Parvati
6 Excursão
Notas iniciais
– Eu descobri uma coisa incrível. – Não tive nenhuma resposta. Near nem mesmo pareceu interessado em tudo que eu disse desde que chegou aqui em casa, concentrado demais no celular, jogando o que parecia ser... Quem sabe! Qualquer coisa que estivesse tomando mais atenção do que minha fenomenal presença.
– O que...? – Perguntou, desinteressado, percebendo que eu estava a ponto de pegar aquela bostinha de celular e jogar na rua. – Não vai me dizer que descobriu que é gay.
Eu devo ter parecido tão ofendido que minha reação chamou sua atenção. No mesmo instante deixou o aparelho de lado e me encarou divertido, jogado como eu no sofá comprido da sala.
Da mesma forma que passo muito tempo na sua casa, Near também vem à minha com frequência. Mesmo que seja só pra jogar conversa fora –o equivalente ao “fofocar” das garotas.
– Cara, não é porque um moleque me agarrou que virei gay. – Respondi, forçando indignação. – Se continuar insistindo nessa história, vou agarrar você, te levar pra minha cama, e... – Fiz alguns gestos que deixou Near avermelhado, porém, de raiva.
– Para com isso, olhando daqui, o ângulo deixa você ainda mais bicha.
– Vem cá delícia. – Puxei seu pé. – Near, já te contei que você me da tesão? – Dei risada da sua cara de pavor.
– Conta logo o que você descobriu e me deixa em paz! – Chutou com o mesmo pé, tentando me afastar.
– Então você estava prestando atenção? Bom, se prepara. Descobri que podemos comprar coisas e colocar na conta da escola sem que peguem no nosso pé.
Me encarou, mas eu não soube como interpretar exatamente aquela feição.
– Como você conseguiu ter uma ideia tão idiota? Você teve ela sozinho? – Revirou os olhos.
– É verdade! Descobri ontem! Fui ajudar aquele professor pé no saco a comprar uns materiais pra escola e foi bem fácil, sabe. Eu apenas disse: Ponha na conta da escola. – Menti. Eu coloquei na conta do venerável Professor Matt, O Pau no Cu.
– Deve ser porque foi ele quem pediu pro vendedor. Eu não acredito que você disse uma coisa dessas! Preferia ouvir você com aquelas pornografias.
– Preferia mesmo? Nossa Near, você me surpreende todos os dias com uma nova fantasia sexual. – Fez menção de ir embora caso eu continuasse. – Eu pensei que você ia gostar da ideia...
– Claro, quer ir no mercado comprar cerveja e colocar na conta da escola?
– Sim... – Quando respondi, pegou de volta o celular no canto do sofá, num gesto de que tinha sido inútil descarta-lo pra me dar atenção. – Quando achar alguma coisa melhor pra me dizer, avise.
Near é um bom amigo, e se caso não fosse eu já teria perdido a paciência com o quanto ele é... Desinteressante. Somos compatíveis ao conversarmos, ou melhor, sou eu quem conversa, ele apenas rebate. Mas apesar desse transtorno, ninguém quebra o galho melhor do que um Near. Exceto em determinados casos...
– Porra albino! – Deu um pulo, evidentemente assustado. – Você disse que o nome dele era Ronaldo!!
– Que?! – Será que tenho que desenhar um Ronaldo?!
– O nome dele não é Ronaldo, é Matt!
– Eu sei! Você me mandou uma mensagem ontem dizendo isso. Sinceramente, essa é uma descoberta melhor do que a da conta da escola.
– De onde saiu Ronaldo?! – Tudo bem, eu acho comum passar informações erradas, principalmente sobre o nome de alguém que você não conhece, no entanto... Ronaldo?
– Pergunta pra amiga da minha colega do curso de inglês que... – Fez uma pausa. – Por que estamos discutindo sobre o cara que te deu uns pegas?
– ... – Eu não queria dizer que estive na casa dele... Claro que foi por acaso, mas antes que eu possa me explicar, Near já vai ter me zoado com todas as forças. — Entrei em um churrasco e as coisas começaram a se desencadear depressa até Ronaldo estar do meu lado roubando meu pedaço de carne...
