Pecadores ocultos (Reescrita)

17 Cap. 17 Deus ensina a pescar


Já havia se passado três meses depois do coma de Helena, a esperança passou rapidamente pelos nossos corações como um vento de primavera, já não era mais frequente ficarmos tanto tempo com Helena, aos poucos isto foi se encaixando na nossa rotina que estávamos voltando a ter.

Já era comum eu passar a tarde com Donabela que quando não me ensinava a lidar com crianças, cuidava de Laura para mim. Como eu havia previsto cuidar da minha filha e do meu cachorro que estava crescendo e se tornando mais rebelde era muito complicado. Quando não era Laura chorando sem algum motivo aparente, era Loki sujando o sofá de terra, dos buracos que ele havia feito no meu quintal. Parecia que era um hobby para ele.

Em um dia ensolarado, Donabela brincava com minha filha na sala, aproveitei o momento de folga para me fazer um café, Laura havia ficado acordada quase a noite inteira, me fazendo dormir pouco mais de quatro ou cinco horas. Servi o café na xícara e me senti orgulhoso de mim mesmo, pois o cheiro era delicioso, tomei um gole e senti a satisfação, mesmo cansado, tinha que cuidar de tarefas simples de casa que não podia fazer porque eu estava cuidando da minha filha. Voltei para sala bebendo um pouco mais de café.

—Vou pôr a roupa na máquina enquanto você cuida dela -Comentei chegando à sala- Donabela? Chamei colocando a xícara na mesinha de centro.

Minha sogra parecia confusa, não soube responder minha pergunta, retirei dos seus braços o bebe que ela tinha acolhido protetoramente, enquanto estava sentada no chão encostada ao sofá, coloquei Laura no chão mesmo, próximo a nós.

—Levante os dois braços -Pedi percebendo que ele elevava o direito com certa dificuldade dessincronizado com o esquerdo- Sorria. Analisei sua boca que estava torta, o lado direito estava paralisado.

Sinais evidentes de AVC, ajustei sua postura, liberando as vias áreas e depois de pegar o celular, fiquei segurando sua cabeça para cima. Liguei para ambulância que quando chegou, Donabela já estava inconsciente.

Poucos minutos após chegar ao hospital foi constatado seu óbito, eu me sentia roubado. Levaram de mim quem mais me ajudara até o momento. Fiquei refletindo no sofá a importância de Donabela, a sogra maravilhosa que ela sempre foi, desde o começo, ela sempre parecia ajudar no meu relacionamento com Helena, era sempre ela, que de alguma forma, nos apoiava em tudo. E nesse momento tão difícil que foi o coma de Helena, se ofereceu para cuidar de Laura, suas intenções com certeza eram as melhores possíveis, me ensinou alguns detalhes que faziam a diferença e ainda por cima cuidava, por algum tempo, da neta. Donabela foi uma pessoa maravilhosa na minha vida, morreu em um dia qualquer, quando menos esperava-se, me deixando sozinho. Eu sentia raiva da vida. O que estava acontecendo afinal? Estou prestes a formar uma família e minha esposa entra em coma, surge minha sogra para me ajudar e poucos meses depois ela falece de um AVC? Eu realmente merecia sofrer tanto assim? Ver as pessoas que eu amo morrerem uma por uma, não era nada fácil. “O destino só pode está brincando comigo.” Pensava o tempo todo. Estes acontecimentos me fazia duvidar. Será mesmo que haveria um propósito nesta vida? Será mesmo que nossos caminhos já tinham sido traçados e tudo que fazíamos era apenas, “seguir o plano”? Sentia-me confuso, sozinho, perdido.

Laura começou a chorar, fui até o quarto e a peguei nos braços, desci para sala.

—Loki! Desce do sofá. Esta frase já estava se tornando rotineira.

Ele saiu e subiu as escadas, chamei-o algumas vezes para ele não ir, mas estava com o bebe nos braços e de tão cansado, preferi me sentar no sofá após pegar uma mamadeira para Laura. Estava tudo tranquilo por alguns minutos, durante este tempo fiquei pensando como seria para Helena, acordar do coma e saber que sua mãe havia morrido, na nossa sala de estar.

—Acho melhor nem dizer que foi aqui. Falei sozinho.

Muito emotiva Helena com certeza iria querer que nos mudássemos e nós morávamos num lugar tão estratégico, que seria difícil achar outro lugar tão bom. Ouvi um barulho atrás de mim. Deveria ser Loki voltando. Laura tinha terminado, a deixei no cercadinho no cantinho da sala, próximo a escadaria e pus a mamadeira na mesinha de centro. Ao me virar tive um ataque de nervos.

—Como você encontrou meu jaleco? Falei espantado por ele ter fuçado nas minhas gavetas e ter pegue justamente o meu jaleco branco.

O maldito cachorro parecia não se importar comigo gritando, simplesmente estava rasgando o braço direito da roupa.

—Venha cá! Falei correndo em sua direção que passou por trás do sofá.

Cortei caminho voltando ele me olhou como se tudo aquilo fosse uma brincadeira e correu de volta, o segui ele bateu na mesinha de centro, derrubando a mamadeira, passou perto do cercadinho, ouvi risos de Laura.

