Passado, Presente ou Futuro
18 Capítulo XIX
Notas iniciais
Era mentira. Eu lembrava de tudo perfeitamente. Mas algo me dizia que eu deveria guardar segredo. Não só guardar da Mia, mas de todos. Afinal de contas, fora apenas uma historinha confusa de uma garotinha sorridente e seu... pai?
O mais estranho era que quanto mais eu pensava na menina, mais minha dor de cabeça aumentava. Não era tão forte quanto se eu tentasse me lembrar do passado, mas chegava perto. Esquisito.
Eu não podia voltar para a ala hospitalar, e depois de ter sumido no refeitório, não tinha a menor intenção de ir para o chalé 1, então comentei com a Mia que assim que minha cabeça melhorasse, eu já sabia pra onde iria. A Arena de Combates.
– Você tem certeza que quer ir para lá? — Mia perguntou quando anunciei meu destino. — Já é tarde.
– Não é por causa do horário que você está dizendo isso. — era para ser uma afirmação, mas acabou saindo num tom de pergunta.
– Não é. É por causa do seu ombro e sabe disso. Sei que não foi liberada da ala hospitalar porque conversei com a Nick mais cedo e ela comentou que você tinha sumido.
– Você não...
– Te delatei? Não. Você pode pensar que te odeio, mas é bem diferente disso.
– Bem que depois da sugestão de beijo lésbico eu suspeitei.
– Só me avise antes. Preciso pedir permissão ao meu namorado. — ela falou e começamos a rir. — Agora sério. Eu tenho sentimentos por você
– Que merda, Mia.
– NÃO ESSE TIPO DE SENTIMENTOS, SUA RETARDADA. — ela deu um tapa no meu braço esquerdo, dando ênfase.
– Que tipo então? — perguntei.
– Eu não sei explicar. É como se eu precisasse te proteger de qualquer jeito.
– Engraçado que na hora de me ameaçar de morte esse sentimento sumiu.
– Não sumiu. Eu passei mal depois daquilo.
– O que isso significa então?
– Não sei, mas vou descobrir.
– Obrigada.
– Por quê?
– Por tentar me ajudar.- por não me matar, por não gritar comigo quando eu estava morrendo de dor, por pular na cama da Clarie para perguntar o que ela tinha feito comigo...
– Sabe que eu nunca gostei dela? — Mia falou.
– De quem? Da Clarie?
– Lilly.
– Nem eu. Desde a primeira vez que ouvi.
...
Quando saímos do chalé, as estrelas rodeavam a lua, que era um semi círculo prateado. Percebi que por mais que o Acampamento fosse lindo com o sol a pino, a noite também o valorizava. Cada chalé tinha um tipo de iluminação, e a fogueira que ficava exatamente no centro deles, pairava acesa, proporcionando luz e calor.
Mia insistiu em me levar até meu chalé — ela me convenceu a não ir para a Arena- para caso eu precisasse me apoiar em alguém para não desmaiar pela milésima vez, mas consegui convencê-la de que estava tudo bem e que ela não precisava se preocupar comigo. Era bastante estranho o fato de estarmos nos dando tão bem depois de todas as ameaças há menos de 24 horas, mas não era nem um pouco ruim.
Ao invés de ir direto para o chalé, fui até a praia. Na areia, pequenas bolinhas brilhavam, espalhadas. Eram como estrelas, que me chamavam para me aproximar. Pareciam mais lâmpadas incandescentes.
Quando me sentei na areia, entendi o que eram as luzes. Cada uma delas era um um círculo brilhante que não me atrevi a tocar. Mais ou menos à minha esquerda, eu podia ver o píer, que estava mais cheio dessas estrelas. À esquerda do píer, parecia estar havendo um lual ou algo do gênero, contendo uma fogueira cujo brilho superava completamente as luzes. Era como o sol rodeado de outras estrelas. As pessoas riam e conversavam, mas eu não ouvia nada. Meu foco então era o mar, que apenas à luz da lua parecia negro. O som das ondas que iam e vinham me acalmava.
Agradecida por um momento sozinha, enterrei minha cabeça entre meus joelhos, abraçando-os.
Eu entendia que tudo o que havia acontecido tinha um motivo, mas por quê? Que motivo era esse que exigia que eu esquecesse e não pudesse lembrar? Tudo o que eu queria naquele momento era um abraço e um sussurro "vai ficar tudo bem" mesmo que eu soubesse que nada ficaria bem.
Mas não. Não havia ninguém lá. Era eu e apenas eu. Sozinha. O que me fez pensar em outra teoria. E se eu fosse sozinha no meu passado? E se eu fosse condenada a passar a minha vida inteira sozinha?
Comecei a ter inveja da Hero. Ela tinha um pai — ou quase isso. Por mais que seus tios fossem muito estranhos e assustadores, ela tinha uma família. Será que fora este o motivo da visão? Me mostrar o que eu nunca poderia ter?
Sim, chorei. Ali sozinha pensamentos tristes insistiam em invadir minha cabeça e me convencer de que eu não merecia o contrário.
Depois de um tempo, resolvi ir para o chalé, e assim que cheguei lá, dormi.
Eu estava em uma caverna. Ou pelo menos parecia uma caverna, fora que eu não via luz natural entrando por lugar nenhum.
Dei uma olhada em volta e entendi que o motivo da falta de luz natural -haviam varias lâmpadas acesas ao longo da caverna- era uma caveira preta cuja uma névoa também preta exalava dela.
A névoa, além de formar uma parede negra que lacrava a caverna, ia em direção aos olhos de um animal — que eu não consegui distinguir que animal era, mas supus que fosse uma grande ave — , que estava do lado de fora da névoa, cegando-o.
Dentro da caverna, haviam dois outros animais. Eles não parecia afetados pela névoa, embora o grande javali estivesse em posição de defesa, como se fosse "mãe" do filhote de onça, que realmente parecia bastante indefeso.
A ave começou a bater a cabeça contra a parede de névoa, que aparentemente era bem sólida e não sofria muito com as cabeçadas. Até que outra ave, menor, também cegada pela névoa, começou a bater a cabeça contra a névoa junto à anterior. Ambas conseguiam fazer belos estragos na parede, que começava a "rachar".
O javali parecia furioso e achei que ele iria partir contra a parede também, só para destroçar as aves, mas ele se virou de costas para a parede e, com a lateral do focinho, "acariciou" a onça.
Aí sim ele foi lentamente e sem olhar para trás, em direção à parede, enquanto a onça levava uma flechada. Corri em direção à onça.
É, flechada. Assim do nada mesmo. A flecha surgiu do além e acertou a onça, que começou a choramingar e então ficou em silêncio, apenas tendo espasmos e observando o bravo javali.
Pouco antes da onça desacordar, ela olhou em meus olhos, e vi que os olhos dela me refletiam. Eles eram de um verde tão familiar...
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