Parvati
8 Batida
Notas iniciais
– Então seu nome não é mesmo Ronaldo?
– Claro que não! – Respondeu o mesmo pela terceira vez.
Ele havia me chamado pra entrar depois de conversarmos por um tempo no meio fio da calçada. Eu mesmo jamais teria aceitado o convite, mas ele disse que tinha uns biscoitos no forno... Eu odeio biscoitos. Mas então falou que tinha um aquário com três peixes, então não resisti.
– Posso por o nome desse aqui de Ronaldo então?
– Também não. – Mas ele falou que o amarelo era o único que não tinha nome! – E para de bater no vidro, eles ficam agitados.
– Ok. – Desisti de batizar o mais simpático dos peixes e sentei no sofá da sala. Os pais, ou pelo menos o pai dele, estava na cozinha fazendo os tais biscoitos enquanto ficávamos vendo TV, onde hora ou outra ele puxava algum assunto trivial.
Ronaldo parecia bem à vontade durante nossas conversas, no entanto, eu sentia cada vez mais o sufoco de ficar a sós. É claro que nossa relação era estranha já que nos conhecemos de um modo bem peculiar, mas ele parecia não se importar com o passado. Nem um pouco. Tanto que me tratava como se fossemos bons amigos.
– Quais jogos você gosta?
– Minha mãe não me deixa jogar, ela diz que vídeo game é violento demais.
– Ela não te deixa jogar, mas deixa o bebê encher a cara a madrugada inteira?
– Eu disse que ia dormir na casa de um amigo. – Eu não menti, eu realmente dormi na casa do Near quando voltei carregado por ele.
– E namorada? Você tem ou sua mãe tem medo dela te engravidar? – Nossa, engraçadíssimo.
– Eu não sou homem de uma mulher só. – Jamais. – Você mesmo sabe disso.
– Ah, claro. Mas e sóbrio?
– Sóbrio eu lavo os banheiros da escola. – Nu!
– O que?
– Deixa pra lá. Mas e quanto ao seu namorado? – Eu com certeza enfatizei a última palavra, jogando nela uma dose do veneno do ódio de alguém que tem sua masculinidade ferida.
– Ele é um cara legal.
– Como é? Ele sabe que você agarra crianças em festas?
– Hm, não. – Que pau no cu! – Ele não ligaria, então tudo bem se a gente trocar uma ideia Mello.
– Eu pensei que você fosse um cara decente. – Me sinto um moleque magrelo na casa de uma mulher casada, e tenho medo de ser surpreendido pelo marido que pode chegar do trabalho querendo me capar.
Não é assim?
– Não é um relacionamento muito sério... Eu também não me importaria se ele fizesse o mesmo, já que diz que sou a distração pra quando está entediado.
– E você ainda diz que ele é um cara legal... – É normal a mulher reclamar do marido para o amante não é?
– Ele é, só não consegue aceitar que é um puta de um viadão. – Foi a primeira vez que vi Ronaldo falando de um jeito tão agressivo, e até diria que foi legal se ele não tivesse me encarado como se a carapuça do “viadão” também me coubesse perfeitamente.
Me deixei fazer a careta mais horrível do mundo, até porque a carapuça realmente tinha servido.
– Olha aqui, eu gosto das garotas. Principalmente das gostosas. – Apesar de ter curtido uma bicha.
– Eu também gostava delas... – Chacoalhou o pote de “biscoitos”, erguendo os ombros. – Agora eu gosto de você.
– Bom pra você. Mas não, não vou ser o amante. – O que eu pareço dizendo isso? Uma garoto de programa?
– Pelo menos você pensou em ser alguma coisa... – Deu risada da minha desgraça. Não é como se eu pensasse, eu apenas cogitei por um segundo como seria. Ia ser algo como eu começar a me travestir, vir pra cá todos os dias limpar a casa e fazer o almoço pra ele, nós seríamos um casal feliz. – Que cara é essa? Parece a de quem não gosta do cheiro dos biscoitos do meu pai... – Olhou desanimado pra aquilo dentro do pote.
Apesar da minha inocência, eu sabia exatamente onde a conversa iria parar se eu continuasse a dar corda, eu acabaria travestido. Sem contar que a cada minuto, o espaço entre nós dois no sofá parecia diminuir, me fazendo desconfiar que ele estava se aproximando demais.
E aproximações me fazem querer ir embora, chorar e entrar em pânico.
– Não, os biscoitos estão com um cheiro bom. O problema é que está tarde demais...
– O que? Nós mal começamos a conversar... – Ele estava claramente decepcionado. – Por que não fica mais um pouco?
Ignorei o pedido e sem demora levantei do sofá, me despedi mentalmente do meu peixe favorito e desengonçado tentei ir até a porta. Sim, eu estava praticamente fugindo, sendo minuciosamente observado pelo boiolão que não soube muito bem como reagir.
