Parte alguma de uma história sem fim
12 Um dia para desconhecidos
Notas iniciais
Não havia perfume. Ela nunca tinha se importado com isso antes, mas agora faltavam 10 minutos para as 17 e ela estava limpa, arrumada, até mesmo penteou o cabelo e não só o puxou para trás e prendeu. Quer dizer, puxou e prendeu, mas dessa vez ela desembaraçou antes, o que era uma grande coisa. Mas não havia perfume, e mesmo assim ela esperava estar cheirosa o suficiente.
– Car-mim! — Susana entrou de repente no seu quarto e se jogou na cama. — Para onde você vai?
– Por que você acha que eu vou para algum lugar? — Indagou Ca, se olhando no espelho.
– Porque até 10 minutos atrás eu não achava que você conhecia o próprio reflexo.
– Ha! Mas você é tão esperta, não é mesmo? — C fez uma careta para ela, que ria. — Por acaso você acha que eu indulgencio minha aparência, é isso?
– O que é isso?
– Indulgência? Não se importar, mais ou menos isso. Pelo menos nesse caso.
– Se você for sair, com quem eu vou ficar?
Merda, tinha isso... Não tinha como ela levar Susana na moto junto com ela. Pensou um pouco, enquanto alisava a regata, que dizia: "Quem não tem colírio, usa óculos escuro" e ponderou mais uma vez sobre seu jeans claro, justo e rasgado nos joelhos.
– Vou te deixar na casa de dona Maria, é isso.
– Mas eu fico espirrando com tanto gato e toca umas músicas chatas de igreja. Ela não tem nem TV…
– O que você quer que eu faça? Leva um livro, e senta no quintal pra se livrar dos pêlos.
– Pooooo, que saco! Isso é muito injusto! Você vai ficar namorando enquanto eu fico na casa de uma velha chata.
– Claro que é, agora vá pegar o que você vai levar, já já eu tô indo.
Susana ainda deu um gritinho de frustração, mas saiu do quarto. Desfazendo o coque, Ca fez uma trança embutida no cabelo, colocou os documentos no bolso, calçou seu all star preto de cano alto e desceu. Enquanto esperava, foi até a cozinha pegar uma maçã. Sim, já tinha comida novamente em casa!
– Você me empresta o Game Boy? — Perguntou Susa, descendo a escada com uma mochila nas costas.
– Empresto, vou pegar.
Já tendo quase chegado ao primeiro andar, bateram na porta.
– Só abre depois de saber quem é, Susana. — C gritou lá de cima. Quando voltou pra sala, encontrou Rob conversando com a pirralha.
– É mesmo? — Ele dizia.
– Sim, sou a mais inteligente. Todos ficam querendo sentar atrás de mim, como se eu fosse dar alguma pesca, mas é claro que não. Se eu faço a força, eu fico vermelha. Carmim que disse uma vez.
Rob riu.
– Por que você a chama assim?
– Pedro que chama, mas eu não sei por quê...
– Aqui, Susana. — Ca entregou o jogo quando se aproximou deles. — Vamos? — Ela olhou pra um, depois pra outro. Para Rob, ela sorriu.
Susana correu para fechar a janela da sala, quando ela saiu, Ca trancou a porta.
– Espera só um momento, ok? — Ela disse pra ele, apoiou a mão no ombro de Susana e a acompanhou pra duas casas após a delas, à esquerda. D. Maria atendeu rapidamente.
– Oi, minhas queridas. — Cumprimentou-as. — O que posso fazer por vocês hoje?
– Dona Maria, será que a senhora poderia ficar com Susana por um tempo enquanto eu vou ali?
– Mas é claro, acabei de colocar um bolo de chocolate no forno, Susana, por que você não me ajuda a fazer a cobertura?
– De chocolate? — O rosto da menina se alegrou consideravelmente.
– Mas é claro. — Sorriu D. Maria com simpatia.
– Tá bom. Tchau, Catarina.
– Tchau, Susana. Muito obrigada, dona Maria. Prometo não demorar.
– Fique tranquila, minha filha.
Ca deu um último sorriso e voltou para a frente da sua casa.
– Agora sim podemos.
Rob levantou a cabeça do celular, desencostou da moto e lhe deu um beijo.
– Vamos. — Respondeu já colocando o capacete e ela seguiu seu exemplo.
Vinte minutos depois eles estavam na frente do hospital, ficava depois do colégio, em uma área um pouco remota, tinha um bosque há 10 metros dali, em torno do edifício principal ainda havia a casa de doação de sangue e os apartamentos conveniados.
Depois de estacionarem, eles seguiram até a recepção e espontânea e automaticamente os dedos da mão de Ca se viram entrelaçados com os de Rob. Como se fosse a ordem natural das coisas.
– Boa tarde, — Ele saudou a recepcionista. — viemos visitar um paciente que chegou ontem, após uma batida de carro...?
– Nome, por favor.
– Não o conhecemos, fomos nós que o encontramos e só queríamos dar uma passada mesmo para ver como ele tá.
Ela os encarou por um momento, depois fez uma ligação, falando o mais baixo possível.
– Assinem aqui. — Ela deslizou uma prancheta pela bancada. — O horário de visitas acaba em 30 minutos, ele já foi direcionado para um quarto, é só pegar o elevador virando aqui à direita de vocês. Segundo andar, quarto 202.
O elevador já estava aberto quando se aproximaram, eles correram um pouco pra tentar pegar aquele e pressionaram o botão 2, já lá dentro.
