Paz Temporária - Sombras do Passado

11 E eles viveram felizes para sempre... Só que não


Eles já tinham tudo: respostas e documentos que condenariam todos aqueles infelizes sem que pudessem fazer nada. Na verdade faltava um único detalhe: encontrar um meio de divulgar isso para o mundo. Era nisso que eles estavam pensando ainda sentados naquele banco. Era certo que eles teriam que colocar aquilo na TV, mas como? Cherry acabou se lembrando de Drake, o garoto da organização “The Fallen Ones”:

– Tive uma ideia. Eu conheci um Fallen One. Eles vivem colocando pequenos vídeos sobre seus lances de religião na TV. Podemos perguntar para ele como eles fazem isso.

– Está falando daquele grupo de fanáticos que usam capas pretas e aparecem de vez em quando em praças para dar discursos? – perguntou Sarah.

– Esse mesmo.

– Hey! Eles podem ser estranhos, mas falam coisas realmente interessantes às vezes. – disse Paul um pouco nervoso.

– Tirando as opiniões pessoais de lado... Ele pode nos ajudar.

Paul e Sarah concordam e os três vão até a casa de Drake. Ele morava na parte rica da cidade. Sua casa era enorme e ele estava sentado na varanda olhando para o céu. Ficou confuso quando avistou Cherry e os outros dois. Ele se levantou e andou em direção aos três:

– Você é a garota daquele dia... O que faz aqui?

– Nós temos que colocar algo na TV, mas não sabemos como. Então decidimos perguntar para você.

Ele olhou em volta com desconfiança. Provavelmente estava checando se eles estavam sozinhos.

– Acho melhor falarmos disso lá dentro.

Eles entraram na casa. Havia móveis caros e vários enfeites nas paredes. Eles subiram uma escada e seguiram por um corredor até chegarem a um grande quarto contendo uma cama, uma estante cheia de livros e uma mesa com um computador de última geração. Ele fechou a porta depois que todos haviam entrado. Apontou para a cama, pedindo para que eles se sentassem e sentou em uma cadeira que estava na frente do computador.

– Então... O que vocês querem colocar na TV?

– Nós descobrimos uma instalação onde fazem experiências de todos os tipos em seres humanos e queremos por um fim nisso.

– Muito interessante. Se você deixar algum tipo de evidência comigo pode ter certeza de que os Fallen Ones mostrarão isso ao mundo.

– E deixar vocês com todo o crédito? Nem fudendo. – disse Paul. – Isso nem tem a ver com vocês. Se fosse algo contra o governo ou uma prova de que os Deuses existem eu até entenderia, mas o máximo que isso vai desencadear é a falência de quem financia aquele lugar.

– Complementando o que o Paul disse, nós só queremos saber como vocês colocam seus vídeos no ar.

– Entendo. O pessoal do jornal adora esse tipo de coisa. O governo nem faz nada porque a audiência é boa e quase ninguém leva a sério o que nós falamos. E eu tenho certeza de que uma notícia dessas será a matéria principal da noite.

– É exatamente isso que nós queremos. Quanto mais rápido a UDH ficar sabendo disso, menos tempo terão para queimar as provas... Se bem que temos o suficiente para não haver desculpas.

Drake disse o nome de seu contato e os três foram até a emissora. Eles contaram sobre o que queriam mostrar e foram recebidos de braços abertos. Os jornalistas os aconselharam a fazer um vídeo mostrando todas as provas mais chocantes e entregar para que eles pudessem transmitir no noticiário. Aceitando o concelho, o trio foi até a casa de Sarah e gravou o vídeo. O combinado era que Cherry contasse tudo o que haviam descoberto, mas ela era tímida demais para isso. Então Paul e Sarah o fizeram, enquanto Cherry apenas mostrava as imagens. Com o vídeo gravado e editado (com uma pequena ajuda do Drake), eles voltaram à emissora e o entregaram nas mãos dos jornalistas. Como Drake havia previsto, foi a matéria principal do dia. Todos ficaram chocados com a notícia, inclusive os pais dos pequenos grandes “heróis” (lembrando que eles omitiram a “expedição”). Sarah pegou um grande castigo, Cherry levou um grande sermão e Paul continuou na mesma. Pouco menos depois da primeira exibição da notícia, agentes da UDH chegaram à cidade e foram acabaram com aquela instalação. Inúmeras pessoas foram presas e a empresa que bancava tudo, a Biogen, acabou recebendo impostos pesados. A mesma empresa acabou falindo na semana seguinte. Com tudo acabando bem, o trio decidiu comemorar em um restaurante. A ideia foi do Sr. Winter, então foi ele quem acabou pagando.

