Pecadores ocultos (Reescrita)

8 Cap. 08 O diabo se chama Bruna


Estávamos namorando já fazia cinco meses e a pouco tempo Helena me parecia estranha, estava mais tensa, parecia preocupada com alguma coisa. Eu sempre perguntava se estava tudo bem com ela, porém, sempre recebia desculpas óbvias. Depois de algum tempo achei que talvez fosse um assunto que eu não precisava me intrometer e que se ela precisa-se de mim, me chamaria. Mas em um dia qualquer eu iria descobrir algo terrível sobre Helena.

—Posso lhe confiar este segredo? Nem mesmo Donabela sabia.

—Claro que pode. Afirmei e ele continuou a história.

Não me lembro o porquê, mas pedi o celular de Helena emprestado, e foi que por acaso eu vi várias ligações não atendidas, olhei para os lados procurando pela minha namorada que parecia está preparando algo na cozinha, subi e não pude me conter, era a Bruna, até aquele momento eu não tive a chance de conhecê-la. Pensei muito em ligar para ela, entretanto desistir pois percebi que seria muito invasivo.

—David?! Chamou-me Helena na cozinha.

—Já estou indo — Respondi indo para a cozinha onde ela se encontrava- Obrigado. Falei entregando-lhe o celular.

—De nada –Ela respondeu pondo o aparelho no bolso- Acha que já está bom? Perguntou-me Helena sobre o bolo que assava no fogão.

Examinei o bolo e disse que já estava pronto e logo depois fomos para a casa do Papa-léguas e de Ângela, fiquei muito pensativo, mas não deixei transparecer, se Helena estava estranha tinha que ter alguma relação com a Bruna ou pelo menos ela deveria saber o porquê.

—Bonita a casa não é?! Comentou Helena assim que havíamos chegado.

—Um dia teremos a nossa.

Ela sorriu. Mas também se manteve calada o que me preocupou se ela concordava com aquilo.

—Que bom que vocês vieram! Recebeu-nos Carlos muito feliz.

Abraçamo-nos e ele convidou a entrar em sua nova casa que era ainda mais bonita por dentro. Ângela conversava com outros convidados e apesar da simplicidade, estava muito movimentado e mesmo sendo inacreditável, aquilo me incomodava, a agitação no hospital parecia muito mais simples de lidar. Na primeira oportunidade não hesitei e me retirei para um canto da sala mais reservado e longe das passagens. Carlos, ao me ver, veio até mim perguntando:

—O que aconteceu?

—Nada. Respondi tomando um gole da minha bebida.

—Não fale como se eu não te conhecesse! Você está com aquele olhar de animal abatido, mas que não quer mostrar fraqueza.

Olhei em seus olhos e percebi que ele acreditava naquilo que me falou. Sem escolha respirei fundo e lhe perguntei:

—O que você sabe sobre a Bruna?

—Só que ela é uma amiga da sua namorada. Ele me respondeu sinceramente.

Carlos era do tipo de amigo em que se podia confiar totalmente, mesmo nesses anos sem nos falar a amizade era a mesma de quando éramos crianças.

—Helena tem estado diferente nos últimos dias e eu vi no celular dela várias chamadas da Bruna, chamadas que ela não atendeu –dei ênfase- Tomei outro gole e Carlos de um jeito sério apenas me olhou bebendo.

—Você anda vasculhando as coisas dela?

—Lógico que não! –Me indaguei com está pergunta- Você sabe que não faço isso. Eu vi acidentalmente quando o estava usando. Expliquei o ocorrido.

—E no que está pensando? Carlos parecia interessado.

—Não sei exatamente, mas seja lá o que for essa tal de Bruna sabe ou ela é a responsável por tudo isso.

Tomamos um grande gole juntos e Carlos me serviu mais um pouco de uísque, pensamos um pouco, Helena estava a poucos metros de nós conversando com outras mulheres, sentada no sofá ela sutilmente ajeitou o cabelo e percebeu que eu a olhava. Mudei de direção e achei ridículo. Era minha namorada!

—Eu sei onde ela mora. Comentou Carlos me surpreendendo.

—Sério? Duvidei não sei porquê.

—Uma vez Donabela me pediu para deixá-la na casa dela.

—Muito obrigado, mas não posso simplesmente chegar na casa dela e exigir satisfações

—Tem razão. Se precisar de algo me avise. Disse Carlos batendo levemente em meu ombro e se retirando para próximo da sua esposa.

