Past Vs Future
4 Capítulo 4 - Poder
Capitulo 4
Poder
Tirei as minhas roupas sujas e rasgadas e entrei para o chuveiro. Deixei que a água quente me escorresse da cabeça até aos pés, a sensação fazia-me descomprimir e aos poucos comecei a relaxar. O tempo passava sem que me preocupasse em o contar. Por fim fechei a água e enxaguei-me a uma toalha macia. Pela primeira vez, em todo este tempo que tinha passado com o Angel, sentia-me limpa. Já não tinha a sensação do sangue seco na minha barriga, o mesmo que estava no vestido de casamento que trazia vestido quando me transformei. Aquele facto ainda me intrigava, porque razão teria um vestido de casamento no corpo? Será que me iria casar naquele dia quando algum vampiro me mordeu? Mas se assim fosse, porque razão não havia cartazes nas ruas à minha procura? Não estaria a minha família e amigos preocupados com o meu desaparecimento? E o meu noivo? Ao pensar nisso senti um aperto no coração, ou pelo menos no sítio onde ele costumava estar a bater. A minha respiração prendeu-se por momentos. O que significava tudo aquilo? Como pode o corpo sentir o que a memória não se lembra?
Enrolei a toalha à volta do meu corpo e caminhei para o centro da enorme casa de banho. Num dos lados da parede estava um espelho de corpo inteiro que tinha ignorado deliberadamente quando entrei pela primeira vez e me despi. Neste momento tinha curiosidade para saber como era. Talvez me pudesse ajudar a lembrar de alguma coisa. Caminhei lentamente na sua direcção e parei à sua frente. Passei a minha mão esquerda pela sua superfície limpando o vapor da água quente. Parei o movimento mesmo em frente à minha cara deixando que a mão permanecesse mais uns segundos colada ao espelho. Ganhei coragem e retirei-a. À minha frente estava uma mulher…não! Uma adolescente de 17 anos de idade, com cabelos castanhos e algumas madeixas arruivadas. A sua pele era clara e macia e tinha o mesmo aspecto marmóreo que vira nos outros vampiros quando chegara ao castelo. De rosto alongado e lábios cheios. Mas a minha atenção prendeu-se nos olhos que me olhavam fixamente. A sua cor era vermelho, mas não o vermelho vivo que vira em Aro ou na sua guarda, mas um vermelho escuro, quase apagado. Toquei com a ponta do dedo indicador no canto exterior e a imagem reflectiu-se. Era mesmo eu. Assim que o fiz um flash de uma memória atravessou-me o pensamento. Um mesmo vislumbre a um espelho mas com uma diferença, não eram olhos vermelhos que me fixavam mas sim de uma cor castanha escura com alguns raios claros.
– Caroline? – Ouvi um chamar abafado através da porta da casa de banho. Era Angel. Conhecia aquela voz suave mas profunda tão distinta do tilintar de sinos das dos vampiros que estavam no salão principal.
– Sim? – Apercebi-me só quando falei que tinha estado a suster a respiração durante todo este tempo que me observava.
– Coloquei-lhe roupas novas em cima da cama. Estarei do lado de fora da porta do quarto à sua espera. Chame-me assim que estiver pronta. – E com isto ouvi um click da porta a fechar.
Saí da casa de banho e vi que em cima da cama tinha um embrulho. Abri-o e segurei o vestido pelos ombros, à minha frente, deixando-o cair em todo o seu comprimento. Era azul de manga comprida. Vesti-o e ele ajustou-se automaticamente ao meu corpo. O tecido era suave e delicado, seda, concluí. Não tinha espartilho e por isso consegui vesti-lo sem precisar de ajuda, caía a direito até aos meus pés. Ao vestir as roupas reparei numa cicatriz em formato de meia-lua no lado direito da minha barriga. Acompanhava a curva da minha cintura, estendendo-se um pouco até às minhas costas. Deveria ter sido aí que o vampiro me mordera e o local explicava o posicionamento do sangue no meu vestido. Tinha também outra, situada no meu antebraço direito quando junto ao pulso. Mas o formato desta era diferente da da minha barriga. Esta era alongada e não tanto em forma de meia-lua, mas era visível a marca de dois caninos afiados que me perfuraram a pele. Escovei o cabelo e em seguida abri a porta ao Angel. Ele entrou seguido de Eleazar que fechou a porta atrás de si.
– Caroline, este é o Eleazar. – Disse Angel apontando para o vampiro que se colocara ao seu lado. – O Eleazar consegue aperceber-se qual é o poder dos outros vampiros. – Acenei a cabeça em sinal de compreensão.
– Mas confesso que estou a ter alguns problemas contigo Caroline. – Confessou o vampiro enquanto me olhava de sobrolho franzido.
