Passagio
3 Capuccino - Capítulo 3
Notas iniciais
O primeiro mês de aulas ocorreu bem. Carla e Ricardo não se falaram demais nesse período, pois os professores faziam questão de deixar todos bem ocupados. Ela não fez nenhum outro amigo. Sempre que ela queria falar com alguém, podia falar com ele. Ricardo tinha muitos amigos, do ano passado e também alunos novos. E ele tinha também, claro, sua namorada, Maria. Ela era alta, tinha cabelos pretos e olhos azuis, como os de Carla.
Numa quinta-feira Carla estava em frente ao seu armário, mexendo no cadeado distraidamente. Ela tinha que pegar alguns livros para fazer tarefas no hotel. O sinal da última aula tinha acabado de bater, e os corredores já começavam a ficar vazios, os murmurinhos cada vez mais baixos e mais raros. Ela não queria ir para casa tão cedo. Os deveres eram das matérias que menos gostava, e a condução nesse dia da semana, especialmente, ficava lotada. Nos outros dias era bem tranquilo.
No meio de seus pensamentos o armário fez um clique e a porta ficou entreaberta. Enquanto ela pegava os livros e deixava alguns outros de lado, cantava baixinho Só Os Loucos Sabem, de Charlie Brown Jr. Ela nunca fora muito de ouvir músicas nacionais, mas depois que chegou a um lugar tão diferente, se tornara praticamente uma viciada.
– Eles dizem que é impossível encontrar o amor sem perder a razão, mas pra quem tem pensamento forte, o impossível é só questão de opinião...
Ricardo ouvia um murmurinho enquanto se aproximava dela. Quando chegou em suas costas, tão sutil que a garota não percebeu, ele a ouviu cantarolar em português.
– E disso os loucos sabem, só os loucos sabem... Disso os loucos sabem, só os loucos sabem...
– Hum... Eu realmente deveria ter aceitado aquelas aulas que você me ofereceu.
Carla se virou e riu para ele. Estava com o cabelo preso em um rabo de cavalo e as mãos sujas de tinta, enquanto ele estava completamente livre de qualquer resquício de tinta.
– Talvez eu devesse fazer o mesmo. Você deve ter muito tempo livre mesmo.
– Hã?
– Não, sério mesmo. Se você não estivesse aqui, eu jamais diria que cursa arte. Sério, você nunca se suja?
Ele riu e balançou a cabeça. Os dois começaram a caminhar para a frente da escola.
– Enfim, vim aqui te cobrar as aulas.
– Não, você não veio.
– Como é?
– Você só falou das aulas porque eu estava cantarolando, não é? – ela se virou para ele e riu – Mas diz aí, o que realmente trouxe você até mim.
– Nossa, e eu preciso de um motivo? – ele se divertia, embriagado como estava pelo perfume dela, que se sobrepunha ao leve cheiro de tinta que vinha de suas mãos e de um traço violeta em sua bochecha direita.
– Hum... acho que sim. E deve ser algo muito importante, para Carla ter te soltado daquelas unhas de gavião – ela disse enquanto se virava e recomeçava a andar.
Ele apertou o passo para alcançá-la. Se ela soubesse...
– É, ela tem estado meio estranha. Mas eu vim ver como você estava mesmo. Precisando de ajuda?
– Não como você com seu português – ele riu.
– Touché. Ponto para você.
– Isso é o que eu chamo de rima tosca. Se você me permite – ela disse numa imitação de donzela que o fez rir.
Caminharam mais um pouco em silêncio.
– Teve problemas com seu armário? – ele perguntou indicando o caminho que tinha ficado para trás, onde o armário dela ficava.
– Ah, não... Eu só estava dando um tempo. Hoje vou pegar a próxima condução. A primeira não podia ser mais lotada, sério.
– Eu podia te dar uma carona.
– Ah, não sei. É que...
– Não, não, não. De novo não. A senhorita hoje vai aceitar minha carona.
– Ah, é? – ela perguntou e deu uma risada. Virou o rosto para ele enquanto caminhavam e estreitou os olhos – Me convença.
– Uau. É um desafio? – ele perguntou, e ela deu de ombros – Então tá bom. Que tal um sorvete?
– Um sorvete? É o melhor que você pode fazer?
– Pense bem. É o sorvete. Delicioso como você nunca provou igual. O que você acha?
– Tentador.
Foram então caminhando até o portão de ferro. Saíram e foram até a garagem. Ela não precisou mais falar para que ele entendesse. Ricardo já a conhecia o suficiente para saber que era o mais próximo que chegaria de um sim.
Entraram os dois no New Beatle grafite e ele dirigiu até a cidade sorrindo e conversando com Carla sobre alguns professores. Quando pararam em um café chamado Capuccino, em sua maioria de vidro, de dois andares e na cor de café, Carla sorriu e se virou para ele.
– Eu vim por causa do sorvete. Não me decepcione.
– Jamais.
Ela saiu do carro e virou o sentido, sentindo o rubor subir-lhe as faces.
