Parvati
9 Ressaca
Notas iniciais
– Ai caralho, onde eu ‘tô? – Foi o que gritei depois de acordar, olhar ao redor, e não enxergar nada senão uma escuridão extraordinária. E enquanto em pânico eu me remexia onde parecia ser uma cama, um flash de imagens me veio à cabeça. Lembrei de pegar o busão, de tomar um bocado de pinga, também me lembro que o Matt cuzão me levou para fora da festa.
–Não é possível. Eu não estou onde acho que estou. Eu não dei pra esse professor! – Não pode ser, eu estou na casa dele, na cama dele... Eu me lembro de ter agarrado aquele bosta antes de sair da festa!
– Cala a boca! Eu quero dormir! – E da escuridão surgiu Near, acendendo o abajur do criado mudo. – Depois você descobre quem te comeu. – E apagou a luz, voltando ao sarcófago.
Confesso que estou confuso.
Cerrei os olhos e afundei o rosto no travesseiro, me obrigando a raciocinar. Primeiramente, estou no quarto do albino, mas as chances de eu ter dormido com aquele cara ainda são grandes, ou não, afinal de contas não acho que um professor seria tão irresponsável a ponto de abusar de um aluno bêbado.
Me arrepiei, envergonhado, até porque mesmo não tendo reconhecido na hora, bem lá no fundo eu tinha a intenção de agarrar o Ronaldo, e estou duplamente constrangido por não ter sido ele e sim um cara que eu jamais pegaria. Caralho que parada!
Mas antes de qualquer coisa, como vou saber se o que estou pensando não aconteceu? Ou seja, se eu não fui comido. No momento não posso perguntar a ninguém, então a saída era encontrar indícios no lugar mais acessível por ora. Meu corpo maravilhoso.
Apalpei ao redor até encontrar meu celular. No inicio não soube bem o que deveria fazer, mas pensei em buscar na internet, e ela parece saber quando estamos desesperados, e com poucas palavras já me mostrou o que eu procurava.
“Busque contusões e machucados para o caso de seu parceiro ser do tipo selvagem.” Caralho Google, seu filho da puta!
Eu temia encontrar o que a frase sugeria, então avancei para a seguinte.
“Tente perceber se há desconforto ou leves dores nos músculos do quadril.” Me remexi, experimentei me sentar no colchão, mas nada. Estou ficando mais aliviado, mas não o suficiente.
“Mesmo que você não apresente nenhuma das características citadas anteriormente, ainda há chances de que, na verdade, seu parceiro seja gentil e cuidadoso.” Ah vai se foder!
Joguei o celular pelo chão, derrotado. Minha cabeça estava a mil e meu estomago reclamava em forma de enjoos. Cara, me arrependo muito de ter ido na do Near, não foi uma boa ideia ir nessa festinha, eu preferia ter ido no churrasco do Ronaldo competir asa de frango com os convidados.
– Aliás, não vou conseguir encarar ele tão cedo.- Murmurei. Fico pensando se ele me viu no meio daquela confusão, ou seja, se me viu no momento das agarrações e quando fui levado pra fora do galpão.
Sem falar que não sei como vim parar na casa do albino. Eu realmente quero respostas. Respostas rápidas!
Chequei novamente o celular que custei achar no escuro, já marcava 10h da manhã aquela porra, e eu me sentia muito destruído pra levantar, porém...
– Bora Mello, seu rabo está em jogo. – Tentei me animar, e digo que foi quase em vão, mas depois de alguns minutos de peleja eu consegui me mover para fora do colchão. Pelo menos era um progresso.
Levantei e tentei caminhar pelo quarto escuro em busca da porta, o que foi uma tragédia já que bati o joelho na quina da cama do Near, pisei em um lego –e todos sabem como dói pra desgraça- e chutei meu dedo do pé na cadeira do computador, só então abri a porta, com os olhos em lágrimas.
Hoje era o dia em que os pais dele faziam as compras no período da manhã pelo que eu me lembro, e foi pura sorte, não queria que a mãe doente dele me visse com essa cara de ressaca. Mas como sou um fodido...
Corri escada abaixo direto pra cozinha assim que ouvi o barulho do carro encostando na garagem, provavelmente eu estarei muito na merda se me virem nessa manguaça maldita, e o jeito foi me esconder até que a oportunidade de sair despercebido chegasse.
