Paz Temporária - Sombras do Passado
6 Hora de organizar uma expedição
Cherry não havia dormido aquela noite. Ela já tinha suspeitas de que isso aconteceria, perdia o sono com muita facilidade. Tomou seu café da manhã e foi para a escola. Quando chegou sentou no lugar de sempre e, como havia chegado cedo, deitou a cabeça na carteira e acabou cochilando. Foi acordada por Sarah e as duas começaram a conversar. No intervalo, as duas sentaram sozinhas na mesma mesa de costume e começava a almoçar quando foram interrompidas por alguém:
– Baixinha, não sabia que você era amiga da Sarah.
As duas se viraram e viram Paul com sua bandeja de almoço nas mãos.
– Vocês se conhecem? – perguntou Sarah.
– Sim, a gente se conheceu ontem.
– Pois é. Agora se me dão licença.
Paul rapidamente sentou-se à mesa e começou a comer.
– O que houve com aqueles babacas com que você andava, Sarah?
– Ah... Eu percebi que eles eram babacas mesmo...
– Eu sempre te avisei.
– Pois é... Mas o que importa é que agora eu estou com pessoas decentes, não é Cherry?
– Oh... Eu não sei se me chamaria de decente, mas...
– Ah, para com isso, essa baixinha boladona até entrou na Red Moon Forest sozinha ontem.
Sarah arregalou os olhos e se virou para Cherry.
– VOCÊ É LOUCA?
– Er... eu não... eu...
– Você podia ter morrido!
– Eu... sei é só que...eu tinha algo para...
– Nunca mais entre lá sozinha tá? Eu não quero perder uma amiga como você...
– Tudo bem... eu não vou mais entrar lá sozinha... mas aquilo não foi em vão.
– É? Por quê? Achou alguma pista sobre sua vida ou algo do tipo? – perguntou Paul.
– Não, mas achei uma cabana aparentemente abandonada e caindo aos pedaços. Lá dentro tem uma estante com alguns livros velhos e um incrivelmente conservado. Atrás dele tem um botão, mas não consegui apertar para ver o que fazia.
– Por que você não apertou? Eu não resistiria! – disse Paul com a animação de uma criança com um brinquedo novo.
– Bem, eu tive que me esconder porque tinha alguém vindo. Fiquei atrás de uma moita e vi dois homens saindo de um buraco que se abriu do lado da estante. Eles usavam máscaras de oxigênio e aquelas roupas de quem não quer se contaminar, sabe? Enfim, eles carregavam um grande saco preto. Depois disso eu fui embora.
Sarah olhava assustada para Cherry enquanto Paul estava maravilhado com o que acabava de ouvir.
– Está decidido! – disse Paul – Vamos para essa cabana e descobriremos que merda está rolando por lá.
– O quê?! – gritou Sarah inconformada.
– É! Vamos lá no final de semana. Como hoje é terça, eu consigo arranjar uns suprimentos e talz.
– Vo... você está brincando não é? Isso é loucura!
– Eu concordo em parte com a Sarah, Paul... Não sabemos o que pode nos esperar.
– Mas essa é a melhor parte! E vai que isso tem alguma coisa a ver com seu passado, Cherry.
As duas ficaram em silêncio por alguns segundos. Cherry ameaçou dizer algo, mas foi interrompida por Sarah:
– Eu acho melhor nã...
– Tudo bem! Se pode ter alguma ligação com a Cherry então eu concordo!
– Anh? Sarah, você deve estar...
– Então está decidido! Vou providenciar algumas coisas ao longo da semana. Faça o mesmo se puder Sarah.
– Tudo bem. Verei o que posso arranjar.
– Vocês... Estão falando sério?
– Claro! Eu sempre quis fazer algo desse tipo. Você sabe bem que essa vida escolar totalmente normal me dá nos nervos.
– Eu sei, mas... Não acho que vocês deveriam se arriscar por alguém como eu.
– Não fale algo desse tipo, Cherry! É pra isso que servem os amigos... Pelo menos os de verdade. – disse Sarah.
Cherry ficou encarando os dois, que sorriam para ela, e mal podia acreditar naquilo. Seus olhos se encheram d’água. Ela esfregou seus olhos com seu braço e depois sorriu.
– Tudo bem então... Vamos descobrir que merda está acontecendo por lá!
Os três ficaram discutindo sobre o que levar na “expedição” durante o resto do intervalo. A aula aconteceu normalmente e os três se despediram no final dela. Cherry pensava no que poderia acontecer na floresta enquanto voltava para casa. No meio do caminho viu um pequeno tumulto na praça e decidiu conferir. Havia três homens com mantos pretos com um símbolo nas costas. Havia também dez pessoas normais que pareciam vaiar o grupo. Cherry se aproximou um pouco e pôde ouvir os comentários de algumas pessoas:
– Tsc, esses caras têm problemas. Onde já se viu falar de religião em plena praça?