Entraram no café e se sentaram em uma mesa mais no fundo, perto do caixa. Ricardo pediu para cada um uma bola de sorvete de capuccino.
– Sorvete de capuccino? Sério?
– Não existe nada melhor, de verdade. E tem outros também.
– Então vai ser como um rodízio, é isso?
– Mais ou menos assim.
Ela riu. Provaram o primeiro, que Carla amou e disse ter valido a carona. Ricardo sorriu e pediu outros sabores. Chiclete, brigadeiro, baunilha, doce de leite e até merengata. Durante as degustações, como Ricardo insistia em chamar, eles conversaram muito. Carla inventou mil e uma piadas sobre Maria, e ficou surpresa quando Ricardo concordou. Ele disse que a menina estava ficando completamente louca, e sua imitação da careta que ela fazia toda vez que ele falava em sair com os amigos era cômica.
Carla contou-lhe sobre sua família e sobre o Brasil, e ele ficou completamente encantado. A mistura das pronúncias que ela fazia quando não sabia como se dizia alguma em coisa em italiano foi descrita por ele alguns anos depois como doce e meiga. Eles riram muito juntos e Ricardo também contou a ela sobre sua família, sobre sua irmã mais nova, sobre seu amor pela moda. Carla brincou dizendo que Joanne poderia lhe ensinar uma coisa ou duas também.
– Eu juro que não acreditei que seria tudo tão bom assim. Todos os sorvetes eram surreais!
– Eu disse, não disse? – ele brincou, e pegou a mão de Carla.
Ela arregalou os olhos – mas ele não viu, porque estava olhando para os círculos que desenhava com a ponta dos dedos na mão dela. Carla relaxou e deu um meio sorriso para ele, assim que ele levantou a cabeça, a cabeleira loira como a sua se balançando.
– Eu sentia saudade de vir assim aqui, ficar um tempo, rir. – e deu um meio sorriso – Eu vim aqui uma vez com ela – ele não precisou explicar, Carla sabia de quem ele estava falando, e não o interrompeu – e acabei comendo sozinho. Ela não tem nada a ver comigo mesmo.
Ele queria dizer, queria falar-lhe de uma vez, mas Carla não parecia tão receptiva assim. Ali estava ela, fazendo o máximo para entender o que ele estava sentindo – e ela estava mesmo – e mesmo assim ele acou que seria demais. Todas as outras vezes, que passaram o almoço juntos na faculdade, conversaram assim; como se não houvesse tempo, como se não existissem os compromissos, como se fossem apenas os dois e mais nada. Ele queria saber se ela se sentira assim também – o que ele não sabia é que ela se sentia, mas sempre acreditou ser a mais pura e incrível amizade.
Ele estendeu então a outra mão e a colocou na nuca de Carla, parando com os círculos na mão dela e no lugar deles dando um aperto carinhoso. Ele abriu a boca para recomeçar, tentar outra vez, mas ela tirou a mão dele de sua nuca e se levantou, pegando sua mochila do chão.
– Desculpa – foi tudo que ela disse antes de sair correndo, confusa. Ela não fazia a menor ideia do que estava sentindo. Estava convencida de que Ricardo era para ela um irmão, mas então porque o frio na barriga, o desejo a sufocar-lhe a garganta quando ele tocou sua mão, sua nuca?
Não. Ela não estava apaixonada por ele. Ela gostava da sensação. Afinal de contas, não é como se ela tivesse tido nada disso no Brasil, nem ali até então. Por mais que os caras de sua idade e até mais velhos estivessem sempre lhe rodeando, nenhum deles jamais tomou nenhuma iniciativa com ela. Ela se sentiu bem por se sentir desejada, nada mais. E ainda assim, achava estar se sentindo errada. Ele não a queria, ele não gostava dela. Ele sentia o mesmo que ela, mas não soube expressar. E se esse desentendimento acabasse por cair nos ouvidos de Maria, ela faria um desastre na vida do rapaz que queria tão bem. E não podia permitir isso de forma alguma.
Já Ricardo se sentiu completamente desolado. Um mês se passara desde que ele estivera apenas deslumbrado pela beleza da brasileira, que agora ele desejava e amava de um jeito que não era, de forma alguma, o jeito com o qual passava os fins de tarde com Maria. E ela parecia tão decidida a não deixá-lo dizer o que ele precisava dizer que o deixava completamente frustrado. Claro que não ficaria por aquilo. Ela ia tentar de novo na sexta. Ia falar com ela, e ia fazer com que ela o ouvisse dessa vez. Mesmo que ela nada quisesse, um mal-entendido não poderia existir entre os dois, de forma alguma. Não só a desejava, como a desejava bem. Com ou sem ele.
Por mais que ele ainda sentisse a maciez da pele dela e que ela sentisse o calor da mão dele em sua mão e sua nuca, ele não correu atrás, e ela não voltou.
Notas finais
E muito obrigada por estar lendo Soph, e você, que não é ela mas resolveu nos dar o ar de sua graça, lendo nossa história. É muito importante para a gente. Um grande BEEIJO!
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