Passagio

1 Capuccino - Capítulo 1


Notas iniciais
Espero que gostem *.*

“Hotel Balestri, Piazza Mentana, 7, 50122,Firenze, Toscana, Itália.

É onde vou estar, em algum tempo. Doze horas, se não tiver nenhum... como foi que chamaram mesmo? Ah, é. Engarrafamento. Aéreo. Engarrafamento para aviões, pode uma coisa dessas?

Também não entendi como “Firenze” se tornou “Florença” em português, mas esses dois não são nem de longe os maiores dos meus problemas. Não sei se é o fato de estar indo para um país onde nunca fui antes, passar modestos seis meses para intercâmbio, de ter que me comunicar com todos a partir de agora em italiano, me localizar em Florença ou de minha mãe ter resolvido me colocar em um dos hotéis mais lindos que eu já vi. As fotos que achei na internet mostravam um estilo clássico, do tipo mármore, poltronas de acolchoado vermelho, varandinhas renascentistas e coisa e tal. Eu não sei o que eu vou fazer. Além do meu quarto, o hotel tem mais cinquenta e deve ser cheio de pessoas cheias de classe e hábitos... hum... italianos?

E eu não sou assim. Não italiana, por que isso já é óbvio, mas culta, cheia de classe. Não é o meu estilo, nem nunca foi. Mas a isso eu posso sobreviver, não é lá um grande desafio. Pelo que parece meu quarto tem vista para o Rio Arno. Simplesmente lindo. Um sonho. Qualquer um estaria radiante, mas não eu. Eu não sei se estou pronta para o que está por vir, mas no fim das contas isso nunca conta mesmo, a vida não quer saber que horas a gente sai do banho, simplesmente falta luz. Isso foi uma metáfora, tá?

Peraí, diários tem senso de humor? Acho que eu nunca vou saber né? – piadas péssimas as minhas. Perdoe-me, isso tudo é só um grande reflexo do meu nervosismo nesse momento, o.k.? Estou surtando legal por aqui.

Ah, que falta de educação! Me esqueci que você é novo, diário. Ainda vou achar um nome para você. Pode ser algo fofo como Pooh ou mais clássico como Héstia. Enfim, meu nome é Carla Borges, e eu vou entrar na faculdade. Tenho 19 anos e não, não sou atrasada. É um porre como todo mundo acha isso. Ser baixinha assim até que ajuda nesse aspecto, as pessoas, de uma certa forma, acabam aceitando mais facilmente minha idade... ah, sei lá! Tanto faz! Porque eu estou tão... tosca?

Ah, meu Deus. Que trocadilho horrível – estou tosca indo para a toscana. Eu preciso me acalmar. MESMO.

Bem... hum... Ah! Quase me esqueci do verdadeiro propósito de estar escrevendo. Que na verdade é bem esse: me acalmar. E para tanto eu preciso muito desabafar.

Estou animada, é verdade, mas estou no avião escrevendo sobre o dia mais louco da minha vida. E por mais excitante que possa ser ir à Itália, todos os preparativos feitos com pressa me assustaram. Renovei todos os meus documentos e tirei minha carteira de motorista, finalmente. É verdade que, graças à inovação que fez com que as pessoas esquecessem que, apesar de tudo, o mundo é feito de fronteiras – inovação que os mais intelectuais gostam de chamar de globalização, mas eu não sou uma das mais intelectuais –, eu nem precisei sair do conforto da minha cadeira do computador – nem do tumblr, vale constar – para me matricular na minha nova faculdade. Não só nova, mas também a primeira, FACT. Mas matrícula na faculdade não era a única coisa que eu precisava, né? Mas era o que minha mãe achava.

Até mês passado.

Qualquer pessoa que já tenha precisado renovar todos os documentos sabe do tipo de correria que eu estou falando. Ah, sabe.

No final das contas – ainda bem – deu tudo certo. Não vou nem falar da burocracia no embarque, por que se não já fica meio clichê, nem das cores do avião, que só vão aumentar a minha melancolia daqui para a Toscana.

Tem um senhor sentado ao meu lado, roncando levemente, com a calma de quem vai para casa. Eu queria estar assim também. Mas não sinto um pingo de sono. Nem estou indo para casa, muito menos me sentindo assim.

Se eu estivesse vendo algo mais que nuvens, escreveria mais...

Hum! Tem lanchinho vindo aí, com a aeromoça. É um sinal. Vou parar de escrever mesmo. Até a noite, no quarto do hotel.

xoxo,

Carla.”


Ela fechou o diário, guardou na caixinha de madeira e depois colocou de volta na bolsa de couro preto que estava recostada em seus pés. Estava muito cansada, mas sono não era um privilégio que tinha com facilidade. Ela chamou a aeromoça e pegou um achocolatado e um biscoito salgado para o lanche. Estava pensando em como queria que à noite conseguisse achar um jantar vegetariano. Caso contrário, teria que ficar somente no suco de fruta até a madrugada, quando chegasse à Itália e pudesse finalmente comer algo que não fosse comida de avião. De qualquer forma, o lanche nem estava ruim.

Depois de comer ela se recostou na cadeira e observou o céu fora do avião. Ela se sentia incrivelmente pequena, quando se lembrava do tamanho do mundo lá fora. E sabia também que mesmo com tanta coisa planejada, muito ainda estava fora de seu alcance. A universidade não era nem um pouco perto do hotel, ela teria que aprender a pegar todo tipo de ônibus para o caso de um atraso nos seus horários e tinha que ter muita energia todos os dias para conhecer toda a universidade, os arredores do hotel e o maior número de pessoas, tudo possivelmente em italiano. E existiam todas as possibilidades para isso dar errado. Mas não era a coisa perfeita pra se pensar quando se quer dormir, e por isso ela deixou a mente vaguear entre pessoas e memórias. Mexeu nos cabelos loiros, enrolando-os nos dedos finos que pintavam as telas que tantas pessoas admiravam. Foi esse um dos motivos para ela ter escolhido Florença; É um lugar de uma cultura riquíssima, berço do Renascimento na Itália. Cheia de esculturas, galerias, é uma cidade que se expressa de formas e tamanhos diferentes a cada esquina, e você nunca sabe o que pode achar. É assim que todos que ela conhece descreviam a italiana Firenze. E isso sempre a encantou. Pensando sobre a diversidade que poderia encontrar, ela foi se lembrando do nome de alguns dos artistas de Florença e de suas obras, entre outros temas da cidade que era seu destino.

Até que, depois de muito tempo, as pálpebras começaram a pesar. O avião estava um pouco frio e por isso ela estava com um cobertor de lã no colo e sua jaqueta de couro. Ela bocejou longamente e se sentiu verdadeiramente exausta. Era como se todo o peso estivesse sobre os seus olhos. Ela deu uma última olhada no avião à sua volta. Ao lado dela, o senhor deu um ronco mais alto e virou a cabeça para o outro lado. O cansaço venceu, e ela apagou.


Notas finais
E aí? Se gostou, deixe um review. Se não, deixe um review para fazermos melhor. Se achou legalzinho, deixe um review para a gente deixa legalzão. Se um ninja estiver no teto da sua casa pronto para te matar, deixe seu último review no mundo. Se você está no meio de um tiroteio, deixe um review para sabermos que você está bem. Se Cronos está te puxando para o Tártaro, deixe um review falando do capítulo para ele te deixar em paz. Se Voldemort estiver chegando na sua casa, deixe seu review e CORRA.
Enfim, deixe seu review, ok?