Passional

4 3. Frio e incômodo


A maioria das pessoas que conhece Stowe imagina a cidade como é vista nos sites de turismo. Pacata, aconchegante e calorosa, mesmo que passe mais da metade do ano coberta de neve. Ainda naquele momento, as estações de esqui estavam movimentadas e as lojas de aluguel de roupas de inverno faturavam com o turismo local… Enquanto isso, os Gallagher recebiam abraços e palavras de conforto de conhecidos e amigos diante da perda da integrante mais jovem da família. Era um contraste que deixava um gosto amargo na boca de todos os presentes, ressaltado pela presença invasiva da mídia local.

— Deviam ter a decência de se afastar.

Regan sibilou entre dentes para a repórter que estava de costas em seu caminho, equilibrando-se na ponta dos pés mesmo com as botas de salto alto que usava, e parecia procurar por alguém para entrevistar. A mulher se virou para ele e o encarou demoradamente de cima a baixo, erguendo uma sobrancelha e deixando uma pergunta silenciosa no ar.

— Não é uma sugestão. — o detetive ergueu a barra da camiseta que vestia sob o casaco pesado de inverno, exibindo o distintivo preso em sua cintura.

Com um brilho de reconhecimento no olhar, a repórter fez um sinal para o cinegrafista ao seu lado, já assumindo uma postura mais profissional e jogando as mechas loiras para trás dos ombros. Em segundos, já estava pronta para começar a falar, não que isso tenha causado algum efeito ou despertado alguma empatia no detetive.

— O senhor foi convidado pelo chefe de polícia? Ou o condado o enviou por conta própria?

Regan não responde e decide seguir seu caminho mesmo que a repórter não lhe desse passagem, então passou uma perna de cada vez sobre o vaso com flores secas que cercava a trilha de pedras que levava até a capela. Logo, não tinha mais nada impedindo seu caminho.

— Ouvimos que tinha um novo detetive na cidade, pode nos dizer seu nome? — ela projetou um pouco mais a voz, estendendo o microfone na direção dele, mas recebeu o desprezo como resposta — Bom, parece que o novo detetive se recusa a conversar conosco… É uma pena!

Sem se deixar abalar, ela falava com a câmera mantendo a postura profissional.

— Por hora, reforçamos as orientações que o chefe de polícia nos passou na última entrevista: obedeçam ao toque de recolher e liguem para a delegacia de Stowe caso se sintam inseguros ou acreditem ter visto algo fora do comum. Até que a onda de crimes que assola nossa cidade cesse e os culpados sejam pegos, todos estamos em risco.

Regan ainda ouviu as últimas palavras da repórter enquanto se afastava, e não conteve o impulso de negar silenciosamente com a cabeça. Aqueles avisos clichês à imprensa, como pedir para que tomassem cuidado e ligassem para eles, eram como um atestado que a polícia estava de mãos atadas e ainda não tinha rastros para seguir… As pessoas de Stowe podiam se sentir satisfeitas com isso por enquanto, mas logo iam exigir mais do que apenas isso. Iam exigir respostas, prisões. E o detetive estava disposto a dar isso a elas, o mais rápido o possível.

Entrando na capela, ele varreu o ambiente com olhos atentos atrás de quem lhe interessava: o casal próximo à moldura com uma foto grande da adolescente da qual todos se despediam hoje. A foto retratava uma Maddison tão diferente da imagem que ele tinha dela na cena do crime, que analisou com mais atenção por um curto segundo. Os cabelos castanhos para trás das orelhas, onde duas argolas douradas se destacavam penduradas… Os olhos castanhos amendoados que se apertavam em conjunto com o sorriso largo e genuíno que exibia… Era uma adolescente feliz como qualquer outra. Restava saber se fora vítima do acaso ou de algo mais elaborado.

Sentada no último banco da capela, o detetive reconheceu a figura de Aimée Stone, melhor amiga da vítima. A garota estava abraçada com um urso de pelúcia pequeno cor de rosa, provavelmente o deixaria junto dos demais que estavam expostos ao lado das flores perto da foto de Maddison. Pelo que leu nos relatórios de Sidney, a garota tinha sido a última a ver a vítima com vida, horas antes da hora da morte declarada pelo legista. As duas se encontraram à tarde para fazer um trabalho depois da escola, o depoimento dela batia com o que a jovem Gallagher tinha informado ao pai nas últimas mensagens que enviou… Mas a lacuna de horas entre o momento que Aimée informou ter se despedido da amiga e o momento da morte era algo que merecia atenção.

A cronologia ficava bagunçada depois disso e independente de quantas pessoas foram interrogadas, nenhuma delas tinha alguma informação que pudesse preencher os espaços vazios. Mesmo que Aimée tivesse um álibi que a colocava em casa com os pais nas horas em questão, não era o caso de outros suspeitos. Sidney podia tê-los descartado, mas Regan faria questão de ler seus depoimentos novamente. Um a um.

