Passado, Presente ou Futuro
6 Capitulo VI
Notas iniciais
– Pega leve comigo, tá?- pedi ao Gus
Tínhamos pegado duas espadas emprestadas, uma pra cada um. Quando estranhei e perguntei o porquê de todos lá terem uma espada e ele não, ele explicou que nem todos preferiam espadas, alguns usavam arcos, lanças, e, no caso dele, adagas. Ele tinha três adagas, duas do mesmo tamanho e uma um pouco maior. Ele explicou que, por ter um porte maior e ter treinado mais combate corpo a corpo, era mais fácil pra ele usar uma adaga, e por ter uma mira ótima, mas não gostar de arcos e flechas, sua namorada o deu de presente duas adagas pequenas, que, segundo ele, eram bem úteis à distância.
– Eu não sou esgrimista, acho melhor você pegar leve comigo. – ele falou e rimos.
– Alguém chamou um esgrimista?- disse um garoto que chegava. Ele estava contra o sol, então não consegui enxergar seu rosto, apenas via sua silhueta.
– Ah, obrigado, Will. – o Gus falou.
Ai não. Ai não. Por. Que. Raios. O. Will?
– Como vai, Gu? – Will disse, cumprimentando o Gus com um aperto de mão seguido por um tapinha nas costas.
– Tudo bem. Aqui, Will, você poderia ajudar a Ella aqui. – o Gus se virou pra mim- Ah, desculpa. Ella, esse é o Will.
– Hey, Ella. – Will disse, sorrindo. O sorriso dele era tão lindo que fazia tudo à sua volta sumir, e eu só enxergava ele. Eu definitivamente não estava passando muito bem.
– Oi, Will. – eu disse, corando.
– Olha, eu tenho que ajudar a Ella a aprender alguma coisa pra não morrer no caça. Ela perdeu a memória e tal, então aparentemente não lembra de nada, mas pelo estado em que ela chegou aqui, eu imagino que ela saiba alguma coisa, só precisa lembrar. Achei que começar por esgrima seria uma boa. – Gus disse – Mas como não sou bom nisso, você poderia dar uma ajuda aqui?
– Eu posso tentar sim, Gu.
– Ótimo, vou resolver umas coisas, vejo vocês no refeitório pro almoço.
– Você vai me abandonar aqui até a hora do almoço?- eu choraminguei.
– Não vou te abandonar, o Will cuida de você. Assim que vocês dois se conhecerem direito, vão se apaixonar um pelo outro. – Gus disse e eu revirei os olhos – Mas agora eu tenho que ir mesmo. Te vejo mais tarde!
– Mas...- eu comecei, mas ele já tinha sumido.- Ótimo.
– Prometo pegar leve contigo. Vamos começar. – Will chamou e fui.
...
– Acho que já chega, Ella. O almoço é em... – ele olhou o relógio.- quer dizer, foi há dez minutos atrás. – rimos.
– Não dá tempo pra mais uma? Pra completar vinte. Poooor favorzinho, Will. – pedi, choramingando.
– A última. O Gustavo me mata se eu não te deixar lá em segurança e em tempo. – ele falou com um tom paternal e sorriu.
– Pode começar.
– Mas é claro. – sorri.
Segurei minha espada direito e me preparei. Tínhamos duelado umas dezenove vezes e o placar – não que alguém estivesse marcando um –, era 17 por Will e 2 pra mim, contando que em uma dessas duas que eu ganhei o Will escorregou, caindo em cima de mim e sua espada caindo longe, me deixando facilmente com a minha espada em sua nuca. Foi muito engraçado porque ele ia ganhar, e do nada eu me senti caindo e ele estava em cima de mim, com suas mãos no chão e seus braços esticados o impedindo de encostar em mim, apesar de seu nariz ter encostado no meu enquanto eu tentava levantar. Talvez fosse coisa da minha cabeça, mas eu poderia jurar que ele olhava nos meus olhos, e por alguns segundos a mais que o necessário. Aqueles olhos azuis me... Opa, me perdi agora, onde estava? Ah é. Minha espada ainda estava na minha mão, então nem pensei duas vezes ao pressioná-la de leve contra sua nuca, e ele riu, me ajudando a levantar. A outra vez que eu ganhei foi bem justa, ele tinha cortado meu braço e tinha começado a sangrar- devo admitir que eu nem senti -, ele ficou preocupado e acabou baixando a guarda, me permitindo girar, de modo que eu fui parar em suas costas, o surpreendendo pressionando minha espada contra seu pescoço.
– Mantenha a guarda, sua dificuldade está na sua guarda. — ele alertou.
– Sim senhor. — disse, já dando o primeiro golpe.
Eu atacava e ele se defendia, então trocávamos, mas realmente, manter minha guarda era o mais difícil. Nossas espadas tilintavam uma contra a outra, e aquilo era música para os meus ouvidos, eu realmente me divertia fazendo aquilo. Ele começou a dificultar, desviando mais rápido dos meus golpes, antecipando toda estratégia que eu tentava e me atacando com mais voracidade. Eu queria mesmo ganhar, mesmo sabendo que teria que esperar um deslize dele, afinal, quem eu era pra ganhar de um veterano? Nossas espadas cobriam nossa distância, mas ele se aproximava.
“Que se aproxime, então.”, pensei.
Ele cobriu nossa distância rapidamente, e nossas espadas já não tilintavam mais, e sim rangiam. Ele pressionava sua espada contra a minha, no intuito de sei-lá-o-que. Encaixei meu pé direito em sua panturrilha esquerda e puxei. Ele caiu, costas contra o chão. Dei um passo à frente, meu pé direito entre suas pernas –sei que isso soou estranho, mas juro que nem percebi- e meu pé esquerdo ao lado de sua perna direita.
– Acho que eu ganhei dessa vez. — disse, sorrindo.
– Ainda não. — ele respondeu, sorrindo e chutando com força a minha canela com a sola do pé e me fazendo cair em cima dele.
Aquilo doeu de verdade.
–De novo? — perguntei, apoiando minhas mãos no chão e esticando os braços, ficando em cima dele.
–Mas dessa vez eu ganho. — ele apoiou a lâmina da espada contra minha nuca, do mesmo jeito que eu tinha feito com ele.
– Não esteja tão certo disso. – por cima do ombro, bati de baixo pra cima em sua espada com a minha e dei uma cotovelada no braço que ele segurava a espada, arremessando ela pra longe. Nem me dei ao trabalho de encostar minha espada nele. Eu havia ganhado. – Opa, quem ganhou?
– Eu. – com uma mão, ele segurou minhas costas, e com outra, minha nuca, pressionando seus lábios contra os meus. Fechei os olhos.
Aquele beijo, sim, foi bom. Mais demorado que o da noite anterior e mais voraz, porém, tão confuso quanto. Acontece que quando o beijo acabou e abri os olhos, ele não sorria mais, pelo contrário, estava sério, como se algo muito errado tivesse acontecido. Levantei-me e ele fez o mesmo em seguida.
– Gustavo deve estar esperando, ele não vai me perdoar se te atrasar mais, melhor eu te levar ao refeitório logo.
Fiquei mais confusa que nunca. Ele havia me beijado, e então, de repente, era a coisa errada a se fazer? Como ele não pronunciou uma palavra no caminho de volta, resolvi fazer o mesmo.
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