– Pois é. Mas fique tranquilo. Daqui a pouco o exército chega e manda esses loucos de volta para o manicômio de onde saíram.
– Eles não são daquele grupo de lunáticos que aparece na TV de vez em quando? Qual era o nome deles mesmo...
– The Fallen Ones.
– Isso mesmo! Como esses idiotas podem acreditar em algo tão estúpido como... Deus.
As pessoas riam e vaiavam o grupo. Cherry os observou por algum tempo e se afastou quando alguns militares chegaram e colocaram os três homens para correr enquanto o público ia ao delírio. Cherry não conseguia achar graça daquilo, só via pessoas tentando espalhar uma palavra de bondade e humildade e sendo rejeitadas apenas por se tratar de religião. Ela decidiu voltar para seu caminho rotineiro, mas parou ao ouvir alguém falando com ela:
– Deprimente... Não é, garota?
Cherry se virou para conferir quem havia lhe perguntado e encontrou um garoto de uns 18 anos, cabelos negros e curtos e olhos tão negros e vazios quanto a escuridão da Red Moon Forest.
– Falou comigo?
– Sim, não acha isso tudo deprimente? A sociedade rejeita qualquer coisa que seja relacionada ao lado espiritual das coisas, mesmo seja apenas uma mensagem de amor ao próximo...
– Pois é. Eu não acredito no sobrenatural e coisas assim, mas não vejo nenhum motivo para menosprezar uma mensagem simples como essa apenas por estar ligado a algum tipo de religião.
– Heh, parece que meu palpite estava certo. Pensei que você também não concordava com essa atitude primitiva pelo modo com que observava o tumulto.
– É, parece que você é bem perceptivo Drake.
– Como você... Já nos conhecemos de algum lugar?
– Não nos conhecemos, mas estou descobrindo bastante coisa a seu respeito, Fallen One.
Drake a olhava com desconfiança.
– Como você sabe disso?
– Fique tranquilo, não sou ligada a nenhum tipo de organização que possa querer acabar com vocês. É que eu consigo ver o passado de quem encaro por algum tempo.
– Ver o passado... espere... acho que já vi uma notícia com algo assim em algum lugar... Ah! É verdade, eu li sobre isso num jornal há uns dois anos atrás. Você é aquela garota que foi achada perto da Red Moon não é?
– Nossa. Não imaginava que alguém se lembraria disso. Aliás, você é o primeiro. Mas sim, sou eu.
– Heh, isso deve ser muito útil, não?
– Um pouco, mas não compensa o fato de foder com minha sanidade constantemente.
– Oh... Entendo...
– Vai por mim, cara. Você não entende.
Drake ficou em silêncio por alguns segundos totalmente sem graça. Pensou em ir embora, mas Cherry comentou algo que chamou sua atenção:
– É engraçado como as pessoas se importam mais com esse tipo de coisa do que com a guerra que já está rolando há mais de 100 anos...
– Pois é... E a UDH não faz nada...
– Essa sigla me é familiar... que merda é essa mesmo?
– A União de Desenvolvimento Humanitário é uma organização formada por países de primeiro mundo que interfere em situações críticas entre países subdesenvolvidos para garantir que o mundo “respeite” os “direitos humanos”. Mas eles só interferem de verdade se algo bem perturbador cair na mídia.
– Oh... Então é uma organização que apenas finge se importar com as pessoas, mas na verdade só tapa buracos?
– Mais ou menos isso. Ou seja, eles não vão fazer nada para parar esses massacres porque os governantes de ambos os países envolvidos nessa guerra são ditadores e não querem obstáculos no caminho de seus progressos.
– Bem... Não podemos fazer nada se o ser humano é naturalmente egoísta não é?
– Nós da The Fallen Ones tentamos mudar esse lado, mas ninguém nos ouve...
– Se vocês não tentassem tanto impor uma religião e apenas passassem as mensagens, talvez fossem ouvidos.
Cherry virou seguiu seu caminho de casa enquanto Drake a observava perplexo. Ele buscava argumentos para combater o que ela acabara de dizer, mas não encontrava nenhum. Quando se tocou, Cherry já havia sumido de vista, então decidiu ir para casa.
Ao chegar em casa, Cherry deitou em cima cama e ficou apenas observando o teto por meia hora. Depois tomou um banho e ficou sentada em sua cama planejando o que levar e o que fazer no dia da “expedição”. Ela sentiu uma estranha sensação de ansiedade e alegria. Cherry nunca quis que um final de semana chegasse tão rápido quanto esse.
– Heh... isso vai ser... interessante. – dizia com um sorriso largo em seu rosto.
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