– Eu dou problemas? – Abri os olhos.
– Sim. Quando penso que finalmente descobri qual o teu poder tudo muda e de repente não tens qualquer poder. Até alguém voltar a aproximar-se de ti. – Eleazar começou a andar lentamente à minha volta, descrevendo círculos, enquanto me observava com uma mão no queixo e muito concentrado.
– Queres dizer que o poder dela só se manifesta quando alguém se aproxima? – Perguntou Angel.
– Não propriamente. Sinto que é mais como que se interferisse com o meu. Como quando estás a falar com alguém e a ouves perfeitamente, mas se mergulhares já a ouves meio que abafada e distante. – Eleazar parou à frente, meteu uma mão a um bolso do seu colete e tirou um relógio de bolso. Estendeu-o na minha direcção para que lhe pegasse.
– Não sei se devo. – Todos os meus sentidos me diziam para não tocar no relógio, tal como tinha acontecido minutos antes quando pensei no meu noivo. O meu corpo estava novamente a reagir a uma lembrança que não me conseguia lembrar.
– Não tenhas medo. Não acontecerá nada de mal. – Ele encorajou-me.
Estendi a minha mão esquerda e peguei no relógio de bolso. Estava a olhar para os ponteiros quando de repente o ponteiro dos segundos deixou de se mexer e todo o som dos movimentos internos que movem o relógio se silenciaram.
– O relógio parou. – Comentou Angel aproximando-se mais de mim e olhando para a minha mão que segurava o objecto. Eleazar também o olhava com um ar pensativo.
– Angel, podes pedir ao Demetri que por favor localize a Caroline? Nos iremos para outra sala do castelo.
Angel sai do quarto onde nos encontrávamos e nós seguimo-lo minutos depois. Andamos por corredores que não tinha reparado estarem ali e viramos tantas vezes que perdi a noção de onde nos encontrávamos. Por fim paramos junto à recepção de uma das entradas para o palácio. O dia estava a amanhecer e conseguia ouvir o piar de alguns pássaros não muito longe dali. Se saísse para a rua a minha pele começaria a reflectir os raios solares fazendo com que parecesse que estava a brilhar com a ajuda de milhares de diamantes incrustados no meu corpo e isso tanto afugentaria os pássaros e o seu piar matinal como chamaria a atenção dos humanos para o facto de sermos diferentes. Enquanto me distraía com a melodia de um novo dia comecei a sentir um formigueiro debaixo da minha pele. Cocei o braço distraidamente.
– Porque te coças? – Perguntou Eleazar enquanto pegava no meu braço para o observar. No momento em que me tocou a pele comecei a ter uma visão.
Vi Eleazar tentar lutar contra um vampiro de olhos vermelhos, mas ele estava diferente, não se movia rápido e os seus movimentos eram desajeitados, a sua visão estava turva. O vampiro atacou-o e mordeu-o mas Eleazar continuava a debater-se, mesmo nas mãos do seu assassino e este acabou por o abandonar. Vi-o a agoniar, deitado no meio da relva, com apenas árvores para lhe fazerem companhia. Ele contorcia-se de dores. No momento seguinte Eleazar estava perante Aro e aceitava pertencer à sua guarda. Mais um flash e vi-me a mim própria entrar pelas portas grandes do salão principal, com o vestido verde que Angel tinha roubado para mim.
Afastei rapidamente e com brusquidão o meu braço das suas mãos e afastei-me dele alguns passos. Ele permaneceu no mesmo sítio de mãos estendidas na minha direcção e com um ar atónito. O meu cérebro começou a processar tudo o que tinha acontecido e percebeu em segundos. O que eu vira tinha sido o passado de Eleazar. Tinha visto a sua transformação em vampiro, o momento em que entrara para o guarda dos Volturi e, por último, a minha própria chegada a apenas umas horas atrás. Angel tinha-me explicado qual o poder de Aro e, quando lhe dei a minha mão para ele a poder agarrar, já sabia o que ele estaria a fazer, a ver o meu passado. Ele próprio o confirmou que o fizera nos comentários seguintes. Teria eu o mesmo poder de Aro?
– Aqui está ela! – Ouvi Demetri a falar quando cruzou a esquina do corredor que dava acesso à recepção e de súbito o formigueiro de sentia debaixo da pele parou. – Conseguiste enganar-me algumas vezes, fazendo-me perder o rasto de onde terias virado, mas depois voltava a conseguir saber onde estavas. – Dizia enquanto se dirigia na minha direcção juntamente com Angel.
– Tu conseguiste ver não foi? – Eleazar ignorava a chegada de Demetri e Angel e falava directamente para mim. Deu um pequeno passo na minha direcção ainda com as mãos estendidas. Os outros dois pararam quando se aperceberam que se tinha passado alguma coisa e ficaram a observar-nos. – Tu conseguiste ver o meu passado quando te toquei. Não foi?
