Partitura.
3 Capítulo 2 - Ré (D)
Notas iniciais
O garoto acordou com dor de cabeça no dia seguinte. Por nunca ter bebido antes e no dia anterior ter virado um copo cheio de cerveja, sentia que era a pior dor de cabeça que já sentira. Se sentou na beirada da cama e massageou as têmporas numa vaga esperança de que ajudasse, o que não ocorreu. Então, decidiu levantar e hidratar-se.
Deu bom dia aos pais que também estavam na cozinha e pegou um copo do armário, o enchendo de água da torneira logo em seguida.
— Já tem alguma novidade das aplicações para a universidade, querido? – A mãe perguntou.
— Não... Não acho que as respostas cheguem tão cedo. – Respondeu e bebeu a água do copo.
— Devia treinar mais hoje à tarde. – O pai comentou.
— Vou fazer isso. – Ele encheu o copo mais uma vez e subiu para o quarto.
Seria uma longa tarde até que a noite chegasse.
♫ ♫ ♫
Quando o sol começou a se pôr deixando o céu pintado com cores frias se misturando as quentes no horizonte, Min-gi sabia que estava quase na hora. Cansado de ler partituras a ponto das notas parecerem embaçadas e distorcidas, decidiu ajudar a mãe no preparo do jantar.
Enquanto jantavam, ele ouviu os pais contarem suas novidades de seus trabalhos. A vida deles parecia bem mais agitada que a do garoto, já que a dele era basicamente apenas se concentrar em seus estudos, tocar piano e juntar dinheiro com seu trabalho de meio período em uma lanchonete.
Se dispôs a lavar a louça, acreditando que se mantivesse ocupado o tempo passaria mais rápido.
Terminou e subiu para seu quarto, desejando boa noite para os pais no caminho.
Se sentia mal por estar escondendo deles. Era a primeira vez que escondia algo deles assim. Talvez não fosse algo tão ruim, certo? Afinal, era comum adolescentes fazerem isso... Contaria para eles eventualmente.
Esperou até que ouvisse os passos de seus pais subindo as escadas e apagando as luzes para começar seu plano. Dessa vez, colocou alguns travesseiros por baixo dos cobertores por precaução antes de se esgueirar pela janela e pular do segundo andar.
Assim como no dia anterior, assim que caiu aguardou por uns segundos, para ter certeza de que ninguém havia escutado sua queda na grama. Após não notar nenhuma resposta, correu para seu destino.
Gostava de sentir o vento nos fios curtos do seu cabelo enquanto corria, da curta sensação de liberdade que sentia.
Alguns longos passos a mais e estava de volta a rua do bar. Era impossível não notá-lo, com várias placas de neon espalhadas pelo vidro da frente, iluminando a calçada de vermelho e azul. Conforme se aproximava, melhor ouvia a música que Ryan tocava e cantava.
A canção se encerrou logo que entrou no estabelecimento. Os aplausos reverberaram pelo lugar. Parecia ter mais gente por ali do que no dia anterior.
Não demorou para o cantor encontrar o outro no grupo de pessoas que haviam se juntado próximo ao seu pequeno palco. Ele sorriu e acenou, guardando a guitarra no apoio de chão logo em seguida para se aproximar dele.
— Ei, você veio! – Não sabiam se deveriam cumprimentar um ao outro. Na dúvida, mantiveram suas mãos no bolso. – Achei que não viria, não mandou nenhuma mensagem...
— Ah... Eu não sabia o que escrever, então achei melhor vir direto. – disse inseguro. Deveria ele ter mandado uma das mensagens em rascunho que ele rejeitou? Todas pareciam bobas demais...
— Um cara de atitude. Gostei. – brincou. – Vem comigo, quero te mostrar uma coisa. – Ele começou a seguir para uma porta ao lado do palco que Min-gi não havia percebido antes.
Quando entrou, rapidamente reparou na iluminação verde da sala.
— Essa é a sala verde, como pode ver... Ou não, se for daltônico. Você é daltônico? – Ryan perguntou.
— Não...
— Ah certo. Enfim, é onde fico treinando meu repertório e relaxando. Ah, também serve como depósito, por isso da bagunça. – Ele explicou quando observou o outro analisando o ambiente com um semblante intrigado.
De fato, a sala era interessante. Além da iluminação, havia prateleiras cheias de caixas das mais diversas marcas de bebidas que preenchiam toda uma parede. No centro, um sofá antigo de tecido, uma mesa de centro de madeira e vidro e um tapete de figuras geométricas decorava o espaço. Em um canto, um pano escondia as coisas que ali havia. Algumas garrafas de cerveja e caixas vazias estavam espalhadas pelo ambiente também.
— É uma sala qualquer, mas a luz verde deixa tudo mais legal. – Park comentou.
— Né? – O músico tirou o pano que escondia os objetos debaixo dele, revelando alguns instrumentos musicais diversos, como bateria, baixo, teclado e mais uma guitarra, além das caixas de som e vários fios espalhados. – Tcharam!
— Nossa. Vocês têm o suficiente pra fazer uma banda aqui.
— É... No caso estariam faltando as pessoas, mas estamos trabalhando nisso. Era do antigo cara que tocava aqui com a banda dele, Jeremy, acho... Não cheguei a conhecer. Eu queria te mostrar o teclado. Você toca piano, consegue tocar esse também, não é?
— Acredito que sim, por quê?
— Eu tava pensando... Você podia tocar comigo! Claro, não precisa ser todos os dias que eu toco aqui, mas... Sei lá. Achei que seria bacana tentar. – Ryan admitiu.
Min-gi demorou para responder, estava tentando processar o que acabara de ouvir.
— Por que eu? Você com certeza já deve ter conhecido outras pessoas mais experientes, além de que a gente acabou de se conhecer.