—Até você filha?! Falei entristecido por aquela situação constrangedora.

Ele latiu, sem o jaleco na boca avancei tentando pegar e consegui, infelizmente ele também e ficamos como num cabo de guerra.

—Você vai rasgar Loki! Até hoje padre, não entendo por que, mesmo sabendo que não adiantava, eu tentava argumentar com o cachorro.

—Esse seu cachorro não é dos melhores animais de estimação. Falei rindo dele.

Ele riu um pouco, mas como estava deprimido, já era o suficiente. Percebi que ele sorria sempre que falava sobre o cachorro, apesar dele não fazer jus a frase que o cão é o melhor amigo do homem.

Mesmo “avisando-o”, aconteceu o inevitável e o mais provável, ele arrancou o braço esquerdo do meu jaleco. Pela lógica do cachorro estava tudo certo, ele ficava com um pedaço e eu com o resto, pois caminhou calmamente para próximo do sofá.

—Chega! Eu vou lhe vender, doar, lhe entregar para um canil. Mas não aguento mais você aqui comigo! Gritei indo em sua direção passando em frente ao sofá.

Eu tinha me esquecido, na correria, Loki derrubou a mamadeira no chão. Tropecei e cai de frente, machucando um pouco os cotovelos. Ele latiu. Padre, o senhor não tem noção como é a sensação de ser debochado por um cachorro. Mesmo um pouco machucado, me levantei e o peguei nos braços o deixando no quintal.

—Você não entra mais em casa! Exaltei-me com o dedo indicador apontado para ele.

Ele protestou com um latido. Ouvi Laura chorar.

—Nem adianta revogar. Você é um animal!

Ele novamente latiu como se aquilo fosse óbvio. Fechei a porta com força e gritei:

—Laura! Não pode parar de chorar?!

Fiquei olhando para ela em pé e de repente me veio uma tristeza avassaladora, comecei a chorar e me joguei no sofá. Laura continuava a chorar, mas eu não sabia o que fazer. A casa estava uma bagunça, como sempre, Loki tinha destruído algo, já estava com dor de cabeça de tanto ouvir choros, gritos e latidos, estava com saudades da Helena, estava abalado com a morte de Donabela, estava enlouquecendo e não tinha ninguém para me ajudar, sequer para perceber. Eu estava sozinho.

—Helena, eu não aguento mais! Disse em casa na esperança que ela ouvisse no hospital e acordasse.

Peguei a mamadeira e a joguei contra a parede. Poucas horas de sono e toda aquela rotina caótica em casa, sem algum momento de descanso estava me afetando bastante. Afogado em tristeza, comecei a pensar diferente. Helena sempre acreditava que eu era capaz de ajudá-la, mesmo que muitas vezes eu discordasse, mas aquele era o momento para provar que ela estava certa, não apenas para Helena, para mim também.

—Ela acredita em mim. Disse determinado a pôr ordem naquela casa.

Levantei-me e fui até Laura, a peguei nos braços e lembrei-me que Donabela explicou que quando um bebe chora muito e é difícil acalmá-lo, era um sinal de cólica, a deitei sobre meu ombro e fiquei falando baixinho para que ela que estava tudo bem. Passei alguns minutos e parecia que estava dando certo, fiquei no mesmo ritmo até que ela finalmente se acalmou. Arrumei a casa no mesmo dia, sempre lembrando: “Helena acredita em mim.” Era exaustaste mas necessário. Poucos dias depois, comprei um livro sobre como treinar seu cachorro e apliquei tudo que havia aprendido nele. Fiz pesquisas na internet sobre como cuidar de crianças e experiências de pais solteiros que cuidaram ou cuidavam sozinhos de seus bebês, aprendi algumas lições e vi grandes exemplos de superação. Devido à necessidade eu voltei a cozinhar em casa, o que era muito raro, acabei lembrando-me do prazer que eu tinha em fazer aquilo. Sem tempo para fazer qualquer tipo de lazer ou alguma atividade para relaxar, decidi aprender receitas novas, passei a comprar livros culinários e a experimentar pratos diferentes, estava ficando bom nisso. Durante o preparo eu sempre me lembrava de Helena me ensinado a cozinhar. O destino poderia agir como professor, nestes momentos eu agia como aluno, aprendi que o significado da vida são as lembranças do que fazemos nela.

O que eu tinha de Helena mais forte do que as lembranças do que vivemos juntos? Momentos felizes, momentos importantes ou não, tudo que vivemos antes do acidente. Lembrar-se dela me dava ânimo para mais um dia sofrido.

Laura estava acordada no berço, brincando com um chocalho e não me lembro por que, mas lhe falei:

—Será que Helena verá a filha linda que nós temos? Eu me lembro que sua mãe ficava cansada só de imaginar como seria difícil cuidar de você –Laura deu um sorrisinho para mim e voltou a se concentrar no chocalho- Eu nem imaginava que o trabalho seria todo meu. Terminei passando a mão no rosto da minha filha que agarrou meu dedo.

Laura ficou me olhando diretamente nos olhos e eu comentei:

—Sabia que foi exatamente pelos olhos de sua mãe que eu me apaixonei. Você também tem um olhar misterioso, como o dela.