– À vitória! – todos exclamaram enquanto faziam um brinde com refrigerante.

– O que vocês fizeram foi loucura, idiotice e nada vai mudar minha opinião sobre o assunto. – disse o Sr. Winter depois de tomar um gole de refrigerante. – Mas como tudo acabou bem... Vamos celebrar!

– Pena que não vou poder ficar muito... – disse Sarah um pouco desanimada. – Ainda estou de castigo...

– Não fique assim, Sarah. O importante é que você apareceu. – disse Paul abraçando-a.

– Pois é. Fechamos um “circo dos horrores” e descobrimos a minha história como bônus. Foi uma grande vitória.

– Droga! Já deu minha hora. Se eu chegar 5 minutos atrasada meu castigo vai ser prolongado. Tchau!

– Heh. Pobre Sarah.

– Convencer os pais dela a deixa-la vir aqui já foi difícil. Ainda bem que sua mãe aceitou fácil, Paul.

– Ela não se importa muito comigo. Desde que eu volte para casa ela está feliz.

Eles ficaram mais 2 horas no restaurante e depois foram para casa. Paul se separou deles no meio do caminho. Cherry e seu pai andavam tranquilamente. Era uma noite tranquila e silenciosa e a Lua iluminava o caminho dos dois. Ao chegarem em casa, Sr. Winter abriu a porta... E toda aquela tranquilidade sumiu. Ele foi recebido com um soco de um homem grande vestindo roupas pretas que cobriam todo seu corpo. Outros homens saíram da casa e puxaram os dois para dentro, trancando a porta logo em seguida. Um deles segurou Cherry, tapando a boca dela. Haviam pelo menos 6 deles. Eles começaram a agredir Rob, que tentava se defender. Rob, como qualquer outro morador de Harvyre, recebeu treinamento militar no colégio. Mas a situação não estava a seu favor. Cherry tentava desesperadamente se soltar enquanto via seu pai adotivo sendo surrado. Bateram nele o suficiente para que ele não conseguisse fugir. Logo depois, levaram os dois para a cozinha e os sentaram nas cadeiras. Havia outro homem os esperando lá. Ele fez um sinal com a mão e os outros saíram, provavelmente era o líder. Cherry chorava e suava frio. Só queria que aquilo fosse um pesadelo. Mas a certeza de que era realidade veio junto com um tapa que ela levou do homem que estava sentado à sua frente:

– Não adianta chorar pelo leite derramado garotinha. Você e seus amigos fizeram a merda, agora terão que pagar. Tragam eles!

Dois dos outros homens voltaram carregando Sarah. Ela estava bem surrada. A jogaram no chão da cozinha e ficaram de pé ao seu lado.

– E o outro?

– Parece que ele fugiu Senhor.

– Tsc. Então o que vocês estão fazendo aí parados? Vão atrás dele!

– Sim Senhor!

Eles se retiraram com pressa. Cherry mal conseguia se mover. Estava em choque com a visão de seu pai e sua melhor amiga inconscientes de tanto apanharem. O homem levantou-se e deu um chute em Sarah.

– Pare! – gritou Cherry. – O que você quer?

– Vocês ferraram muita gente com aquele vídeo. Tem noção do quão importante aquelas pesquisas eram?

– Eu...

– Elas serviam para melhorar nosso exército. Sem elas nós já teríamos perdido a guerra há muito tempo!

– Você... Vai nos matar não vai?

