Passional
3 2. Oferta de Paz
— Trouxe chocolate quente! — a voz de Katy invadiu a delegacia de forma calorosa e animada, enquanto a mulher passava pela porta equilibrando um suporte de isopor com seis copos térmicos descartáveis em uma das mãos.
A mulher de sorriso amável e bochechas avantajadas aparecia às vezes na delegacia, sempre com guloseimas ou bebidas quentes que preparava em sua cafeteria no fim da rua. Seu sorriso acabava evidenciando suas linhas de expressão, que revelavam que ela tinha mais anos nas costas do que sua personalidade cheia de vida demonstrava em um primeiro momento, e ai daquele que ousasse perguntar a idade dela, embora os palpites fossem de que já estaria chegando na casa dos 50 anos.
— Tem um carro diferente aí na frente… Alguém ganhou um aumento? — ela questionou, apoiando o suporte de copos na bancada logo na frente de Linda, o aroma sutil da deliciosa bebida quente ali dentro aos poucos preenchendo o ambiente e fazendo com que todos fizessem uma pausa do trabalho.
— Mark convidou um investigador para ajudar nos casos. — a atendente respondeu baixinho, empurrando o aparelho de telefone fixo para o lado para que pudesse ter mais espaço para os copos. Ela era a única a chamar o chefe Jones pelo primeiro nome tão casualmente, devido a todos os anos em que já trabalhava ali. — Detetive Man… Manccini? — tentou lembrar, pronunciando o nome com um sotaque italiano forçado para testar.
— Mancini, detetive Mancini. — Sidney corrigiu, se aproximando das duas mulheres que conversavam, e logo sorriu agradecida para Katy. Uma bebida quente sempre caía bem. — Louis está na ronda… Se importa se eu levar a bebida dele para o nosso novo colega?
— De forma alguma! — negou rapidamente com a cabeça, agitando os grossos cachos castanhos — Diga que é meu presente de boas vindas. — completou, piscando para Sidney, enquanto já pegava dois dos copos para entregar à detetive.
Ambas sabiam que Louis não daria falta de seu chocolate quente já que estava fora… Tampouco o beberia quando voltasse e ele já estivesse frio. Sidney achou que seria uma boa oferta de paz. E também uma boa desculpa para ver como Regan estava se saindo trancado naquela sala a tanto tempo.
Enquanto Katy e Linda voltavam a conversar e seus colegas se levantavam para pegar seus copos de chocolate quente, Sidney seguiu de volta para a sala no fim do corredor e ainda bateu sutilmente duas vezes com os nós dos dedos antes de entrar, não dando tempo do detetive responder se podia ou não entrar. A sala era dos dois, afinal.
— A julgar pelo tempo que está aqui, já deve ter resolvido o caso. — provocou, contrariando o próprio objetivo de levar a bebida como uma oferta de paz, mas a alfinetada foi sua forma de lidar com o silêncio incômodo que a recepcionou ali.
Sidney se aproximou da mesa onde Regan tinha se acomodado e colocou o copo dele à sua frente, entre as pilhas de pastas e as fotos da cena do crime. Uma olhada rápida e ela já sabia que ele estava lendo sobre o caso de Harper Abott, lembrava bem de como o corpo foi encontrado…
— A bebida é uma cortesia da Katy, ela é dona da cafeteria aqui no fim da rua. — justificou e, só então, os olhos gélidos dele se desviaram do papel que lia para o copo que ela havia colocado ali.
Ela notou as canetas espalhadas no pé da mesa, caídas junto do porta lápis onde ficavam. Provavelmente enquanto Regan espalhava os arquivos do caso acabou calculando mal o espaço e derrubando o objeto no chão… Então ela apoiou o próprio copo no canto da mesa dele e se agachou para recolher a pequena bagunça. Duas gentilezas em um intervalo tão curto de tempo deviam bastar para provar para ele que ela queria paz e queria ser profissional, não é? O passado estava onde devia estar, no passado.
