trazem? Perguntou Rute vindo me abraçar.

Não respondi. Simplesmente a abracei e perguntei:

—Como está o hospital?

—Melhor agora. Você teve sorte! –Ela falou frustrada- Ontem, a emergência ficou um caos.

—Minha mãe sempre disse que eu tenho sorte. Comentei.

—Pelo visto ela estava certa. Concordou Rute.

Meu primeiro dia de trabalho depois do acidente foi tranquilo, Rute tinha razão, não havia muito que se fazer além de examinar os pacientes. Cheguei até a me surpreender quando ao final do plantão, percebi que não tinha sequer pensado em Helena.

Não que eu não a amasse, mas sim porque eu já estava exausto com tanta preocupação e no trabalho eu tinha que cuidar de várias pessoas e não havia tempo para me lamentar. O que me ajudou bastante. Eu apenas precisava ocupar minha mente.

Não pegaram pesado comigo como de costume, às vinte e duas horas eu já tinha cumprido meu plantão, fui para casa de Ângela buscar minha filha.

—Como foi o trabalho? Ela perguntou sentando-se no sofá.

Eu a segui e sentei-me também.

—Tranquilo. Respondi desta forma, pois não queria conversar.

Estava triste, entretanto, não havia uma causa aparente.

—Laura é muito curiosa. Comentou Ângela olhando para minha filha que ainda brincava na sala.

—Pelo visto vocês se divertiram bastante. Falei olhando em volta.

Os moveis haviam sido retirados dando mais espaço e para todo lugar que se olhava, encontrava-se pelo menos, um brinquedo.

—Se quiser, pode deixá-la dormir aqui.

—Não, obrigado. Recusei.

Não queria me separar de minha filha, só a deixei cuidar dela, pois enfim, não tinha escolha, Laura não iria crescer longe de mim. Helena acredita em mim! Sempre que puder, de qualquer forma que seja, vou cuidar de Laura.

—Está bem então. Concordou Ângela percebendo que não havia nada que me fizesse mudar de ideia.

—David! –Falou Carlos descendo as escadas- Como foi o trabalho?

—Bem. Respondi resumidamente e apertamos as mãos.

Conversamos um pouco e depois Carlos me chamou para a varanda.

—Não vai fumar não é? Perguntei preocupado.

—Não. Cigarro agora é passado. ele me respondeu escorando-se à parede como de costume.

—Ótimo. Fiquei feliz.

—E você David, está conseguindo lidar com tudo isso?

Carlos sempre que desconfiava de algo me perguntava, até hoje não sei ao certo, se era por curiosidade, se era por querer ajudar ou se os dois.

—Só o trabalho é capaz de me distrair. Comentei.

—E Helena, alguma novidade? Insistiu Carlos naquela conversa.

—Em casos de coma, não há nada a se fazer além de esperar. Expliquei elevando o queixo.

Carlos tossiu forte e vi um pouco de sangue em suas mãos.

—Você está bem? Perguntei.

—Sim, estou. Isso é consequência do cigarro. Ele explicou.

—E o seu tratamento?

—Acho que não está adiantando, mas estou fazendo o que você disse.

Fiquei calado por alguns instantes tentando lembrar do que ele estava falando.

—Você não se lembra não é? Ele perguntou rindo de mim.

—Não mesmo. Respondi abaixando a cabeça.

Ele deu uma gargalhada e disse:

—Fazer Ângela feliz. Todos os dias quando me levanto, penso nisso. É um dia a mais para alegrar minha esposa.

—Eu acho que você precisa contar para ela. A qualquer momento você pode morrer e ela não saberá de nada! Não me parece justo.

—Se ela souber ficará preocupada comigo e muito assustada, ela irá sofrer junto comigo.

—Na saúde e na doença lembra? Argumentei.

—Ela não precisa sofrer junto comigo e não estou preocupado com depois que morrer.

—Por que não? Perguntei estranhando aquela conformação dele. Carlos simplesmente aceitou a morte o que me assustava.

—Sei que você vai cuidar dela. Ele respondeu me assustando.

—Tenho uma esposa em coma, uma filha de seis meses, tenho que trabalhar e ainda tenho um cachorro travesso que parece zombar de mim. Por favor, não me peça isto. Implorei.

—Sei que é pedir de mais. Infelizmente você é a única pessoa de confiança que me restou. Conheço Ângela, depois da morte de Donabela, quando a minha acontecer também, ela ficará arrasada e quando ela estiver assim, quero ter certeza que Ângela ficará bem.

—Carlos o que quer que eu faça? Ângela te ama! Desde pequeno vocês estão juntos.

—Não parece, mas Ângela é muito emotiva.

—Assim como Helena. Comparei.

—Eu estava pensativo no quarto quando você chegou.

—Pensando em que? Perguntei assustado.

—Vou morrer e nem ao menos deixarei um filho para Ângela.

—Ainda há tempo. Você pode tentar hoje mesmo. Tentei animá-lo.

—Depois que nos casamos tentamos todas as vezes e até hoje, nada aconteceu. Ângela sempre falou da vontade que tem de ser mãe e se eu morrer amanhã. Será o fim de tudo que ela sonhou.