— É, mas... Algo me dizia que você iria aceitar, então corri os riscos. – ele cruzou os braços de forma confiante e sorriu de forma diferente, com a boca fechada formando uma linha curva e suave semelhante a um W.
— Eu não sei, cara... – Estava ponderando a ideia, apesar de ainda temer seus pais e o que pensariam disso.
— Qual é! Quantos anos você tem, 18? – Akagi questionou e o outro assentiu. – Tá aí! O que te impede de tentar? Se quiser, eu te ajudo com seus pais. É isso que tá te incomodando né?
— Ei, Ryan. – Uma mulher preta de tranças longas abriu a porta apoiando seu peso enquanto segurava a maçaneta. – Já tá na hora de voltar. – Ela logo percebeu o outro garoto que o acompanhava. – Ah, oi!
— Kez, esse é o Min-gi. – O músico tomou partida para fazer a apresentação. – E Min-gi, essa é a Kez. Minha produtora, melhor amiga e uma das donas daqui também.
— Prazer. – disse timidamente.
— O prazer é todo meu, Min-gi! – Ela sorriu e indicou para o cantor com a cabeça o público que o esperava do lado de fora.
— Eu já volto, fica aqui! – Ryan pediu e correu para o lado de fora.
Ela fez um gesto com a mão para que Park se aproximasse.
— Você estava aqui ontem, não estava? – Ela perguntou e ele assentiu em resposta. – Sabia que lembrava de você, o “todo certinho”.
— Eu pareço tanto assim? — Ele questionou com um tom de indignação.
— Parece. – Kez riu brevemente. – Mas não é ruim não. Só quero saber se o todo certinho aí consegue lidar com ele. – Ela apontou para o cantor executando sua função no palco, com um sorriso no rosto e distraído com a plateia.
— Kez, mais uma dose! – Alguém do balcão do bar chamou.
— Tenho que ir. Mas sinta-se à vontade! – Ela fechou a porta e correu para atender o cliente.
Ele sorriu. Estava começando a gostar da ideia de passar o tempo ali.
Voltou sua atenção para o teclado. Havia tocado em um desse algumas vezes, não era muito diferente de quando tocava piano. O ligou na tomada e se sentou em uma das banquetas que havia por perto.
Ao tocar a primeira nota, sentiu uma sensação diferente se espalhar dentro de si. Aos poucos, a cada acorde que soava, a sensação se tornava euforia, o que o lembrava da primeira vez que tocou uma música inteira no piano sem errar. Era Für Elise, quando tinha 9 anos. Lembrou de como ele se sentiu orgulhoso de si mesmo e de seus pais comemorarem com ele. Foi um dia feliz, digno de ser uma das memórias de maior conforto para ele.
Ao perceber, estaca tocando naturalmente no teclado as músicas que sabia de decor. Deixou os dedos dançarem sobre as teclas até se cansar.
Só voltou sua atenção ao presente quando notou a presença de Akagi ao seu lado. Sentiu as bochechas corarem. Desde quando ele estava ali?
— Você toca muito bem mesmo. Só acho que vamos ter que dar uma variada nesse repertório. – pontuou. De fato, o outro sabia tocar apenas músicas clássicas.
— Que horas são? – sentia como se tivesse dormido e perdido a noção do tempo.
— Quase uma da manhã. – Ryan respondeu com o semblante tranquilo.
— O quê? – Exclamou e se levantou bruscamente. – Eu preciso voltar pra casa!
— Relaxa, não é como se seus pais acordassem no meio da noite e checassem se você está no seu quarto, né?
— Bem... Não, mas... – ele começou, mas foi interrompido com o contato e movimento brusco que o outro causou quando segurou sua mão e o levou ao palco, onde já não havia mais plateia, além de alguns garçons e Kez que limpavam o lugar.
— Você disse que tinha curiosidade em tocar guitarra, então pensei: por que não? – O músico relembrou enquanto pegava seu instrumento e sentava na beira do palco um tanto elevado do restante do bar.
Min-gi se juntou a ele receoso. Era uma vontade antiga, não tinha certeza se gostaria de aprender agora, depois de tanto tempo...
— Toma. – O guitarrista posicionou o instrumento no colo do outro e esperou que ele o segurasse na posição correta. – Essas são as cordas, de baixo pra cima, Mi, Si, Sol, Ré, Lá e Mi. – O que segurava a guitarra dedilhou nas cordas por alguns segundos, se acostumando com o som que elas emitiam.
Ryan continuou a explicar as partes da guitarra e quais suas funções, das quais Park ouviu atentamente. Quando ele começou a ensinar os acordes, sentiu um pouco de dificuldade para posicionar a mão esquerda no braço e nas cordas e casas de cada acorde, além de que levaria tempo para decorá-los. Entretanto, Akagi parecia dedicado o suficiente para ensiná-lo a tocar nem que fosse um único acorde naquela noite, e para isso, posicionou suas mãos sobre as do outro, guiando seus dedos para a posição em que deveriam ficar.
Min-gi podia sentir a respiração do outro próxima da sua. Talvez estivessem próximos demais, mas por que não conseguia se afastar? Tentou manter a concentração no que o cantor lhe explicava, mesmo que dividisse o olhar entre sua mão abaixo da dele e seu rosto. O mesmo parecia imerso demais em sua aula para notar que seu aprendiz o olhava.
— Acho que tá bom só pro básico por hoje... – Akagi começou.
— Aceito tocar com você. – O estudante o interrompeu.
— Sério? – O outro assentiu. – Massa! Tenho certeza que vamos mandar muito bem. – Ele deu um soquinho de brincadeira no braço do pianista.
— É... – Park ficou pensativo por um momento. Havia sido uma boa escolha? Isso ele só descobriria mais tarde.
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