Partitura.

4 Capítulo 3 - Mi (E)


Notas iniciais
EU RETORNEI! Após um bom tempo longe, estou de volta! Peço perdão pela demora, e uma boa leitura! AVISO: contém pequenos headcanons!

Acordou no dia seguinte com a luz do sol em seu rosto. Se sentou e esfregou os olhos para ajustar sua visão, só então percebendo que havia esquecido a janela e a cortina aberta quando fugiu à noite.

Bem, pelo menos agora não precisaria abri-la como fazia todos os dias pela manhã. Arrumou a cama e notou o celular na mesa de cabeceira. Talvez fosse hora de deixar o músico ter seu contato também.

— Oi, é o Min-gi. Te mandando essa mensagem pra você conseguir me adicionar aí.

Poucos segundos depois, viu que ele ficou online, visualizou e logo começou a digitar.

— Ei!! Beleza, agora posso te irritar por aqui também!

Um sorriso tímido se formou no rosto de Park. Ele voltou a digitar.

— Já tá acordado? São sete da manhã.

— Sou um homem de muitos compromissos. — Min revirou os olhos. Conseguia imaginar o tom de voz confiante dele dizendo a frase.

— Quais as músicas que você tava pensando pra gente tocar?

O outro demorou um pouco mais para responder, até enviar o link de uma playlist.

— Essas aqui! Mas não precisa aprender todas agora não.

— Beleza. — Min iria escutá-las mais tarde de qualquer forma, as músicas ali presentes chamavam sua atenção.

— Na verdade, cê podia até tocar uma clássica lá na hora, quem sabe?

— Acho que eu ia espantar todos os clientes.

— Haha! Não vou deixar isso acontecer.

— Então é melhor não me deixar tocar nenhuma música clássica!

— Deixa comigo! — Ryan mandou a mensagem acompanhada de um emoji piscando.

Ele bloqueou a tela e deixou o celular descansando no mesmo lugar. Era melhor começar a praticar o quanto antes.

♫ ♫ ♫

Os pais dele não puderam deixar de notar que as músicas que ele tocava eram diferentes do usual.

— Querido? O que está tocando? – Ouviu sua mãe se aproximar e perguntar ao seu lado, o despertando da atenção que prestava ao instrumento.

— Estou treinando outros estilos. – Ele esperou por alguma reação dela. — O que achou?

— É... diferente, uma boa ideia talvez. – ela admitiu, colocando a mão no ombro dele demonstrando apoio.

Escutou seu pai resmungar algo na sala ao lado. Não se surpreendeu, sabia que ele seria mais difícil de convencer que treinar outros estilos não era uma perda de tempo.

E com certeza mais difícil de contar que estava fugindo a noite para tocar em um bar no centro da cidade.

♫ ♫ ♫

O domingo passou devagar, como de costume. Entretanto, o garoto conseguiu usar isso a seu favor. Praticou o máximo até ter certeza de que mandaria bem no palco. Quando seus pais não estavam por perto, até se arriscava a cantar as letras, baixinho. Gostava do significado por trás delas, mesmo que a maioria fosse sobre relacionamentos, algo que nunca teve experiência.

Às vezes, elas o lembravam de Akagi, e sentia que nesses momentos precisava espairecer. Se levantava para beber água ou checava as redes sociais com desinteresse.

Com o celular na mão, uma ideia passou pela sua cabeça. Procurar pelas redes sociais do músico não faria algum mal. Desbloqueou o aparelho e digitou “Ryan Akagi”, as contas aparecendo logo depois de ter clicado em enviar. Acessou uma delas, na qual Akagi estava sorrindo para a câmera com a guitarra em seu colo na foto de perfil. Na biografia, dizia:

“Aspirante a cantor

18 anos de decepções e muita música

23/03

Powell Lake – Canadá”

Min se surpreendeu com a data. Se fosse mesmo o que estava pensando, ambos faziam aniversário no mesmo dia. Rolou pelo feed, observando as diversas fotos que o músico tirou: com a guitarra, no bar com Kez, no que parecia ser seu quarto, com pôsteres decorando uma parede inteira sendo iluminados por uma luz de led vermelha. É como se ele aproveitasse cada momento e o registrasse. Dava para notar em seu sorriso genuíno, acompanhado de uma covinha tímida em sua bochecha esquerda.