—Ela acredita que você vai sobreviver?

—Eu a iludir com isto. Ela está fazendo planos, querendo que viajássemos –Ele começou a rir- Ela acha que o estresse está atrapalhando.

Rir um pouco junto com ele.

—Talvez seja melhor assim. Não acho justo você deixar Ângela com um filho para criar sozinha.

—Ângela ficará bem, já cuidei de tudo com meu advogado ela passara o resto da vida vivendo confortavelmente e teria condições de cuidar e muito bem, de um filho nosso. Explicou meu amigo que abaixou a cabeça, mas rapidamente a ergueu.

Ficamos ali calados, olhando a lua que brilhava muito, noite de lua cheia, apesar de ter uma vida boa, para ele, o fato de morrer sem deixar um filho parecia que ele tinha falhado. “Talvez ache que fracassou como homem.” Pensei comigo mesmo. Não atender ao desejo materno de sua esposa sabendo que não tem muito tempo de vida o fazia se colocar sobre pressão.

—Eu acho que foi melhor para Ângela não ter tido filho algum. Comentou David comigo interrompendo a história que contava.

—Uma criança sempre é uma benção David.

—O senhor verá depois, que talvez possa estar equivocado. Comentou David me deixando preocupado.

—Então me diga por quê. Respondi.

Peguei minha filha e fui para casa. Ela não parou de chorar até chegarmos. Já estava se apegando com Ângela, o que de certa forma era bom, mas por outro lado me deixava preocupado, quase sete meses e Laura nunca viu o rosto da mãe, não quero que Ângela ocupe este papel. Por outro lado, não poderia deixar uma lacuna no papel maternal.

—O que estou dizendo?! -Briguei comigo mesmo- Helena ficará bem e cuidará de nossa filha que vai amar a mãe que tem. Expliquei para mim mesmo e abri a porta de casa.

Preparei a mamadeira de Laura, fiz alguns afazeres de casa e coloquei água e comida para o cachorro, além de soltá-lo. Loki solto me assustava. Depois que Laura começou a dormir atirei-me no sofá, uma melancolia irracional havia me afetado.

—Helena, volta para casa. Pedi fechando os olhos.

Acho que isto foi o que chegou mais perto de uma oração. Meu cachorro se aproximou e começou a lamber meus dedos, meu braço estava atirado para fora do sofá. Passei a mão pelo seu rosto e falei:

—O que você aprontou Hein?

O cão simplesmente pôs a cabeça no meu peito e eu o abracei.

—Você iria gostar muito de Helena, ela simplesmente ama animais, mesmo você destruindo os vestidos dela, ainda acho que ela iria gostar de você. “ Meu Deus! Estou falando com um cachorro?” Perguntei à mim mesmo e me levantei. Fui para o quarto, enquanto tirava a roupa o celular tocou.

—Alô? Atendi.

—David! Sou eu, Leandro! Identificou-se a voz eufórica do outro lado da linha.

—Parece feliz. Comentei.

—Não importa quantas vezes eu visite Paris, ela sempre é linda, mas parece que minha esposa é a atração principal –Ouvi uma voz feminina fazer um comentário que não entendi ao certo o que era- Nunca me senti tão bem estando casado. Ah! Desculpe-me, estou aqui falando de mim e... Interrompi ele antes que aquela conversa se tornasse algo fraternal.

—Tudo bem Leandro. Você está feliz e tem o direito de ser feliz. Respondi.

“Eu não tenho esse direito também?” Pensei.

—É que estou muito feliz vivendo com Laryssa.

—Nem parece aquele deprimido que passou alguns meses se embebedando no meu sofá. Relembrei.

—Estou lhe devendo algumas cervejas. Não se preocupe, acho que vamos voltar no próximo mês para o Brasil.

—Está bem. Concordei cansado. Queria apenas tomar um banho e dormir.

—Depois nos falamos melhor, Laryssa está usando uma lingerie vermelha que eu adoro.

—Você não precisa me contar sobre os detalhes Leandro. Isso é nojento.

—Somos homens! Ainda não sei como você conseguiu casar com esse jeitinho romântico.

—Não precisa ser cafajeste. Argumentei.

—Não é questão de precisar maninho. Ser cafajeste é a melhor parte. Já estou indo amor –ele gritou- até mais e se cuida.

—Está bem. Até mais.

E ele desligou. Não consegui tomar um banho completo, Laura chorou pouco depois que eu entrei no chuveiro. A pus novamente para dormir e deixei o cachorro solto no quintal, mal sabia eu quer iria me arrepender profundamente na manhã seguinte, tão fundos como os buracos que Loki havia feito. Já à noite não consegui dormir bem, a tristeza sem razão aparente me impedia, eu estava voltando para minha rotina, minha vida estava voltando a ter um rumo, mas helena não fazia parte e aos poucos estava sendo... Esquecida.

Com os dias passando, eu tentava lembrar dela, só que às vezes, eu me questionava se realmente deveria lembrar.