Pase lo que pase - VONDY
11 Ciclos precisam ser encerrados
Notas iniciais
P.O.V UCKER
Eu vinha adiando esse momento por tempo excessivo, e, no fundo, tinha a certeza de que ela já suspeitava da iminência do nosso rompimento. Mesmo estando de volta à capital, raramente via Sam. Ela costumava estar sempre ao meu lado, mas agora mantinha-se notavelmente distante, atribuindo isso aos seus estudos. Mal consigo recordar a última vez que passamos mais de trinta minutos juntos.
Era imperativo que eu encerrasse essa situação. Não desejava magoá-la ainda mais, pois tal atitude seria injusta para ambos. Apesar do carinho que nutria por ela, meu coração jamais lhe pertenceu verdadeiramente, e, embora estivesse convicto disso, sentia-me um ser humano desprezível. Compartilhei minha vida com ela por quase quatro anos e não tinha qualquer motivo para me queixar de sua companhia, mas, infelizmente, não sou a pessoa certa para ela.
O processo de criação do álbum estava à beira de me enlouquecer; passava tantas horas enclausurado no estúdio que minha vida pessoal praticamente inexistia. Contudo, essa falta de vida social não me incomodava tanto, uma vez que estava tentando evitar encarar a realidade ao máximo. Não consigo nem enumerar os dramas em que me envolvi nos últimos meses; por vezes, gostaria simplesmente de desaparecer.
O único momento de satisfação do meu dia foi saber que Christian passaria por aqui e traria algo para comermos. Estava há dias sobrevivendo de fast food, então agradeci mentalmente a fase fitness de Chris, que certamente traria comida de verdade e saudável.
Quando Christian finalmente chegou, senti um alívio imediato. Ele entrou com a descontração de sempre, carregando uma sacola de compras que exalava um aroma convidativo.
— Salada de quinoa, peito de frango grelhado e suco verde — anunciou ele com um sorriso que misturava humor e um toque de orgulho por sua nova dieta. — Eu sei que você deve estar se alimentando terrivelmente mal, então vim salvar o dia.
Sorri de volta, agradecido, mas também um pouco envergonhado.
— Você me conhece bem demais, Chris. Acho que essa é a primeira refeição decente que vou ter em dias.
Enquanto arrumávamos a mesa improvisada no estúdio, ele começou a falar sobre a vida, como sempre fazia, de forma despreocupada, tentando me distrair. Falou sobre seu novo treino, sobre um garoto que conhecera, e sobre como a vida dele parecia finalmente estar entrando nos eixos. Fiquei ouvindo, assentindo de vez em quando, tentando me deixar levar pela leveza da conversa, mas minha mente estava presa em outro lugar, distante, presa em Sam e na inevitabilidade do que precisava ser feito.
— Você está quieto hoje — disse Christian, quebrando o fluxo de sua própria conversa. Ele me olhou com uma expressão que mostrava preocupação genuína. — Mais do que o normal, eu diria.
Suspirei, sentindo o peso de tudo que vinha segurando.
— Estou tentando descobrir como terminar com Sam — confessei, as palavras saindo mais fáceis do que eu esperava. — A situação já se arrasta há muito tempo, e eu simplesmente não posso continuar assim.
Ele parou por um momento, analisando minhas palavras.
— Isso é pesado, cara, — disse ele finalmente, com uma seriedade incomum em sua voz. — Mas, se você sabe que é o certo, então precisa fazer. Não é justo com nenhum de vocês dois manter algo que já morreu.
Eu sabia que ele estava certo. Sabia disso há algum tempo. Mas ouvir essas palavras ditas em voz alta, por outra pessoa, parecia torná-las ainda mais reais, mais urgentes. E, de repente, senti uma necessidade quase desesperada de resolver isso, de tirar esse peso do peito, mesmo que o resultado fosse doloroso.
— Eu vou fazer isso amanhã, — declarei, mais para mim mesmo do que para ele. — Amanhã, vou encontrar Sam e acabar com tudo.
Christian assentiu, estendendo-me um prato com a comida que havia trazido.
— Eu estarei aqui, seja qual for o resultado — disse ele simplesmente, e naquele momento, soube que ele realmente estaria.
E enquanto comíamos, em silêncio, percebi que, mesmo com tudo que estava para acontecer, ainda havia pequenas coisas na vida pelas quais eu poderia ser grato. Amizades verdadeiras como a de Christian, que, de alguma forma, conseguia tornar a dor menos insuportável.
— Mas preciso que seja sincero comigo, está terminando com ela por causa da Dulce ou porque realmente não gosta tanto dela? — perguntou Christian, olhando-me com uma seriedade que raramente adotava.
— Não é apenas pela situação com a Dulce. Não seria justo com a Sam mantê-la presa em um relacionamento sem futuro. Estou apenas empurrando isso com a barriga e adiando o inevitável. Mal estamos juntos, nem me lembro da última vez que transamos.
— Bem, nesse caso, realmente é melhor que vocês encerrem esse ciclo, pelo bem de ambos.
Christian, apesar de ser a personificação da diversão, sabia discernir os momentos apropriados para brincadeiras. Em nenhum momento fez piada sobre o assunto, reconhecendo a seriedade da situação. Almoçar com ele foi uma das melhores decisões que tomei naquela semana.