E apesar de quase ser pego, consegui sair pela porta do quintal assim que a mãe dele deu as costas pra tirar os carrapatos do cachorro, mas paguei um preço alto, que foi ter de passar pelo mato do quintal e ganhar uma coceira assombrosa nas canelas.
Com ainda mais lagrimas nos olhos segui a calçada buscando um rumo. Minha intenção era encontrar na internet qualquer conteúdo que me incriminasse, como alguma foto que alguém tenha colocado de mal gosto, coisas assim, mas de longe eu jamais encontraria, não nessa larica, não com essa dor no pé, não com essa coceira nas pernas!
O mais óbvio a se fazer na minha situação seria ter um papo reto com o professor cuzão, mas onde eu o encontraria agora? Olhei pros lados, pensando se aquele milagre que só acontece em histórias viria a me beneficiar, mas não, eu não o encontrei por acaso no meu campo de visão, caminhando à toa por aí onde eu o acharia. Porra de clichê que não me ajuda.
Sentei, derrotado, no degrau de uma padaria, que pra infelicidade do meu ser mandava direto pra minha cara um cheiro de pão recém assado simplesmente irresistível, e como eu estava quebrado, não tinha nem mesmo umas moedinhas pra comprar meio cacetinho.
Até me lembrar de algo que estava fresco na memória.
– Ow, tio, me vê cinco cacetinho? Na conta da escola.
– Vaza nóia! – O padeiro jogou um cabo de vassoura nas minhas costas... Por que não jogou uma baguete com presunto dentro da minha boca?
E o que mais eu poderia fazer? Pensei em voltar e assaltar a padaria, mas não tinha forças o suficiente. A segunda opção era ir onde meu professor mora, mas é impossível descobrir na sorte onde fica sua casa, então o que acabou me restando foi a ideia acolhedora de simplesmente voltar pra casa, onde ninguém desconfiaria da minha péssima situação caso eu arrumasse uma boa desculpa. E foi o que fiz.
– Ajudei a capinar o quintal do Near. – Foi o que respondi quando minha mãe perguntou curiosa o motivo de eu parecer tão destruído.
Se bem que se me pagassem, eu capinaria aquele 1 metro de mato.
Mas ao invés disso, fui para o quarto tentar melhorar minha situação. Tomei um banho, vesti algo que não estivesse fedendo suor, passei álcool nas pernas pra diminuir a coceira das picadas de mosquito. Porém em nem um segundo o pensamento de preocupação saiu da minha cabeça. Ainda é foda achar que você deu em uma festa em que ficou chapado. Sinceramente, eu deveria parar de beber, ou de falar com Near.
Caí na cama, ainda cansado apesar de ter dormido até as 10h, e mesmo com as ideias bagunçadas eu entrei em um sono de ressaca delicioso.
Havia um cara na minha frente, e o ambiente completamente desconhecido se transformou em um local que eu reconhecia bem. Dentro do vestiário do colégio eu lavava o chão enquanto era supervisionado pelo indivíduo de óculos de grau, aquele filho da puta.
No fundo eu sabia exatamente quem era, e por isso a minha cara estava tão feia, como a de quem está puto, muito puto.
– Não bastou me comer? Por que eu tenho que continuar limpando isso aqui pelado? – Uma vez já deu, não quero mais seguir o hobby de ficar nu.
– Mas quem quis ficar assim foi você. – Com os braços cruzados, escorado no batente da porta do vestiário, continuava me encarando. – Você fez isso pra me provocar, por que está me culpando agora?
– Eu não provoquei porra nenhuma. – Sentei no chão, no canto dos chuveiros, tentando esconder meu lindo corpo, porém, a cada vez que eu checava, estava completamente exposto novamente.
– Mas quem teve a iniciativa foi você, não se esqueça disso, agora seja responsável...
– Não caralho, não me come!!! – Arregalei os olhos e me joguei pra fora da cama na tentativa de despertar antes que as cenas eróticas ficassem mais claras. Por que os homens tendem a invadir meus sonhos sacanas? Não estou gostando disso!
Assustado e com a consciência recuperada, peguei meu celular e disquei em pausas o número da escola, tentando lembrar os dígitos. Quem me atendeu foi o velho que deu um rala no Matt cuzão no dia que voltamos do rancho.
– O professor cu... Matt está na escola? – Perguntei sem me preocupar em dizer “alô”.
