Pecadores ocultos (Reescrita)

15 Cap. 15 Anjos diferentes


Não fui capaz de dormir mais que meia hora, minha barriga roncava, já estava sem comer fazia mais de doze horas, tomei um banho refletindo sobre o estado de Helena, minhas últimas palavras para ela foram: “Pode ir.” Que insensível da minha parte, meu coração palpitava mais forte, eu tinha esperança que não demoraria muito para ela acordar e logo voltar para casa, iria dar tudo certo, nos casaríamos e cuidaríamos juntos da nossa filha. Desci e fui arrumar a casa. “Helena não vai gostar de voltar para casa estando desarrumada.” Pensava comigo mesmo, acho que eu estava em estado de negação, não sei ao certo, apenas me enchi de esperança. Lembrei-me um pouco depois que desde quando o cachorro chegou ele não havia comido nada, nem se quer bebido água, já mais calmo, servi algo para ele que não me lembro bem e saí para almoçar. Eu também estava faminto.

Com uma aparência melhor do que a que eu estava antes, almocei onde sempre vinha com Helena, mas agora sozinho, era tão deprimente que eu preferia sair logo dali e já estava quase para fazer isto, não consegui comer muito mesmo.

—David? Perguntou um homem acompanhado de uma mulher.

—Pois não? Perguntei assustado.

Quem era aquele casal? E o que queriam comigo?

—Desculpe. Você não deve lembrar-se de nós, já faz tanto tempo. Comentou a mulher.

—Desculpe, mas eu realmente não me lembro de vocês. Concordei com ela.

—Alan? Sofri um acidente gravíssimo alguns anos atrás. Você disse que eu podia lhe chamar de David.

—Alan! Falei relembrando dele e ficando de pé para abraçá-lo, cumprimentei sua esposa e os convidei para sentar.

Alan tinha ficado internado por sete meses e nesse tempo desenvolvemos uma amizade significativa, sua esposa eu conhecia bem menos que ele, entretanto sabia que ela também era uma boa pessoa.

—Querem pedir algo? Perguntei procurando por um garçom.

—Não, obrigado. Nós já estávamos saindo quando vimos você almoçando aqui sozinho. Disse Alan.

—Obrigado então por me fazerem companhia. Agradeci.

—Como vão as coisas no hospital? Perguntou sua esposa.

—Está tudo mais calmo. Respondi.

—Está casado? Perguntou Alan ao ver minha aliança.

—Noivo. Eu mando um convite para vocês depois, é que o casamento foi adiado. Expliquei resumidamente.

Os dois eram um casal muito amigável, mas agora não era um bom momento para conversarmos.

—E onde está sua esposa? Gostaríamos de conhecê-la. Perguntou a esposa de Alan.

—Bem –Não sabia como dizer ou se eu deveria dizer- ela sofreu um acidente de carro ontem.

—Oh, sinto muito. Ela se desculpou sem jeito.

—Mas ela está bem? Perguntou Alan.

—Está em coma. Respondi os deixando mais desconcertados.

Eu preferia falar com eles depois, depois que tudo isto fosse resolvido, nada contra os dois, mas eu realmente não estava bem naquele momento.

—Desculpe-nos, estamos lhe incomodando. Acho melhor irmos Glória.

Havia esquecido como ela se chamava. Não fiz questão que ficassem, na verdade agradeci por eles terem entendido.

—Eu vou rezar por ela. Qual o nome da sua esposa? Perguntou-me Glória.

—Helena. Respondi.

—Deus irá cuidar de Helena. Basta você ter fé.

—Obrigado Glória. Agradeci por educação porque sinceramente, não tinha muita fé nisso como ela tinha.

—Foi bom vê-lo David. Despediu-se Alan.

—Foi bom vê-los também.

Após alguns instantes, eu também sair. Fiquei pensando se tinha sido mal educado por isto, mas eu realmente não estava apto psicologicamente para um reencontro de amigos. Mas rapidamente me esqueci disto. Estava a caminho do hospital, passei por um grande congestionamento o que me fez demorar bastante.

—Não precisava vir tão cedo. Meu plantão termina daqui a duas horas. Disse Rute entrando no quarto.

—Eu precisava. Não podia deixá-la aqui sozinha. Falei olhando para ela.

—Ela não está sozinha –Disse Rute e me deixando constrangido- mas eu entendi o que quis dizer.

—Rute, me diga a verdade, estamos a sós, Helena irá acordar? Perguntei esperando uma boa resposta.

—Não sabemos seu córtex fora muito... Interrompi ao perceber que ela estava tentando me embromar.

—Não tente mentir para mim, eu tenho o direito de saber. Quanto tempo você acha?

Ela suspirou, passou a mão na testa de Helena e disse:

—Já vi vários casos de coma, mas o dela é o mais grave. Em uma visão otimista, lhe dou alguns meses, mas não posso lhe assegurar nada, prever alguma data neste caso, é como prever os números da loteria..

—Quantos meses? Perguntei irritado por sua superficialidade.

Ela suspirou forte, parecia que não queria me dizer, só que no fim, ela concordou.

—Cinco meses. É tudo muito incerto.

Todos os pedaços da minha esperança que eu havia catado pouco tempo antes foram destruídas novamente. Cinco meses em coma era muito tempo, tempo demais para mim. Ainda sentado, passei as duas mãos pela cabeça e fiquei olhando para o chão algum tempo. Até que percebi que Rute ainda estava conosco.

