Past Vs Future

44 Capítulo 44 - Negócios


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Capítulo 44

Negócios

Apesar da minha vontade de proteger William da futura terrível dor de costas de dormir ali no chão, detive essa mesma vontade e levantei-me com toda a delicadeza que apenas um vampiro tem. Dei uma volta pela pequena casa de William.

Como qualquer estudante universitário que arrendava casa sozinho, esta era constituída apenas por uma kitchenet na própria sala, a sala era rodeada por estantes e desenhos nas paredes. Nas estantes repousavam alguns objectos de arte, presumi que executados pelo próprio William. As paredes eram cobertas por retratos fotográficos ou desenhos, alguns de paisagens, animais, pessoas que provavelmente ele encontrava na rua. Eram bastante bons. Houve uma foto que cativou um pouco a minha atenção.

Era uma foto a preto e branco, de duas crianças a brincar. Uma menina com cerca de 7 anos e o menino não teria mais de ano e meio. William conseguiu captar a essência daqueles meninos, o brilho nos seus olhos, a alegria da menina de ver o mais pequeno dar alguns passos na sua direcção. Aquela foto falava por si. Ela irradiava felicidade.

Essa felicidade era-me familiar. Não que usufruísse dela recentemente, pelo menos não com aquele entusiasmo, aquela alegria. Provavelmente sentira-a numa outra vida, no entanto era-me familiar.

Após a minuciosa inspecção às obras de arte de William, debrucei-me sobre uma mesa ao qual William tinha designado como mesa de apoio aos seus trabalhos. Ao contrario da maioria dos humanos, que a usava para fazer refeições ou assim. William era um simples estudante humano, e como tal, aquela era a sua mesa para estudos e suporte para as suas mais recentes obras de arte. O jantar, esse, realizava-se no chão na pequena mesa de apoio, ou mesmo no sofá. Como ele me explicara nessa noite, "é mais acolhedor e prático. Assim o meu atelier fica sempre perto de casa". A realidade é que se encontrava no mesmo espaço, apenas dividido por um sofá que se encontrava no meio da sala, em frente a uma TV.

Abri o caderno de desenhos que William levava para a praia, à semelhança da sua parede, encontravam-se vários desenhos de paisagens e desconhecidos. Da mesma forma que os desenhos da parede, estes estavam datados e assinados pelo próprio William. Tenho que admitir que o desenho que mais me surpreendeu foi um que tinha a data de um dia da semana passada, aparecia uma rapariga triste. Não havia lágrimas, mas a sua expressão era de quem chorava por dentro. Essa rapariga era deveras semelhante a mim.

Um nó formou-se no meu estômago, e voltei a ser assaltada pela mesma tristeza. Era uma tristeza de não ter uma casa, uma família. De a minha vida ter dado uma volta de 180º apenas porque eu decidi descobrir quem era, e com essa decisão originou a dor e morte de muita gente. Gente essa, que significa muito para mim, que eu amo.

Fechando o caderno dirigi-me ao quarto de William. Quando lá cheguei reparei que os lençóis e cobertores estavam amontoados ao fundo da cama, e uma quantidade considerável de roupa repousava em cima de uma cadeira. Caminhei até me posicionar no pequeno espelho que William tinha em cima da cómoda, olhei para a rapariga que se encontrava lá. Estava tão diferente daquele retrato que tinha visto à segundos atrás, estava mais alegre. Apesar de os olhos estarem um pouco mais escuros.

Iria ter que tratar do assunto dos olhos, apenas para William não reparar, um artista como ele está habituado a observar todos os pormenores, e eu não queria que um simples olhar pusesse tudo a perder nesta nova amizade.

Dirigi-me novamente para a sala, voltei a lutar contra a vontade de levar William para a cama. Nunca na vida, eu, como humana, conseguiria transportar um rapaz daquele porte até à cama sem o mesmo acordar.

Ao invés disso peguei no cobertor que seria para nos aconchegar nessa mesma noite, e cobri William. Antes de me deitar perto de William, evitando o contacto com ele, para este não sentir o frio que emanava da minha pele, apressei-me a eliminar os restos da comida que eu tanto tentei esconder durante o jantar.