– Espera, pelo menos deixa eu ir com você até lá fora. – Me seguiu pelo corredor até a garagem, onde contornei para o portãozinho, quase tropeçando em uma mangueira desenrolada.
– Acabei não vendo o tempo passar sabe, minha mãe me bate se eu demorar a chegar. – Ouvi um riso baixo vindo dele.
– Eu poderia te levar pra casa depois...
– Ela não gosta de gays. – Era a minha desculpa.
– Ah, entendi. – Falou, constrangido. — Mas você vai vim de novo? Qualquer dia?
– Se você prometer que não vai me travestir, sim. – Não parei, nem mesmo olhei pra saber que cara tinha feito ao ouvir meu comentário. Simplesmente eu tinha percebido minha posição vulnerável ali, na casa dele, onde tudo poderia acontecer! Eu sinceramente não quero ser estuprado.
Talvez seja um exagero, mas eu estou evitando o pior! Tenho certeza que ele queria continuar o incidente da festa ali mesmo no sofá. Pra ser mais exato, fiquei com medo dele virar a bicha e grudar em mim.
Eu sou cagão!
Sem falar que estava mesmo tarde e minha mãe realmente me bateria se eu demorasse demais. No entanto, eu não preciso dizer que eu voltei sim a ver o Ronaldo. Os dias seguintes foram exatamente assim, indo às vezes na sua casa, onde seu pai vinha desconfiado me atender. O ruivo é gente boa e merece uma segunda chance. Ele me deixou batizar o peixe alguns dias mais tarde!
Nesse tempo não só avancei em termos sociais com Ronaldo, mas as coisas na escola também iam bem. O cuzão me deixou usar a conta da escola -para os tais fins educativos. Mas eu, um ser racional de inteligência muito superior a de um professor de educação física, comprei sem problemas umas paradas não educativas.
Eu tentaria pagar umas vadias mais tarde com aquela conta.
Outra coisa que também não pude evitar foram os rolezinhos fim de carreira do Near, porém, dessa vez, ele garantiu que não seria qualquer porcaria, e já me avisou pra preparar a conta do colégio pra pagar qualquer coisa que possa nos embriagar. Talvez funcione com bebidas...
Eu até pensei em convidar o Ronaldo, mas desisti. O albino me zoaria profundamente por isso... Com aquelas conversinhas de namorado. Não que eu me importasse, mas na verdade, eu me importo.
– Ei Mello, avisei pra minha amiga que é melhor amiga do namo... – Fez uma pausa, pensativo. – Esqueci. Mas eu disse pra convidarem o Ronaldo! – Deu risada. Daquelas de quem fode os amigos.
– Eu não ligo. – Tentei ignorá-lo. Na verdade eu acabei não contando pro Near que Ronaldo e eu somos meros amigos, pelo mesmo motivo de não convidar o ruivo pra festa: as piadinhas do albino. Claro que eu já estou acostumado com ele me chamando de viado... Mas ele me chamar é uma coisa, agora ele me chamar com razão é outra, e apesar de ser um pouco verdade, no momento só eu posso me chamar de boiola.
Eu sou um puta de um boiola!
– Convidei ele na intenção de ver você na merda. – Fingiu-se de triste.
– Vai pra porra! Aposto que você é bicha. – Desabafei enquanto calçava meu tênis mais estiloso, a gente tem que caprichar na hora das festinhas. – Quem mais fala é quem mais gosta de dar.
Fechou a cara ao mesmo tempo em que começou com a enrolação de mechas. As vezes duvido da qualidade mental do meu amigo, principalmente por causa das roupas brancas que usa até mesmo nas festas... A explicação dele é simples: fez a promessa de que pararia de usar branco quando eu fizesse um corte de cabelo pra menino.
Já puto com os insultos, eu o apressei, mal deixando ele terminar de vestir a camisa.
E duplamente puto porque eu havia insistido pra que Noélia fosse junto com a gente nessa tal festa, mas Near recusou ameaçando que se eu a chamasse, ele cortaria nosso laço de amizade. Grande bosta.
Nem preciso dizer que pegamos o busão, claro, ninguém aqui ostenta nem mesmo bicicleta com garupa, quanto mais pagar a viagem, o negócio era usar as passagens do colégio mesmo. No entanto isso jamais estragaria nossa noite, jamais. Eu estava ansioso na verdade... Era uma festa feita pelos colegas da escola e pelo que ouvi dizer, normalmente essas ocasiões eram memoravelmente foda para os estudantes. Não apenas isso, mas o fato do albino dizer que o Ronaldo também foi convidado me deixou um pouco mais apreensivo.
E porque não deixaria? Festa mais Ronaldo é sinônimo de manifestação gay do Mello.
