Passagio
2 Capuccino - Capítulo 2
Notas iniciais
E como serão várias histórias, fica aqui avisado que todos os capítulos são pequenos, em torno de mil e quinhentas palavras, mais ou menos. O capítulo três, eu talvez consiga postar hoje ou amanhã. Boa leitura!
O vôo foi agradável e ela pôde comer bem à noite, uma deliciosa refeição vegetariana.
A instalação no hotel, aqui, é desnecessária. Ela se acomodou logo e deitou para escrever em seu diário, mas nesse ponto da história não é importante que relatemos o que escreveu. A noite foi tranquila e sem sonhos, e ela acordou de manhã cedo, o que só piorou a “ressaca” dela em relação à mudança de fuso-horário. O problema era como ela conseguiria chegar à escola, sem conhecer a cidade direito. Ela tinha pensado muito em como o faria, mas em todas as opções ela já tinha conhecido alguém e pedia que esse novo amigo ou amiga a ajudasse pela manhã. O único detalhe era que, obviamente, ela ainda não tinha conhecido ninguém na cidade. Mas depois de ter tomado um café pelos arredores do hotel ela se virou até bem, e acabou chegando uma hora antes do início das aulas.
A faculdade era enorme e mesmo cedo já estava cheia de pessoas. Quanto mais tempo passava, mais pessoas e mais professores chegavam, sem parar. Carla percebeu que antes não tinha a menor ideia das dimensões da faculdade que iria frequentar. Geralmente ela não parava para pensar na faculdade em si, mas nas pessoas, na comunicação com elas – ela tinha aprendido a falar um italiano um tanto quanto leigo, mas ainda assim bom – e em como iria se virar sem ninguém da família; sem ninguém íntimo por perto. Ela queria poder conversar em português com alguém por ali.
As primeiras aulas foram bem, e o início do ano letivo era agradável, com os professores e tudo o mais. Não era como no colegial, óbvio. Nada de apresentações para os alunos; apenas professores se identificavam, e diziam de uma forma geral como iriam trabalhar com os assuntos.
O grande problema – que nada se assimilou a um problema na época – aconteceu na última aula.
O professor não era da Itália, era da França, e passou um bom tempo da aula explicando como se apaixonou pela arte italiana. Era baixo e meio gorducho, e tinha um bigode que Carla descreveu, mais como uma brincadeira do que tudo, como duvidoso. Depois da longa autobiografia, ele quis saber dos alunos o motivo de estarem cursando Artes na faculdade. Todos falaram sem rodeios – todo mundo por ali era muito objetivo –, e Carla mal usou quatro frases e passou a vez. O último aluno estava recostado na cadeira com um capuz, como se estivesse dormindo. Quando sua vez chegou, o professor abriu um sorriso vitorioso. Ele poderia estar gritando “Peguei você!” e não seria mais óbvio.
– Então, e você, rapaz? – é essa a hora que todo mundo sempre sente pena do coitado, que provavelmente seria retirado de sala por dormir em plena aula – se estivessem no colegial. Numa faculdade, poderia até acontecer, mas os professores já têm outras maneiras de punir os engraçadinhos. De uma forma ou de outra, ninguém naquela turma teve tempo suficiente para nada. Ele levantou a cabeça e olhou para o professor, com um olhar que não poderia estar mais vivo – na opinião de Carla.
– Concordo com Mar... oh, não. Carla. Concordo com ela. De certo não foi um discurso muito longo, mas o suficiente para ser entendida. A arte é, infinitamente, expressão. – e piscou para ela.
Ele piscou para mim? HÃ?!
Ela ficou pasma. Se não tivesse percebido que ele ainda a olhava, teria ficado até o fim da aula com a expressão de choque confuso que tomou seu rosto quando aconteceu. Mas se recompões logo e o incentivou a continuar com um leve aceno de cabeça, que o fez sorrir.
– E, além disso, expressar tudo de forma singular e incomparável foi obra para poucos, e sonho de muitos até hoje. Arte é sentimento, por mais obscuro que possa ser, pois todo sentimento merece parte nesse mundo. Eu faço arte, professor, porque é a única matéria que o homem não criou para demonstrar poder, ou diferença, ou estabilidade. Porque é onde as pessoas não precisam ser esnobes, sabe. Elas são simplesmente elas, e não se importam se são aceitas ou não assim.
Murmurinhos e risinhos. Todos entenderam a indireta, menos o professor. Pelo menos era o que parecia. E se ele percebeu o ego ferido não lhe permitiu elaborar uma resposta.
– Muito bem... hum...
– Ricardo.
– Muito bem, Ricardo. E, pelo o que entendi... – e o sinal bateu.
Todos começaram a sair, e Carla resolveu esperar para evitar a confusão na porta. Ficou distraída, e por isso deu um pulo na cadeira quando sentiu uma mão em seu ombro.
Virou-se, e viu Ricardo olhando para ela. Alto, loiro e com olhos castanho-escuros. Ele sorriu para ela e saiu da frente de sua cadeira, deixando espaço suficiente para que ela saísse. Assim que ela estava de pé, Ricardo estendeu-lhe a mão, com o mesmo sorriso no rosto.
– Ricardo – ele disse quando ela finalmente o cumprimentou.
– Carla.
– Ah, sim, eu sei – ele disse, dando uma virada divertida com a cabeça – Esse professor – ele disse indicando o quadro negro na frente da sala – é mesmo... hum... – e olhou em volta, para ter certeza que não tinha mais ninguém por ali – dramático.
Carla deu um riso e começou a caminhar em direção à porta quando Ricardo indicou o caminho. Ficaram em silêncio por um momento, simplesmente percorrendo os corredores que levavam à entrada. Quando estavam entrando no quarto corredor, ele olhou para ela e depois deu de ombros.
