Parvati
4 Conta
Notas iniciais
Acordei com Near me dando tapinhas no ombro enquanto eu captava minha situação. Percebi que estava jogado no gramado perto de uma mesa em desordem total, não era de manhã e também não era o começo da festa, parecia mais a hora em que todo mundo fica bêbado e morre no meio da madrugada. Minha cabeça girou antes de eu virar pro lado e vomitar de novo. Near tentava me fazer beber um copo d’água, mas eu só pensava em fertilizar o gramado do jardim.
– A festa já acabou ou é só impressão? – Perguntei, limpando a boca com a manga da blusa.
– Não, ta rolando, mas ninguém ficou aqui fora. – Só que uma pergunta está fazendo minha dor de cabeça aumentar...
– E como é que eu vim parar aqui fora?
– Sei lá, eu fiquei sabendo que um cara vomitou dentro da casa, daí jogaram ele pra fora. Pensei se não tinha sido você já que sumiu quando a gente chegou.
– Vocês que me abandonaram. – Reclamei com a voz enojada pelo gosto horrível na boca. – Me juntei com uns caras e comecei a beber. Eu peguei várias mulheres.
– E um garoto também. – Ele riu, dando mais tapinhas no meu ombro, me ajudando a levantar enquanto eu sentia vontade de ir pra casa e dormir agarrado no meu cobertor.
– Eu fui pego de surpresa e apaguei antes de meter um murro nele. – Me defendi. — Ah cara, minha cabeça ta horrível. Cadê Noélia?
– Não sei, a última vez que vi ela foi lá dentro. Você quer ir pra casa?
– É lógico, de preferencia pra sua que é perto, não me responsabilizo em ir por conta própria. – Entendendo, Near me ajudou a ficar de pé e serviu de apoio, dane-se a festa, é hora do foda ir embora.
Papo vai papo vem, Near me contou como tinha sido a festa e as coisas que aconteceram enquanto eu estava chapado. Parece que na verdade, os pais da garota que deu a festa viajaram e que a bagunça na casa incomodou os vizinhos, que com certeza vão comunicar os pais da menina sobre a festinha. Acho que alguém vai tomar uma surra de cinta logo, logo.
Disse mais que Noélia ficou chapada também e pegou quase todo mundo, e que isso vai dar treta... Near falou que viu quando aquele cara me agarrou, e que ao invés de reagir e me salvar, rachou o bico, tanto por ser um homem quanto por eu vomitar e desmaiar depois. Também disse que conhecia o garoto.
– Nem me fala sobre isso. Eu estava tão mal que nem vi, e agora vou ficar ainda pior porque eu gostei. Parecia uma garota.
– Acontece quando se está chapado. – Deu uma risadinha. – Sua cara foi épica quando encarou o cara.
Antes que eu reclamasse Near falou que tínhamos chego. Tivemos um pouco de dificuldade pra subir as escadas, mas no fim, eu estava jogado na cama dele, feliz por estar a salvo.
***
Mais um sábado chegou. Acordei na cama do albino ainda com a mesma roupa de ontem, sem falar que tinha dormido todo torto, mas foi de longe a melhor noite de sono. Eu tenho quase certeza que sonhei com o “trabalho escolar” e a faxina da quadra. Near não estava por perto quando acordei, e quando me levantei, zonzo de sono, pensei que podia comer meus próprios sapatos. A larica estava feroz.
Na cozinha não achei Lawliet, mas encontrei seu irmão no sofá assistindo a tv enquanto comia um maravilhoso pão recheado com qualquer coisa, fosse merda, eu roubaria e comeria sem dó.
–Near, vou pegar alguma coisa pra comer. – Falei enquanto abria a geladeira, vi somente sua mão abanando num sinal de indiferença. Eu não era lá muito fã de doces, claro, com exceção do meu chocolate, mas a geladeira estava cheia de bolinhos, tortas, e essas coisas que o irmão de Near é viciado. Mas quando a fome bate, eu não ligo nem se for um cachorro morto, eu como mesmo.
Peguei da geladeira o pedaço de um bolo esverdeado que deduzi ser de limão, e fui sentar no sofá com Near ver tv. Cara, nunca comi um bolo tão bom, ou melhor, um bolo nunca foi tão bom assim, o que a fome não faz?
– Você disse ontem que conhecia aquele cara. – Não era a primeira coisa que eu gostaria de comentar com Near logo de manhã, ele com certeza notaria minha curiosidade, e talvez concluísse que eu havia me interessando mais do que devia. – Pra deixar claro, é apenas curiosidade...
– Certo, certo. – Mordeu mais um pedaço do pão que olhando mais de perto, parecia estar recheado com geleia. – Eu conheço ele porque ele é colega da garota que é melhor amiga da menina que me convidou pra festa. – O que?
– Ah, entendi. – Não entendi não. – Então...
– O nome dele é difícil de lembrar, e esqueci cinco minutos depois que me contaram. – Bufei, eu sinceramente queira pelo menos saber o nome, ter noção de quem é... Não é como se eu fosse querer saber o nome de cada garota que peguei na festa, isso não importava, eu só tinha a curiosidade por que ele era um homem. –Mas se você quer saber, eu pergunto pra alguém.
