—Padre Tomás, roubar uma rosa quando criança não me parece uma prova de amor.

—Eu também pensei nisso e perguntei para o David que me respondeu:

—Teve um dia, o mais importante da minha vida, foi nesse dia que eu tinha percebido o quanto eu gostava dela, mesmo que eu ainda fosse muito novo para entender a vida.

—Então me conte sobre este dia. Insisti.

Aconteceu alguns meses antes que eu fosse embora. Em um dia qualquer nas férias de verão, acordei muito feliz, não havia razão.

—Aonde você vai? Perguntou minha mãe vendo minha euforia para sair.

—Vou brincar com meus amigos na praça. Respondi correndo até a porta.

—Já pensou sobre a conversa de ontem? Ela voltou a tocar naquele assunto.

—Não mãe, ainda não, mas eu vou descobrir o que vou ser quando crescer.

—Acho bom. Seu irmão já sabe e já está estudando. Não perca muito tempo... Interrompi mamãe dizendo:

—Mãe eu já vou.

Depois disso fui para a praça.

—Cuidado! Gritou minha mãe.

Acho que ela falou algo mais, porém não escutei, correndo com a bola na mão e um sorriso no rosto que logo foi embora, percebi que apenas Carlos estava me esperando.

—Onde estão os outros? Perguntei preocupado se ainda jogaríamos.

—André saiu com sua mãe. Matheus está doente e o Lucas de castigo.

—Que droga! E o que vamos fazer?

Ele olhou para as meninas correndo do outro lado da praça e disse:

—Podemos brincar com elas.

—Elas não gostam de futebol. Argumentei.

—Então vamos brincar do que elas estão brincando.

—Prefiro jogar futebol.

—Helena está brincando.

—Ainda sim. Prefiro ficar olhando. Respondi.

—Sabe que eu não posso ser o único menino brincando com elas.

—Por que não? Perguntei rindo um pouco.

Ele me olhou profundamente, mas logo em seguida riu também e pediu:

—Favor de amigo?

Respirei fundo e disse:

—Tá legal.

Carlos gritou de onde estávamos:

—Ei meninas! Podemos brincar com vocês?

Ângela olhou para sua irmã que sorriu.

—Pode. Permitiu Ângela.

No começo estava meio entediado com a brincadeira, mas logo depois comecei a me divertir. Mas em pouco tempo tudo mudou, corri tentando alcançar Helena que estava indo muito rápido, não desisti, mas com isso já estávamos perto do final da praça, foi quando Helena sem prestar atenção correu para a rua. Instintivamente eu parei e olhei para os lados. Meu coração acelerou ao ver um carro em alta velocidade.

—Helena! Até hoje não sei por que gritei, a colisão era inevitável.

Ela foi atropelada bem diante dos meus olhos, o motorista fugiu e tudo que eu soube informar a polícia era sobre um carro preto com um dragão vermelho pintado na porta.

Corri em sua direção, o resto das crianças também, mas Ângela correu para sua casa. Ajoelhei-me diante de Helena que estava inconsciente, senti no peito uma vontade enorme de ajudá-la, mas não sabia como, tive medo de tocá-la, estava confuso. O que fazer em uma situação como aquela? Só tinha treze anos e estava em pânico. Uma multidão se formou em volta dela.

—Helena! –Gritou Donabela- Chamem uma ambulância para minha filha! Ordenou a mãe sabe Deus para quem.

Disseram que chegou rápido, mas para nós foi uma eternidade, foi agonizante ver Donabela desesperada chorando e gritando. Acho que tudo se tornava ainda pior já que ela não tinha ninguém para ajudá-la depois que o marido faleceu um ano antes, ela se sufocava com a pressão que ela mesma impunha a si própria. Ângela chorava estarrecida atrás de sua mãe, as pessoas apenas comentavam sobre o que podia ter acontecido, evitavam nos encarar e nem sequer tomaram alguma atitude.

Não sei como, mas a ambulância chegou e a levou, mas sempre me sinto mal por durante todo tempo ter ficado ali, parado, do lado dela, mas não fazendo nada, eu queria ajudá-la, entretanto o fato de não saber como, me impedia de tentar. Minha mãe me levou para casa, fiquei horrorizado por algum tempo. Primeiramente me culpava, se eu não tivesse sequer aceito ir com Carlos provavelmente nada teria acontecido, depois culpei o motorista, porque ele estava tão rápido? E vale lembrar que ele fugiu. Contudo no fim, culpei Helena, doze anos e não saber que se olha para os lados antes de atravessar a rua, para mim é um absurdo. Lembro-me que depois percebi que não adiantava mais procurar um culpado e que meu maior problema foi não ter reagido como deveria naquela situação. Alguns dias se passaram e Donabela já mais calma convidou minha mãe e eu para visitarmos sua filha no hospital.

—Helena? Seu amigo veio lhe ver. Disse Donabela que entrou primeiro no quarto.

—Olá Helena. Como você está? Perguntou mamãe.

