Passado, Presente ou Futuro
5 Capitulo V
A Madu foi na frente e eu a seguia. Passamos por um tempo andando em silencio até que eu não aguentei mais aquela monotonia e tomei uma iniciativa.
– Você é amiga do Pablo, não é?- perguntei.
– Bem, na verdade, mais que isso.
– Ah, me desculpe, não sabia que eram...
– Namorados? Não, Ella, sua doida. — ela riu- Somos parabatais.
– Parabaquem?
– P-A-R-A-B-A-T-A-I-S. Significa que somos inseparáveis, que somos mais que melhores amigos, que um daria a vida pelo outro. Em uma batalha é útil, eu até consigo sentir quando ele se machuca. É algo muito difícil de ser encontrado. Temos uma ligação telepática também.
– Sério?- fiquei maravilhada.
– Não a parte da telepatia. — Ela começou a rir e eu também. — Chegamos.
O chalé era, bem, maravilhoso. Acho que essa era uma boa palavra para descrevê-lo. Era alto, com pequenas colunas brancas na frente e parecia ter algo que eu não identifiquei no telhado. Sua fachada era branca, limpa, com um desenho de um raio bem no meio.
Madu abriu a porta e entramos. Por dentro ele era bem aconchegante apesar de ter uma enorme estátua assustadora no canto. As camas eram poucas e perto umas das outras, todas juntas num canto do chalé. Havia um tapete que cobria o chão todo que era como o céu à noite, eu me sentia literalmente andando nas nuvens. Nas paredes, vários nichos de metal, cada um com um nome diferente e, abaixo deles, vários baús, um do lado do outro, cada um pintado de um jeito. Uma parede era toda rabiscada, tinham raios e estrelas, nomes, e vários tipos de desenhos. Nessa mesma parede havia uma escada de enfeite que ia até o teto, que também estava rabiscada.
– Deve ter alguma coisa por aqui, vá em frente. -Madu falou, após abrir um baú roxo e preto, se sentar em uma cama.
– Isso aqui... É seu?- perguntei
Cheguei perto e olhei o conteúdo do baú. Roupas pretas. Mais roupas pretas. Muita roupa preta.
– É. Não viemos aqui pra arrumar roupas pra você?
Acabei encontrando uma blusa roxa da mesma cor do baú, mas quando comecei a puxá-la do fundo, a Madu, de olhos arregalados, segurou meu pulso.
– Essa não. — disse e fechou o baú.
– Me desculpe...
– Me lembrei agora que hoje de manhã isso apareceu numa das camas vazias.- ela trazia uma blusa laranja como a da maioria dos adolescentes que eu tinha visto usando.- Estava escrito "para Ella".
– Ah, você não sabe quem deixou?- perguntei, pegando a blusa.
– Não, mas você é nova, não fariam pegadinhas, deve ser do Gu mesmo. — ela foi até uma cama que provavelmente era dela, levantou o colchão e tirou um short jeans com a barra estampada de flores. — Isso aqui. Minha mãe me mandou, mas eu não vou usar nunca. Até parece que eu vou usar um short de florzinha. Eu pareço uma florzinha?
– Eu não sei. — ri- Eu pareço?
– Muito. Vai colocar essa roupa logo.
Tirei o “resto de short” que eu usava e coloquei o da Madu. Serviu perfeitamente. Tirei o meu "resto de blusa" e coloquei a laranja. Ficou grande, mas era confortável.
– Tira essa blusa. -ela me falou
– O quê?
– Tira logo, Ella.
Tirei e ela esticou a blusa no chão. Se abaixou ao lado da blusa e encostou o indicador perto da gola. Aonde ela encostava o dedo, meio que torrava. Eu conseguia ver uma luz saindo do dedo dela, seria um mini mini raio? Ela estava cortando a gola da blusa com o dedo, queimando.
– Agora veste. — ela mandou e eu obedeci. A blusa agora era jogada em um ombro só
– Como fez isso?- Perguntei.
– Bem, nosso pai é o deus das tempestades, raios e tal. Eu consigo controlar isso. Os raios e tudo mais. Outros conseguem outras coisas ou isso também, depende de cada um.
– Pronta, Ella? — o Gus falou, ao entrar.
– Se ela está pronta pra aprender história? Na sua mais pura verdade? Sem prática? Quem não está preparado pra isso?- ela riu.
– Eu. Eu não estou nem um pouco. — ri nervosamente.
