Parvati
7 Novidade
Notas iniciais
Quando eu era mais novo, minha prima de 16 anos foi obrigada a me levar em uma festa. Até então eu só frequentava os aniversários mais fodas, com bexigas, bolo e beijinho na mesa, era puro status na idade que eu tinha. Mas nos meus 13 anos, tudo mudou, e os enfeites de palhaço e as musicas infantis perderam o sentido.
Como quem carrega um fardo terrível, minha prima me largou no primeiro monte de vomito que encontrou na porta da festinha, eu não sabia o que era aquilo, pensei que fosse alguma seita ou qualquer coisa relacionada a sacrifícios e sangue de bode, mas era apenas vinho e um monte de adolescentes caídos de porre.
Todo mundo tem uma primeira vez pra algo, e aquele dia representou várias das minhas primeiras vezes. Como, por exemplo, a primeira vez que vi duas pessoas fazendo o que minha mãe chamava de “ritual sagrado da cegonha”, e era muito diferente do que ela havia me contado... Eu também não sabia que duas garotas podiam se beijar, mas aquela foi a primeira vez que eu vi tal atrocidade.
Eu era novo, e inocente! E aquele dia eu descobri que a cegonha na verdade, não era real.
“Sinto muito” foi o que minha prima disse, decepcionada com o meu amadurecimento repentino.
***
Mais uma vez a escola estava deserta, todas as turmas do período da tarde já tinham saído com os ônibus para a excursão, e o Mello, o cara mais gente boa, tomava no cu sozinho naquela larica e tristeza.
Durante os três dias ficamos poucas pessoas na escola, além de mim e Matt cuzão, ainda tinha o inspetor e alguns funcionários que faziam a limpeza –estranhamente eu era um deles. No entanto, mesmo que pareça engraçado, era de certa forma divertido ir pra lá todos os dias. Ficar praticamente só na escola tinha lá seus luxos e senti uma liberdade que nunca achei que teria. Como, por exemplo, olhar dentro do armário dos professores. Encontrei vários aparelhos eletrônicos que eles confiscavam, bando de safados.
Também entrei no refeitório e descobri que as cozinheiras surrupiavam várias coisas gostosas que davam pra escola, e mais, tive a honra de lavar os chuveiros do vestiário pelado. Isso não é pra qualquer um. A única desavença foi que em quase todas essas atividades, Matt aparecia pra ver se eu fazia os serviços direito, e digo que a presença dele na hora da faxina dos chuveiros foi bem constrangedora.
Principalmente porque não fui pego em um bom momento.
– Nossa, que erótico. – Deu risada da minha posição, que precisamente, é conhecida como: de quatro.
– Não posso ficar pelado? – Tentei de toda forma não parecer envergonhado, mas era inevitável na minha situação.
– Você tem uns hábitos que prefiro nem questionar.
Mostrei o dedo, sentando em um dos bancos de madeira do vestiário, sem muito o que falar –e incomodado com a presença do professor- tentei dizer qualquer porcaria que viesse a cabeça.
– Quero sair do futebol. – Mas não recebi resposta.
Ele estava estranhamente distraído, me encarando de forma que, se eu tivesse uma mente suja, julgaria que ele gostava do que via.
– Ah, não. Me poupe, não me diga que você é viado agora!
– Amanhã eles voltam da excursão e as aulas começam de novo. – Ignorou meu comentário.
Ah! Isso só significava uma coisa. Fim do castigo.
– Pensei que eu teria que viver assim pra sempre! – Aliviado, relaxei os ombros, porém ainda desconfortável com aqueles olhos de professor terríveis comendo minha nudez.
– Além do castigo, vou te tirar do futebol também.
– E... Se eu quiser continuar no time? – Eu não quero.
– Sem mas, vou te tirar.
– Não, eu sou um aluno dessa porra, quero participar do time. – Não quero, não.
Bem, ele parecia mais confuso do que bravo com a minha contrariedade.
– Tudo bem, se você insiste tanto em passar mais tempo aqui comigo... – Mas espera, não! Eu não quero de jeito nenhum! — Que tal algo melhor ainda? Você podia aproveitar e fazer horas extras me ajudando com os times em troca de algumas vantagens.
– Não, eu odeio você. Odeio a escola. Odeio futebol.
– Mas eu preciso de ajuda, sou só um professor. Tem noção do quanto é difícil tomar conta dos grupos de alunos? Sem falar que você é bem útil aqui. – Olhou em volta, admirado pela minha maravilhosa limpeza. Eu sei que manjo.
– Não ligo.
– Você vai poder ir às excursões de novo! Que tal?
– Não quero. – Virei as costas, pegando o esfregão e partindo para o próximo chuveiro.
– Vamos lá! Dou permissão pra você usar a conta da escola...
Interessante
–... Mas pra fins educativos.
Desinteressante
E como se lesse minha mente, deu o golpe final pra me foder.
– Carteira de estudante com 80% de desconto em entradas?
– Isso não existe seu bosta.
– Sei lá, mas eu te arrumo uma, ok? – Pobre Mello, foi pego pela ganancia de entrar no cinema quase de graça.
***
– Então agora a baladinha é quase na faixa! – Near estava admirado.
– Quantas horas de bunda você vai dar pra esse professor?
– Nada! Eu vou só dar uma força na escola, como um meio serviço sabe?
– Mais cedo ou mais tarde, ele vai querer sua bunda, né?
– Eu ainda não sou todo gay assim ok? – Talvez eu seja só um pouco gay, mas não quero dar a bunda assim tão fácil não!
– Aposto vintão.
– Vai a merda, minha bunda é mais cara que isso...
– Se você diz... Mas mudando de assunto, uma garota me ligou hoje mais cedo, ela chamou umas amigas da classe da prima que mora lá no viaduto.
