Pecadores ocultos (Reescrita)
6 Cap. 06 Missão jardim
—David, não me leve a mal, mas eu acho que o que você sente por Helena é apenas uma paixão.
—Não padre! Eu a amo desde pequeno.
—Vocês se conhecem tanto tempo assim?
—Bem, nos conhecemos na adolescência, mas muita coisa que aconteceu lá nos influenciou para tudo isso acontecer.
—Conte-me o que aconteceu.
—Vou dizer o último dia em que estivemos juntos e que foi o pior.
Quando cheguei ouvi o toque do sino, logo em seguida as crianças saindo correndo da escola, algumas acompanhadas, mas a maioria estava indo para casa em grupo.
—David! Gritou Helena de longe e acenando para mim.
Acenei e sorri para ela que caminhava na minha direção.
—Achei que você não viria. Comentou a garota que me olhava profundamente. Porém eu me recusava a olhar em seus olhos
—Eu disse que viria não disse?
—Obrigada por vir então. Não queria voltar sozinha para casa.
—Eu poderia vir mais vezes lhe buscar. Falei percebendo que estava sendo muito oferecido.
—Hoje foi apenas o destino de bom humor. Disse Helena que me acompanhou quando eu comecei a caminhar.
—Quem é o Destino? Perguntei, pois na época era muito novo e não sabia o que era.
—Minha mãe diz que tudo está predestinado, mas que às vezes o destino sorri para nós fazendo algo de bom. Explicou-me Helena.
Aquilo me deixou confuso. A ideia de que toda minha vida já aconteceu e que eu não poderia fazer nada de diferente me intrigava, até hoje isso me dá uma sensação de aprisionamento, é como se eu deixasse de ser livre se acreditasse nesse destino.
Helena que observava as casas da rua pela qual passávamos falou de repente:
—Que linda!
Então correu para a casa da Dona Elza, uma vizinha que detestava crianças, principalmente os meninos que jogavam bola em frente à casa dela. Seu portão estava aberto e o jardim dela nos convidava para entrar de tão lindo que era, florido e bem cuidado, eram tantas flores e rosas espalhadas, às vezes pareciam estar organizadas, noutras pareciam estar desorganizadas, mas isso não o deixava mais feio, pelo contrário, o tornava mais atraente. Procurei por Helena e percebi que com toda aquelas flores e rosas, apenas uma foi capaz de roubar sua atenção. Ela que estava de saia sentou-se sobre os joelhos que estavam juntos e com as mãos fechava a saia, o vento soprando forte bagunçava um pouco do seu cabelo solto e o espalhava pelo rosto.
—Não é linda? Ela me perguntou virando o rosto encantada com aquela rosa.
Olhei intrigado para aquela rosa, era realmente linda, pétalas rosadas e completamente desabrochadas, mas não entendia o porquê de todo o jardim ser esquecido por uma simples rosa como aquela.
—É sim -Concordei com ela- Mas por que esquecer de todo o resto?
—Não é esquecer, é dar atenção ao mais importante. Respondeu sabiamente a menina.
Ela até me pareceu mais velha com esta resposta.
—O que fazem no meu jardim? Perguntou intrigada dona Elza gritando da janela.
—Corre! Falei me levantando e puxando Helena pelo braço.
Ela me seguiu segurando minha mão, dona Elza gritava da janela, mas de tão assustado preferi saí de lá. Corremos então por toda a rua de mãos dadas, eu olhei para trás e não tinha ninguém então paramos um pouco, era próximo a sua casa, ela colocou as mãos no joelho e suspirou fundo, depois se ergueu novamente e ficamos ali, sozinhos, juntos e nos encarando, depois de pouco tempo começamos a rir, ficamos mais próximos, olhei em seus olhos e na escuridão deles fui levado ao desconhecido pela primeira vez, tive medo daquilo ser amor, mas depois de ouvir sua respiração me concentrei em seus belos lábios, me aproximei dela lentamente...
—O que vocês estão fazendo? Perguntou Ângela surgindo inesperadamente.
—Nada. Respondi me afastado de Helena que timidamente perguntou tentando disfarçar:
—Onde está nossa mãe?
—Saiu. Respondeu Ângela que estava me encarando.
—Pra onde? Insistiu Helena em mais detalhes.
—Ela foi para o mesmo lugar de sempre quando aquilo acontece. Respondeu Ângela de um modo muito enigmático, como se eu não devesse saber de algo.
—Eu já vou para não preocupar minha mãe. Falei percebendo que deveria deixá-las sozinhas.
—Até mais. Disse Ângela acenando com a mão.
—Até mais. Disse Helena fazendo o mesmo.
Mais tarde no mesmo dia na praça com os garotos reunidos, em uma oportunidade que estava sozinho com Carlos comecei a falar sobre Helena.
—Então o que acha da Helena?
—Eu não posso dizer. Ele me surpreendeu com tal resposta.
—Por quê? Questionei surpreso.
—Porque você gosta dela e eu sou seu amigo. Novamente me surpreendi com sua resposta.
Passamos algum tempo calados.
—Está tão óbvio assim? Pedi sua opinião.
—Muito. Mas eu acho que também deixo muito óbvio com a Ângela.
—Você gosta dela? Perguntei surpreso.
—Não é óbvio? Ele retrucou surpreso.
—Não! Insisti.
Ficamos um pouco confusos. Dona Elza passou por nós e me olhou profundamente, talvez pelo o que aconteceu mais cedo, foi então que me lembrei:
—Pode me ajudar?