– Na verdade, história não vai ser muito determinante hoje. Que o Quíron não saiba disso. — ele olhou pra Madu- Como hoje tem caça, acho que deveria aprender alguma coisa que sirva pra ao menos se defender. Ares está do nosso lado, mas não significa que o time azul não seja violento.
– Eles são umas florezinhas. — Madu falou, irônica
– Como eu então? — sorri.
– Tenho certeza que o Gu consegue consertar isso, Ella.
– Vamos então?- ele me chamou.
– Pois é.
...
Nos sentamos à sombra de uma árvore, perto dos campos de morangos. O Gus tinha trazido alguns livros para me explicar, embora eu achasse que alguns livros não desfariam a confusão na minha cabeça.
– Poderíamos ter ido até a biblioteca mas achei que seria melhor aqui, algum problema?
– Não, obrigada. — eu sorri.
Eu não sabia nada e sabia que todos sabiam disso... Isso ficou confuso. Resumidamente, não queria demonstrar não saber de nada.
– São 12 deuses olimpianos. — ele começou.- Zeus, Poseidon, Hera, Atena, Apolo, Ártemis, Deméter, Hermes, Hefesto, Dionísio, Afrodite e Ares. Não necessariamente nessa ordem. Todos os campistas, são filhos deles ou de deuses menores, apesar de não gostarem da expressão “menor”, é isso que eles são.
– Eu deveria decorar isso?- perguntei
– Ao longo do tempo você vai saber sem precisar decorar nem nada. Como estamos sem tempo, eu vou fazer só uma introdução, aí vamos treinar.
– Okay.
– Seu pai, meu pai, é Zeus. O rei do Olimpo, o maior de todos os deuses e coisa e tal. Ele é o deus das tempestades, raios, trovões, basicamente coisas relacionadas ao céu. E sim, envolve voar. Nem todos conseguem, mas...
– Você não?- interrompi
– Hoje teremos captura da bandeira, que é um jogo semanal aqui no acampamento. Temos o time vermelho, que é o nosso, e o time azul, que é nosso adversário. Os chalés constantemente mudam suas alianças, mas geralmente não é uma mudança muito drástica. — ele falou, ignorando minha pergunta. E continuou- Hoje, o time vermelho engloba os chalés de Zeus, Hades, Ares, Hefesto, Hécate, e outros deuses e o time azul engloba os chalés de Poseidon, Atena, Hermes, e outros que também não lembro. Mas isso nem é tão relevante, porque quem for do time azul, terá elmo azul, e do vermelho, elmo vermelho.
– E se alguém do azul usar um vermelho pra nos enganar?
–A última pessoa que fez isso, foi banida dos caças, e hoje ela mora com o pai porque ficou revoltada com isso. Era a Babu, filha de Afrodite.
– Tá, então em cada chalé, são todos irmãos. Ou meio irmãos. Isso eu entendi. Mas cada deus tem uma habilidade?
– É mais ou menos isso. Seus filhos na maioria das vezes herdam suas habilidades. O caça é pra colocarmos em prática e desenvolver nossas habilidades.
– Pra quê?
– Ella, eu não sei de onde você veio, nem como conseguiu chegar aqui, mas com certeza venceu alguns monstros. Pelo estado das suas roupas e o fato de você ser filha do maior deus, portanto com um cheiro muito forte, com certeza não foi só um monstro que te encheu o saco.
– Monstros? Deuses? Cheiros? No que eu fui me meter?
– Você nasceu assim, Ella. Nós nascemos. Não é como se cada um aqui tivesse escolhido essa vida. Essa vida nos escolheu. E você tem muito mesmo a aprender. — ele se levantou- Mas no momento esses livros não vão ajudar.
– Aonde você está indo?
– Arrumar umas espadas. Você vem?- ele chamou.
Apesar de ele ter me contado pouco, foi melhor assim. Já era muita informação. Um pouco de ação, mesmo que eu não tivesse nem ideia de que tipo de ação seria, ajudaria muito. Eu tinha todo o direito de escolher ficar e estudar, aprender mais da teoria, mas não era daquilo que eu precisava. Do mesmo jeito que correr me fez bem, eu sabia que isso também faria. Um sentimento surgiu, um frio na barriga, um embrulho no estômago. Tomei a decisão que minha intuição mandava.
– Vamos arrumar algumas espadas.
Fale com o autor