Pecadores ocultos (Reescrita)
16 Cap. 16 Dias de luta
—Padre Tomás, confesso que David deve ter sofrido muito, apesar de ter pecado mais ainda, ver uma pessoa que ama em coma deve ser terrível. Mas você ainda não me contou o que ele fez de tão grave assim, muito menos como ele traiu Helena quando ela mais precisou. Será que você não pode pular algumas partes e me contar de vez, o que aconteceu com este homem?
—Não posso fazer isto padre João. Você precisa saber o que aconteceu com ele para compreendê-lo.
—Desculpe-me pelo que vou dizer, mas acho que você está sendo complacente.
—Lógico que não padre João! Eu sei que ele pecou e quando descobrir ficará tão assustado quanto eu, porém, deverá compreender pela situação que ele foi enganado pelo diabo.
—Todos nós somos, mas se ele aceitou é diferente.
—Vou lhe contar o resto da história para que você entenda melhor o que eu quero dizer.
David estava apático, me parecia muito mal, coçou a barba e olhou para o chão por algum tempo.
—Deve ter sido um momento terrível para você. Comentei.
—Foi terrível sim padre, mas comparado com todo o resto que estava por vir, isto não era nada.
—E o que poderia ser pior do que ter a sua esposa em coma?
—Vamos começar pela parte em que eu tive que cuidar da casa sozinho. Não que eu esteja sendo machista, entretanto isso foi a porta de entrada para todo o sofrimento que me atingiu.
Helena estava incapaz de cuidar da nossa filha, eu pedi a licença maternidade para mim e a justiça concedeu. Laura logo recebeu alta e veio para casa. O primeiro dia que a trousse foi um inferno!
—Que é isso homem de Deus? Falei assustado com a expressão dele.
—Mas foi padre. Você irá entender. Ele explicou.
Cheguei em minha casa com Laura no colo, Carlos ficaria com Ângela no hospital, não precisava de ninguém junto com Helena, mas todos nós estávamos na expectativa, eles mais do que eu, já que eu não tinha contado para ninguém o prazo que Rute nos deu, mas parecia que estávamos competindo para saber quem seria a primeira pessoa que Helena iria ver ao acordar, então sempre que alguém podia, passava um tempo com ela.
Percebi que não podia deixar Loki solto pela casa, caso contrário iria ter uma surpresa desagradável, então o mantinha preso na coleira, fui até ele com minha filha ainda nos braços e os apresentei:
—Ei Loki! O que acha da minha filha, Laura? Perguntei a mostrando.
Ele latiu.
—Entenda que você não é meu filho, então não fique com ciúmes e também, ela é a mais nova, precisa de mais cuidados.
Ele resmungou com um som esquisito e virou a cabeça de lado quando a criança riu.
—Está bem, só alguns meses, porém, ela é mais frágil que você.
Ele sentou e latiu novamente, parecia que tinha entendido.
—Agora vou colocar este anjinho para dormir.
Eu ainda era inocente neste tempo, mal sabia eu o quão trabalhoso pode ser cuidar de uma criança. Soltei o animal pela casa, ele já estava aprendendo as normas do lugar. Laura dormia no seu berço que eu havia montado no meu quarto. O cachorro estava sentado do lado do sofá e eu resolvi ligar a televisão. Pouco tempo depois Laura começou a chorar, corri para o quarto e a peguei no braço, não sabia o que fazer, tentei fazê-la dormir novamente, mas não adiantou, pensei que talvez estivesse com a frauda suja, dei um puxão e uma olhadinha rápida, estava limpa.
—Você deve está com fome. Comentei.
Desci as escadas e aproveitando minha ocupação o cachorro se deitou no sofá.
—Desça já daí! Falei passando por ele que apenas me observou.
Laura chorava muito. Peguei a mamadeira com leite materno que o hospital me fornecia e de certa forma, posso dizer que a amamentei. Voltei para sala.
—Loki! no sofá não! Falei sentando-me e ele desceu.
Ele se sentou na minha frente e ficou observando eu segurando a mamadeira para minha filha. Alguns minutos se passaram e o bebê já estava cochilando.
—Agora vou te colocar no berço. Falei caminhando aliviado até as escadas.
Antes que eu subisse o primeiro degrau ouvi um barulho alto de vaso quebrando. Laura voltou a chorar, olhei para o lado e vi um vaso quebrado no canto da sala e Loki correndo para o quintal.
—Loki! –Gritei bem alto, furioso, o que parecia ter assustado ainda mais o bebê- Não chore Laura, não chore, por favor.
Falei a balançando nos braços tentando fazê-la dormir, passei pelo menos quinze minutos tentando, mas não adiantou peguei um brinquedo qualquer dela e o sacudia na sua frente, tudo em vão. Laura gritava bastante o que me deixava ainda mais nervoso, comecei a andar pela casa e quando passei perto da cozinha senti que tinha pisado em algum liquido.
—Loki! –Gritei- dentro de casa não!
Não sei por que gritei, ele estava no quintal e estava demorando muito, normalmente ele sempre fica próximo de mim ou em algum lugar pela casa. No meio do caos que estava minha casa, o som da campainha se juntou ao som das desgraças que me ocorriam.