Quando percebeu, estava sorrindo também. Clicou no botão de seguir e deixou o celular de lado para estudar tentando, mais uma vez, impedir do guitarrista invadir seus pensamentos.

♫ ♫ ♫

— Você chegou cedo — ouviu a voz de Akagi prevalecer sobre as notas que estava tocando no teclado. Ele se apoiou no batente da porta da sala verde, analisando-o.

— Precisava treinar mais um pouco — justificou, deslizando as mãos antes nas teclas para seu colo.

— Que dedicação. — Ryan abriu um sorriso e arrastou uma pequena banqueta semelhante ao do outro para que pudesse se sentar ao lado dele. — Toca aí.

Estava tão próximo como no dia anterior. Min demorou o olhar nele até desviar para o instrumento e suas mãos já novamente posicionadas nas notas determinadas. Com a música repassando na sua mente, ele começou a tocar.

Suas mãos dançavam sobre as teclas sem esforço. É como se ele já tivesse tocado a melodia há muito tempo várias e várias vezes.

Sem perceber, estava cantarolando a canção, imerso nela. Quase como se só houvesse ele no ambiente e seu teclado, algo quase metafísico.

Ao terminar, notou o olhar do guitarrista sobre si, surpreso.

— Muito ruim? — perguntou com uma careta, como se a música tocada fosse como um limão azedo.

— Isso foi... Incrível! — Os olhos dele brilhavam de empolgação — Quantas mais você já praticou?

— Só mais três, desculpa eu...

— Desculpa? — Ele colocou as mãos no ombro de Park e o sacudiu. — Aquilo foi demais! Tá perfeito. Não precisa pedir desculpa. A gente vai arrasar.

Min não conseguiu evitar sorrir. A alegria do músico era contagiante.

— Tá muito cedo pra toda essa gritaria. O que tá acontecendo? — Uma Kez incomodada surgiu na porta com os braços cruzados.

— A gente vai mandar muito hoje, Kez! — Akagi gritou de felicidade.

— Ah, fico feliz! — Nem ela conseguia disfarçar o sorriso que esboçava — E tenho certeza que os clientes também. Eles já estão chegando, melhor se apressarem.

— Vamos, Min! Hora do show! — O músico pegou sua guitarra da case e o ajudou a levar o teclado até o palco.

Park o acompanhou levando o suporte que usaria para tocar, entretanto, uma mulher de meia-idade o impediu assim que saiu da sala.

— O que está fazendo aqui? — perguntou num tom não tão amigável.

O pianista abriu a boca para falar, mas Kez foi mais rápida.

— Morgan, esse é o Min-gi. Vai acompanhar o Ryan nas noites de música ao vivo, não é legal? — Ela sorriu forçado, tentando ter o controle da situação. Sabia que Morgan era difícil de convencer e não ter falado nada para ela antes complicava ainda mais.

— Por que não estou sabendo disso? — Morgan fitou a garota.

— Bem, você não estava aqui ontem e... — Ela procurou pelas palavras certas — Ryan precisava de ajuda. Deixa ele tocar hoje, e se ele tocar bem, você permite que ele fique. O que acha?

Morgan analisou o garoto seriamente.

— Está bem, mas se me decepcionar, é pra sair e não voltar mais, entendido?

— Entendido. — O garoto se esforçou para que a voz saísse firme.

A mulher saiu acompanhada por Kez, que parecia lhe contar melhor do que tinha acontecido em sua ausência.

— Cara, você foi corajoso, ela pode ser bem assustadora quando quer — o guitarrista admitiu e sorriu, ajeitando o equipamento de som.

— Ela é mesmo. — Akagi o fitou pela sinceridade, ambos começando a rir em seguida.

— Preparado? — Ryan posicionou a mão esquerda no acorde determinado.

— Preparado. — Park repetiu ao seu lado, as mãos também posicionadas nas teclas.

— E cinco, seis, onze, doze!

O som dos instrumentos reverberou por todo o estabelecimento em harmonia. Um complementava o outro. Ryan começou a cantar com leveza, já tinha feito isso diversas vezes, estava acostumado. Park, por outro lado, podia contar nos dedos as vezes que havia apresentado em público que não fosse sua família.

