Paz Temporária - Sombras do Passado

10 ... A verdade dá um tapa na sua cara


Os três pegaram um frasco de clorofórmio, alguns sacos pretos e cordas. Colocaram os papéis, a Cherry, as cordas e os outros sacos dentro de um deles e foram até o escritório do Dr. Danny. Cherry havia prestado atenção nele apenas o suficiente para saber onde seu escritório ficava. Conseguiram chegar lá sem problemas. O escritório ficava no mesmo andar do que o do cientista de quem eles haviam roubado o cartão chave. A porta estava trancada e, após checarem com batidas, perceberam que estava vazia. Esperaram lá por cerca de 20 minutos até que o Dr. Apareceu e logo os reconheceu:

– Ora se não é o Dr. Mole. O que o traz ao meu humilde escritório?

– Dr. Slovac eu gostaria de uma segunda opinião sobre minha última cobaia.

– Oh, isso explica o saco preto. Houve algo de errado?

– Sim. Mas acho melhor tratarmos disso lá dentro.

– Verdade. Pode entrar.

– Ah. Eu agradeceria se o guarda pudesse entrar junto. Já que o espécime não está completamente morto.

– Sem problemas. Entrem.

Eles entraram na sala, que era quase idêntica a do outro cientista. Dr. Danny apontou para a mesa e Sarah colocou o saco em cima da mesma. Paul se posicionou ao lado de Danny que o olhou como se pedisse permissão para abrir o saco. Paul acenou com a cabeça e, quando Danny estava abrindo o saco, o golpeou na cabeça com um cinzeiro de mármore que estava na mesa. Ele apagou na mesma hora e caiu no chão. Cherry terminou de abrir o saco e entregou as cordas para Paul. Eles amarraram o cientista na cadeira e trancaram a porta do escritório. Paul pegou um frasco de álcool em um armário e usou seu cheiro para acordar o homem.

– Ah... Mas o que aconteceu... Minha cabeça dói...

Danny acordou muito confuso. Ao tentar colocar sua mão sobre a cabeça dolorida percebeu que estava preso e levantou rapidamente o rosto dando de cara com Cherry, que estava sentada sobre a mesa.

– Bom dia Sr. Slovac. Vou fazer algumas perguntas e adoraria que você colaborasse.

Ele olhou ao fundo e percebeu que ainda estava em seu escritório. Seu primeiro pensamento foi gritar por ajuda, mas sentiu algo gelado encostando em sua nuca. Não precisava ser um gênio para saber que aquilo era uma arma. Danny cerrou seus olhos com força e depois olhou novamente para Cherry:

– Não me olhe assim. Só quero algumas respostas. Não vou te machucar. Na verdade eu só preciso que você fique parado aí. Mas isso seria chato demais. Eu quero ouvir da sua boca os detalhes sobre esse caso.

Cherry mostra o documento para Danny, que dá um leve sorriso.

– Eu sabia que já tinha visto seu rosto em algum lugar. Nunca imaginei que nos encontraríamos novamente.

– Que bom que já entendeu a situação. Agora comece a explicar. Como eu vim parar aqui e o que vocês fizeram comigo?

– Então você veio atrás do seu passado. Parece que seu problema de memória é permanente. É bom que você esteja mesmo sentada, porque a história é um pouco longa.

– Prossiga.

– Sua família era pobre e seus pais tinham uma mercearia que rendia apenas o suficiente para mantê-los vivos. Corria tudo bem até que Cherland fez um ataque sem que estivéssemos preparados. Muitos homens foram convocados às pressas e seu pai era um deles. Ele morreu na linha de frente e sua mãe já não dava conta da mercearia sozinha. Vocês começaram a passar um belo aperto. Sua mãe queria o seu bem, então te deixou em um orfanato até que pudesse te sustentar novamente. Na época eu estava desenvolvendo uma substância que deveria melhorar a memória dos soldados para que eles ficassem mais eficazes. E, como eu precisava de uma cobaia, fui procurar nos orfanatos e acabei encontrando você. Tive que colocar sua saúde em dia antes de começar os testes então além de seu médico eu fui sua babá. Demorou pouco mais de um mês para deixar tudo certo. Foi quando eu testei a substância em você. Seu corpo não aceitou bem e você ficou morta por alguns minutos. Quando conseguimos ressuscitá-la você não se lembrava de nada. Após alguns testes notei que, apesar de não ter suas próprias memórias, você se lembrava de coisas que não podiam ter acontecido com você. Era como se você pudesse ver as memórias alheias. Os outros cientistas acharam que isso era algum tipo de problema psicológico devido à falha do experimento e decidiram que você deveria ser descartada. Eu ainda pretendia fazer mais alguns testes, mas não tive escolha. Quando te entreguei para os “carrascos”, você me olhou como se soubesse que ia morrer. Nunca me esquecerei daquele olhar de desapontamento. Você acabou conseguindo fugir por ser pequena e ágil. Eles falaram que você os distraiu contando coisas sobre seus passados. Um deles chegou a te derrubar com uma pedra, mas você já havia deixado a floresta e, quando ele ia pegá-la, uma viatura policial apareceu e te avistou. Depois disso houve um grande debate sobre o que faríamos a respeito disso. Mas depois que vimos as reportagens tivemos certeza de que sua memória era defeituosa demais para poder nos prejudicar. Aliás... Como você voltou para cá?

