Paz Temporária - Sombras do Passado
9 E quando você menos espera...
Depois de pegar o jaleco e o cartão chave do cientista, Paul o amarrou com alguns tubos finos de plástico (que são usados para transfusão de sangue, injetar medicamentos e etc.), o amordaçou com o pano que havia suado anteriormente, o colocou no armário e trancou a porta do mesmo. Vestiu-se com o jaleco e uma máscara cirúrgica e luvas de látex. O plano estava pronto para começar e tudo estava nas mãos dele.
– Tudo bem... Sarah, não saia de perto da Cherry e fique com sua arma preparada caso dê merda. Vamos tentar passar por todos sem ser percebidos e caso alguém nos interrompa deixe que eu falo.
Eles saíram da sala e trancaram a porta. As mãos de Paul tremiam e suas pernas estavam bambas. Ficou imóvel por alguns segundos sem conseguir se mover. Suava frio. “Qualquer erro e tudo estará perdido” pensava. Sua respiração começava a ficar ofegante e a máscara só atrapalhava. Estava quase pronto para desistir e sair dali quando sentiu uma mão no seu ombro:
– Vai ficar tudo bem. – disse Sarah em um tom suave e tranquilizante. – A gente vai dar um jeito.
Quando se deu conta a tremedeira havia passado e já conseguia se mover. Ele sorriu, mesmo que a máscara impedisse que as garotas vissem seu sorriso, e deu um tapa na própria cabeça:
– Eu sou um idiota mesmo. Fraquejando na pior hora. Você está certa Sarah. Vai dar tudo certo.
– E se não der é só fazer como você disse: “correr pra caralho”. – disse Cherry com um sorriso no rosto.
Os três riram um pouco, mas logo recuperaram a seriedade e foram caminhando até o elevador. Apertaram o botão do último andar e esperaram. Aqueles 50 segundos pareceram uma eternidade ara os três. Já não havia mais volta. Mas, mesmo estando muito nervosos, nenhum deles sequer pensava em desistir ou falhar.
A porta do elevador se abriu e eles começaram a caminhar. Paul ia na frente enquanto Cherry ficava no meio e Sarah atrás. Cherry havia dado instruções para Paul enquanto estavam no elevador e este seguia seu caminho sem nem olhar para os lados, passando por vários funcionários do local. Alguns estranhavam o trio, mas estavam ocupados demais para fazer algo a respeito. Tudo corria bem e faltava muito pouco para chegarem ao pavilhão de testes. Paul estava tão concentrado que quando virou em um corredor acabou esbarrando em um cientista:
– Olhe por onde anda cara.
– Me desculpe, é que estou com pressa.
– Tsc, fazer o quê...
Paul já ia voltar a andar quando é interrompido pelo homem:
– Hey. Eu acho que nunca te vi por aqui.
– Digo o mesmo. Vim de fora para realizar alguns testes importantes.
– Hm... Qual é seu nome?
– Meu nome? Eu sou Charles Mole.
– Nunca ouvi falar de você. Se é de fora trabalha em que empresa?
– Não trabalho em empresa alguma, sou apenas um rico apaixonado pela ciência e disposto a gastar cada centavo meu para provar minhas teorias e testar minhas invenções. E como tempo é dinheiro eu gostaria de chegar à área de testes o mais rápido possível.
– Oh... Desculpe-me Sr. Mole. Pode seguir em frente. À proposito. Meu nome é Danny Slovac caso precise de algo ou... Conheça alguém que precise...
– Tudo bem. Vou me lembrar disso.
O cientista foi embora e Paul logo seguiu em frente. Eles entraram no pavilhão e começaram a procurar por uma sala vazia. Entraram acidentalmente em uma ativa e se depararam com um homem cortando um ser que provavelmente já fora uma pessoa com um bisturi. Apesar da cena chocante, eles logo saíram e entraram em uma sala vazia. Paul rapidamente trancou a porta e, logo em seguida, ficou de costas para a mesma, se escorou nela e soltou um grande suspiro.
– Você foi incrível! – diz Sarah pulando em cima do Paul em um abraço – Enganou o cara direitinho!
– Meus parabéns. – diz Cherry aplaudindo.
– Lembram-se do que eu disse sobre o momento de maior cagaço da minha vida? Esqueçam daquilo. ESSE foi o momento de maior cagaço da minha vida.