– Hmmm, você foi ver ele? – Perguntou, sugerindo mais uma vez que eu estivesse manifestando intenções homossexuais pelo ser de codinome Ronaldo.
– Vá pra porra! Eu só entrei no churrasco e ele estava lá! – Perdeu o entusiasmo em tirar uma com a minha cara. – Ele me reconheceu da festa... Chamei ele de Ronaldo e... Ah, você não é idiota, não vou explicar.
– Que coisa. – Dessa vez o assunto o surpreendeu. – Sei lá, por curiosidade... Ele tentou te cantar?
– Claro que tentou! Ele achou que eu estava lá só por causa... Por causa da festa e tudo o mais.
– Sei, sei. – Apesar de estar mais interessado, percebi que não tinha mais o que dizer. – Então é Matt...
– Ah, aliás! Não sei se percebeu o mesmo que eu, mas Ronal... Matt! Ele se parece um pouco com o professor. O de Educação Física. Eles tem até o mesmo nome.
– Eles não tem o mesmo nome! Idiota.
Certo... Near disse que era Ronaldo... Portanto Ronaldo disse que não era Ronaldo, mas sim Matt. Near diz que não é Matt. Eu não sei mais como chama-lo! Ronatt? Ronalatt?
– O Ronaldo... Ou melhor, o Matt gay pode até ter esse nome, mas no caso do professor, Matt é apenas um apelido. – Mais um mistério foi solucionado. — E o que tem de mais eles se parecerem um pouco?
– Pensei na possibilidade do Ronaldo ser filho do professor... Sabe como é... Matt e Matt Filho. – Mais uma vez me ignorou, fazendo outro sinal para que eu me calasse. – Ah! Não vem dizer que estou errado!
– Como um cara, que terminou a faculdade agora e tem no máximo 21 ou 22 anos, pode ter um filho de 17?!
Near me deu o que pensar.
Por hora vou descartar a ideia de serem pai e filho, mas não pense que vou esquecer, eu sei muito bem como funciona o mundo! Tem gente sendo pai aos 10, por que não aos 4?
– Mello, não faça essa cara de quem está pensando algo imbecil. Os dois simplesmente tem a merda do cabelo parecido e usam óculos... Você se parece com uma colega da minha classe e nem por isso eu digo que são irmãos.
Depois de muito trabalho, o albino conseguiu tirar da minha cabeça a ideia, além de com muito custo também conseguiu me fazer perdoá-lo pelo triste comentário sobre sua colega de classe parecer comigo.
***
– Seguinte. – Fiz uma pausa no treino de futebol. – Você tem filho?
– Você não é meu filho, né? – Cheguei a pensar por um instante que sua preocupação era real. – Que seja. Não.
Na verdade, eu não estava exatamente no meu castigo da escola, mas sim sendo obrigado a participar de um treino de futebol que, por acaso, meu nome foi colocado na ficha de inscrição. Jamais se esqueça, quando um professor te mandar ajudar com as fichas dos inscritos, ajude, ou seu nome vai parar propositalmente no meio delas.
Eu já disse que odeio futebol?
Também já disse que odeio Matt, O Professor Cuzão?
– Tem um primo mais novo? Um sobrinho?
– Volta pro inferno. – Me empurrou, tentando me jogar no mar de gente.
– Só me responde isso, babaca, preciso tirar uma dúvida!
– Tira, mas tira calado enquanto estiver no gol levando lapada na rachada. – Deu um empurrão mais forte, me jogando de vez na fila pra ser o próximo goleiro.
– Você conhece o Ronaldo? – Pareceu confuso. – O Ronaldo que na verdade se chama Matt.
– Não conheço, por acaso é teu namorado?
– Espero que não. – Estremeci ao me lembrar dos momentos antes de vomitar aquela bebida cor de rosa com gosto de tutti frutti na festa. – Enfim, se ele for teu parente, tenho mais um motivo pra encher a cara dele e da família dele de coronhada.
– Não tenho nenhuma bicha na família, e mesmo se tivesse, não conheço nenhum Matt. – Fez uma pausa, quase dramática. – Aliás, não querendo cortar o teu barato, mas a escola organizou outra excursão, e um passarinho me contou que você não vai.