– Não, hoje não tem aula nem treino. – Respondeu. – Você precisa de alguma coisa?
– Preciso falar com ele. – Minha voz parecia ansiosa, mas tinha que manter a calma caso quisesse alguma coisa. – Sou aluno e faço parte dos treinos da tarde, eu queria tirar algumas duvidas com ele.
– Bem, pode tirar quando tiver aula com o professor, mas no momento ele não est-
– Me diga onde ele mora! É realmente importante. – Cortei-o.
– Desculpe, não posso te dar essa informação sobre um professor. – Não pode o caralho!
– Mas ele deixou claro que eu poderia pedir caso precisasse. – Minhas desculpas e esperanças estavam acabando, e parecia que ia ter de arrumar outro meio pra achar esse drogado.
– Então vou deixar o número dele com você, mas o endereço não sou autorizado pelo próprio professor. – Menos mal.
Depois de ter anotado o número que parecia ser de um celular, desliguei o telefone e fiquei encarando o papel riscado. Que tenso.
Comecei a discar, porém logo de primeira já errei uns dois números... Mas no fim estava eu, com o celular no ouvido, temendo que o outro lado atendesse.
– Ãn? Quem é? – Na linha, a voz sonolenta parecia a de alguém que estava de ressaca.
Então, ele também?
– Sou eu, Mello. – Fiz uma pausa, suspirei. – Vou chamar a polícia!
– Que?! Como é?
– Você acha que é legal o bastante pra me estuprar? Você é um professor! Por que não pensou nas consequências quando estava fazendo algo tão horrível com um aluno?!
– Eu fiz o que com quem?! Do que você ‘ta falando moleque? Eu te conheço? – E ainda tem a audácia de se esquecer do que fez comigo.
– Sou Mello, seu aluno!
– Aquele filho da puta? Eu sei quem você é... Acha que eu me esqueci da merda que você fez ontem a noite? – O que eu fiz? – Garoto, o que você tem na cabeça de agarrar um professor em um lugar daqueles? Como eu vou me explicar?!
Ele parecia tão alterado quanto eu, e o fato de estar tão preocupado me faz pensar que é impossível que ele tenha feito algo comigo quando me tirou do meio do povo.
– Eu não sabia que era você. – Diminui o tom de voz. – Dê a desculpa de que eu estava bêbado. – Tentei melhorar a situação já que eu tinha tirado o meu da reta. – E mais, eu acho que estava escuro demais pra alguém ter notado, sem contar que todo mundo devia estar alteradíssimo.
Ou seja, como eu.
– Pode ser. Mas isso ainda não ameniza minha vontade de te esfolar. Por um acaso anda me confundindo com teus machos?
O que eu poderia dizer?
– Sim. – Eu não teria nenhuma outra explicação. – Pensei que era o Ronaldo.
– Ronaldo? Aquele que você perguntou se era meu filho?
– Exatamente... – Eu sei que fiz essa pergunta, mas ouvindo da boca de outra pessoa me faz pensar: Como eu sou retardado.
– Não é da minha conta, mas porra... – Lá vem. – Para de ser viado.
– Cara! Quem secou meu rabo quando eu estava de quatro no chuveiro?
– Eu sou teu professor, me respeite. – Ah, mas é pra foder mesmo.
– Fica ligado, eu vou espalhar por aí que você me comeu. – Alguém me pare, por favor. – No chuveiro.
Nunca foi minha intenção maior foder com Matt, entretanto, eu não consigo ficar calmo quando um professor me chama de boiola sendo que nem gay eu sou! Talvez seja um pouco, mas não o suficiente pra sofrer preconceito. Foda-se todas as pessoas do mundo, eu não quero ser chamado de viadinho por um merda de um professor de Educação Física.
– É você quem terá fama de dar pra professores. – E o que mais me deixa furioso, é o fato dele não se importar com as ameaças... Um professor comum estaria em pânico ou já teria desligado o celular há muito tempo. Mas convenhamos que ele é um cara recém formado que aparentemente não se intimida com alunos.
Esse tipo de professor consegue ser pior do que aqueles que leem suas poesias na sala durante 50 minutos.
– Quer saber. – Descarreguei. – ‘Ta fodido comigo.
Com fama de dadeiro ou não, imagino que eu não tenha muito a perder se comparado a ele.
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