Pouco tempo depois percebi que Helena havia saído, terminei a bebida e coloquei o copo em um criado mudo, saí pela casa procurando por ela, foi quando a vi falando no celular na cozinha. Aproximei-me dela lentamente com o intuito de ouvir sua conversa, nem me lembrei da educação. Ela desligou e viu que eu estava com ela, mas não percebeu minha fútil tentativa.

—Trabalho? Perguntei.

—Sim. Estão contratando uma modelo nova e querem que eu escolha junto com eles.

Vi em seus olhos que havia mentido para mim e essa foi a primeira vez que ela fez isso. Mais tarde de noite, pensando sobre como resolver isso, deitado na cama junto com ela que me abraçou forte e comentou:

—Quero te apresentar uma amiga minha.

Finalmente ela estava começando a me falar.

—Que amiga? Perguntei sem demonstrar interesse e segurando-lhe pela cintura.

—O nome dela é Bruna, acho que vocês vão se dar bem.

—Por mim tudo bem. Concordei.

Pensei se já perguntaria quando, mas decidi esperar por ela.

—Posso convidá-la para vir aqui amanhã?

—Seria ótimo. Não tenho plantão esse fim de semana.

—Obrigada. Ela agradeceu me beijando no rosto.

Este gesto me confundiu em todos os sentidos. Mas finalmente estava mais próximo da verdade e da Bruna.

—Sua mãe vem amanhã? Perguntei.

—Não. A casa é toda nossa. Falou Helena com um sorriso maldoso que foi correspondido.

No dia seguinte, a campainha tocou, por estar mais perto atendi.

—Pois não? Perguntei para a moça que tocou a campainha.

—Oi. Sou a Bruna. Helena está?

Meu coração acelerou, finalmente a conheci, comecei a analisá-la. Um pouco mais baixa que eu, olhos castanhos e pele morena, mas não muito escura e não tinha como negar que ela era muito atraente. Percebi que ela me olhava de um modo estranho, senti um clima tenso em seu olhar penetrante e ameaçador. Não me deixei intimidar.

—Helena?! Sua amiga chegou. Pode entrar. A convidei para entrar e sentir seu perfume ao passar por mim.

—Bruna! -Disse Helena não muito hospitaleira, mas que fingia ser -Elas se abraçaram e minha namorada prosseguiu- Este é meu namorado, David.

Fomos apresentados.

Estendi minha mão que foi apertada com firmeza e senti que ela tentou se sobrepor. Afinal, quais as intenções dela?

—Helena falou muito bem de você. Comentei.

—Ela também falou muito de você. Respondeu Bruna olhando para Helena que não gostou do comentário.

Sentamos e conversamos um pouco no sofá, a conversa era uma farsa total, Bruna me passava uma sensação estranha, parecia não gostar de mim. Mas que diabos era aquilo? Eu que não deveria gostar dela!

—Quer um café? Usei isto como desculpa, pois não aguentava mais ver aquela mulher me avaliando.

—Eu adoraria. Ela respondeu educadamente.

Levantei-me e preparei a bebida, fiz questão de demorar o máximo possível. Quando terminei a ofereci.

—Obrigada. Agradeceu Bruna com uma voz mais sexy e sorrindo para mim.

A repreendi com uma expressão de descontente e olhei para Helena que nem se quer havia percebido. “Que vagabunda!” Pensei comigo mesmo. Ouvimos o telefone tocar e Helena foi atender nos deixando sozinhos.

—Então David. Você trabalha com quê? Perguntou Bruna cruzando as pernas e as deixando bem destacadas.

Ela era uma moça muito bonita.

—Sou médico e você? Perguntei querendo saber mais desta mulher.

—Estou tentando entrar na carreira de modelo.

—Você é da agência em que Helena trabalha?

—Exatamente -Respondeu Bruna que acidentalmente derrubou a xícara de café- Oh, me desculpe. Falou Bruna que se abaixou e começou a juntar os pedaços da xícara, deixando bem visíveis seus grandes seios.

Olhei procurando pela Helena que parecia ter nos esquecido, ela então retornou e ao ver aquilo disse:

—Deixe-me limpar isto para você Bruna.

E pegou os cacos das mãos dela e foi buscar um pano na cozinha.

—Sinto muito. Desculpou-se Bruna que voltou a se sentar.

Helena limpou e disse:

—Vou preparar um lanche para nós.

—Seria ótimo. Concordou Bruna.

Novamente ficamos a sós.

—Você malha David? Parece-me tão forte. Perguntou Bruna observando meu físico.

—Não. Interrompi qualquer continuidade para esta conversa.

