Passado, Presente ou Futuro
19 Capitulo XIX
Notas iniciais
Acordei.
Com dor de cabeça.
E com meu ombro doendo.
– Boa tarde, Bela Adormecida.
– Tarde? O que? — levantei rapidamente, me arrependendo no mesmo minuto e levando a mão ao ombro.
– Calma, calma, Aurora. — Madu riu. — Ainda está de manhã pelo menos.
– Por que raios você disse isso?
– Nenhum dos raios. Quero saber pra onde a senhorita fugiu ontem depois do almoço. — ela cruzou os braços, como se fosse uma mãe exigindo ao filho que obedecesse.
– Andei por aí. Explorando o Acampamento.
– Que merda Ella, você mente muito mal.
– Se eu menti, o que te faz achar que vou te contar?
Ela respirou fundo e bufou.
– Anda logo. A galera tá esperando no refeitório.
...
O refeitório estava vazio, Apenas a nossa mesa e mais duas estavam ocupadas. E ocupadas por bem poucas pessoas. Na nossa mesa, Nando e Pablo conversavam.
– Acordei tão tarde assim? — perguntei à Madu enquanto fazíamos churrasco de pão para os deuses.
– Na verdade, hoje tem campeonato.
– Campeonato de que?
– Campeonato aquático. Embora muita gente ache uma palhaçada, porque no fim das contas, o campeonato acaba sendo só para os filhos de Poseidon. E Netuno.
– Ninguém mais pode participar?
– Poder até pode, mas não vale muito à pena. Só um filho de Éolo ganhou uma prova uma vez há uns anos atrás.
– O Will...?
– Se ele ganhou? Aquele cara ganha no mínimo duas provas.
– Na verdade eu ia perguntar se ele está lá, mas acho que é meio óbvio.
– É muito óbvio, Ella. — Nando falou quando sentei na cadeira ao lado dele.
– Oi Nando. — beijei a bochecha dele. — Oi Miojo.
Ele pareceu se surpreender, mas não falou nada.
– Mioja, o Gustavo foi ajudar no campeonato, e eu estou atolado de trabalho no Bunker. Tem problema se você ficar sozinha hoje? — Pablo perguntou.
Abri a boca mas não deu tempo de som algum sair antes do Nando falar.
– Na verdade, eu queria ficar essa tarde com a Ella. Tem problema?
– Acho que não. Pablo? — Madu perguntou.
– Eu não vejo problemas.
– Alguém vai me perguntar? — perguntei.
– Não. — os três responderam em uníssono.
...
Depois de nos empanturrarmos de comida – éramos um quarteto fantástico para o serviço –, Pablo foi para o Bunker e Madu o acompanhou, me deixando com o Nando.
– Então... Já pode falar, Nando. – falei.
– Falar o que?
– Não se faça de idiota. Você teve motivos para querer ficar comigo essa tarde.
– Ah, isso.
– É, isso, Nando. Desembucha.
– Na verdade, é melhor se eu mostrar.
Ele segurou minha mão e me puxou, por um caminho que eu não conhecia, dando a volta no refeitório e passando por lugares que eu não tinha visto ainda.
Paramos na frente de uma parede de uns 3 metros de altura e o Nando me soltou.
– É isso que você quer me mostrar? — perguntei.
– Na verdade... – ele pegou um pequeno quadrado prateado do bolso e grudou na parede, o que fez o quadrado se expandir até virar um teclado numérico e ele digitou alguma coisa nele, fazendo-o expandir mais ainda, desvendando uma porta – ...é isso.
– Uma porta? Hm, legal Nando.
– Cala a boca, Ella.
Ele abriu a porta, revelando uma séria bagunça. Papéis colados nas paredes, dispositivos espalhados pelo chão, mesas com mais papeis e dispositivos, uma parede com aljavas, flechas e arcos, e um frigobar no canto da sala.
Haviam duas cadeiras giratórias e com rodinhas. Ele acenou para que eu sentasse.
– Bela bagunça. — falei.
– Bela boca fechada. — rebateu ele, ainda sorrindo.
Ele foi até uma parede que tinha um tapete azul pendurado – é, um tapete na parede, nem me fale – e o puxou com força.
Haviam fotos do Will e do Lyu conversando no meio da floresta à noite, uma sacola transparente lacrada contendo uma flecha com sangue seco, e outra com um frasco azul. Haviam várias folhas de anotações com uma letra garranchada que imaginei que fosse do Nando e uma folha diferente com uma letra desenhada.
– O que significa isso? — perguntei.
– Calma.
Ele foi até a mesa e ligou um aparelho preto que parecia um rádio. O aparelho guinchou e gritou, mas Nando conseguiu ajeitar e percebi que duas vozes saíam dele, embora os ruídos atrapalhassem muito.
“Você co (ruídos) lenciá-la?”
“Sim, mas eu não (ruídos)”
“Devia si (ruídos) até o pesc (ruídos) não podemos (ruídos)”
Uma breve pausa sem ruídos.
“E agora?”
Mais uma breve pausa.
“Devemos contin (ruídos) não vai (ruídos) ele quer.”
Reconheci as vozes apesar dos ruídos, mas não podia ser.
– O QUE SIGNIFICA ISSO? — gritei.
– Você reconheceu as vozes, não foi? Seu namorado não é tão perfeito assim, não é?
– Não é o Will. Nem o Lyu. Eles não são assim.
– Não são? Você sabe de quem foi tirada essa flecha? — Nando apontou para a flecha que eu havia viso antes. Ao ouvir as palavras “de quem”, meu estômago se revirou. – Alinne. Irmã gêmea do Lyu. E essa flecha é dele.
– Não, não é.
– Você viu esse frasco? – ele apontou para o frasco azul – Contém veneno. E as digitais do seu querido Will estão nele.
– Não, não estão.
– Eles estão tramando alguma coisa, alguma coisa grande e ruim.
– Como você sabe de tudo isso?
– Não é à toa que me chamam de Oliver Queen do Acampamento.
– Oliver quem?
– Mas você apareceu com a camisa do Flash, eu pensei... Ah, esquece.
– Não importa. Não faz sentido isso tudo. O Will e o Lyu são boas pessoas.
– E você conhece eles há dois dias, eu conheço há mais de dois anos.
– Por que você está me contando isso?
– Porque me importo com você e eles podem te machucar.
– Não, não podem. E não vão. Eu gostava de você, Nando, gostava mesmo, mas agora vejo a farsa em que acreditei.
Saí da sala e fui correndo em direção ao chalé 3. O Wil não era capaz de fazer nada de ruim a ninguém.
O chalé era imponente e muito bonito, mas eu não estava com cabeça para apreciar a vista.
Soquei a porta até que alguém abrisse.
– Oi? — Davi atendeu a porta. – Ah, Ella! Como está? Seu ombro melhorou? Espero que esteja bem, a Deb se arrependeu muito. Quer entrar? Quer ver o Will? Quer que eu chame o Will?
– Ella? — Will apareceu, usando apenas uma bermuda de surfista e chinelos. Seus cabelos estavam molhados como se ele tivesse acabado de sair do banho. — Você está bem?
– Precisamos conversar, Will.
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