—Donabela? Falei espantado por vê-la.
Apesar de não ser tão velha, já não tinha uma boa saúde e o que ocorrera com Helena a afetou bastante.
—Olá David. Vim ver se não precisa de ajuda. Ela comentou.
—Está tudo bem. Falei com Laura chorando em meus braços o que deixava óbvio que não estava.
Donabela a olhou por algum momento e depois olhou para trás de mim.
—Estou vendo, e a propósito, há um cachorro sentado no sofá com as patas sujas de terra –Olhei para trás e vi Loki que latiu como se aquilo fosse algo bom- E que cheiro é este? Disse Donabela entrando.
—Donabela este é o Loki, Loki está é Donabela.
Ele latiu e foi até ela.
—Nem chegue mais perto seu bebezão, com estas patas quero você bem longe de mim -Disse Donabela que pegou Laura nos braços- Eu vou cuidar da minha neta, enquanto você cuida da casa, está bem?
Assenti e a primeira coisa que eu fiz foi pôr Loki na coleira.
—Cachorro mau! Não pode fazer suas necessidades na cozinha e aquele vaso que você quebrou era presente.
O cachorro latiu olhando para um canto atrás de mim. Ao me virar descobri de onde tinha vindo a terra que o sujava. Ele tinha feito um buraco no meu quintal, arruinando o gramado.
—A única coisa certa em você foi o nome! Falei com raiva e ele apenas se deitou com o olhar triste.
Enquanto limpava a necessidade feita pelo o cachorro na cozinha, ouvi um doce silêncio pela casa, que eu estava apreciando. Recolhendo os cacos do vaso logo em seguida, Donabela chegou com uma pá.
—E Laura? Perguntei.
—Já está dormindo. Ela me respondeu.
—Impressionante como a senhora resolveu tudo tão rápido.
—Não esqueça que sou mãe e ainda tive que cuidar das minhas filhas sozinhas. Ela sorriu, mas rapidamente parou ao lembrar-se do marido.
Viúva tão cedo. O destino não havia sido bondoso com ela. Se é que ele existe, ele pode ser mal às vezes.
—Obrigado. Você foi como um anjo esta tarde -Falei pondo no lixo o que restou do presente que meu irmão havia me dado- O cachorro fez um buraco no quintal e acabou com o gramado. Comentei.
—Sabe David. Não me entenda mal, mas eu acho que poderia cuidar de Laura para você. Ofereceu-se Donabela algo que aparentemente seria uma ótima escolha, mas que de início me assustou.
—Eu agradeço, mas como pai, eu quero cuidar da minha filha. Caminhando até a cozinha e sendo seguido por ela que falou:
—Por quê? Se você pode deixar o trabalho comigo? Lógico que você irá vê-la quando quiser e trazê-la de volta também quando quiser. Argumentou minha sogra deixando a oferta mais tentadora.
Respirei fundo e pus as mãos na pia. No primeiro dia eu tinha passado por tudo isso e só fui salvo por Donabela. Seria assim durante cinco meses?
—Laura tem os olhos de Helena. Cuidando dela é como se eu tivesse uma parte de Helena aqui comigo. Falei olhando pela janela me lembrando um pouco da presença da minha noiva pela casa.
Helena adorava cozinhar e parecia que tinha um talento natural para aquilo. Quando ela queria aprender a dirigir, bem no inicio do nosso relacionamento, eu só aceitei se ela me ensinasse algumas receitas. Helena aprendeu a dirigir, já eu, esqueci boa parte do que ela havia me ensinado.
—Eu entendo –Falou Donabela cortando minhas lembranças- Só estou preocupado se você irá conseguir cuidar dela. Não por não ser capaz, mas por você estar sobrecarregado. Ainda estamos todos abalados com o coma da minha filha e você está aqui, sozinho. Insistia Donabela o que me fazia duvidar da minha decisão.
—A senhora está aqui comigo. E sei que posso contar com sua ajuda, não é?
—Claro que pode. Disse ela pondo a mão no meu ombro.
—Eu quero cuidar da Laura, pela Helena que quando acordar ficará muito feliz pelo que fiz e talvez assim, me perdoe.
Donabela me abraçou e, ao meu ouvido, disse:
—Quem seria capaz de imaginar que uma simples discussão de casal poderia terminar assim? Não foi sua culpa –Ela me abraçou mais forte- também estou com medo.
Ficamos assim por algum tempo, o fato dela saber o ocorrido naquela noite não me surpreendia, Helena sofreu o acidente justamente por falar com a mãe ao dirigir. Um silêncio predominou até que eu falei:
—Bem, você poderia me ensinar a como cuidar de criança.
—Seria ótimo -Concordou ela- E só por curiosidade. No que você estava pensando para comprar um cachorro?
Donabela não era uma grande amiga dos bichos, bem diferente de sua filha e de mim.
—Ela parece ser um anjo que Deus te mandou, para te ajudar nesse momento difícil. Comentei após ele terminar.
—Talvez esteja certo –Ele falou- Talvez seja por isto que ele resolveu levá-la, pouco tempo depois.
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