O músico conseguia bem transparecer o sentimento da canção e isso era o que mais cativava a atenção do pianista. Ele não podia deixar de observar que o outro possuía uma boa voz para canto, quase angelical.

A primeira música se encerrou rapidamente. Akagi lhe deu uma piscadela antes que seguissem para a próxima música, como forma de mostrar a ele que estava indo bem. A plateia que já aumentara consideravelmente aplaudia entusiasmada.

Min sentiu as bochechas esquentarem. Antes que pudesse se distrair, o outro já voltou a tocar, cantando num ritmo mais alegre.

Quando chegaram nas músicas que Park não havia ensaiado, Ryan o olhou para confirmar o que iriam fazer dali em diante. O tecladista não ia se deixar abalar por falta de prática, continuou onde estava e assentiu confiante pro outro, que seguiu com o repertório.

Enquanto ele tocava, o garoto arriscava alguns acordes aqui e ali, incrementando o som da guitarra.

Finalizaram a noite sem problemas. O bar já estava fechando e estavam guardando seus instrumentos quando Kez apareceu com um sorriso.

— Min, ela disse que você pode ficar! — anunciou.

Os garotos sorriram com a notícia. Ryan estendeu a mão aberta para o outro, que a bateu em um high-five.

— Obrigado Kez — Park agradeceu.

— Ah, não precisa agradecer. Eu tinha percebido como o Ryan ficou feliz com essa proposta então o que eu tinha a perder? Precisava convencer a Morgan de qualquer jeito — Kez esclareceu confiante. — É melhor irem pra casa, já tá bem tarde e eu preciso fechar.

— Tá bem, mãe. — Ryan brincou e colocou a case nas costas. — Em que bairro você mora? — questionou para Park. — Quem sabe a gente pode ir junto até uma altura — propôs.

— Ah... Eu moro perto — Ele pensou por um momento — Pode ser.

Saíram do estabelecimento e caminharam em silêncio por algumas quadras.

— Você mandou muito bem. Ainda mais pra alguém que só teve um dia pra praticar — Akagi comentou.

— Valeu. Você também — Park respondeu, tímido. — Desde quando sabe que queria cantar?

— Acho que desde sempre. Meus pais contam que quando eu era criança eu cantava até as músicas de comerciais. Isso irritava eles pra cacete — riu, e o outro o acompanhou. — Eu vi que você me seguiu.

Min se assustou. Tinha até se esquecido desse feito. Não queria parecer um estranho para ele.

— Ah... É. Desculpa, suas fotos são legais e... Acho que fazemos aniversário no mesmo dia — ele gaguejou, tentando parecer normal.

— Sério? 23 de março?

— Sério. Olha. — Ele retirou a carteira do bolso da calça e procurou pela identidade. Quando a encontrou, estendeu para o outro.

— Tá brincando — Ryan sorriu e analisou mais uma vez. — A sua foto tá adorável. — Um calafrio percorreu pelo corpo de Park. Tinha se esquecido completamente da foto de identidade. — Quantos anos cê tinha quando tirou? — Ele tomou o documento das mãos do outro, que riu.

— Quinze — respondeu baixinho.

— Aqui, pra ser justo — ele estendeu a própria identidade, guardada no bolso de fora da case.

Min-gi observou o garoto, alguns anos mais jovem sorrindo para a câmera mostrando seu aparelho colorido e também sua covinha.

— Qual é, você não tá tão ruim..

— Eu tô ridículo! Eu tinha 14 quando tirei. Agora estamos quites. Mico da foto de identidade, check. — ele fez um gesto com as mãos como se estivesse marcando algo no papel.

O mais alto sorriu de leve. Algumas coisas se passavam pela sua cabeça, mas não diria nada por enquanto.

— A minha casa é logo ali — apontou para uma casa na quadra seguinte — Obrigado por vir junto e... por ter me colocado pra tocar contigo lá no bar, eu curti.

— Ah, não precisa disso. Eu que agradeço por você ter aceitado!

Permaneceram alguns segundos em silêncio, sem saber ao certo como proceder.

— Bem, até logo — Min acenou sem jeito para o outro que correspondeu, e se direcionou pra casa.

Que aquela noite tinha sido inesquecível, ele não tinha dúvidas disso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.