– Não fique assim. Você foi ótimo! Aliás... De onde você tirou aquele nome?
– Sei lá. Juntei o nome de um apresentador de um programa que eu assisto com o de um dos nossos professores.
– Épico. – diz Cherry. – Agora... Temos que resolver como chegaremos até o local de armazenamento dos resultados lá.
– Eu poderia ir, mas... Seria brincar com a sorte... – diz Paul.
– Já sei! – exclama Cherry – A Sarah vai. E se alguém perguntar alguma coisa, diga que foi enviada pelo Danny.
Paul e Sarah se encaram por alguns segundos. Sarah largou Paul e pulou em cima da Cherry.
– Cherry! Você é um gênio em miniatura!
– Heh. Você não deixa nada escapar mesmo hein pequena.
– E nem posso. Meus olhos não me deixam ignorar esse tipo de coisa.
Sarah saiu da sala, que foi trancada logo após sua saída, e usou as instruções para chegar à sala onde armazenavam os resultados das pesquisas. Ao chegar lá, checou nos arquivos e colocou todos os papéis que tinha a ver com algum tipo de pesquisa em uma bolsa que tinha encontrado na sala de testes. Saiu de lá rapidamente evitando todo tipo de contato visual com os funcionários e rapidamente bateu na porta da sala em que os outros dois esperavam. Paul abriu a porta e a trancou após a entrada de Sarah. Não havia tempo a perder. Sarah logo despejou os papéis na mesa e os três começaram a ler. Todos estavam chocados com o que liam. Eram dados sobre pesquisas genéticas de modificação estrutural, hormonal e testes de armas biológicas e químicas em pessoas. A maioria das pessoas usadas como cobaias eram indigentes, órfãos ou até mesmo presos. O pior eram as fotos. Todas mostravam o “antes e o depois” das experiências. Pessoas normais se tornando montes de carne ou ficando totalmente deformados e mutilados. A raiva e o nojo iam crescendo dentro daqueles três adolescentes. Assim como a vontade de acabar com aquilo. Fazia mais ou menos 20 minutos desde que começaram a ler os papéis. A expressão nos rostos dos três era a mesma. Isso até que Sarah começou a ler um documento um pouco antigo e arregalou os olhos.
– Che... Cherry... Paul... Deem uma olhada nisso aqui...
Eles se aproximaram e começaram a ler o documento. “Teste de substância neural administrada pelo Doutor Danny Slovac. Cobaia número 3758 Cherry Blitkrieg apresentou falhas no sistema nervoso após a aplicação da substância e seu corpo ficou sem sinais vitais por cerca de 10 minutos. O resultado foi uma perda na memória e uma estranha perturbação no psicológico. A cobaia foi sentenciada a descarte, mas fugiu para a civilização. Foi encontrada antes dos funcionários, o que tornou a erradicação impossível. Mas como apresentava defeitos na memória não se mostrou uma ameaça. Veredito: deixe que a vida acabe com ela.”
Houve um momento de silêncio enquanto todos olhavam espantados para aquele pedaço de papel. Não conseguiam acreditar no que haviam acabado de ler. Cherry pegou o documento das mãos de Sarah e o releu para tentar acreditar naquilo. Sua falta de memória havia sido justificada, mas ainda não sabia como foi parar naquele lugar horrível. Várias perguntas começaram a surgir na mente da pequena garota que apenas tentava digerir o fato de ter sido usada e descartada como lixo por aqueles homens. De repente, Cherry delicadamente colocou o documento em cima da mesa enquanto olhava para baixo, levantou seu rosto com um olhar determinado e disse:
– Já temos o suficiente para incriminar esses filhos da puta. Vocês dois podem voltar para a cidade e dar um jeito de expor isso tudo. Eu tenho que resolver algo aqui primeiro.
– He. Você acha mesmo que vamos deixar você sozinha? – disse Paul. – Não se esqueça de que o objetivo inicial dessa “expedição” era descobrir pistas sobre seu passado.
– Pois é. Vamos aproveitar que o Sr. Mole ali fez amizade com esse tal de Danny e vamos tirar essa história a limpo.
–... Tudo bem então. Paul pegue o clorofórmio porque vamos precisar dele mais tarde. Temos um interrogatório para fazer.
Fale com o autor