—Melhor agora. Respondeu Helena erguendo a coluna.

—Quando você vai sair daqui? Fui direto ao ponto, como sempre.

Mamãe me repreendeu com o olhar, fiquei meio sem jeito.

Ela sorriu e disse:

—Eu não sei. Os médicos dizem que eu estou bem, mas preciso ficar mais um pouco.

—Querida, eu vou conversar lá fora, se precisar de alguma coisa me chame está bem? Avisou Donabela.

—Está bem mãe.

Donabela saiu levando minha mãe junto com ela.

—Está doendo? Perguntei vendo um curativo em sua cabeça.

—Não. Mas aqui é um tédio, não vejo a hora de voltar para casa.

—Eu também.

Fiquei envergonhado depois pelo que disse, mas logo ficamos tensos quando eu lhe falei:

—Desculpa por ter causado isso.

—Não foi sua culpa. Eu que fui desatenciosa.

—E sua mãe acha que fui eu?

—Não –Ela sorriu novamente e continuou- ela brigou comigo por eu ter atravessado a rua sem olhar para os lados e que eu ficaria de castigo por um bom tempo.

—Você aprendeu da pior forma. Comentei.

—Minha mãe disse que você estava do meu lado.

—Sim. Eu estava, mas não fui de grande utilidade, não soube o que fazer.

—Pelo menos ficou do meu lado. Helena tentou me ajudar.

—Não foi o suficiente. Reclamei comigo mesmo.

—Você não é médico. Argumentou Helena tentando me ajudar.

Nesse momento uma ideia atingiu minha cabeça como uma pedra.

—Então eu vou ser médico, para poder ajudar as pessoas que eu gosto.

—Mas você tem medo de médico.

Fiquei sem jeito por ela saber disto, mas continuei firme em minha escolha.

—Eu dou um jeito, mas eu vou ser médico –segurei na mão dela- e vou cuidar das pessoas que eu gosto –Olhei em seus olhos- Eu prometo!

—Promessa é algo muito sério, se fizer você terá que cumpri-la. Duvidou Helena de minha palavra.

—Eu prometo. Um dia você ainda me verá de jaleco branco.

—Você ficaria bonito.

—Então filho, vamos para casa. Disse minha mãe que entrou inesperadamente na sala.

Rapidamente soltei a mão de Helena e concordei com minha mãe.

—Se quiserem voltar aqui outro dia seria muito bom. Convidou Donabela.

—Nós voltaremos. Afirmou mamãe.

Mas nós nunca voltamos e uma semana depois Helena teve alta. Naquela mesma noite no jantar eu falei para minha mãe:

—Eu já sei o que eu quero ser.

—Então diga.

—Eu vou ser médico. Falei como se já fosse um de tanta alegria que eu tinha.

Meu irmão cassou de mim e disse:

—Para ser médico tem que estudar muito e você não é muito inteligente.

—Mãe?! Pedi por ajuda dela.

—Ele tem razão. Viu suas notas nesse ano? –Após isso consenti, nunca fui muito interessado nos estudos- Mas você ainda tem tempo para se dedicar mais e quando for médico não se esqueça que você tem uma mãe.

—Eu não vou esquecer.

—Ótimo, pois eu vou precisar.

Eu não queria tocar naquele assunto então me calei e terminei o jantar.

—Padre eu me tornei médico para poder ajudá-la, logo após eu sair pensei se a promessa ainda iria valer já que eu acreditava que nunca mais veria Helena novamente. –David suspirou forte- Você acredita que eu a amo? Perguntou-me David preocupado com minha opinião.

—Claro que sim David.

—Padre Tomás, ainda assim acho que não. Ele traiu essa moça quando ela mais precisou. Se a amasse de verdade nunca teria feito isso.

—Padre João, ele foi levado pelas circunstâncias.

—Ele me parece ser o tipo de homem que muito fala, mas pouco faz.

—Talvez o senhor tenha razão, mas o que ele passou por esta mulher me provou que ele a ama, mesmo que a tenha traído.

—Então me conte o que ele fez.

—Está bem.

Depois de muito conversar com ele, eu lhe perguntei:

—David, as coisas começaram a piorar já no inicio do relacionamento?

—Não padre! –Ele me respondeu abrindo o primeiro sorriso desde que ele chegou, este foi sincero- quando começamos a namorar foi tudo maravilhoso, tínhamos brigas como qualquer casal, porém, nada fora do comum. Fizemos planos e estávamos felizes, para ser sincero, eu nunca fui tão feliz na minha vida.

—Tem certeza? Eu insistir.

—Bem –Ele começou a ter dúvidas- Tive uma grande surpresa com a amiga dela.

—Que amiga? Perguntei curioso.

—Bruna. Essa mulher quase acabou com nosso relacionamento no momento em que tudo estava perfeito.

—Pelo modo como você fala ela parece ser uma pessoa má.

—Não exatamente padre. Disse-me David deixando um grande ar de mistério.