Parvati
5 Farofa
Notas iniciais
Pense num cara zoado. Carregar aquela porcariada pro carro não foi nada comparado a ter que carregar até a sala reservada pra elas na escola. Sinceramente eu preferia dar a bunda.
– Ow! Ajuda filho da puta! – O doente nem se moveu, debruçado na trave do gol rindo baixo da minha cara, abusando do poder de professor, fumando mais um cigarro fedido. E nem preciso dizer que fumava escondido. – Vou contar pra eles que você fica fumando dentro da escola, maconheiro.
– Xiu, estou concentrado. – Fez um meio sorriso e arqueou as sobrancelhas. Com a merda da cara de quem se diverte com a desgraça alheia. – Acho que vou colocar você no time de futebol, ia ser interessante.
Eu não disse nada, só parei o que fazia pra encarar profundamente aquele idiota, com talvez a maior expressão de desaprovação do mundo. Porém, ele parecia só querer me encher, então não foi preciso xingá-lo ou jogar a raquete Wilson pra ver sangue jorrar do seu corpo.
– Aqui... – Chamei assim que descarreguei a última caixa com os equipamentos. – Eu vou embora. Hoje é sábado e não estou a fim de ver sua cara o dia todo.
– Preciso de ajuda em mais uma coisa! – Disse num tom fingido de urgência. – Lá na sala dos professores tem uma pilha de inscrições das minhas turmas de vôlei e basquete, sabe, alguém precisa organizar e colocar os nomes nas listas oficiais dos grupos. É trabalho demais pra um pobre professor.
– Foda-se, não é problema meu. – Seco, fechei a porta grande de ferro da área mofada onde ficavam os materiais esportivos. – Já tem quase duas semanas que venho sem falta pra cumprir essa porra de punição, que mais parece servidão que castigo, então vai se foder, vou pra casa e se quiser dizer pro velho idiota do supervisor que eu fui embora, foda-se também.
Mamãe desculpe pela desobediência, mas se eu quiser liberdade tenho que ser um mau menino.
Esperei que ele dissesse alguma coisa, mas como da última vez não fez nada senão me deixar ir, ileso, sem objeção, gritaria ou ameaças docentes. Sinceramente, não sei por que me deixou ir sem mais nem menos, ele não é o cara que sente um prazer carnal terrível em me ver sofrer?
Digo isso não de hoje, nem de ontem. Ele é meu professor desde o começo do ano, desde que o velho Watari se aposentou das aulas e deixou o neto recém formado tomar seu lugar como educador físico do colégio. Cara, o que o Watari-gente-boa estava pensando ao colocar um débil mental como tutor dos seus melhores alunos?
Matt nunca pareceu ir com a minha cara. Na sua aula de apresentação ele revirou os olhos quando perguntei por que tinham colocado um cara que parecia ter a minha idade como professor. Acho que ele não gostou do que eu disse, talvez porque ao invés de parecer um elogio, foi um insulto saindo da minha boca maravilhosa. Mas não foi à-toa, nessa primeira aula, ele acendeu um cigarro no meio de uma partida de treino, alternando ente o fumo e o apito.
Foi tão ridículo que eu não me segurei, precisei chama-lo de maconheiro por alguma razão. Acho que foram as vozes demoníacas que me disseram pra fazer aquilo, mas quem se importa? Nutrimos um ódio muito incomum se comparado com o ódio normal entre um professor e aluno. E enquanto eu revivia avidamente minhas memórias no caminho pra fora da escola, deixando o idiota sozinho, fumando e com uma pilha de coisas pra fazer, pensei seriamente em tudo que me levou até aqui.
– Nossa Mello, como você é idiota. – Admitir que você é o errado da história é coisa pra poucos, então me considerem foda, porém, isso não muda o fato de que ele é tão retardado quanto eu.
***
O dia estava bonito apesar do meu mau humor. Não tinha muita gente na rua, e o calor só servia pra juntar alguns grupos debaixo de árvores, que enchiam a cara de cerveja. O que animava era o cheiro de churrasco, é incrível como ele surge no fim de semana e a gente nunca sabe de onde vem.
Dois quarteirões adiante da galera da cerveja, uma garagem –lotada- era a fonte do cheiro de carne assada. Eu nem preciso dizer que entrei lá dentro, aliás, foi o que Near me ensinou. Não parecia uma festa de aniversário, na verdade não era nenhum tipo de festa, era só um punhado de vizinhos e amigos perturbando a casa de algum coitado que resolveu fazer um churrasco. Ou melhor, um punhado de vizinho, amigos e o Mello.
– Hey cara olha só pra isso. – Cutuquei com o cotovelo um cara do meu lado, apontando pra uma assadeira cheia de carne picada. – O cara sabe como fazer um churrasco do caralho. – Concordou comigo. Parecia que a cada palavra minha, mais nossa boca se enchia de água, sério, não duvido que aquele homem também não saiba o que faz aqui, assim como eu ele deve ter sido atraído pelo cheiro de comida.
Peguei meia dúzia do que tinha na assadeira com um pratinho de plástico. Asa de frango, linguiça picada, coxa de franco, bife, carne de gato, seja lá o que fosse tudo aquilo, eu ia repetir depois que terminasse. Ia repetir com força.
Tinha muita gente gritando uma com a outra, competindo com o som da musica alta que tocava. Fiquei rondando pelo quintal da casa assim que consegui achar a saída nos fundos da garagem, e nossa, parecia brotar gente do chão. Não vi nenhum rosto conhecido nos primeiros momentos que infiltrei mais adentro, exceto por um cara ruivo de óculos estranhos.
