Passio Angelus
2 O Internato
Notas iniciais
Acordei, não sabia onde estava. O chão era duro, pedregoso, úmido. Meus olhos ardiam, a cabeça doia, tudo estava embaçado. Uma montanha. Um grito. Uma lágrima. Meus pensamentos não coincidiam, eu não lembrava nem quem eu era.
Levantei, estava nu. Meu peito exibia músculos definidos em uma pele clara com pêlos ralos, abdomen escultural e pernas torneadas, porém bambas, eu estava com tontura. Senti algo em meu pescoço, puxei uma corrente com uma plaquinha pendurada.
“CASTIEL”, estava grafado.
Memórias voltavam em flashs, eu era um anjo. Um anjo do Senhor. Palavras vinham em minha mente.
“Você pecou Castiel. Deu as costas à sua raça. Por um humano, por um desejo impuro.”
Relembrei uma cena.
Estava numa sala de paredes brancas, com uma única porta também branca. Uma mulher entrou, era ruiva, com pele muito clara, usava terno, carregava um envelope e tinha uma expressão autoritária, de algum modo, sabia que ela era um ser angelical.
— Olá Castiel, meu nome é Naomi. – disse, apertando minha mão – Eu sou a nova superior do Céu.
Eu estava tonto demais para responder, porém sabia que algo estava errado.
— Castiel, você está aqui porque desapontou muito a legião. Eles não querem conviver com você. Por isso eu e meus colegas decidimos o que fazer com você. Devido ao seu comportamento, você terá que passar um ano na Terra, como um humano.
Tentei absorver as informações na velocidade em que naomi falava, mas ela era rápida demais.
— E mais uma coisa, se você por acaso ver este rapaz... – disse ela, entregando o envelope para mim, que abri, lá estavam fotos de um rapaz de cabelos castanhos, olhos verdes, e um sorriso que me intrigava. – O mate.
Li atrás de uma das fotos em letras vermelhas: DEAN WINCHESTER – PERIGOSO.
Acabou meu devaneio, estava novamente nu, em pé no chão frio e úmido. Olhei para os lados procurando por alguém, eu estava em algum tipo de construção antiga e abandonada. Vi uma luz no fundo da construção, segui até lá. Era um altar, eu estava em uma capela, ou igreja. O telhado acima estava quebrado, sendo que entrava a luz de uma lua cheia. Em cima do altar encontrei uma troca de roupas, um par de sandálias e um bilhete. Me vesti, uma calça jeans surrada e uma camiseta branca, com uma cruz no peito e escrito "Deus intercedei por nós". Comecei a ler o bilhete.
“Caro irmão, estas roupas são para que você acostume com a rotina mundana. Para sua informação, está em Nova York. Sugiro que consiga um emprego, já que retiramos parcialmente seus poderes. Talvez, com um pouco de sofrimento humano, você perceba no que se tornou. Jimmy, seu receptáculo voltou em segurança para a familia e não lembra de nada. Seu corpo foi criado da areia como os demais filhos de Deus.”
Parei nesta parte, passei ao lado do altar e peguei uma das taças de comunhão, olhei meu reflexo. Mesmo distorcido pela taça, deixei-a cair, eu não era mais Jimmy. Eu era um rapaz loiro, de rosto fino. Passei as mãos pela face, uma barba por fazer rodeava meu pescoço. Voltei a ler o bilhete.
“Sua permanência nesta forma será de um ano. Como hoje é domingo de Páscoa, você retornará aos céus na próxima Páscoa. Até lá, estaremos regularmente verificando suas atuações, e poderemos interferir a qualquer momento. De vossa superiora do céu. Naomi.”
Ainda não acreditava no que estava ocorrendo. Eu era humano. Ajoelhei e comecei a chorar, nisso alguém no fundo da capela pergunta:
— Eu posso ajudar?
Levanto em um reflexo, pronto para me defender. Nisso, uma freira aparece, com seu rosto pálido banhado pelo luar.
— Senhor, eu posso ajudá-lo?
— Não, não, eu só estava rezando... Por abrigo.
— Abrigo? O que aconteceu com você meu jovem?
— Meu nome é Castiel, e bem, minha família me abandonou. E não me sobrou mais nada, apenas minha fé.
— Ora meu filho, eu sinto muito. Eu posso ajudá-lo se quiser. Meu nome é irmã Judith. — Disse ela, oferecendo sua mão. — Qual sua idade?
Parei e meditei um momento, não vi meu rosto com clareza para ter noção da minha idade, arrisquei:
— Tenho 33 anos. A idade de Cristo. — A freira riu.
— Claro, e eu tenho 25, minhas varizes são culpa da genética ruim. — Deu uma gargalhada. — Você deve estar na faixa dos 18, 19 anos. É uma boa notícia.
— Como?
— Veja bem, eu sou diretora de um internato para jovens — ela fez uma pausa — infratores. E você parece estar na faixa de idade em que trabalhamos, dos 14 aos 21 anos. Se vier comigo, posso lhe dar cama, comida e algumas roupas novas. — Sorriu, desta vez passando os olhos por todo meu corpo.
— Pois bem, aceito sua ajuda irmã.
— Ótimo! Vamos, está quase na hora do jantar.
Guardei o bilhete de Naomi em um dos bolsos de minha calça e saimos da capela. Um táxi estava à nossa espera.
— De volta para casa Charles. — disse a freira ao motorista que assentiu com a cabeça, então, a irmã virou-se para mim.