— Você é da polícia, não é? — Uma voz baixa o arrancou de seus pensamentos, fazendo com que os olhos azuis fossem de encontro aos olhos castanhos que o encaravam de baixo pela diferença de altura. — Vocês ficam sempre de longe, olhando, como ab…

Ela se conteve e guardou as últimas palavras para si mesma com um suspiro, desviando o olhar do detetive só por um curto segundo. O suficiente para disfarçar o que pensava sobre o trabalho deles e a comparação que estava prestes a fazer, mas não para passar despercebida por ele.

— Alguma novidade sobre o caso da minha irmã? Ou vieram nos perturbar com mais perguntas?

— Você deve ser Christine Gallagher… Sinto muito pela sua perda.

Agora Regan via as semelhanças físicas entre elas. Os olhos amendoados e castanhos, o nariz pequeno e levemente arrebitado… As irmãs eram bem parecidas, se não fossem os anos que as separavam e denunciavam que Christine era a filha mais velha.

— Detetive Walker, sou o novo responsável do caso. — apresentou-se.

— O que aconteceu com a detetive Bennet? — Ignorando a mão estendida dele, ela franziu o cenho enquanto aguardava por uma resposta.

— Ela continua me auxiliando. — Não deu atenção à justificativa, esperando que ela fizesse o mesmo — Vim me apresentar à família e dar meus pêsames, nós…

Christine soprou uma risada carregada de ironia e incredulidade, cruzando os braços na frente do corpo com firmeza.

— Se vocês não fossem tão incompetentes, minha irmã ainda estaria viva! — elevou a voz, cansada de conter a própria frustração. — Maddy perdeu três amigas da escola só nesses últimos meses e ainda assim não quis ir embora dessa droga de cidade, ela confiava em vocês!

— Pegaremos o assassino, eu garanto.

— Ah, você garante?! Me sinto muito mais segura agora, nossa! — a risada saiu seca e sem emoção, como se arranhasse sua garganta.

— Chrissy! — a voz grave e rouca de Roan Gallagher anunciou sua presença antes mesmo que os dois pudessem notar.

O homem abraçou a filha pelos ombros de forma acolhedora. Mesmo por trás da expressão cansada e das olheiras, os olhos protetores encararam o detetive Mancini com raiva. Não sabia do que se tratava, mas ver a filha se exaltar repentinamente daquela forma parecia ter acionado algum tipo de gatilho.

— Quem é você?

— Sou o detetive Regan Mancini, estou responsável pelo caso da sua filha e…

— Não temos nada mais a dizer. — interrompeu, pressionando os dedos apoiados sobre o ombro da filha com um pouco mais de força. — Não hoje, não agora e muito menos aqui.

— Eu entendo senhor. Como eu estava dizendo para sua filha, garanto que vamos descobrir o que aconteceu com Maddison e pegar o responsável.

Regan odiava ser interrompido, mas relevou diante da nítida perturbação do homem à sua frente. Tinha acabado de perder uma filha… Não tinha conseguido respostas… Não podia dizer que entendia, afinal, não era uma experiência pessoal a qual compartilhava, mas já tinha visto acontecer tantas vezes ao longo da carreira que, na verdade, ficaria surpreso caso fosse bem recebido.

— Não queremos promessas ou garantias, detetive. Só queremos justiça.

Roan afirmou categórico, dando o assunto por encerrado. Se o olhar crítico não fosse o bastante para dar a entender isso, o tom de voz ríspido certamente fazia esse trabalho. Christine secava as lágrimas que brotavam nos olhos com os pulsos, sem querer se render ao choro que certamente não conseguiria findar por vontade própria uma vez que começasse… Ainda assim, lançou um olhar irritado para Regan antes de lhe dar as costas e acompanhar o pai para onde a mãe os aguardava.

A pequena cena tinha atraído a atenção de algumas pessoas, das quais uma pequena parcela ainda sustentava o olhar sobre o detetive de forma desconfiada ou desconfortável. Como se ele fosse um intruso, ou o vilão… Nem sempre era bem recebido nos casos em que trabalhava, aceitava isso, mas não tinha culpa pelo péssimo trabalho que a polícia local vinha fazendo.

— Não viemos fazer mais perguntas. — Sidney sinalizou, surgindo por trás de Regan de forma silenciosa até que sua voz anunciasse sua presença.

— Eles querem respostas. Só quero dar a eles o que não conseguiram até agora.

Não precisou encarar a detetive para saber que a alfinetada possivelmente tinha tingido seu rosto de insatisfação. Estava mais focado em pegar o maço dentro do casaco, batendo-o na palma da mão até que um cigarro saltasse para fora. Antes que pudesse levá-lo aos lábios, no entanto, os dedos magros de Sidney o alcançaram e ela se limitou a bufar antes de empurrar o cigarro resgatado para o fundo do bolso do próprio casaco.

— Estamos em uma capela, meu deus.