– Normalmente nós torturaríamos vocês até a morte, mas esse é um caso especial. Vocês têm algo que nos pode ser útil e estamos dispostos a negociar.

– O que vocês querem?

– Você.

– O... O quê?

– Sua vida pode poupar a vida de seus amigos e de seu pai. Seu poder se mostrou uma arma muito eficaz. E o exército tem planos para você. Então se concordar em nos servir, perdoaremos os outros.

– Heh... Exército... Eu não sabia que o buraco era tão fundo...

– Isso porque é idiota. É óbvio que o governo sabia da existência daquela instalação. Nosso país vive em guerra e precisa do exército para se manter de pé. Alguns chamam de ditadura, regime militar... Eu chamo de esperança.

– E você quer que eu faça parte disso...

– Che... Cherry... Não faça isso... – disse Sarah quase sem forças.

– Ou você aceita minha proposta. Ou todos vocês morrem.

– Eu... Eu... Eu... Quero que você me prometa que os deixarão em paz...

– Você tem a minha palavra. Afinal, não precisamos deles.

– Se eu ficar sabendo que aconteceu algo com eles... Eu me mato!

– Filha... Não faça... Isso...

– Des... Desculpe-me pai... Desculpe-me Sarah... Mas... Nada disso teria acontecido se eu não estivesse aqui... Vocês sofreram por minha culpa... Então... Nada mais justo do que eu sofrer por vocês daqui para frente.

– Muito bem. Vamos sair daqui. Deveria se despedir deles. Afinal, é a última vez que vocês vão se ver.

Cherry abraçou Sarah e depois deu um beijo no rosto de Rob, seguido de um forte abraço.

– Adeus... Obrigado por fazerem coisas tão grandes por uma pessoa tão pequena quanto eu.

Cherry e os homens saíram da casa enquanto Rob e Sarah choravam e tentavam se levantar. Aquela noite mudou a vida de todos eles para sempre. Os homens haviam matado os pais de Sarah e a mãe de Paul. Ele só conseguiu fugir porque percebeu que havia algo errado antes de entrar em casa. Depois de uma hora, Rob conseguiu se levantar e chamou uma ambulância. Sarah tinha uma fratura exposta no braço esquerdo e foi internada por ter perdido muito sangue. Depois de se sentir seguro, Paul foi checar as casas de suas amigas. Ele só ficou sabendo onde o que havia acontecido com Sarah, Rob e Cherry no dia seguinte. A semana que se seguiu foi marcada por um vazio. Aquele sentimento de vitória foi apenas uma ilusão. Foi como se eles tivessem alcançado o pico da maior montanha do mundo só para cair de lá e se esborrachar no chão. O enterro de sua mãe e dos pais de Sarah aconteceu no final da semana. Demorou mais do que o esperado por diversos motivos óbvios. Sarah nem ao menos pôde comparecer, pois ainda estava internada. No final do enterro restaram apenas Rob e Paul, que olhava fixamente o lugar onde sua mãe estava enterrada. Rob colocou a mão em seu ombro como sinal de pesar e apenas ficou parado em silêncio. Apesar das mortes, o que mais o deixava inconformado era o fato de terem levado a Cherry para fins militares. Sua cabeça doía só de pensar que, mesmo com todo seu ódio pelo exército e pelo governo (que eram praticamente a mesma coisa), ele não tinha conseguido fazer nada para impedi-los de acabar com sua família, a família de Sarah e ainda por cima levar Cherry como um troféu. Lágrimas de tristeza e raiva escorriam por seu rosto. Por alguns segundos apenas o barulho dos pássaros podia ser ouvido. Mas Paul enxugou suas lágrimas com seu braço direito e levantou sua cabeça:

– Isso ainda não acabou...

Notas finais
P-p-p-p-plot Twist~ Eu tenho certeza (na verdade quase) de que vocês não esperavam por isso (mas eu posso estar errado~). Esse era um ponto em que eu queria chegar desde que comecei a escrever. Ah! E a história ainda não acabou~ Espero que estejam gostando da história e que tenham gostado desse capítulo em particular (eu adorei escrever saporra *u*). Até o próximo capítulo~