Neste momento pude reparar bem em seu visual, ela usava um traje tipico de freira, preto. Em seu peito havia pendurado uma cruz de madeira. Seus olhos castanhos eram cansados, como se ela não dormisse a dias, porém seu olhar era profundo. Seu cabelo loiro por baixo do capuz entregava sua idade, suas raízes já estavam esbranquiçadas.
— Eu vinha aqui quando era mais nova.
— Ãh? — disse, parando de reparar.
— Na capela. Vinha com minha mãe. No tempo em que os padres desta cidade ainda eram descentes e dignos de Deus. Venho toda semana fazer uma visita, relembrar os velhos tempos.
Sorri, tentando parecer simpático. Ela compreendeu. Fez-se o silêncio, eu adormeci.
Tudo estava escuro. Era como se eu estivesse cego. Uma voz grita:
"Cas!"
Mudo de opnião, estou em uma caverna. Ouço novamente o som, como se estivesse muito distante.
"Cas!"
Acordei. O táxi havia parado.
— Obrigada, Charles.
— Sempre às ordens, irmã.
Saimos do táxi, e fomos para a calçada. O carro parte.
— Charles é um velho amigo. Ele sempre me leva à capela sem custos. Vamos entrar?
Ela anda em direção a um prédio cinza, como se fosse feito de pedra rudimentar. A escadaria que o antecede tem rachaduras. É visivel que o local está abandonado. Chegamos à porta.
— Bem-vindo, Castiel. Ao "Lar Irmãos com Asas".
O nome me incomoda. Será algum plano de Naomi?
A freira abre a porta. O hall de entrada é um salão grande. Uma fogueira está acesa ao fundo. Alguns garotos sentados, jogando xadrez. Algumas freiras entram e saem de portas, somente acenando com a cabeça. No centro do salão, uma escadaria de mogno mostra ser o centro da casa.
— Vamos. Veja, aqui temos a lareira. — começou irmã Judith — A cozinha fica á direita da escada e a biblioteca, à esquerda. Aqui embaixo, nessas portas laterais, são os quartos das freiras. E lá em cima, o dos rapazes. Suba, no fim do corredor encontrará um banheiro. Tome um banho. Pedirei para alguém lhe levar toalhas. Depois do jantar, arrumarei um quarto e roupas novas. — terminou, sorrindo, e saiu, em direção à cozinha.
Subi as escadarias, um grupo de adolescentes passaram ao meu lado, cochichando. Não dei importância. Cheguei ao banheiro. Eu nunca havia tomado banho, não é necessário quando se é um anjo. Tentei utilizar meus poderes, ineficazes. Fechei a porta, porém não havia tranca. O cômodo consistia em uma pia com um grande espelho, um vaso sanitário, dois mictórios e um chuveiro, protegido por um Box transparente. Tirei toda a roupa. Meu reflexo chamou minha atencão no espelho. Olhei minuciosamente meu rosto. Tinha o rosto fino, com costeletas e barba por fazer. Meu cabelo era de um loiro não muito claro, e meus olhos, de uma cor acinzentada.
Entrei no banho, a água era fria, fiquei parado de cabeça baixa, com o chuveiro respingando em minha nuca. Estava pensando, o que eu poderia ter feito para ter irritado a comunidade do céu a ponto de ser punido para a Terra? Tive um devaneio.
Estava em um quarto pequeno. Em uma pequena mesa jaziam três garrafas de cerveja. Eu ria. À minha frente, dois rapazes. Um de cabelos negros, aparentava ser intelectual, o outro, cabelo acastanhado.Era ele, Dean Winchester.Rindo, me disse.
— Não te falei Cas? Cerveja é a melhor coisa do nosso mundo! Cerveja e sexo! Mas você nem bateu uma ainda, vai ter que esperar mais um pouco.
— Dean, vai com calma. — respondeu o outro — Acho que você bebeu demais.
— Nossa Sam, você é um mala mesmo.
Todos rimos, estavamos felizes, em harmonia, eu me sentia bem perto daqueles humanos. Perto de Dean Winchester. Por que ele seria uma ameaça?
Com um barulho, acaba meu devaneio, um garoto esta me encarando através do Box. Coloco a cabeça para fora. Vejo que ele derrubou algumas toalhas no chão. Ele permanece imobilizado, olhando para mim, mais precisamente para baixo de minha cintura. Abaixo a cabeça, eu estou excitado, meu membro está ereto. Ele é reto, pêlos loiros, ralos e bem distribuidos circundam sua base. A glande é grande, bem vermelha, pulsante. Algumas veias no meio-corpo demonstram o quanto ele está latejando. Paro um momento e me pergunto: Fiquei excitado com a lembrança dos Winchester?
Volto a olhar para o garoto, é moreno, magro, um pouco mais baixo que eu, bem pálido, rosto livre de pêlos, usava óculos de hastes grossas, uma calça jeans e uma camiseta preta cruzes nas mangas, talvez o uniforme do internato. Ele pisca várias vezes e responde, gaguejando:
— De-desculpe. E-eu... — e sem terminar a frase, sai correndo, envergonhado.
Não sei se devo ir atrás dele, ainda estou com meus pensamentos nos Winchester. Me enxugo com as toalhas que o garoto derrubou, saio no corredor, com uma delas enrolada na cintura, irmã Judith vem a meu encontro.
— Oh, Benjamin entregou suas toalhas? — pergunta.
— Benjamin?
— Sim, Ben. O garoto que pedi para levar algumas toalhas para você. Garoto bom, só muito tímido. — disse, com um desânimo na voz.
— Ahh, sim... Ele levou sim. — Respondo com um sorriso — Mas não tive oportunidade de agradecer.
— Bem, pode agradecer agora. Você será o colega de quarto dele.
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