– Ronaldo? – Com a boca entupida demais de carne pra alguém me ouvir, vi o cara sentado numa mureta com um prato como o meu, cheio de farofa e carne assada picada. – Porra, o viado que me agarrou.
Não é como se eu quisesse pular nele e assenta-lhe murro, vai contra os bons modos dos churrascos, pra falar a verdade, estava surpreso demais até pra me mexer – com exceção da minha boca suja de farinha que precisava mastigar e logo aquela carne dura.
Olhei pros lados em busca de um abrigo bem longe dos olhos de qualquer gay que quisesse algum contato comigo, porém, antes que eu achasse o esconderijo...
– Olha! O cara da festa da minha colega que é amiga da melhor amiga da garota que tomou a surra de cinta dos pais. – Wow. Quero correr com minha farofa pra longe. – O que está fazendo na minha casa?
Porra, é a casa dele? Pra mim era só um churrasco pra galera.
Senti toda a comida voltar devagar pelo meu esôfago a cada segundo que ele me encarava. Era tão constrangedor que senti vontade de vomitar e apagar de novo, como na noite anterior. Olhei pros lados mais uma vez, fingindo não ser comigo. De todas as pessoas do mundo, Deus, por que Ronaldo?
– É você mesmo! – Apontou pra mim com o garfo branco de plástico. – Não é?
– Não? – Tentei afirmar, mas minha voz cagada estava me traindo. – Nem sei quem você é. Essa é sua casa? Bem, eu fui convidado por uma garota, estou aqui com ela.
Que alguém me dê uma luz e me explique o que estou tentando fazer?
– Que garota? Noélia? Conheci na festa! Ela me contou que você era o... Como é mesmo? Mello?
– Não, meu nome é Jack.
– Não tem como confundir! – Levantou da mureta e veio sorridente pro meu rumo, me obrigando a dar uns passos pra trás. – Mello! Eu não consegui te achar depois que te jogaram pra fora da festa ontem. Você estava tão mal que não deve se lembrar de mim. – Por um breve momento pensei que ele estava corado. – Meu nome é Matt!
– Não era Ronaldo? – Me assustei, horas, cara, não é Ronaldo?
– Ronaldo? – Me encarou com uma expressão confusa. – Claro que não.
– Certo, então. Matt né? Sim, vou pegar mais carne ok... ?
Eu precisava sair dali, se ele tinha me agarrado sem mais nem menos na festa, o que poderia fazer ali? Eu me senti uma garotinha perto do meu agressor. Não é legal.
Quando achei a assadeira de carne meu animo subiu talvez, uns 3%, mas caiu 9.104 quando percebi que a mão que roubou a coxa que eu estava de olho, não era de ninguém menos que Ronal- ou melhor, Matt. Levantei os olhos, fulminando o garoto por ter me seguido, e por pegar meu sagrado alimento.
– Você não se lembra mesmo de mim? – Perguntou com o meu pedaço de carne na boca. – A gente se divertiu ontem. – Eu sabia o quanto tinha sido “divertido”.
– Não, eu não lembro. – Menti, se eu dissesse que sim ele com certeza levaria a conversa pra um rumo que eu não gostaria de ir. – Foi mal.
– Não! Não faz mal. – Faz sim. – É muita coincidência achar você na minha casa, por isso pensei que talvez tivesse vindo por causa de ontem. – Me arrepiei só de pensar.
– Mundo pequeno né? – Dei uma risadinha. – Noélia deve estar me esperando, então vou in-
– Noélia veio junto então?
– É-é! Sim, ela disse que queria ir embora...
– Sei, outra hora a gente se encontra! – Mesmo sorrindo era muito claro que estava desapontado. Diferente de mim, que por pouco não chorei de alegria por me livrar dele com o prato cheio e com a masculinidade no lugar.
Estava tendo dificuldades pra sair de vez da garagem, Satanás havia colocado mais gente nas saídas, e se espremer entre esse povo com um prato cheio na mão, sério, é difícil pra caralho. Se torna ainda mais complicado quando você tem pressa, pois se demorar demais, um cara pode aparecer e te agarrar, te prendendo ali para sempre.
– Hey! – E era esse cara que eu não queria que aparecesse, droga, ele vai me agarrar!
– Não!! Sai! – Forcei passagem. Tive sorte em não derrubar uma farofinha sequer do prato de plástico, e ainda por cima sair ileso pela porta da garagem.
Que Deus abençoe essa farofa.
***
“Near, porra, não existe nenhum Ronaldo, aquele cara se chama Matt”, digitei o mais rápido possível no meu celular de bosta.
“Então a amiga da minha colega do curso de inglês que perguntou pro namorado estava errada” O que?
Eu preferi não responder a mensagem, afinal de contas, Near não tinha nada a ver com seja lá o que for isso.
Com meu pratinho na mão que a cada minuto se esvaía mais, fui caminhando pra... Pra onde? Hoje é sábado, eu quero mais é passar o dia na rua. Passei em frente ao Chico Linguiça que acenou pra mim, me chamando. Eu não ia entrar lá, ele me empurraria chocolate.
E lá em casa já tem pelo menos cinco barras.
Passei na frente da rua que Noélia mora. E mais adiante, passei pela escola. Dei risada quando pensei no idiota do meu professor preenchendo fichas de alunos.
– Cara, só agora me dei conta que eles dois são parecidos... – Sim, Matt e Ronaldo! Ou melhor, Matt e Matt. Eles têm muitas coisas em comum.
Sem contar que odeio com uma intensidade incrível os dois
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