Ainda sentia o corpo tenso de me ter afastado tão repentinamente de Eleazar. Abanei, lentamente, a cabeça a confirmar.
– Eu vi. – Disse baixinho.
– O que é que ela viu? – Perguntou Angel.
– A Caroline conseguiu ver o meu passado quando lhe toquei no braço. Tinha os olhos um pouco baços e no segundo seguinte afastou-se do meu toque.
– Mas isso é o poder do Aro! Não há dois poderes iguais. – Angel passeava o seu olhar entre mim e o amigo.
– Não acho que deva ser esse o poder dela. – Disse Eleazar. – Demetri podes fazer-me outro favor? Vai para qualquer lado do castelo. Vamos ver se te conseguimos encontrar. – Esboçou um sorriso na minha direcção.
Demetri não pareceu gostar muito da ideia de que poderia ser localizado, principalmente por uma nova vampira. Sai da nossa beira com alguma relutância e caminhou pesadamente até o deixarmos de conseguir ver.
– Agora é a tua vez Caroline. Concentra-te. Eu sei que consegues. – Lançou-me mais um sorriso encorajador.
Fechei os olhos e deixei que o formigueiro que sentira anteriormente se espalha-se de novo pelo meu corpo. Concentrei-me com todas as forças mas quando fui assaltada pela imagem do Demetri a correr abri os olhos e perdi a concentração. Assustei-me com aquele poder e dei um passo vacilante para trás. Angel segurou-me pousando uma mão nas minhas costas.
– Com calma. – Sussurrou. – Volta a tentar.
Voltei a fechar os olhos e a deixar a sensação do poder espalhar-se pelo meu corpo. Voltei a ver Demetri a correr pelo castelo e era como que noutra parte do meu cérebro tivesse um mapa de todo aquele sítio e sabia exactamente por onde tinha que ir. Comecei a correr e Eleazar e Angel seguiram-me. Só aí reparei que Angel não conseguia acompanhar a nossa velocidade correndo, em vez de isso ele utilizava uma outra maneira de se deslocar rapidamente, teletransportava-se de um sítio para outro mais à frente e assim já nos acompanhava. Continuava a correr atrás de Demetri mas ele sabia que eu estava atrás dele, ele também me estava a localizar ao mesmo tempo e mudava de direcção muito rapidamente. Conseguia ver um sorriso na sua cara e aquele sinal fez com que sentisse raiva. Ele não acreditava que eu o conseguisse localizar e por isso prometi que não iria desistir, agora era uma questão de orgulho. Acelerei mais o passo de corrida e senti Eleazar fazer o mesmo. De repente, Demetri passou uma janela do castelo indo para o exterior, expondo-se ao sol. Segundos depois já eu avistava a janela por onde ele tinha saído. Estava a aproximar-me e a sensação fazia-me crescer “água” na boca.
– Caroline, pára. – Gritou Eleazar quando se apercebeu do que ia fazer. Não lhe dei ouvidos, era uma questão pessoal, saltei para fora da janela.
Já não sentia Eleazar nem Angel atrás de mim. Agora corria sozinha atrás de Demetri por entre os jardins dentro da muralha do castelo. Mais uns segundos e conseguia avistá-lo com os meus próprios olhos. Eu era uma recém-nascida, por isso era mais rápida que ele, pelo menos no primeiro ano. Aos poucos ia conseguindo aproximar-me cada vez mais de Demetri que ocasionalmente olhava para trás. Saltamos as barreiras do castelo e corríamos agora pela vila ainda adormecida. O sol aquecia-me a pele e estava ciente do meu cintilar. Estava a cerca de 5 metros de Demetri, se saltasse agora, um bom impulso de pernas, conseguiria cair nas suas costas fazendo com que ele parasse. Dobrei um pouco os joelhos e lancei-me na sua direcção. Estava no ar quando senti ser abalroada de lado, como se um grande camião me atropelasse. Logo de seguida estava a voar em direcção a um beco coberto por sombras e umas mãos fortes agarraram os meus ombros, fazendo-me embater contra a parede de tijolo. Alguns cederam ruidosamente ao impacto e acabaram por partir. Quando abri os olhos Félix era quem me agarrava.
– O que é que julgas que estás a fazer fora dos limites do castelo? – Ele berrou com a sua voz forte e apertou mais um pouco os meus ombros. – O Aro quer falar contigo, agora.
Todos os meus instintos me gritavam para que lutasse contra Félix e continuasse a minha perseguição, mas a minha lógica sabia que o que tinha feito estava errado e que devia ir falar com Aro.
Notas finais
Espero que continuem a ler e a gostar ;)
Twikisses**
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