Paz Temporária - Sombras do Passado

7 Adentrando a floresta rumo à verdade


Só houve um assunto no resto daquela semana, “a grande expedição dos três semi-destemidos”, como a chamavam. Os três passaram a maior parte de seu tempo livre juntando suprimentos e informações úteis. Já haviam até conseguido “desculpas” para que seus pais não suspeitassem de nada. Cherry disse que iria dormir na casa de uma amiga de Sarah. Sarah disse que iria a um grupo de estudos. Paul apenas disse que passaria um tempo fora, sua mãe não ligava muito para o que ele fazia ou deixava de fazer. Todos combinaram de se encontrar em um parque próximo à Red Moon Forest bem cedo.

Cherry foi a primeira a chegar, estava com uma grande mochila que seu pai usava para acampar quando a Sra. Winter ainda era viva. Esperou sozinha lá por uns dez minutos. Estava distraída quando avistou os dois vindo juntos e conversando. Os três logo se juntaram:

– Então pequena. Animada para nossa aventura? – pergunta Paul.

– Com certeza! Então, o que conseguiram trazer? Eu trouxe duas barracas, sacos de dormir, um lampião e um facão.

– Eu trouxe alguns enlatados, casacos, o canivete do meu pai, lanternas, fósforos e algumas velas. – Disse Sarah.

– Deixe me ver aqui... Uma barraca, um binóculo, garrafas térmicas já cheias de água bem gelada, um canivete, uma corda e. essa belezinha aqui.

Paul tira uma arma da mochila. Era um revólver em ótimo estado.

– Essa coisa linda aqui era do meu pai. Veremos se meu treinamento serviu para alguma coisa!

– Heh, você sempre reclamou da influência do exército na educação, mas mesmo assim ficou em terceiro lugar no campeonato de tiro ao alvo ano passado. – Comentou Sarah.

– Digamos que essa é a única coisa “militarizada” do colégio que eu curto... Afinal, armas são fodas.

– Você se lembrou de trazer munição não é? Porque não sabemos o que nos espera lá dentro. – Comentou Cherry.

– Ah, claro que lembrei. Peguei bastante até... Nunca se sabe, não?

–... Pois é...

Depois de dividirem a carga, os três começaram a caminhada em direção à Red Moon Forest sem a certeza de que voltariam. Cherry foi na frente e mostrou a trilha que seguiu da última vez em que esteve lá. Andaram mais do que ela se lembrava, mas acabaram chegando à cabana.

– Ok, essa é a cabana onde eu vi aqueles homens.

– Hm... Parece que foi abandonada há muito tempo. Deve ter mais cupins que madeira aí. – Disse Paul.

– Provavelmente... Eu derrubei a porta quando tentei abrir.

– Bem, o que estamos esperando? Vamos nessa!

Sarah e Paul começaram a andar em direção à cabana quando Cherry ouviu um barulho dentro da casa e puxou os dois para um arbusto.

– Acalmem-se! Eu ouvi algo.

Alguns segundos depois de se esconderem, dois homens vestindo roupas que cobriam todo o corpo e máscaras de oxigênio carregando um grande saco preto. Depois de discutirem um pouco, os três decidiram seguir os homens. Eles carregavam o saco com grande facilidade, apesar de ser quase do tamanho de uma pessoa adulta. Eles provavelmente estavam acostumados a fazer isso. Depois de se afastarem bastante da cabana, os homens jogaram o saco em um buraco numa árvore e sentaram em um tronco.

– Ei... Por que a gente não apaga esses caras e usa as roupas como disfarce? – Sugeriu Paul.

– O quê?! Como você pretende fazer isso? – perguntou Sarah espantada.

– Apenas me observem e se der merda... Corram pra caralho.

Paul pegou uma pedra e jogou em uma moita que estava um pouco atrás dos homens. Ao ouvir o barulho, os dois levantaram e foram checar o que havia acontecido. Um deles sacou uma pistola e o outro um facão. O que estava com o facão foi na frente enquanto o outro dava cobertura. Paul disse para que as garotas esperassem com a corda em mãos, pegou o facão que Cherry havia trazido e uma pedra um pouco maior que sua mão que estava no chão e se aproximou lentamente dos dois. Ele jogou a pedra no que estava mais à frente e golpeou o portador da pistola com a parte não afiada do facão e correu para cima do outro que estava atordoado pela pedrada e o golpeou também. Depois que os dois estavam no chão, Paul retirou suas máscaras e os golpeou novamente para ter certeza de que ficariam desacordados e chamou as garotas. Paul e Sarah começaram a retirar a roupa dos dois enquanto Cherry os observava para conseguir informações. De repente, Cherry arregalou os olhos e correu em direção à árvore em que os homens haviam despejado o saco preto. Ela tentou retirar o saco de lá, mas não teve sucesso. Ao ver o comportamento suspeito de Cherry, Paul a ajudou a retirar o saco da árvore. Ele era um pouco pesado. Cherry começou a rasgar o saco, parecia estar desesperada. Mas logo os dois viram o motivo de seu desespero. O que estava no saco... Era algo que nunca haviam visto antes. Era humano das pernas até a metade da barriga, depois virava algo disforme. Era como se tivessem pegado um monte de carne, costurado de forma abstrata e unido à metade de uma pessoa. Tinha algo que aprecia ser cabelo saindo de parte da massa de carne e olhos totalmente brancos, um perto do cabelo e outro quase escondido por uma dobra da massa nojenta de carne. Aquilo fedia e parecia ter morrido há pouco tempo. Os três ficaram observando espantados aquela coisa por algum tempo. O tempo parecia ter parado e eles ficaram mudos até que Cherry se levantou e foi andando em direção a um dos homens que estava apenas de roupas íntimas. Ela jogou a mochila no chão e começou a procurar algo nela. Pegou um dos canivetes, fez com que virasse uma faca, parou em cima do homem e ergueu o canivete com as duas mãos.

