Passio Angelus
3 Colega de Quarto
Notas iniciais
Segui irmã Judith, somente de toalhas. O que eu diria a Benjamin depois daquela cena embaraçosa?
Chegamos ao fim do corredor, oposto ao banheiro, entramos na última porta à direita. O quarto era modesto, em suma, um cubículo. Tinha duas camas, dispostas em um ângulo de 90 graus no canto direito, uma estante ficava na parede à esquerda, com uma cruz de pedra sobre ela. Um ventilador de teto girava abruptamente, como se fosse cair a qualquer momento. Um relógio de parede empoeirado fica no centro do quarto. São 19:30. Benjamin estava em uma das camas, rabiscando algo que parecia um desenho, não consegui ver o que era. Quando ele nos viu, escondeu seu caderno embaixo de seu travesseiro.
— Benjamin — disse a freira — Este é seu novo colega de quarto. Castiel, este é Benjamin.
— É um prazer — respondi, ele apenas acenou com a cabeça, pegou seu caderno e saiu do quarto.
— Me desculpe por ele. Ele é muito tímido. — disse irmã Judith — Aquela é sua cama, ali estão dois uniformes e um par de sapatos. Aqui no internato cada aluno lava suas roupas, a lavanderia fica nos fundos. O jantar é daqui a meia hora, não se atrase, lá lhe passarei as outras normas. — E sorrindo, deixou o quarto, fechando a porta.
Troquei de roupa e deitei na cama, desolado. O que estava acontecendo comigo? Por que eu fiquei excitado com a lembrança de Dean Winchester? Eu era um anjo! Será que nesta forma mundana eu estaria sujeito aos pecados da carne?
Olhei para a cabeceira, lá estava esculpido um coração, com um A & B no meio. Não dei importância, estava faminto, desci para o jantar.
Chegando ao refeitório, me deparo com cerca de 40 garotos, em diversas faixas de idade, sentados em mesas retangulares. No centro do cômodo, uma mesa maior, onde estavam 10 freiras, inclusive irmã Judith, e ao lado dela, na ponta desta mesa, uma cadeira estava vazia.
Fui até lá e sentei-me na cadeira ao lado da freira, ela me deu um olhar repreensivo. Eu disse:
— Irmã, eu ainda não tive a oportunidade de lhe perguntar. Por que me ajudou?
Ela trocou sua expressão, que ficou amena e acolhedora.
— Ora Castiel, Deus nos ensina que temos de ajudar o próximo. É esse seu poder, nos dar força e vontade para ajudar os necessitados. Agora, por favor, sente-se com seus colegas, esta é a cadeira do padre Louiz.
Levantei-me rapidamente.
— Me desculpe irmã. Eu não sabia.
— Está tudo bem criança, ele não se encontra conosco hoje.
— Por quê? — perguntei.
— Curiosidade não é considerada uma dádiva aqui, meu jovem. Mas, o padre tem uma folga uma vez por mês. Mas não me pergunte para onde ele vai. Agora, escute-me sobre as regras da instituição. Todos rezamos juntos no café, às 7 horas, quem se atrasa é punido. — Não me arrisquei a perguntar quais são as punições. — Às 8, você terá aulas de História Cristã. Às 10, de Filosofia e Teologia. Ao meio-dia é o almoço. Até às 15 horas você pode fazer o que quiser, neste meio tempo aconselho lavar suas roupas. Até às 18, aula de literatura e artes. Então o fim do dia é livre. Alguma dúvida?
Respondi que não e sai. Nunca fui muito bom com regras. Fui até o fundo da cozinha, onde estavam dispostas as panelas, pratos e talheres. Servi-me com uma quantia razoável de sopa e alguns pães. Olhei para o refeitório. Em cada mesa havia um grupo. Observei atentamente cada um. Pressenti que eu não me encaixaria em nenhum deles. Então, em um canto da sala, vejo Benjamin. Ele está comendo sozinho, de cabeça baixa. Seu caderno de desenhos está ao seu lado, como se fosse seu único amigo.
Dirigi-me até ele. Sentei.
— Hey, Ben. — Ele não responde, apenas me olha com o rosto curvado. — A gente nem teve tempo de conversar. Acho que vamos nos ver muito daqui para frente. — Sorri. Ele continuou sério.
Achei que eu estava sendo inconveniente. Comecei a comer. Tenho a oportunidade de observá-lo melhor. Seus cabelos lisos e negros entram em contraste com sua pele extremamente branca. Seus óculos escondem a cor fraca acastanhada de seus olhos. Sua boca é fina, como se fosse desenhada a lápis.
Ambos terminamos nossos jantares. Ele ficou encarando seu prato vazio, e eu tentei me distrair com um talher. Arrisquei mais uma vez puxar conversa.
— Então, faz tempo que você está aqui?
Me encarou, não disse nada. Fiquei constrangido.
— Ahmm, e esse caderno. O que você rabisca nele. — Peguei o caderno. Foi um erro. Ele tomou de minha mão com raiva. Levantou-se.
— Não toque no meu caderno! — E saiu.
Todos no refeitório olhavam para mim. Abaixei a cabeça para esconder minha vermelhidão.
Na saída da cozinha, fui parado por alguns alunos, deveriam ter entre 19 e 21 anos. Começaram a me debochar.
— Então, aluno novo? É o namorado novo do Benja também?
Riram. Tentei continuar meu caminho.
— Espera florzinha, por que a pressa? Quer ir dar uns beijinhos no seu coleguinha? Ou vão continuar fazendo florzinhas naquele caderno escroto dele e depois discutirem pra ver qual é a mais escandalosa?