—Obrigado.

—De nada. Ela falou e logo em seguida saiu.

Ficamos sozinhos então peguei na mão de Helena e falando para ela perguntei:

—Você pode me ouvir?

Parecia estúpido, mas já ouvi casos em que dizem que os pacientes em coma ainda mantém a audição ativada. Sem nenhuma espécie de resposta por parte dela, parecia que essa informação não era verdadeira.

—Se lembra de quando crianças, que você foi atropelada? Eu me senti terrível por não ter sido capaz de te ajudar. Foi por isso que me tornei médico, para ajudar quem eu amo só que eu não sou capaz de fazer nada por você agora! Tenho a mesma sensação daquele dia. Por favor, acorde, você precisa conhecer nossa filha, Laura tem os seus olhos, e não é porque é nossa filha, mas ela é linda e eu acho que ela tem o meu sorriso, não sei ao certo, eu queria que você me confirmasse isso.

Esperei alguma reação dela, talvez um milagre. Nada aconteceu. Passei então a analisar a situação não mais com as emoções e sim como um médico, eu sabia que ela estava em coma só fazia um dia talvez, era estúpido achar que chamar por ela irá acordá-la. Rute era uma profissional experiente. Quais as chances dela está enganada? Minha razão eliminou do meu coração qualquer esperança de que ela acordasse e eu simplesmente fiquei ali, sentado, vendo-a dormir, já fazia muito frio, então me levantei e fechei a janela, ajeitei sua coberta e disse:

—Mesmo que sejam cinco meses, eu ainda vou está aqui te esperando acordar. Falei em seguida, beijando sua testa.

Passei horas acordado, pensando em como seria minha vida dali para frente, mesmo trabalhando, boa parte das tarefas domésticas eram feitas por ela, que compreendia a dificuldade do meu trabalho. Agora não haveria mais desculpas, eu tinha que fazer. “Por que eu comprei o maldito cachorro?” Pensei comigo mesmo, sentindo no peito um arrependimento enorme ao arrumar a casa. Falei com Ângela que disse que amanhã passaria o dia com a irmã, pensei em aproveitar, passar em um pet shop e comprar algumas coisas para o cachorro.

E foi exatamente isto que eu fiz, falei com um vendedor da loja e comprei um saco de ração e vários brinquedos, além de vários utensílios e xampu para ele. Ao chegar a minha casa, fui para o quintal que já estava fedendo, ele já tinha feito suas necessidades e eu era obrigado a limpar, se não os próprios vizinhos iriam reclamar, percebi que tudo estava em silencio, olhei ao redor e não o vi, lembrei que havia deixado a porta aberta e entrei rapidamente em casa.

—Você não pode entrar aqui! Falei como se o animal pudesse me compreender.

O encontrei em cima do sofá.

—No sofá não! Falei o pegando nos braços e levando de novo ao quintal, fechei a porta, me virei e vi que ele estava atacando minha vassoura.

—Solte a vassoura seu travesso! –Falei puxando dele que não parava de morder e parecia que estava brincando com aquilo- Solte! Isso não é brinquedo, eu comprei muitos para você, se soltar eu prometo que lhe dou.

O animal logicamente não me obedeceu e depois de muito insistir eu consegui tomar dele.

—Já chega! Não posso te deixar solto que você destrói tudo, seu monstro! Gritei com ele que estava com o rabo entre as pernas, peguei a coleira e o prendi.

Ele me olhava entristecido e eu comecei a me sentir mal. Que culpa tinha o animal? De onde estava vindo toda esta raiva? Era óbvio que eu estava muito mais irritado que o comum. Gritar não fazia meu estilo.

—Desculpe-me por gritar com você –Falei me agachando e acariciando o cão que parecia ter me perdoado- Minha vida mudou completamente em um dia e eu estou com medo, medo de como eu vou passar por tudo isso, sozinho.

Não sei por que eu estava desabafando com um cachorro, só sei que me senti bem e estava gostando da companhia dele, mesmo que tivesse uma compulsão em destruir objetos. Terminei de limpar o quintal, peguei uma bolinha dessas de cachorro, o soltei e fiz algo que eu sempre quis desde criança, pela primeira vez eu estava brincando com meu cachorro no quintal, estava me divertindo, tinha até esquecido dos meus problemas por alguns instantes.

—Está bem. Já chega! Falei me sentando no chão cansado de tanto brincar com ele.

O cachorro sentou-se do meu lado com a língua para fora.

—Você é um bom amigo. Falei o acariciando.

Ele ficou de barriga para cima como se pedisse para que eu a coçasse.

—Que manhoso você! Falei coçando sua barriga.

Fiquei refletindo um pouco e percebi, que eu não poderia esperar que Helena acordasse para colocarmos um nome para ele.

—Sabe de uma coisa garotão? –Falei coçando sua barriga com as duas mãos- Helena escolheu o nome da nossa filha, acho que posso escolher o seu nome. O que acha hein?

Ele latiu para mim e ficou sentado na minha frente. Comecei a pensar, ele parecia esperar uma resposta minha, lembrei-me da mitologia viking que eu adorava e dos filmes que passavam na televisão sobre o assunto.

—Já sei! –Gritei estralando os dedos- o deus viking das travessuras. Você vai se chamar Loki. O que acha?

Ele latiu e pulou em mim. Naquela manhã me diverti como uma criança.