– Ah, aquela do cabelo meio duro?
– Não, a do dedo torto, vou dar uma volta com as amigas da classe da prima...
– Já entendi. – Cortei antes que repetisse tudo de novo. — Mas vou avisar, eu não vou.
– Eu estava contando com você Mello!
– Não, eu já prometi que ia sair com a Noélia.
– Credo! Ela deu pro bairro inteiro na semana passada e você continua com ela?
– Somos amigos. – Pequei meu casaco na cama forrada de branco e apontei à saída. — Aproveita o passeio com a do joelho inchado.
– É a do dedo torto! E... – Mas não fiquei pra ouvir o resto, eu tinha coisas mais importantes a fazer, tipo, ir no Chico Linguiça enchera cara de chocolate...
No entanto, não era exatamente com Noélia que sairia depois das boas doses de cacau, mas ela era a única desculpa que eu tinha pra me livrar dos encontros estranhos do albino doente sem ter que dizer a constrangedora verdade. Pra ser sincero eu não premeditei nada, mas minhas pernas me levaram acidentalmente pros lados da casa do churrasco.
Exatamente! Pra casa do Ronaldo.
Pensei que talvez ele pudesse estar na porta quando eu passasse, sei lá, bater um papo sobre como eu choro todas as noites por causa dele ter me agarrado seria massa, mas o destino é uma amante cruel.
Quando me dei conta eu estava plantado na frente da garagem que fugi com o prato de farofa, e se me perguntarem o que eu realmente queria, bem, eu não sei.
A exaustão é outra amante terrível, então quando escutei o rangido do portão atrás de mim, eu já havia me sentado no meio fio vencido pelo cansaço de esperar o cara ruivo sair.
– Você está esperando alguém? – Ouvi a voz curiosa, não era quem eu estava esperando, então não tem porque ser delicado.
– Estou, quero trocar uma ideia com o Ronaldo!
Já era de se esperar que por já ser noite a pessoa se assustasse comigo ali, gritando, todo zoado do trabalho na escola...
– Com quem? – Perguntou de novo, achando ter ouvido errado.
– Com o Matt oras!
– Ele está jantando... – Hesitou. – Quer entrar?
– Claro que não.
– Então... Vou chamar ele pra você. – O homem de meia idade voltou pra dentro rangendo o portão novamente, só então saí do meu transe de nóia e crack, e com um pulo, levantei eufórico. Porra.
– O que eu estou fazendo, mãe? – Olhei pros lados, devia ser umas 8 da noite e eu estava chapado de sono e cansaço, em frente àquela casa.
Preciso ser menos impulsivo!
E pensando melhor, eu preferia estar com a Noélia agora usando droga em algum lugar.
Eu preferia até estar com a do dedo torto, junto do albino e as amigas da classe da prima que era vizinha do... Do que mesmo?
– An? – Mais uma vez o maldito portão rangeu. Infelizmente não tinha pra onde correr e não havia onde me esconder naquele momento de desespero. – Meu pai disse que um drogado estava me chamando, não pensei que fosse você. – Enquanto ele falava surpreso, eu congelava minha mente em modo de defesa. – Ei, Mello! Está me ouvindo? O que veio fazer aqui?
– Por que você me agarrou? Eu nem sou completamente assumido!
– Como é? – É só um desabafo à toa. Não aguento ter que sonhar com esse cara... Sério, meus sonhos eróticos foram feitos para somente garotas gostosas entrarem. – Você está bravo com o que aconteceu naquela festa?
Deu uma asquerosa, porém muito sensual risada. Deus, o que está havendo comigo?
– Eu estou! Eu não gostei de ser viado.
– Foi só um beijo, não tem nada demais. – Achou graça. — E você parecia ter gostado.
Me sinto sentimentalmente violentado.
– Olha, sei lá, não fica chateado. – Sentou do lado, dando tapinhas no meu ombro. – Isso não diminui sua masculinidade.
Ah, diminui sim!
– Eu acordei de pau duro!
– É... – Mais constrangido do que assustado com meu tom de voz, tentou parecer casual. – Todo homem acorda assim as vezes não é mesmo?
– Mas eu estava sonhando com um cara! – Já seria demais dizer que esse cara era ele.
– Eu não sei o que dizer. – Percebi que segurou o riso.
Mas eu também riria no lugar dele.
– Seguinte. – Levantou abruptamente. – Vamos esquecer isso! Pega aqui. – Estendeu a mão. – Podemos ser amigos já que no fim das contas começamos meio que... Com o pé errado.
– Não quero ser seu amigo... – Quem iria querer?
– Erm... Colegas?
– Por que quer seu meu colega agora? Pensei que só queria me comer.
– Talvez porque você veio até aqui do nada? – Olhou em volta, como se eu fosse idiota o suficiente pra não saber onde estávamos.
– Eu vim na intenção de por fogo na sua garagem. – Virei pro lado oposto, arrasado.
– Eu já disse que foi só um beijo! – Cansado da discussão, sentou de novo, bufando. – Você estava bêbado e pegando todas as garotas que apareciam na sua frente, não pensei que ficaria chateado com mais um beijo. – Ele parecia meio magoado.
E eu estava aos pouquinhos caindo na dele. O que eu podia fazer se ele tinha lá seus charmes?
Pra ser sincero, só não quero aceitar que gostei do que houve naquela noite. Não que eu pense ter virado uma bichona, afinal de contas foi realmente só um beijo. O que não me conforta é a vontade que estou de agarrá-lo enquanto está com essa cara puta do meu lado.
Caramba, isso foi profundo. Uma profunda confissão gay.
Parece que tenho uma novidade pra surpreender Near na nossa próxima conversa.
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