— Gatão, por mais que eu aprecie sua companhia, preciso resolver algumas pendências da minha agenda ainda hoje — disse ele, enquanto ajudava a limpar a bagunça que fizemos. — Eu te amo, Ucker. Você é meu irmão de outra mãe, e sei que você é capaz de sair dessa confusão mental.
— Também te amo, Chris. Boa sorte com sua agenda maluca. Não sei como a Lors ainda não pediu demissão.
— Porque ela nos ama o suficiente para ficar ao nosso lado — respondeu ele, soltando uma gargalhada.
Após a partida de Christian, mergulhei em uma reflexão profunda. A incapacidade de me concentrar em qualquer coisa útil me levou a decidir ir para casa e descansar, preparando-me para a conversa com Sam na manhã seguinte, antes de ir para o estúdio.
A noite passou num piscar de olhos e, de repente, estava quase na hora de me encontrar com ela. Eu queria resolver isso sem expor meus verdadeiros motivos, mesmo sabendo, no fundo, que o fazia por ainda ter sentimentos por Dulce.
A manhã chegou com uma urgência que me tirou do pouco sono que consegui ter. Levantei-me mais cedo do que o habitual, sentindo o peso da responsabilidade que o dia traria. Tomei um banho demorado, como se a água quente pudesse lavar a ansiedade que me consumia. Cada movimento parecia mecânico, desde escolher uma roupa até preparar um café que mal consegui terminar.
Dirigi até o apartamento de Sam com um nó na garganta, os pensamentos girando em torno do que dizer e de como evitar que ela se machucasse mais do que o necessário. Ao chegar, fiquei alguns minutos no carro, tentando reunir coragem para subir. Eu sabia que essa conversa precisava acontecer, mas isso não tornava a tarefa menos difícil.
Finalmente, respirei fundo e saí do carro, caminhando até a entrada do prédio. Cada passo parecia ecoar a decisão que estava prestes a tomar, tornando o ambiente ao meu redor estranhamente solene. Subi pelo elevador em silêncio, ouvindo apenas o som da minha respiração, como se estivesse prestes a enfrentar um julgamento.
Quando Sam abriu a porta, sorriu ao me ver, um sorriso cansado, mas genuíno.
— Oi, Ucker. Não esperava te ver tão cedo — disse ela, abrindo espaço para eu entrar.
O apartamento estava arrumado, como sempre, e a familiaridade do lugar me atingiu com uma onda de culpa. Sentei-me no sofá, e Sam se acomodou ao meu lado, percebendo que algo estava diferente.
— Precisamos conversar, Sam — comecei, a voz mais firme do que eu esperava, mas o coração acelerado denunciava meu nervosismo.
Ela franziu o cenho, preocupada, mas não surpresa.
— Sobre o quê?
— Sobre nós... sobre o que estamos vivendo e para onde isso está indo. Eu não quero mais prolongar essa situação. Sei que não está sendo justo com você, e não está sendo justo comigo.
Sam me olhou por alguns segundos, o silêncio entre nós crescendo em intensidade. Finalmente, ela suspirou e desviou o olhar, como se já soubesse o que estava por vir.
— Você não me ama mais, não é? — perguntou, sua voz firme, mas com uma vulnerabilidade que me atingiu profundamente.
Olhei para baixo, incapaz de encará-la diretamente.
— Eu... acho que nunca fui capaz de te amar como você merece, Sam. Sempre gostei de você, mas nunca foi o suficiente. E isso não é justo. Você merece mais do que posso te oferecer.
Ela assentiu lentamente, processando minhas palavras.
— Eu meio que já sabia, sabe? Senti isso há algum tempo, mas estava tentando me convencer do contrário.
O silêncio voltou a cair entre nós, pesado e inevitável. Eu sabia que qualquer coisa que dissesse a partir dali soaria como uma desculpa, e que o melhor seria simplesmente aceitar as consequências do que estava fazendo.
— Eu só queria que você fosse honesto comigo. Mesmo que doa, a verdade é sempre melhor — disse ela, finalmente me encarando, com lágrimas começando a brilhar em seus olhos. — E eu sei que há outra pessoa. Você não precisa me dizer, mas eu sei.
— Não é sobre outra pessoa, Sam — respondi, tentando manter a calma na voz. — É sobre mim, sobre o que sinto, ou melhor, sobre o que não consigo sentir. Não quero te segurar em um relacionamento onde eu não posso te dar o que você merece.
Sam respirou fundo, tentando manter a compostura.
— Obrigada por ser sincero, Ucker. Eu só... eu só preciso de um tempo para processar tudo isso.
Assenti, respeitando o espaço que ela precisava. Levantei-me, sentindo o peso do que acabara de acontecer.
— Eu vou te deixar sozinha agora. Se precisar de qualquer coisa, estou por aqui, mas entendo que talvez precise de tempo e distância.
Ela apenas assentiu novamente, sem dizer mais nada. Saí do apartamento, fechando a porta atrás de mim com um misto de alívio e tristeza. Desci as escadas lentamente, sabendo que havia feito o certo, mas ainda assim, sentindo o vazio de um capítulo que havia terminado.
Enquanto caminhava para o carro, um pensamento persistente se instalou em minha mente: Dulce. Mesmo sabendo que o que fiz hoje foi por Sam e por mim, não conseguia deixar de pensar nela, no que tudo isso significava para nós dois. O futuro agora parecia incerto, mas, pela primeira vez em muito tempo, eu estava disposto a enfrentá-lo, seja lá o que ele trouxesse.
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