William estava bastante pacífico a dormir e inquiri-me o porquê de eu me sentir tão bem, tão confortável perto dele. E quem é que ele me fazia lembrar?

O dia começou a clarear, e com ele regressaram as nuvens cinzentas. William começou a despertar, e eu apressei-me a cerrar os meus olhos, fingindo que também tinha adormecido. Ouvi um sorriso abafado quando ele se apercebeu que ambos tínhamos adormecido ali, seguido de um “ai” quando se levantou e se apercebeu do erro que tinha sido para as suas costas.

-Maldito chão! – murmurou ele. Depois, apercebendo-se de que eu estava descoberta, ao contrário dele, apressou-se a passar o cobertor para cima de mim. – Estás gelada. – disse para si mesmo quando sentiu o frio através da minha roupa.

Fingi acordar com o toque dele. Tentei parecer desorientada, como se não me lembrasse ao certo onde estava.

-Olá! – disse eu a William que me brindou com um sorriso.

-Olá. – ainda com o cobertor na mão de me tentar proteger do frio disse – Desculpa, acho que não fui muito cavalheiro esta noite. Roubei-te o cobertor.

Lentamente sentei-me, lembrando-me que assim como William eu deveria ter uma dor exorbitante nas costas. Tentando parecer irreflectida passei a mão na minha zona lombar fazendo uma cara de desagrado.

-Pois, também me dói a mim. Acho que vai ser o meu próximo projecto, acolchoar o chão da sala, o que achas? – William olhava para a pequena área que ele tinha delimitado como sala da sua casa.

-Parece-me bem. Até podes mais tarde abrir uma empresa para isso mesmo, eras capaz de ter bastantes clientes.

-Então não era. Já estou a imaginar “Poupe dinheiro, faça do chão a sua cama!” – enquanto dizia o slogan William fazia o gesto com os braços como se fosse um cabeçalho de algo que se encontrava à sua frente. Exibia também um olhar sonhador.

-Mas tinha que ser plastificado, ou num tecido que desse para limpar mais facilmente que o tapete que aqui tens – disse eu apontando para uma mancha do vinho da noite anterior. – Aliás, tinha que ser algo que combinasse com o chão do atelier.

-Quanto á mancha, pega-se em algumas tintas, marcadores ou assim, e o que era uma mancha pode passar a uma obra de arte. – William levantou-se pegou num marcador preto grosso, e começou a fazer uns desenhos no tapete, disfarçando assim a mancha de vinho. — Quanto ao chão a combinar, seria na mesma cor que o chão que tenho agora. Assim como alguns lençóis têm padrões, este chão acolchoado também o teria. – Quando terminou tinha uma cara demasiado séria e sábia.

-E não seriam uns padrões quaisquer, seriam uns padrões made in William – brinquei eu imitando também uma cara séria.

-Como é óbvio! E tu serias a minha sócia. Afinal de contas a ideia também foi tua. Já estou a imaginar “colCHÃO Willine”.

Foi a gota de água, aquele nome de William arranjou para a empresa tinha-me matado, fazendo com que quebrasse a minha concentração para ser séria e sábia.

-colCHÃO Willine?!?! – perguntei eu entre risos.

-Sim, colCHÃO por causa do chão que vira colchão. E Willine é a junção de William e Caroline. Acho que a junção até foi de forma justa, três letras do meu nome e três letras do teu e uma comum aos dois. – William olhava para mim como que á espera da minha reacção para ver se eu tinha percebido o porquê daquele nome. Depois ambos nos rimos.

-Bem, acho melhor despachar-me. Daqui a meia hora tenho aulas. Podemos tomar o pequeno-almoço na Starbucks em frente à minha casa. — disse William quando me dirigiu um enorme sorriso.

-Por mim tudo bem. Espero-te aqui. – lancei-me em cima do sofá e peguei no comando e liguei a TV, começando a passar por todos os canais. Parei num que estava a falar sobre um mundo mágico de feiticeiros. Sorri e fiquei por ali. Nunca me tinha interessado pelo Harry Potter, mas hoje em dia não se via mais nada na rua a não ser reclames ao último filme que estaria nos cinemas em breve.