Ele falava com ódio no coração. Ódio e prazer ao ver como eu quase chorei sangue.
– Se eu não for, eu juro, você não vai.
– Vai fazer o que? – Riu, uma risada de escárnio terrível.
Bem, mais tarde, naquela maravilhosa segunda feira de um lindo outubro, foi dada ao professor Matt a ordem de que ficasse pra me passar as atividades que recompensariam meus atos criminosos. Isso não teve dedo meu, apenas a força da mandinga humana e da vingança! O próximo fim de semana nos aguardava, e apesar de eu preferir curtir esses dias em casa, o gostinho de vê-lo perder uma excursão era mais doce!
Depois do treino –amaldiçoado e eterno treino- tentei carregar meu corpo pra casa. A gravidade parecia me puxar com ainda mais força pro chão, mas na verdade eram apenas minhas pernas me fodendo com mais intensidade. Até mesmo uma senhora que esperava na faixa me ajudou a atravessar no sinal vermelho.
Tia, você salvou minha vida.
E assim que entrei dentro de casa, cara, eu desabei. O que será que tem nesse futebol, que destrói tanto as pessoas? Nem mesmo um banho conseguiu recuperar minha fé na vida. Porém, um bom mingau de chocolate sim. Mamãe sabe como fazer o meu favorito.
Não tive coragem nem vontade de perder meu tempo fazendo qualquer outra coisa senão cair na cama, ainda que fosse cedo demais pra dormir, era a única coisa que eu precisava. Mas algo estava errado, muito errado.
Percebi que estava sonhando, sabia que estava exausto e tinha morrido na cama há pouco tempo. Claro que o erro não era esse em específico, o problema é que como muitas das pessoas que têm completa consciência de que estão sonhando, eu pude fazer o que bem entendesse no meu. Não foi nada bonito o jeito como eu agarrei todo mundo da festa... De novo. Inclusive o danado do Ronaldo.
Mas sonhos são sonhos. Se eu quiser pegar um cara, eu pego.
E era isso que estava errado.
Quando acordei, a primeira coisa que foquei foi o relógio. Era quase meia noite. E eu tinha dormido por quase quatro horas só pra sonhar uma porra daquelas.
– É só o que me falta, eu acordar de pau duro por causa de um cara. – Claro que eu tentei me convencer psicologicamente que o motivo eram as garotas, mas não era, era por causa do macho que me agarrou. E era horrível. Me senti traído pelo meu próprio pau! – Não fode né!
Acabei por perder o sono –mas na verdade eu dormiria de novo em cinco minutos- e por todo o tempo acordado, pensei naquela porcaria de beijo nojento. Pra ser sincero, tem sido a única coisa que eu venho pensado ultimamente. Deve ter sido tão traumático que não consigo esquecer... Tão traumaticamente legal.
E pra minha sorte, antes que eu começasse a ir mais fundo com, por incrível que pareça, a fantasia que eu estava formulando na mente, meu celular tocou.
– Mello... – Era Noélia. – Você está acordado?
– Não.
– É claro que está... Olha só, não quer vir?
– Não.
– Eu sei que está muito tarde, mas ninguém vai dar falta de você essa hora.
– A resposta ainda é não. – Onde já se viu? Ir pra casa de uma garota uma hora dessas.
Ela tentou me convencer usando mais alguns argumentos como “estou em casa sozinha” ou “preciso de uma companhia”, mas nada disso me afetou, eu não sairia da minha cama pra isso.
Então, depois de alguns minutos, eu adormeci novamente. Tive o mesmo devaneio anterior que foi de longe tão bom quanto minha noite de descanso. Além de eu ter descoberto dessa vez em sonho o que teria acontecido caso eu não apagasse na festa, após o beijo, o ruivo e eu...
– Não! – Acordei, apavorado. Suava tanto que parecia estar tendo o pior dos pesadelos, não que não estivesse, bem, não sei, estou assustado demais pra dizer como me sinto. – Eu não posso recusar o convite de uma garota que me chama pra ir na própria casa! Um homem não recusaria!
Preciso da minha mãe.
Preciso de um médico, um padre. Senhor, acabei de sonhar que estava nu embaixo do Ronaldo.
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