– Percebeu que ele foi o único que fez a gente se apresentar? Isso é ridículo. Ele adora dizer que é melhor do que todo mundo, então não se assuste.
– Não acho que eu me assuste mais com esse tipo de pessoa. É com o resto que tenho me preocupado. Não sei, parece todo mundo tão... focado. Acho que sou a única que não sabe o que realmente quer.
– Acredite, você não é. Nem todo mundo vem sabendo o que quer. Mas é sempre bom se convencer que sim. Acho que eles fazem isso até que realmente saibam o que querem.
– É uma possibilidade.
Ele riu um pouco e ela o acompanhou. Estava mais calma, andando por ali com alguém. E, claro, como sempre acontece quando a gente relaxa, ela cometeu um deslize na língua.
Não, não é o que você está pensando, se você está pensando o que eu acho que está pensando. Eles estavam, naturalmente, conversando em italiano. Assim como todo o resto que foi dito até aqui, e provavelmente a maioria do que está por vir.
Quando avistaram a saída ela ficou se perguntando o que faria a partir dali. Olhou então para o lado e resolveu confiar um pouco nas pessoas. Mais propriamente dizendo, em Ricardo mesmo.
– Onde você mora? – ela perguntou em português, e percebeu isso assim que viu a pontada de incredulidade que apareceu no rosto dele.
– Português? Você fala português?
Ela enrubesceu.
– É. Sabe como é, intercambista e tudo o mais.
– Isso explica muita coisa.
– Tipo...
– Eu achei estranho você aparecer nas minhas aulas assim no segundo ano de faculdade e eu não me lembrar de você do ano passado. Não consegui acreditar que não me lembrava do seu rosto.
Ele abriu um meio sorriso e deu uma olhada nela. Carla bufou e olhou para ele, desafiadora.
– Não faz o menor sentido, você sabe.
– Mas é claro que faz. Agora, por exemplo. Não acho que eu vá conseguir esquecer o seu rosto.
E estabeleceu-se um silêncio incômodo até que eles estavam fora do prédio dois da faculdade, chegando aos portões principais que os levariam à estrada, que por sua vez levava à cidade.
– Você não me traduziu o que tinha falado antes – ele a lembrou, parando de frente para ela, que teve que olhar para cima para ver seu rosto moldado pelos cabelos loiros.
– Eu tinha perguntado em que parte da cidade você morava – ela disse, sorrindo.
– Ah, sim. Sabe, eu acho seu idioma muito bonito, mas não é como se eu tivesse tempo para praticar por aqui. E também não saberia onde, então...
– Eu poderia te ensinar, se você quisesse. Eu não sou exatamente formada em letras, mas acho que posso te ensinar uma coisa ou duas.
– Digo o mesmo, por mais que ache seu italiano impecável. Se precisar de qualquer ajuda na matéria, estou disponível.
Eles ficaram ali por um momento, simplesmente se olhando. Não sei dizer – e acho que eles também não saberiam – se foi ali que começou. Mas sem dúvidas eles começaram a se perceber ali. Se perceber como pessoas, e mais ousadamente digo que já até como amigos.
– Então... Eu moro nas proximidades do Rio Arno.
Carla arregalou os olhos, e ele riu, os fitando.
– Não! Você também?
– Bem... sim. Acho que é muita sorte minha, então.
– Muito provavelmente, senhorita.
Os dois então saíram da faculdade e Ricardo a orientou pela rua, explicando sobre os melhores ônibus para chegar e seus horários. Carla ouviu tudo atentamente e fez uma pergunta ou outra. Quando ele acabou de falar eles estavam em um estacionamento, que ficava na primeira esquina depois dos portões principais. Carla deu uma olhada dentro e viu vários alunos da faculdade saindo em carros – em sua maioria – esportivos.
– Hum... E quanto a... Aqui?
– Aqui é onde os alunos estacionam os carros. Faz parte do campus. E é onde eu fico. Se quiser uma carona...
– Ah, não. Obrigada. Não sou o tipo que dá trabalho, sabe como é.
– Você é quem sabe. Não seria incômodo nenhum para mim – ele disse, e a olhou cheio de expectativa.
– Não mesmo. Obrigada. Vou pegar aquela condução que você me orientou. Quem sabe outro dia...
E ela lhe deu as costas, indo para casa.
Ele ficou lá por um momento, somente olhando ela se afastar. Carla tinha um jeito engraçado, confiante, risonho. Ele tinha gostado dela, e era uma das poucas que ele tinha conhecido que não o tratava diferente dos outros. As pessoas costumavam tratá-lo como se fosse superior, só por causa das notas e da legião de amigos que conquistara quando chegou ali. Mas ela parecia não saber de nada sobre nada da faculdade, e ele se sentiu bem com isso. Não pôde deixar de notar seus olhos azuis quando eles pararam em frente ao portão principal, quando ele se lembrou de como era linda sua pronúncia em português. Ela o fitou com aqueles olhos por um bom tempo, apenas pensando, analisando sua expressão. Mas ele não conseguiu tirar os olhos dos dela.
E lá no estacionamento ele tinha torcido para que ela aceitasse sua carona, mas não aconteceu. Ela apenas recusou, deu de ombros e saiu andando, com os cabelos loiros ao vento.
Ela não estava errada, você sabe. Para alguém que ela tinha acabado de conhecer, ela já tinha abusado bastante. E queria saber voltar para sua nova – e momentânea – casa sozinha. Afinal de contas, ela não sabia que não ia precisar pegar as conduções por mais de algumas semanas.
Notas finais
Deeeeeixe sua revieeeew!!!!!!!!
uuuuuhhhhh.........
um bêjo!
Fale com o autor