— Obrigado.
A voz dele ressoou de trás dela, Sidney não sabia se o agradecimento era pela bebida, por se dispor a recolher as canetas do chão ou pela disposição em demonstrar profissionalismo… Mas apenas assentiu com a cabeça de forma silenciosa.
— Amanhã será o velório de Maddison Gallagher. — avisou, se levantando e colocando o porta lápis e as canetas de volta no lugar. Teve a impressão de que Regan a estava encarando e desviou rapidamente o olhar quando ela o encarou, mas apenas continuou falando sem dar muita atenção para isso. — É o nosso caso mais recente, acredito que já passou por ele.
Sidney pegou sua bebida e deu um gole, sentindo o calor adocicado do chocolate se espalhar por sua boca antes de descer pela garganta. Só ela falava, então quando fez essa pausa o silêncio preencheu a sala mais uma vez. Não era de se incomodar com isso, porém naquele momento se sentiria mais confortável se o homem à sua frente dissesse algo… Algo que deixasse claro que estava disposto a ser profissional e trabalhar como um time ou então que reforçasse que a relação deles seria mesmo um inferno incômodo alimentado por memórias que ambos já deviam ter abandonado a muito tempo.
Regan provou a bebida e fez uma careta, surpreso. Provavelmente não estava esperando por chocolate quente e sim por café, algo mais comum de ser servido para detetives ocupados e que precisavam se manter de pé entre os curtos períodos que tinham para conseguir descansar entre um turno de trabalho e outro. Mas em Stowe as bebidas não serviam somente para isso, serviam, também, para aquecer os corpos daqueles que tinham que se expor ao frio e à neve sempre que o dever chamava.
— Jones pediu para que fossemos ao velório. Ele acredita que você pode ter um olhar diferente da situação e das pessoas que já foram interrogadas… Além disso, será a primeira vez que veremos a mãe da vítima pessoalmente. Ela mora fora do país. — Sidney complementou, justificando sua fala anterior com a informação sobre o velório de Maddison.
O detetive suspirou, recostando as costas na cadeira e encarando-a nos olhos. Sério, a princípio, mas logo um sorriso convencido lhe tomou os lábios enquanto erguia uma das sobrancelhas, questionador.
— Agora você é falante desse jeito? Ou está nervosa? — a pergunta direta era proposital, para mostrar a ela que ele percebia seu incômodo, por mais que tentasse agir naturalmente. — Estou aqui para ajudar com os casos e, talvez, te ensinar como um bom trabalho é feito… Não precisamos ser amigos e você não precisa me agradar, não estou aqui para dedurar você para o seu chefe. Nem para fazer elogios seus para ele.
Regan buscou por um maço de cigarros em seu casaco, sem desviar o olhar de Sidney. Ele apoiou um cigarro sobre os lábios e lançou para ela uma expressão que poderia ser traduzida como uma pergunta do tipo “se incomoda?”, ao que foi respondido com um dar de ombros carregado de descaso, o incentivando a seguir em frente. Tragou o cigarro e respirou fundo, segurando a fumaça antes de virar o rosto e soprá-la para longe, então passou os dedos por entre os fios negros e ondulados, jogando-os para trás para afastá-los de sua testa.
— Maddison Gallagher, hum? Vi a pasta dela, mas preciso de mais tempo para analisar o caso por completo. — finalmente encarou a loira à sua frente de novo — Vou priorizar o registro de depoimentos para amanhã.
Sidney assentiu, levando o próprio copo à boca para mais um gole silencioso. Ela voltou o olhar para a mesa, para o bloco de notas dele que estava cheio de rabiscos e anotações bem ao lado das fotos da cena do crime. Ele notou e acompanhou o olhar dela, mantendo as mãos ocupadas enquanto guardava o isqueiro dentro do maço de cigarros e este dentro de seu casaco novamente.
— Notou que o Sr. Abott foi consagrado pastor no mês seguinte à morte da filha?