– Eu... Simplesmente encontrei esse lugar. E minha falta de memórias sempre me assombrou. Na verdade pode se dizer que foi ela que me trouxe até aqui.

– He... Quem diria. Deveríamos tê-la apagado quando tivemos chance.

– Pois é. Mais uma coisa... Vocês... Sabem algo sobre o paradeiro da minha mãe?

– Ela morreu pouco tempo depois de eu realizar o experimento em você. Parece que a saúde dela já estava ruim desde antes da morte de seu pai. Esse deve ter sido o motivo principal de ela ter te colocado no orfanato.

–... Obrigada... Isso me esclareceu muitas coisas. E quanto à sua substância. Ela funciona.

– O quê?

– Eu me perguntava como eu conseguia armazenar tantas memórias e me lembrar delas com tanta facilidade. Mas agora tudo está explicado. Só pode ser por causa desse seu experimento.

– Sério? He. Eu fico feliz em ouvir isso. É bom saber que aqueles anos de trabalho não foram em vão. Ah! Eu sempre quis te perguntar algo. Você vê os passados alheios mesmo, não é?

– Vejo. E foi com essa habilidade que eu cheguei até aqui. Talvez seja algum efeito colateral do seu negócio.

– Não... A falta de memória foi comprovada como efeito colateral. Mas esse lance de ver os passados... Nós não conseguimos explicar. Isso chegou a nos assustar. E foi por causa desse medo que decidiram se livrar de você. E parece que estavam certos.

– Pode apostar sua vida nisso. E se eu fosse você tentaria arranjar outro empregou ou, de preferência, sumir do país.

– Vou considerar essa possibilidade. Passei esses anos frustrado pela minha falha, apenas auxiliando outros cientistas em seus projetos enquanto tentava entender o que havia de errado com o meu. Saber que ele funcionou é minha passagem para fora desse lugar.

– Agora que já respondeu todas as minhas perguntas. Dr. Mole é contigo.

Paul colocou o pano com clorofórmio na boca de Danny, que apagou quase que instantaneamente. Ele ia coloca-lo no armário como havia feito com o outro cientista quando Cherry o impediu:

– Não. Deixe-o aí na cadeira mesmo.

– Você está louca? Ele vai contar para todos o que aconteceu aqui e vai fuder com a gente.

– Não. Ele não fará isso. Ele só queria completar a pesquisa dele. Ou seja, ele está pouco se fudendo para o que aconteça com esse lugar. Sem falar que... Ele cuidou bem de mim enquanto eu estava aqui...

Paul ia retrucar, mas Sarah colocou as mãos em seu ombro e o fez que não com a cabeça.

– Tudo bem então... Agora já podemos ir embora daqui. Vamos até aquele escritório para que eu coloque a roupa de guarda de novo.

Elas concordaram e os três foram até lá. Paul abriu o armário e molhou o pano que estava amordaçando o cientista de novo para que ele não acordasse tão cedo. Colocou a roupa de guarda e partiu carregando o saco com a Cherry e os papéis junto com Sarah. Passaram por alguns funcionários, mas estes nem lhe deram atenção. O elevador demorou mais ainda do que a última vez. Quando saíram da cabana, uma sensação coletiva de alívio foi sentida pelos três. Eles rapidamente foram até o local em que haviam deixado suas coisas. Por sorte estava tudo lá. Eles tiraram as roupas de guardas e as esconderam num buraco de uma árvore junto com o saco preto. Eles colocaram os papéis em suas mochilas e se afastaram o mais rápido possível daquele lugar. Eles continuaram correndo até depois de sair da floresta. Só descansaram quando chegaram até um parque próximo à casa da Cherry. Os três sentaram-se no banco e se olharam sorrindo. Estavam orgulhosos do que haviam feito. Depois disso eles iriam dar um jeito de expor aqueles documentos para a mídia, a UDH acabaria com aquilo e eles poderiam continuar suas vidas tranquilamente. Pelo menos era o que eles pensavam...