– Seu monstro filho da puta!

Sarah saiu de seu transe, viu que Cherry estava prestes a matar o homem e correu em sua direção para impedi-la.

– Cherry! Pare com isso!

– Como podem me pedir isso?! Aquilo já foi uma pessoa e agora eles a jogaram fora como se fosse lixo! Eles são o lixo!

– Calma, não vale a pena. Eu sei que o que eles fizeram foi... desumano e repugnante, mas... não suje suas mãos com sangue por causa disso!

– Deixe-a. – Disse Paul – Ela com certeza viu mais do que nós... E se ela acha que eles devem morrer...

– O que você está dizendo?! Ela... ela...

– Aqueles... aqueles... aqueles putos que estão dentro da instalação na cabana fazem experiências com pessoas... com humanos! E se algo dá errado... Eles simplesmente jogam fora... Como se fosse uma maçã podre que você comprou e só deu uma mordida... eu... eu... Eu não posso perdoar esse tipo de gente!

Cherry desceu suas mãos em direção ao coração do homem, mas parou pouco antes de atingi-lo. Suas mãos tremiam e ela suava muito.

– P...por...por quê?!

Ela repetia os movimentos, mas sempre parava antes de acertar o homem. Depois de algumas tentativas e foi em cima do outro e fez o mesmo e obteve os mesmos resultados.

– Por quê... Por que eu não consigo?! POR QUÊ?

Cherry largou o canivete e começou a chorar. Sarah tentou ir até ela, mas Paul a impediu.

– Deixe ela extravasar um pouco...

Cherry levantou, pegou o facão do homem que estava no chão e começou a golpear uma árvore.

– Eu não entendo! Mesmo sabendo daquilo tudo! Mesmo odiando eles! Eu não... Por que eu não consigo matá-los?!

Cherry acertou a árvore até se cansar e caiu de joelhos muito ofegante. Os dois foram em sua direção e Sarah a abraçou.

– Está tudo bem... – Disse Sarah.

– Eu sabia que você não era dessas. Queria ver a cara de todos que te chamaram de psicopata agora. – Disse Paul.

Depois de Cherry se acalmar, os três terminaram de roubar as roupas dos guardas e os amarraram em uma árvore. Paul e Sarah vestiram as roupas dos guardas por serem os mais altos.

– O plano vai ser o seguinte: nós somos novatos e acabamos achando essa pequena espiando por aí. Vamos andar pelo lugar lá dizendo para todos que temos que leva-la à prisão... se tiver uma... de qualquer jeito, vamos nos fazer de novatos e a Cherry vai ficar observando geral e nos guiará por lá até algum lugar onde poderemos conseguir alguma informação útil.

– É... Paul... Por que estamos fazendo isso mesmo? Não íamos procurar pistas sobre o passado da Cherry?

– Eu sei, mas não podemos simplesmente ignorar isso. Se estão fazendo esse tipo de coisa, temos que acabar com isso!

– Ok, mas... como?

– Bem... nós descobrimos o que acontece por lá e... bem... nós...

– Eu tenho uma ideia. – disse Cherry – Vamos pegar provas de que eles fazem experimentos ilegais com seres humanos e vamos colocar isso na mídia. A UDH não deixaria isso sair impune.

– Isso! Então é só jogar a merda no ventilador. Ah e Cherry... Tudo bem para você fazermos isso em vez de pesquisar sobre seu passado?

– Tudo, eu não posso perdoar esses... monstros...

– Então está decidido. Cherry descubra como vamos pegar provas. Sarah banque o marinheiro de primeira viajem e não aja de forma suspeita. Faça as aulas de teatro valerem a pena.

– Mas... Eu nunca fui boa em atuar.

–... Então apenas me imite. Vai ficar tudo bem... pelo menos eu espero...