— O quê? — O comentário repentino sobre o caso Abott tingiu o rosto dela com confusão. Estava focada no caso Gallagher e precisou de um segundo ou dois para absorver o sentido das palavras de Regan e concordar — Quer dizer, Claro. Acrescentei a informação no último relatório do caso.
— Mas não recolheu um novo depoimento dele. Depois da consagração.
Sidney franziu o cenho, sem entender onde ele queria chegar. Ela havia atualizado a ocupação dos pais de Harper nos relatórios e adicionado o novo cargo do sr. Abott como uma observação importante, já que o fato da vítima passar a ser filha de alguém influente na igreja local era mais um forte incentivo para conseguirem fechar aquele caso antes de ter mais gente revoltada pressionando o chefe de polícia que, por sua vez, pressionaria a ela.
— A garota não foi dada como desaparecida antes de ser encontrada morta, os amigos que organizaram um grupo de buscas amador… E o único suspeito em potencial, o ex namorado, não pôde ser acusado por falta de provas. — explicou pacientemente, beirando a condescendência — É claro que o corpo ministerial se compadeceu da situação. Aposto que a senhorita Abott devia ser algum tipo de impasse para o pai… Vi o histórico do ex namorado dela.
Ele deu a ela algum tempo para pensar no que tinha acabado de dizer, em como parecia óbvio e, ainda assim, não foi um caminho investigado a fundo na época…
— Um homem que não consegue controlar a vida da própria filha… E de repente é assolado pelo sofrimento inenarrável de perdê-la… Isso daria a ele um fôlego a mais para seguir o caminho do divino, um teste de Deus para afastá-lo de sua fé e ainda assim ele se agarrou ainda mais a ela. — narrou de forma teatral, findando com um suspiro e um movimento de negação com a cabeça — O pai também tinha motivos. E foi beneficiado com a morte da filha.
Por fim, ele deu de ombros, tragando o cigarro mais uma vez e repetindo o ritual de esperar alguns segundos antes de virar seu rosto e soprar a fumaça para longe.
— Não é muito difícil pensar nessa hipótese.
É, não era muito difícil pensar nessa hipótese… Sidney percebeu que a alfinetada foi proposital. Ele pegou seu bloco de notas e passou as folhas até chegar em uma em branco. De forma ágil, anotou algo e logo em seguida arrancou a folha, a estendendo para ela.
— Seu número? — ergueu uma sobrancelha pra ele e questionou a hipótese mais óbvia, ao ver que ele havia anotado um número de telefone com um código de área diferente do de Stowe.
— Não precisa ficar surpresa, não estou flertando com você. — se divertiu com o comentário desnecessário, apenas pelo prazer de ver uma centelha de desconforto e irritação no rosto dela — Mas trabalhamos juntos agora, então precisamos de uma forma de nos falarmos fora daqui, não é?
Sidney deixou um suspiro escapar e se apressou em ocupar sua boca com mais um gole de chocolate quente, apenas para garantir que não soltaria uma resposta atravessada e daria a ele exatamente o que ele estava querendo. De qualquer forma, sabia que não era uma briga que poderia ganhar caso entrasse, afinal, o chefe de polícia estava esperançoso e muito entusiasmado com a vinda de um detetive renomado como Regan Mancini. Mark Jones o encarava como a salvação de Stowe, a solução de todos os problemas que os impediam de resolver os casos em aberto… O que ela poderia fazer em uma situação assim? Apenas ser profissional e engolir as alfinetadas e o ego inflado do seu ex.
— Bom, agradeço o bom senso. — respondeu finalmente, pegando seu celular para salvar o número dele em sua lista de contatos.
Ela digitou o número rapidamente e na hora de colocar o nome do contato, automaticamente digitou “Regan” e quase pressionou o botão para concluir, mas hesitou e pensou melhor, apagando o nome dele e digitando “Detetive Mancini” no lugar. Percebeu que ele a encarava enquanto ela fazia isso, a observando em silêncio enquanto apoiava o cigarro nos lábios mais uma vez. Ele queria fazê-la se sentir incomodada? Intimidada? Bom… o melhor que ela poderia fazer é demonstrar que não se importava nem se deixava afetar por isso.