—Como consegue ter estes músculos então? Ela perguntou apertando meus bíceps.

—Acho que vou ver se Helena não precisa de ajuda. Falei me levantando.

—E se eu ajudar você? Falou Bruna que se pôs de pé na minha frente.

—David! Gritou Helena que surgiu inesperadamente enquanto nos olhávamos bem próximos.

—Eu não fiz nada! Gritei me exaltando.

—Porque eu interrompi antes. Argumentou Helena se irritando conosco.

—Homens não prestam! Helena, esse aqui só vai te fazer sofrer. Disse Bruna de uma forma soberba.

—Eu vou fazê-la feliz. Você que desde o momento que entrou já estragou tudo. Você me conhece Helena, sabe que eu não faria isso.

—Você é homem. Por que não fazer? Duvidou Bruna.

—E você é mulher. Tentei rebater com o mesmo argumento.

—Mas eu gosto de mulher. Desculpe-me, mas não vai dar certo. Explicou Bruna me deixando pasmo e passando a mão em meu rosto.

Foi então que eu juntei tudo, entretanto eu ainda me encontrava relutante contra a verdade.

—Helena –Dei uma longa pausa- Vocês duas... Não soube como terminar a frase.

Ela se manteve calada e virou o olhar de mim.

—Exatamente isso que você está pensado. Confirmou Bruna fazendo um vê com dois dedos da mão e passando a língua entre eles.

—Por que está comigo Helena? Perguntei duvidando de tudo que vivemos até aquele momento.

—Seria uma boa pergunta. Atiçou Bruna.

—Porque eu te amo! Ela respondeu se aproximando tentando me abraçar.

Eu ergui o braço direito e neguei.

—E você o que faz aqui Bruna?

—Dá uma passadinha e quem sabe pegar de volta o que é meu.

—Pare com isso Bruna!-Gritou Helena- Foi só um momento de confusão em que eu não sabia no que pensar. Acabou! Eu amo o David! Helena se pôs a chorar.

—Querida –Disse Bruna se aproximando lentamente e a acariciando pelo rosto- Você só está confusa ainda, mas é de mim que você gosta. Sei que está com medo, mas vamos ser muito felizes juntas.

—Só por cima do meu cadáver e se retire imediatamente daqui. Falei puxando-a pelo braço e a levando até a porta.

—Ela voltará correndo para mim!

Bati a porta na sua cara. Ainda estarrecido voltei para Helena que mais parecia uma criança que havia sido descoberta numa travessura.

—Por que você a convidou?-Helena se recusou a falar, então insistir- Por quê?!

—Ela estava me importunando então achei que depois que ela nos visse ela me deixaria em paz, ou pelo menos desistiria dessa ideia.

—Que ideia? –Ela demorou a responder- Que ideia?

—De voltar para ela. Gritou Helena.

—Você teve algo com ela enquanto estávamos juntos?

—Não. Eu juro.

—E antes?

Ela se manteve calada.

—Foi só uma fase... Interrompi Helena gritando:

—Uma fase? Será mesmo? Quem me garante que você não irá me trocar por ela? Você não me ama, só quis me usar para negar o que você é.

—Não é verdade!-Helena pôs as mãos na cabeça e se sentou no canto da parede, se recolhendo toda.- Eu te amo David, senti sua falta desde o dia que você foi embora sem me explicar nada. Sabe o quanto me torturei por isso?

—Eu fui obrigado a partir. Minha mãe fugiu de casa com medo do meu pai! Tentei me justificar.

—E por que você deixou de me amar pouco antes de partir?

Fui atingido por um flashback. Lembrei-me de tudo novamente, naquela noite em que roubei a rosa, me lembrei do que eu vi e pior do que isso. Lembrei-me do que fiz. Um sentimento de culpa me veio. Pensei em explicar tudo. Aproveitar a situação, entretanto mudei de ideia.

—Eu vou para casa!

Helena nada disse, apenas continuou lá, recolhida e envergonhada e eu fui para o Bar mais próximo.

—Padre Tomás, pelo visto essa mulher é tão pecadora quanto ele.

—Padre João ela só estava confusa. Não seja tão rígido!

—Você é muito complacente.

—Tente pensar um pouco em como o próximo se sente.

—Não é essa a questão. Até agora os dois só pecaram e agora sofrem as consequências. Sinto por eles, mas que se arrependam.

—Mas eles se amam.

—Como pode ter tanta certeza?

—Pelo o que um foi capaz de fazer pelo outro.