William tomou um banho rápido e vestiu-se, enquanto eu ouvi algumas das entrevistas aos actores que davam vida aos três feiticeiros.

Já na Starbucks, ambos pedimos um café americano e um donuts. Como já se fazia tarde iríamos comer pelo caminho.

-Precisas que te leve a algum lado? – perguntou William entre uma dentada no seu donuts e uma golada no seu café.

-Não, obrigado. Eu vou para o sentido oposto à tua faculdade. Aliás, já estás atrasado. – olhei para as horas, comprovando assim que tinha razão. William despendia apenas de alguns minutos para chegar à sua primeira aula.

-Nem penses, não vais andar por aí quilómetros. Eu levo-te. – insistiu ele.

-A sério. Vai. Além disso – apontei para o saco onde continha a minha câmara fotográfica – faz-me bem andar, sempre posso conseguir a foto que vale milhões. Afinal de contas uma miúda tem que conseguir pagar o seu café. – levantei o copo e brindei-o com um sorriso. – Vá. Adeus William, obrigado por esta noite.

-Sempre às ordens. Prometo que vou trabalhar no projecto colCHÃO para a próxima que lá fores dormir. – exibiu um sorriso trocista e beijou-me a testa. – Olha anda ter comigo às 18 horas à faculdade, podemos fazer qualquer coisa juntos. Até me podes ajudar a fazer um trabalho para a cadeira de artes plásticas.

-Ok. Eu estarei lá. Até logo William – disse já afastando-me dele.

Quando virei numa esquina deixei de estar no campo de visão de William, permitiu-me acelerar um pouco mais o passo. Passei por um sem abrigo que teria uma bela carreira de arquitecto, devido à bela casa que ali tinha construído com caixas de cartão. Depositei o donut e o café perto dele sorrindo.

-Obrigado! – disse o pobre homem antes de se lançar ao seu mais recente pequeno-almoço.

O pequeno-almoço daquele homem fez-me lembrar do meu próprio pequeno-almoço, fazendo a minha garganta arder por antecipação. Já tinha decidido alimentar-me mais regularmente não só para William não se aperceber da mudança da cor dos meus olhos, como também para não cometer uma loucura quando estivesse perto dele. Assim se estivesse completamente saciada da minha sede, sabia que havia menos riscos de cometer algum homicídio.

Corri para as margens da cidade e embrenhei-me num bosque, conhecido como bosque de Arrayanes, longe dos locais visitados por turistas. Fazia de facto lembrar o filme “Bambi” da Disney. Por coincidência encontrei alguns veados, ao qual um deles, acabou por se tornar a minha refeição.

Após o meu banquete decidi repousar no chão daquele bosque tão cheio de magia “Disney” olhando para as cores, tão diferentes dos bosques em Forks. Estes eram da cor da canela, com árvores de troncos largos com manchas brancas. Estava absorta naquele meio quando o meu telemóvel tocou. Peguei nele e vi o nome Edward a piscar.

Durante seis meses nunca tinha respondido a uma chamada de Edward, normalmente quando o nome dele aparecia no meu ecrã, assim como o de qualquer outro Cullen, ou mesmo Jayden, eu voltava a guardar o telemóvel e deixava a tocar. Apenas as chamadas de Angel é que eu atendia.

No entanto Edward nunca perdera as esperanças e voltava sempre a ligar. Por vezes mandava mensagens também, a perguntar se eu estava bem.

Angel tinha dito que todos estavam demasiado preocupados comigo, temiam que os Volturi viessem atrás de mim e eu estivesse sozinha. Disse também, que Edward e Bella estavam a tentar salvar a relação deles, pelo bem da Renesmee. Já conseguiam estar juntos sem se ignorar. Isso deixou-me um pouco mais feliz.

Eu amava Edward, sabia isso melhor do que nunca. Este tempo afastados deu para perceber ainda mais isso. Não havia um único momento em que ele não ocupasse 50% ou mais dos meus pensamentos. E olhem que nós conseguimos pensar em muita coisa. Em contrapartida, neste últimos momentos na presença de William, esses pensamentos reduziram para 35%.

Ainda olhava para o telemóvel pensando se deveria atender, ou não.

Afinal já lá iam seis meses, não estaria na altura de enfrentar a realidade?