— Você não tem nada melhor pra fazer? Eu não sei, como revisar seus relatórios, por exemplo? — Não escondeu a impaciência, fazendo com que outro cigarro saltasse do maço que ainda segurava. Dessa vez, antes que ela pudesse impedi-lo, ele levou-o aos lábios. — Eu vou lá pra fora. A família não nos quer aqui dentro.

Regan indicou uma direção com a cabeça e a detetive dirigiu o olhar até lá. Os pais e a irmã de Maddison ainda os encaravam à distância, dividindo a atenção entre os que iam até eles para oferecer as condolências ou palavras de apoio e não perder os dois detetives de vista, como se fossem intrusos que deviam ser vigiados. Com isso, Sidney se sentiu impelida a sair da capela ao lado do homem que já acendia o cigarro apoiado entre seus lábios.

Lá fora, a repórter parecia ter desistido de incomodar os poucos que ainda chegavam para o velório. Apoiada contra uma das lápides, ela aproveitava uma bebida quente enquanto o cinegrafista desmontava o equipamento. Por um breve momento, seus olhos alcançaram os da detetive mesmo à distância, mas não se deu ao trabalho de levantar e tentar mais uma entrevista com a polícia local. Sidney sentiu-se grata por isso, odiava a forma como os repórteres sempre pareciam interrogá-la e manipular as informações para fazer parecer que a polícia não fazia o próprio trabalho bem o suficiente…

— Eu vi a foto daquela garota nos arquivos de Harper Abott.

Regan comentou, soprando a fumaça do cigarro para o lado antes de indicar com a cabeça a garota de cabelos tingidos de preto com mechas azuladas. Acompanhando o olhar dele, a detetive viu Margot Kilgore conversando com um outro adolescente a apenas alguns metros de onde estavam. A garota dividia um baseado com ele, como se ninguém pudesse vê-los ou apenas não se importasse de ser vista… Talvez por estar em um velório, achou que ninguém lhe daria atenção, na verdade.

— Isso não pode ser sério… Ela está fumando maconha aqui, assim, como se não fosse nada?

Antes que Sidney pudesse pensar em agir, fosse para repreender a adolescente ou para tomar qualquer atitude mais drástica, Regan a conteve. Ele apoiou a mão em seu ombro, o que a fez encará-lo sem entender.

— Estamos em um velório, Sidney. “Meu deus”. — imitou a repreensão dela.

Ela tinha o dever de agir ou ao menos reportar qualquer transgressão com a qual se deparasse. Mas, neste caso em particular, não conseguiria muita coisa além de causar uma possível comoção e atrair mais atenção negativa para o corpo policial de Stowe… Então concentrou-se em responder o comentário de Regan, um pouco surpresa por ele ter se lembrado do rosto da garota em questão depois de tê-lo visto apenas ontem em uma foto na pasta de um caso onde ela nem mesmo era a vítima.

— Margot Kilgore. Era amiga da Harper. — a detetive suspirou, depois de pensar um pouco, passando os dedos por entre os fios loiros e os jogando para o lado de forma que não caíssem sobre seu rosto. — Você deve ter visto o rosto dela na última foto que temos da vítima com vida, elas estavam na mesma festa.

— O que ela faz aqui? Também era amiga de Maddison Gallagher? — tragou o cigarro, pensativo, voltando a olhar para a garota.

— Não tinha nenhuma ligação imediata entre as duas. — Cruzou os braços e negou com a cabeça, encarando Regan. — Estamos em Stowe, é natural e inevitável que todos conheçam uns aos outros… Principalmente quando só tem um colégio de ensino médio na cidade.

— Hum.

— Ela não teve nada de útil ao dizer sobre o caso da amiga… Como eu apontei no relatório, estava tão chapada quando fomos atrás dela na manhã depois da festa que foi uma surpresa ela conseguir lembrar do próprio nome. — soprou as palavras com insatisfação diante da lembrança. — A família é problemática e ela vive praticamente sozinha, acumula faltas no colégio…

Sidney deu de ombros, a lista de transgressões e comportamentos preocupantes de Margot Kilgore era extensa e conhecida por muitos da cidade, mas a maioria só a ignorava e já tinham desistido de ajudar depois de ver que ela sempre voltava aos velhos hábitos.

— De qualquer forma, ela não estava na lista de pessoas relacionadas com Maddison.

— Mas pode saber de algo. — ele finalmente a encarou, o cigarro apoiado entre os lábios antes de mais uma tragada.

— É, pode… Provavelmente por meio de boatos, assim como qualquer outro aluno do colégio. — Revirou os olhos, negando com a cabeça. — Mas como ela não tem nenhuma ligação conhecida com a vítima, dependeremos da boa vontade dela ou de uma intimação.

— Não preciso que me ensine a trabalhar, Sidney.

Ele tragou seu cigarro uma última vez antes de jogá-lo no chão e apagar a brasa com o solado do sapato. Sem informar suas intenções ou o plano que tinha maquinado em sua mente, Regan Mancini lhe deu as costas e deixou-a falando sozinha.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.