— Já conhece a cidade? — questionou, continuando antes que pudesse dar a entender que estava se oferecendo para algo — Vou te enviar a localização do cemitério e nos encontramos lá amanhã de manhã. Às nove da manhã.
— Não, mas pretendo conhecer mais tarde. — ele respondeu, dando de ombros — É uma cidade pequena, não deve ser difícil de se localizar por aqui.
Sidney apenas concordou com a cabeça, enquanto abria o aplicativo de mensagens e colava o link para a localização do cemitério de Stowe. Enviou a mensagem e em seguida digitou uma nova mensagem, ainda mais curta: “09h”.
Antes de bloquear o celular, ela encarou a foto de perfil dele. Foi um gesto impulsivo, sem pensar muito… E se arrependeu no mesmo momento. Agora, Regan tinha o cabelo um pouco mais longo e usava os fios negros e ondulados em um topete jogado para trás que às vezes lhe caía sobre o rosto. Além disso, um bigode proeminente lhe dava um ar mais sério e maduro, tão destacado quanto suas sobrancelhas grossas que contrastavam com os olhos azuis acinzentados. Mas na foto de perfil, ele estava com o cabelo curto e sem o bigode, exatamente como Sidney se lembrava dele… Apesar de já estar alguns anos mais velho mesmo naquela foto.
Bloqueou o aparelho de uma vez e voltou a encará-lo, vendo que ele tinha pego o celular para ver a mensagem dela e agora salvava seu contato. Pelo movimento de seus dedos e pela forma rápida em que concluiu o processo, ela imaginou que ele tivesse salvo como “Sidney”, e não como “Detetive Bennet”. Isso dizia muito sobre como cada um deles encarava o papel do outro nessa nova relação.
— Bom, até amanhã então.
A voz dele cortou o silêncio e atraiu o olhar da detetive do aparelho celular dele de volta para seu rosto. Ele a estava dispensando, como se a presença dela ali já tivesse ocupado muito de seu tempo. Ou como se ela fosse atrapalhar seu trabalho. Ou então… Como se ele não a considerasse boa ou útil o suficiente para ficar ali enquanto ele analisava a pasta do caso de Maddison Gallagher. Como se ele não fosse precisar de qualquer explicação ou migalha de opinião dela sobre o caso, que era dela.
Sidney avaliou o rosto dele, a forma como ele rapidamente desviou o olhar para os documentos do caso Abott e começou a organizá-los para guardá-los de volta na caixa em que estavam inicialmente. O descaso dele parecia até ensaiado, como se quisesse apenas demonstrar que podia fazer isso, como se quisesse deixar claro que ele estava no controle… Que ela, bem, a delegacia de Stowe na verdade, era quem havia pedido sua ajuda, não o contrário.
— Se precisar de ajuda, tem o meu contato.
Ela respirou fundo, tentando não demonstrar estar abalada com aquele comportamento dele. Ela seria profissional, mesmo que ele não fosse… Enquanto aguentasse, pelo menos.
Sem se estender muito mais, a detetive terminou seu chocolate quente em um último gole e jogou o copo vazio na lixeira ao lado da mesa. O mesmo descaso ensaiado que Regan usara contra ela antes, ela usava contra ele agora. Mostraria a ele que não era mais a jovem Sidney que ele conhecera anos atrás, que não sabia lidar com as próprias emoções… Ela era uma mulher adulta agora. Ao invés de correr para os braços de um homem para buscar consolo e conforto, ela sabia que tinha exatamente o que precisava lhe esperando em casa: meia garrafa de vinho e uma lareira acolhedora. E se ele queria lhe dar o resto da noite de folga só pra alimentar seu ego trabalhando sozinho, ótimo.
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