—Em que?
—Quero dar uma rosa para Helena.
—Não precisa de minha ajuda. Você pode pegar uma em qualquer jardim. Ele comentou.
—Não é apenas uma rosa, é a rosa. Tentei explicar.
—E onde está essa rosa?
—No jardim da dona Elza.
—Ficou maluco?! Disse meu amigo estarrecido.
—Eu sei, mas Helena adorou aquela rosa e eu queria lhe fazer está surpresa.
—Se formos pegues... Ele supôs consequências que nem passaram na minha cabeça.
—Ela passou por nós agora pouco. Sabemos que ela está na igreja e que vai demorar.
—Isso é roubo!
—Já viu alguém ser preso por roubar uma rosa?
—Não. Mas e se formos pegues seremos os primeiros.
—Não se prende crianças.
—Não sou criança! Indignou-se Carlos.
—Temos treze anos — Suspirei forte- Favor de amigo?
—Se formos pegues direi que você é o mandante e me obrigou a fazer isso. Propôs Carlos.
—Por mim tudo bem. Concordei.
—Mais uma coisa. Eu quero uma também.
—Está bem. Mas vamos logo. Falei já ficando de pé.
Ainda não acreditando no que estávamos a fazer, nos encaramos estarrecidos e com o coração acelerado, em frente a casa de dona Elza ele falou:
—Que comece a operação jardim.
—Operação jardim? Questionei.
—Eu vi isso num filme policial.
—Está bem –Concordei para não perdermos muito tempo- apenas fique aqui de vigia, se a dona Elza aparecer você me avisa.
—Está bem. Ele concordou.
Pulei o portão e em volto a escuridão, procurei pela rosa que Helena viu hoje pela manhã. A arranquei e me machuquei com os espinhos.
—O que foi? Perguntou Carlos ao ouvir meu grito.
—Tem espinhos.
—Você não sabia?! Disse surpreso Carlos.
—Está bem sabe tudo e qual você quer?
—Qualquer uma.
—Peguei a mais próxima e por entre as grades do portão entreguei para meu amigo.
—O que está fazendo na minha casa? Gritou alguém um pouco próximo.
Carlos viu em direção a voz e disse-me:
—É ela. Abortar missão! Abortar missão! E saiu correndo como nunca o vi antes, levando as rosas e me abandonando.
Desesperado, comecei a subir no portão, consegui pular, mas senti um puxão na orelha.
—O que você pensa que está fazendo hein?
—Eu juro que não roubei nada dona Elza.
Ela nada respondeu e me puxando pela orelha me deixou em casa, onde por sorte, só havia meu irmão.
—Peguei teu irmão pulando o muro da minha casa e se eu notar a falta de alguma coisa eu vou prestar queixa.
Meu irmão me olhou surpreso, mas apenas mordeu a maça e concordou com ela dizendo:
—Quando minha mãe chegar eu falo para ela. Não se preocupe.
—Acho bom. Falou a senhora praticamente me jogando em casa.
Quando ela saiu, Leandro fechou a porta e disse:
—Roubando casas agora? Não estamos tão ruim assim sabia?
—Não estava roubando nada!
—E o que estava fazendo?
—Só... Peguei uma rosa. Expliquei.
—E cadê a rosa?
—Com o Carlos, que fugiu me deixando sozinho. Nunca o vi correr tão rápido. Parecia o papa-léguas.
Leandro riu e disse-me:
—Não vou contar nada para mamãe porque você sabe o que ela pode fazer com você, mas não posso garantir pela dona Elza. Então acho melhor você se comportar bastante por algum tempo.
—Tem razão –Concordei com a mão na orelha que ainda estava doendo- vou para a praça.
—Tudo bem.
Chegando lá, vi que Carlos estava com as duas rosas sentado em um banco e totalmente distraído, me aproximei sorrateiramente e dei-lhe um tapa na cabeça dizendo:
—Não se deixe um parceiro para trás!
Coçando a cabeça ele tentou se justificar.
—Quando vi que não teria como te salvar pensei no objetivo da missão. E a ideia foi sua Ali Babá.
—Viu isso no filme policial?
Ele consentiu.
—E o que a bruxa fez com você?
—Quase arrancou minha orelha e por sorte apenas meu irmão estava em casa.
—Mas ele não vai dizer para sua mãe?
—Ele não é de se intrometer na minha vida.
—Que sorte.
—Sorte nada! Papa-léguas.
—Papa-léguas? Igual ao desenho animado?
—Isso mesmo. Nunca te vi correr tão rápido.
—Nem eu sabia que corria tanto.
Nessa hora David teve receio em contar o resto. Então perguntei:
—O que foi David?
—Acho que ainda está muito cedo para lhe contar o que aconteceu depois naquela noite, mas eu explico padre, só não agora, está bem?
—Tudo bem, tem mais alguma coisa que possa me contar desse dia?
—Sim.
—Estou ouvindo.
Dois dias depois do ocorrido, meus pais tiveram uma briga terrível, a pior de todas, foi quando minha mãe finalmente teve coragem para resolver tudo, juntou tudo que pôde e nos levou embora, para o interior de São Paulo. Nunca consegui entregar aquela rosa para ela e a sensação de ter partido sem beijá-la, sem ter tido a chance de me despedir só amargurou por esses anos dentro de mim e nunca tive chance de falar com ela.
Fale com o autor