Parvati
2 OVNIS e répteis
Notas iniciais
O resto da sexta-feira tinha passado tão rápido que nem percebi, já era sábado, e o fim de semana parecia muito a fim de se livrar de mim também.
Hoje era dia de sair com Noélia, eu estava pensando em dar o cano nela por causa da excursão, mas como ela sempre passa aqui em casa não da pra fingir que não estou só pra me livrar. Pelo menos isso iria me render umas pegações. E ia mesmo, pois mais pela hora do almoço ela apareceu com a minissaia de sempre me chamando pra fora. Os passeios em si eram realmente sem graça, o que me estimulava a ir eram os momentos a sós. Esses sim me divertiam.
– Você não ia pra um rancho? – Perguntou, agarrada no meu pescoço. – Ah, não importa, ainda bem que ficou. – Disse manhosa, se agarrando mais forte, dando beijos por toda a minha nuca. O interessante é que Noélia não se importava muito se estávamos no meio da multidão.
Ela se ofereceu pra me fazer companhia. Até porque dizer namorada não é muito do meu gosto nem do dela. Diferente de mim está no terceiro ano do ensino médio, é repetente e não está muito a fim de levar isso aqui a sério.
Apesar das várias garotas que já estive me chamar pra dar umas voltas por aí às vezes, Noélia é a única que se mantém firme quase todos os fins de semana, apesar de não ser de ninguém no resto do mês. Ainda assim, isso não faz dela mais especial que as outras –ainda que “outras” signifique primas que nem gostam de mim.
E pra ser sincero não pego nenhuma delas.
Na volta pra casa –depois de ser dispensado por Noélia- parei no Chico linguiça, comprei meu chocolate e fui pra casa meio chateado. Principalmente porque meus pais estão bem ferrados por causa do rancho, na verdade eles são tranquilos, não são do tipo que não estão nem aí pro filho lixo, muito pelo contrário, e por isso mesmo estão sempre, como é que se diz? Decepcionados. Mas o que eu vou fazer? Como dizem os parentes, eu puxei meu pai.
Me afundei na cama, já estava pronto pra cometer mais um suicídio com aquela barra de chocolate. Foleei meu caderno de geografia que estava jogado enquanto abria a embalagem colorida. Tinha algumas coisas sobre Guerra Fria, algumas coisas sobre outras guerras, muitas guerras... Pactos com o demônio, Pacto de Varsóvia, pensei se não era um nome legal pra dar a alguém, daí lembrei, não, não era um nome legal.
– Ai... Que? – Senti uma dor no incisivo, puta que pariu, dessa vez era o da direita, já bastou os outros já terem dado trabalho ano passado, e mês passado, semana passada... Sim, meus dentes já estão todos remendados. É claro que eu escovo! Mas não do jeito que devia...
Doeu, mas eu não abandonei o chocolate.
– Isso é por você, pré-molar do mês passado! – Terminei a barra, era tão bom quanto trepar. Pelo menos eu imagino que seja.
Liguei o computador e deixei o YouTube reproduzir minhas musicas favoritas enquanto eu fazia o que qualquer jovem faz. Vadias! Não, eu não estava conversando com elas, estava apenas “apreciando” como qualquer garoto... Apreciando na maneira dos garotos. Tive até que desligar a musica pra ter mais concentração, eu levava aquilo a sério, é o esporte dos homens.
Depois da minha demonstração de amor com as moças dos pornôs fechei a noite com um banho, quente o suficiente pra me torrar e deixar minha cara mais vermelha que o batom da Noélia.
– Oi filhote. – Minha mãe entrou enquanto eu me vestia. – O que vai querer na janta? – Duas atrizes bem gostosas mamãe! Pensei.
– Nada, eu já comi. – E por isso ela repetiu na minha cabeça os sermões maternos: Não coma chocolates antes da janta, não coma tanto chocolate, vista a roupa direito, pare de mijar fora do vaso, pare de atirar chumbinho na virilha dos seus amiguinhos... Dava tempo de dar três voltas no quarteirão com as pernas amarradas e ainda passar no Chico linguiça e comprar uns picolés, era esse o tempo da lição dela.
Quando terminou tive fome, isso deixa claro como demoram os sermões. O que fiz foi jantar antes de morrer na cama bagunçada e imunda.
***
Ainda era cedo demais quanto acordei. Olhei em volta, a casa parecia calma e ainda estava escuro lá fora, ou pelo menos não claro o suficiente. Voltei a dormir, domingo é dia de hibernar.
Acordei, de novo, mas dessa vez assustado demais pra analisar o local ou a hora, tenho quase certeza de que tive um pesadelo. Sonhar com OVNIS e répteis atacando a Terra ao mesmo tempo não parece ser um sonho tranquilo. É mais como aquele tipo de sonho que de manhã é assustador e vai parecendo idiota à medida que o dia vai passando. E foi, pois à noite, enquanto eu batia papo com Near por chat, contei como tinha sido retardada minha experiência em sono –mas não disse como acordei quase mijado. Afinal, mesmo sendo amigo, ele é inteligente demais pra saber desses meus lados constrangedores.
“Foi então que eu chutei o saco de lixo e voou papel higiênico usado pra todo lado.” Ele contava como tinha sido animado seu domingo.
Near na verdade, parece bem tímido, mas pensando bem e observando as situações... Ele é um moleque rolero do caralho! Sem falar que pega mais vagabunda do que eu nas minhas fantasias sexuais.
“Daí eu vi aquela garota do outro lado da rua, sabe quem né?” Respondi que sim, mas eu não sabia não. “Ela me chamou pra uma festa, você vem?”
“Claro que não, não me convidaram seu nóia.” Mas sinceramente eu nunca precisei ser chamado pra abalar nos rolês... Muitas vezes Near e eu entrávamos em festas de aniversário que nem sabíamos de quem era. E foi lembrando dessa e de outras que ele me convenceu a ir. Bem, não é como se eu quisesse perder mais uma puta de uma festa.
Perguntei quando ia ser, ele não soube me dizer na hora, mas depois de, como ele diz, consultar suas fontes, confirmou que seria sexta feira que vem. Eu não liguei muito e nem fiquei ansioso, ou mesmo animado. Já era acostumado a sair com ele. E também acostumado a não me dar bem em festas... Se é que me entendem.
O domingo acabou sem eu perceber, talvez porque acabei dormindo durante minha conversa com Near... Só me lembro de ler algo como “festa muito foda” ou “vai ter muita mulher”... E apesar de querer sonhar que estou pegando todas elas, eu acabei tendo o pesadelo dos OVNIS e dos répteis atacando a Terra mais uma vez, só que com meu professor de Educação Física junto aos inimigos que destruíam o planeta.
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