No mesmo instante, tirou o celular do canto do sofá e com o pão pendurado na boca numa mordida, começou a digitar, e logo voltou a dar atenção pro pão, dizendo que em alguns instantes alguém iria responder.
– Aqui... – Disse depois que ouvimos o som do celular vibrando. – Me mandaram uma foto dele com um pessoal na festa. — Como não consegui reparar no rosto antes, pude ver na foto a pessoa que me agarrou. Ele tinha mesmo uns óculos esquisitos, seu cabelo era ruivo e seu rosto ao menos era agradável. – O nome dele é Ronaldo.
– Pelo menos não é um cara esquisito. – Comentei, conformado, me debruçando pra ver a foto. – Que seja, é bom eu não saber onde ele mora, ou eu vou ser obrigado a dar uma porrada nele.
–Para de chorar, quem mandou ter cara de mulher? – Percebi na voz que ele tinha se arrependido do que disse, mas não liguei muito. Pelo menos não até raciocinar direito o insulto.
– Isso não justifica. Agora cala a boca que o Bear está comendo mais um bicho, quero escutar a tv.
***
Mesmo sendo sábado, lembrei que apesar de todos estarem em paz, descansando da escola, o abençoado Mello tinha atividades pra realizar. Eu só continuo indo porque talvez elas amenizem o castigo, me liberando pra próxima excursão do colégio.
Depois de ir pra casa, vestir um trapo de escravo e ir tomar o rumo certo da vida, quase desisti no caminho, sabia que um professor terrível me esperaria com um esfregão, desinfetante, buchas e rodos pra faxinar.
– E aí? – Deu risada assim que me viu chegar. – Que cara... Isso parece ressaca.
– Eu não bebo. – Tentei encurtar a conversa, nem um pouco a fim de dar papo pra esse magrelo.
– Olha, que tal me ajudar com outra coisa hoje? – Falou quando percebeu que eu já pegava a vassoura. – Tenho que comprar uma rede nova pro pessoal do vôlei, por isso os garotos do futebol reclamaram e exigiram que eu comprasse equipamento novo pra eles também, e assim foi com os outros cinco grupos esportivos. – Bufou, desanimado. – Preciso que alguém me ajude a carregar as coisas.
Não parece tão ruim quanto esfregar, lavar, raspar e deixar brilhando os banheiros.
– A gente vai de carro. Você só precisa me ajudar a carregar a bagagem. – Concordei um pouco mais contente com o trabalho digno a um estudante de castigo.
Quando entrei no carro, percebi ser o mesmo do dia em que fui expulso do rancho, o mesmo que meu professor de Educação Física quase capotou só pra me ver morto. Não deixei de notar na enorme diferença que sentia no clima entre professor e aluno, no momento, eu era apenas um ajudante, e não um acusado de tentativa de homicídio.
Mesmo que a tentativa de homicídio seja o motivo de eu ser o ajudante agora.
– Então... – Tentou quebrar o silencio. – Por que não vejo você praticando nenhum esporte?
– Porque não gosto? – Respondi como se fosse obvio. Ah cara, olha pra mim, eu sou magro, fraco e sedentário.
– Eu também não gosto.
– Que idiota, e ainda assim trabalha com isso?
– Não vou tentar te explicar, você é retardado demais pra entender. – E apesar das palavras parecerem ofensivas, o tom de voz era como o de um amigo. Extremamente casual.
A ponto de nem mesmo acender minha ira.
– Por que virou professor disso então?
– Porque a faculdade era perto de casa e foi o que eu escolhi entre exatas, humanas ou saúde. – Parece meio estúpido, mas apenas meio, não totalmente estúpido. – E porque eu pensei que era o curso mais fácil, mas acabei me enganando. – Agora é completamente estúpido.
Fiz um sinal negativo com a cabeça, mais de pena do que de indignação. Porém, no caminho para a loja desportiva, mesmo trocando com ele experiências em assuntos diversos que comprometeram tanto a dignidade dele quanto a minha, percebi que ele não era em todo um idiota. Era o professor mais aceitável que eu tinha.
– Mas pelo menos eu me formei numa faculdade... – Me olhou, como se jogasse na minha cara mais uma vez seu diploma.
Apesar do professor mais aceitável, ainda era o filho da puta que me fodeu.
Quando paramos o carro ele não perdeu tempo. Desceu e já entrou com tudo na loja com uma lista do que precisávamos. E eu, o bom garoto, apenas ajudei com o que achava melhor ajudar. Nada.
– Vai ficar aí olhando? – Chamou enquanto eu me entretinha com uma prateleira cheia de suplementos. – Vai levando as coisas pro carro, e quando o vendedor voltar, diga pra por na conta da escola. Vou comprar um cigarro.
– Boa, idiota saudável. – Só me mostrou o dedo e saiu, me deixando com uma pilha de bolas ainda murchas, redes, raquetes e tudo quanto era pesado pra eu carregar sozinho. E depois do trabalho feito, enquanto ele fumava lá fora, encostado no carro vermelho e sem graça dele, voltei pra por tudo na conta.
– Coloca na conta do professor Matt. – Isso aí vendedor, me ajude a foder de leve esse babaca.
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