Já estava tarde e se não fosse o último, aquele seria o penúltimo ônibus. Nenhum de nós tinha a intenção de voltar pra casa antes das conduções voltarem a circular no dia seguinte. Afinal de contas mamãe acha que estou dormindo na casa do Near, e a mãe dele acha que estamos indo dormir na casa de algum outro colega, e ela é tão desligada que nem percebeu que estávamos muito bem vestidos pra quem vai só dormir na casa de alguém.
A mãe é tão retardada quanto o filho albino.
Quando descemos do ônibus ainda tivemos que andar por alguns quarteirões até chegar no endereço que Near tinha anotado no celular. Diferente da última vez, não era uma casa nem algo relativamente pequeno. Era realmente enorme e exageradamente fechado, abafando o som alto que vinha de dentro pra não incomodar os vizinhos, que na verdade, não existiam. O local era isolado do bairro, nos limites da cidade.
À medida que entravamos o som ficava mais forte e as paredes tremiam. Em pouco tempo a batida já estremecia até mesmo o meu corpo, era alto demais. O lugar escuro, iluminado somente por luzes que se movimentavam e mudavam de forma estava com pessoas até o talo, mas isso não parecia incomodar ninguém, nem mesmo a nós dois que acabávamos de chegar.
Ali parecia tocar apenas musicas eletrônicas, já que batida era a única coisa que todos queriam ouvir. O ritmo da musica era tão contagiante, que a mistura de todos os elementos nos deixava em transe, não tinha como não se envolver... Era como estar drogado –ou pelo menos a sensação deve ser parecida...
Tentei encontrar alguém que eu conhecia, mas naquelas condições era impossível. Mesmo com as luzes coloridas, o lugar ainda era escuro demais. Sem contar que dessa vez eu me agarrei na blusa do albino, pra não correr o risco de ficar sozinho como da última vez.
– Cara, que massa! – Gritei, e pelo gesto que fez, percebi não ter entendido merda nenhuma. Em resposta, ele chacoalhou as mãos para mim, apontando alguns locais, como quem quer dizer alguma coisa, mas eu também não entendi porra alguma. E depois que deu um jóinha, apenas acenei com a cabeça, positivamente. Acho que ele disse algo sobre a festa estar boa.
Engano meu. Ele desapareceu assim que dei uma brecha. Tomei no cu de novo.
Sozinho, tentei sair do lugar que eu estava parado, mas estava complicado. Em todo lado tinha alguém, seja bebendo ou amassando outra pessoa, cara, era legal! Mas não era bom ficar sem se mover.
Também não demorou até eu reconhecer alguns rostos na pouca iluminação, a maioria pessoas da escola que só conhecia de vista, e nessa distração tropecei nos mais variados objetos. Seja o chão ou a perna de alguém, fio de caixas de som ou garrafas vazias, eu pisava e perdia o equilíbrio, me agarrando em alguém pra não cair.
A essa altura eu já tinha perdido as esperanças de encontrar Near ou mesmo a saída pra sentir o oxigênio fresco. Eu estava meio perdido.
– Hey! Mello! – Foi a única coisa que entendi da boca que tanto se mexia tentando me dizer alguma coisa, sorrindo. Era um cara da minha sala. Nós conversávamos somente na escola, no entanto, da forma como me puxou, me levando pra longe, fez parecer que éramos grandes amigos.
Eu também havia perdido as esperanças de entender o que falavam comigo, então segui o plano de apenas acenar e sorrir, mas acabei perdendo o controle quando comecei a aceitar o que me davam pra beber.
Perdi a noção de com quem eu estava, ou melhor, perdi a noção de onde eu estava. Eu acho. Tudo o que eu queria era continuar a tomar o que estavam me oferecendo, já que a reação da bebida junto a musica alta era incrível. Aquilo mais parecia a última festa se repetindo, e eu temia o que seria de mim daqui alguns minutos a mais enchendo a cara.
Permanecer no mínimo vivo é a intenção, porém, se manter sóbrio já não é mais uma escolha minha...
Minha vista oscilava junto à batida forte das caixas. E eu até tive certeza de ver Near em algum momento, e acho que Noélia também. No entanto...
– Cara, que horror, olha pra você. – A pessoa sorria pra mim. Os óculos e o cabelo avermelhado mudavam de tom devido às luzes coloridas, aquele era um rosto conhecido, mas... Quem era aquele cara mesmo?
Seja lá quem fosse, na minha situação eu não podia reconhece-lo, só sabia que insistia em me manter por perto, tentando não me perder no meio da multidão. E tudo piorou quando o ritmo da musica aumentou ao longo dos segundos, e quando o cara se virou pra checar se eu não havia sumido, sem pensar ou medir consequências eu o agarrei.
Agarrei, mesmo.
Eu não tinha confiança do que fazia, e só tinha conhecimento de duas coisas: Os olhos por detrás dos óculos pareciam extremamente surpresos com o que acontecia. A segunda, é que depois de ser levado por ele para fora dali, eufórico, eu não lembro de absolutamente nada.
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