Passamos horas ali, sem poder fazer nada, a sensação de impotência é devastadora, não saber o que está acontecendo só agrava a situação. Percebi que Donabela rezava do meu lado. Nunca acreditei muito no poder da fé.

—Por que não David?

—Minha mãe tinha fé que seria feliz com meu pai. E não foi. Ele me respondeu.

—Entendo. Respondi dando-lhe continuidade.

Levantei-me e fui tomar um café, Carlos foi junto comigo.

—Você deveria rezar. Comentou meu amigo me vendo encher um copo de café.

Esqueci completamente que desde pequeno a mãe de Carlos o ensinava e o levava para igreja sempre. A consequência disto não poderia ser outra, ele se tornara um católico devoto, sempre participava das missas de domingo junto com sua esposa.

—Não acho que vá funcionar -Comentei tentando não tocar neste assunto tão polêmico- Helena precisa de mim cuidando dela.

—Você é clínico geral. Argumentou ele, bebendo um pouco do seu café.

—Mas eu estudei bastante sobre vários procedimentos para várias situações, só não sou especialista. Expliquei.

—Mesmo que lhe deixassem, olhe para si mesmo. Você está péssimo! –Disse Carlos servindo-se com o café- Acho que só lhe deixaram passar na portaria, porque enfim, lhe conheciam.

—Eu não posso estar tão ruim assim. Olhei para mim e me cheirei embaixo do ombro.

Fiz uma expressão de nojo ao perceber que talvez, ele tivesse certo.

—Eu quero que tudo termine. Comentei terminando meu café.

Voltamos e Rute tinha falado algo para Ângela e Donabela que as fizeram sentar espantadas.

—O que foi? Perguntei preocupado e imaginando o pior.

—David, a situação de Helena é grave e nós decidimos que para salvar a criança temos que fazer uma cesariana. Venha comigo.

Senti meu coração bater mais devagar, se Rute disse que o bebê estava bem, mas que precisava fazer uma cesariana, quer dizer que Helena não estava bem. Preparei-me adequadamente para entrar na sala de cirurgia, porém, devido ao meu estado fui aconselhado para apenas ficar observando. Foi a pior sensação que tive até o momento. Se algo acontecesse, eu deveria ficar apenas observando. Se eu não tivesse bebido, ou pelo menos, não ter bebido tanto, Rute com certeza me deixaria participar da cirurgia de um modo mais ativo.

Eles iniciaram a cirurgia e eu fiquei um pouco atrás observando tudo atenciosamente, Helena estava inconsciente, mas naquele instante, a criança era meu foco, eles tinham que salvá-la. Foi um procedimento simples, sem muitas complicações.

—É uma menina. Disse o obstetra com minha filha nos braços.

*

—David, se for uma menina, como eu acho que é vamos chamá-la de Laura está bem?

—Eu tenho certeza de que é um menino –Ela me olhou como se fosse idiota eu achar isso- Se for, vamos chamá-lo de Leonardo. Insisti.

—Eu vou concordar porque eu sei que vai ser uma menina.

—Como pode saber Helena? Perguntei a aconchegando melhor em meus braços.

—Porque eu sou mãe. Disse ela fechando os olhos para dormir e com um lindo sorriso.

*

Lembrei-me de nossa conversa alguns dias antes. Helena estava certa, era uma menina, uma linda menina, e ela tinha os olhos tão negros e misteriosos como a mãe.

—Minha filha! –Falei com orgulho e pegando em sua mão pequenina- Veja Helena, nossa filha, você estava certa, era uma menina e é uma linda menina. Falei na esperança de que ela pelo menos abrisse os olhos.

Os outros médicos me olhavam, depois olharam entre si e se fixaram para Rute que apenas perguntou-me:

—Como se chama a menina David?

—Laura. Respondi olhando nos olhos da minha filha, ainda surpreendido por serem uma cópia fiel dos olhos de Helena.

Saímos da sala e a enfermeira levou Laura. Quando voltei todos aguardavam ansiosos.

—Então como foi? Perguntou Carlos se levantando rapidamente logo que me viu.

—É uma menina. Falei sorrindo.

—Graças a Deus. Disse Donabela mais aliviada.

—Parabéns David. Disse Ângela me abraçando.

—Deve ter sido o dia mais feliz da sua vida não é David? Perguntei compartilhando de sua felicidade ao me contar.

—Não exatamente padre. Ele me respondeu mudando de expressão rapidamente.

Estávamos todos felizes com o nascimento de Laura e achávamos que era só questão de tempo para que Helena ficasse bem nos dando uma alegria ainda maior. Infelizmente não foi assim.

—Eu fiz tudo que pude David para salvar Helena e nós conseguimos.

Todos comemoraram felizes por esta notícia.

—Mas não do modo como vocês imaginam. Concluiu Rute.

—Como assim? Perguntei incomodado pela forma indireta dela de nos falar.

—Helena entrou em coma. Fiquei estarrecido com a notícia que Rute nos trouxe.

—Em coma? Perguntou Donabela ainda não acreditando e começando a chorar.

—Infelizmente na colisão, o córtex cerebral dela foi atingido e está bastante lesionado.

Levantei as duas mãos passando-as pelo rosto e me sentei, me senti completamente culpado por tudo.

—Mas ela vai sobreviver? Perguntou Ângela.

—Por enquanto, a situação dela é estável, então é possível que ela sobreviva, mas o mais preocupante é o coma em que ela se encontra -Concluiu tragicamente Rute- Sinto muito.

David começou a chorar na minha frente, mas logo tentou se recompor enxugando do rosto algumas lágrimas e olhando para cima tentou continuar.

Padre eu me senti terrível. Naquele momento eu não parava de relembrar a nossa discussão na noite passada. Nem me lembro de como algo tão banal pôde ter consequências tão graves, Helena estava em coma e era minha culpa. Foi uma discussão sem razão aparente, não sei como tomamos este rumo.

—Vai dar tudo certo. Disse Carlos com a mão nas minhas costas.

E eu apenas cobria os olhos com as mãos. Ficamos ali um bom tempo, não sei quanto, mas também não me importava.

—Vocês podem ir para casa. Meu plantão vai até meia-noite. Disse Rute sendo generosa conosco.

—Eu quero ficar aqui. Talvez ela acorde. Falei com uma estúpida esperança.

—Não piore as coisas David. Você nem sequer comeu, vá para casa, descanse um pouco e quando estiver melhor, você volta.

—Ela tem razão David. Concordou Carlos.

Aceitei, porque estava cansado e muito abalado psicologicamente, precisava de um tempo sozinho, mas como não queria demonstrar meu descontrole emocional na frente de todos, o melhor mesmo era ir para casa.

—Cuide dela por mim, por favor.

—Eu vou cuidar. Confirmou Rute.

Abri a porta de casa chorando como uma criança, joguei as chaves no balcão e logo me veio uma fúria descontrolada. Tinha me esquecido completamente do cachorro em casa, ele tinha feito uma bagunça, o procurei e o encontrei debaixo da mesa, vi que ele mastigava meu chinelo esquerdo. O peguei nos braços e gritei:

—Você vai ficar no quintal! Joguei-o lá e fechei a porta.

Olhei para casa desarrumada e não soube o que fazer, minha esposa estava em coma e talvez eu nunca mais a visse, talvez minha filha nunca conhecesse a mãe incrível que ela tem e minha casa parecia ter sido atacada por animais selvagens. Decidi não arrumar a casa naquele instante e fui para o quarto, me joguei na cama, fiquei lá até cair no sono. Era muita informação para processar ao mesmo tempo.