Continuaram a rir. Pensei comigo.
“Castiel, você é um anjo. Não caia em conflitos adolescentes.”
Tarde demais, um dos garotos puxou meu cabelo, dizendo.
— Que shampoo você usa? O de mulher?
Ele mal terminou de dizer a frase, estava caído no chão. Eu o derrubei por cima de mim e agarrei seu pescoço. Parece que minhas habilidades estavam voltando.
— E agora? Quem é a mulherzinha? — Gritei, todos correram.
O garoto que eu segurava pelo pescoço estava ficando vermelho. Ele se debatia, porém meu desejo era que ele sofresse. Para que soubesse com quem tinha se metido.
“Castiel!”
Não estava mais no internato, estava numa sala. Na Sala. A Sala Branca de Naomi.
— Castiel, o que pensa que está fazendo? — Ela disse, com um olhar severo.
Não respondi.
— Saiba que, nesta forma humana, se pecar, será castigado como um humano.
Mantive-me em silêncio.
— Fui clara?
Assenti com a cabeça.
Estava de volta. Ainda segurava o garoto. O soltei, desculpando-me. Realmente, Naomi não mentiu quando disse que estava me vigiando. Eu precisava me precaver contra isso. Não confiava nela. Corri para meu quarto.
Chegando lá, encontro a porta trancada. Preciso entrar. Preciso meditar. Encontrar uma maneira de barrar o rastreamento da legião. Concentro-me na fechadura, fecho meus olhos e faço minha energia fluir pela porta. Ela se abre. Estou exausto. Ainda muito fraco para utilizar telecinésia.
Entro no quarto, me deparo com uma cena chocante. Ben está ajoelhado em cima de sua cama, sem camiseta, uma faca em sua mão abre um corte em sua virilha. Sangue se acumula nos lençóis. Em sua barriga e peito, cicatrizes de outros cortes. Ele me encara surpreso. Ambos estamos sem reação.
— Castiel — Ele começa a chorar — Por favor, não conte à irmã Judith.
Não sei o que dizer. Não é uma situação muito comum. Porém, não tenho afinidade para julgá-lo. Fecho a porta, deito em minha cama e pergunto.
— Posso apagar a luz?
Ele fica em silêncio por alguns instantes e então responde.
— Pode deixar. Vou limpar minha cama e já apago.
Deito na cama e fecho os olhos, porém não para dormir, para meditar. Alguns minutos depois, a luz é apagada.
— Me desculpe. — ouço Ben de sua cama. — Pela minha falta de educação no refeitório.
— Está tudo bem. — Respondo — Eu estava sendo um saco mesmo. — Ambos rimos.
— Você é diferente dos outros. — ele diz.
— E isso é bom? — pergunto, rindo.
— Creio que seja. — ele também ri. — De onde você é?
— São Francisco. — Minto — E você.
— Sou daqui de Nova Iorque mesmo. Sempre fui.
Sinto por sua voz que ele está deprimido. Acho que algo em seu passado lhe perturba.
— Sua família também é daqui? — Arrisco.
Ele não responde. Este é seu ponto fraco. Passam-se alguns momentos de silêncio.
— Castiel?
— Por favor, me chame de Cas. — Respondi, gostava desse apelido, me lembrava dos Winchester.
— Ah, ok. Cas, está com sono?
Sinto que ele finalmente está se soltando.
— Não, não estou.
— Ah, então, bem, você quer jogar um jogo?
Pauso um instante.
— Que jogo?
— Verdade ou consequência. Eu jogava com meu antigo colega de quarto. — Ele pausa — É bom pra gente se conhecer melhor.
— Por mim tudo bem, como se joga?
— Um de cada vez faz uma pergunta pro outro. Não pode mentir! E se você não quiser responder, tem que pagar um castigo.
Tento decifrar o que está por trás deste jogo, mas aceito. As primeiras perguntas são coisas bobas, como cor preferida, comida, lugares que gostaríamos de conhecer.
Então, em minha vez de perguntar, lembro do coração em minha cabeceira.
— Ben, o que significa esse A & B?
Ele não responde. Passa-se quase um minuto.
— Ben?
— Você promete não me discriminar por isso?
— Claro que não, converso com você a menos de uma hora e já te considero um bom amigo.
Ele suspira.
— Tudo bem. A é de Albert. O B sou eu. Ele era meu colega de quarto, e hum, meu namorado.
Então era verdade. Ben era homossexual. Por isso os garotos me pararam. Passa-se algum tempo com ambos em silêncio.
— Minha vez. — ele responde — Qual sua melhor lembrança?
Lembrei-me de Sam e Dean, bebendo cerveja, corei.
— Eu com dois amigos, bebendo. — forcei uma risada. — Minha pergunta agora. Por que você ficou me encarando no chuveiro?
Silêncio.
— Bem, é, constrangedor... — Respondeu.
— Fala... Prometo que não comentarei, palavra de escoteiro. — Brinquei.
Rimos. Ele começou, tímido.
— Você é bonito e — pigarreou — me lembra um pouco o Al...
— Entendi. — Não senti repulsão por Ben, senti pena. De alguma forma sabia que ele amara Albert, que sentia falta dele. Mas não tive coragem de perguntar-lhe mais nada.
— Já estou com sono — disse Ben — Acho que vou dormir. — Senti que ele estava mentindo, acho que as últimas perguntas o intimidaram. — Boa noite, Castiel.
— Boa noite, Benjamin. — E olhando para minha cabeceira, imaginei Ben e Al, se eram felizes, e questionei-me:
“Será que é isso o que sinto por Dean Winchester?”.
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