Rob envolveu os ombros dela em um abraço, ao mesmo tempo que ela abraçava sua cintura, ele inspirou o topo de sua cabeça, enquanto ela inspirava sua camisa, e então chegaram no segundo andar.
O quarto não foi difícil de achar, e quando eles entraram os olhos do cara se esbugalharam, ele parecia realmente surpreso e piscou algumas vezes antes que sua fisionomia voltasse ao normal.
Ele era branco e parecia pálido, mas devia ser por causa do acidente. Seu cabelo era de um castanho médio e liso, cortado um pouco rente, mas também não raspado. Mesmo sem sorrir havia rugas em seus olhos, o nariz era torto e parecia oleoso, os lábios eram finos. Seus olhos eram mel, mas a não ser pelo momento de surpresa, em que ele se mostrou vulnerável, estavam cautelosos.
– Oi. — Ca quase gaguejou tendo o desconhecido olhando-a tão intensamente. — Fomos nós que relatamos sua batida ontem.
O homem parecia mudo, não fazia nada mais que olhá-la e entre o embaraço e a quase irritação, ela olhou para Rob. Devolvendo o olhar, Rob logo voltou-se para o estranho a sua frente.
– Viemos aqui só para saber como estava, nós...
– Eu não te conheço? — O cara o interrompeu, mais dirigiu sua pergunta para ela. — Você me é tão familiar.
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Pedro estava farto, por dentro ele suspirava de frustração a cada piada idiota que ouvia, a cada conversa sem nexo, a cada "Ei, você", mas por fora ele era a personificação do profissionalismo, a menos que lessem seus pensamentos, não tinham do que reclamar. Estava sério e rígido, não parava nem por um minuto, não se escorava na parede quando a bandeja esvaziava ou ficava batendo papo com os outros. Ele era hábil, útil, ágil. Dava o seu melhor com o único intuito de acabar logo para dar o fora dali.
O mordomo entrou na cozinha, jogando mais palavras de "apoio", que resumiam em "vamos, vamos, vamos", "não quero ninguém parado", "circulando". Dessa vez ele adicionou:
– Mais bandejas lá fora, o pessoal agora está procurando por ar livre. Segura o camarão, circulem uma rodada de caviar, pães e depois os doces menos chiques. Intercalem, intercalem.
Pedro arrumou uma bandeja de pães, com potinhos de patê ao lado com espátulas de prata imersas para espalhar na massa. Pegou ainda um porta-guardanapo. Saiu pela porta da cozinha, que dava no quintal, tinha menos pessoas do que na casa, mas realmente estavam chegando. Ele foi de uma ponta a outra, e como ainda tinha alimento na bandeja, subiu uma escadinha disfarçada entre os arbustos e chegou ao mirante, um espaço circular, com plantas e minúsculas flores entrelaçadas no muro baixo. Um olhar rápido não encontrava ninguém ali, o local era escondido pelos arbustos e árvores no lado que dava para a mansão, mas ao dar meia volta para sair um brilho lhe chamou a atenção. Ao se acostumar com a iluminação, um pouco mais escura ali, ele notou que o brilho era proveniente de um brinco que havia reluzido na orelha de alguém sentado ali no chão. Parecia um criança encolhida, olhando o horizonte por entre as brechas do muro. Pe pigarreou uma, duas vezes. Sem retorno, ele resolveu falar:
– Com licença, aceita algum aperitivo?
A pessoa se virou, se revelando não uma criança mais sim um adolescente que nem Pedro. De alguma forma Pedro percebeu isso, mas na verdade o garoto, sob a luz de apenas algumas lamparinas, ainda transparecia muita juventude. Ou vulnerabilidade, até os olhos endurecerem.
Eram verdes. Os cabelos estavam cortados em moicano, mas a lateral começava a crescer, sua cor era castanho acobreado. O nariz era fino e comprido, o lábio inferior mais grosso que o superior. No rosto pálido, um sinal se sobressaía no canto esquerdo abaixo dos lábios.
Os olhos, uma vez frios devido a intromissão de Pedro, amoleceram depois de um tempo se encarando.
– Como é o seu nome? — Perguntou o garoto.
– O senhor aceita algum aperitivo? — Repetiu Pedro, ignorando-o.
– Qual é o seu nome? — Repetiu, um pouco mais grosso, mas nem tanto.
Pedro arqueou a sobrancelha. Estava dividido entre sair dali, mandando aquele fulano pra merda, ou ficar por não saber de quem se tratava e assim sem poder arriscar desobedecê-lo.
Deu um suspiro alto para mostrar seu desagrado e respondeu:
– Pedro, senhor. Posso ir agora ou quer mais alguma coisa?
O garoto revirou os olhos e deu um sorriso cortante.
– O meu é Eric. E essa festa toda supostamente é pra mim, então não vai me bajular com mais nada além do seu patético "senhor"?
A mão de Pedro que segurava a bandeja tremeu por estar muito tempo parada na mesma posição segurando o peso da prata.
– Não sou de bajular.
– Sorte a minha. Vem aqui. — O garoto chamou, se endireitando para ficar totalmente de frente para ele, sentado de pernas cruzadas sobre o calcanhar.
Pedro se agachou, colocando a bandeja em sua frente. O outro pegou toda a bandeja de sua mão e colocou no colo.
– Sente-se — Ele estendeu o braço, oferecendo toda a extensão à frente.
– Não, obrigado. Estou trabalhando. Se quiser ficar com a bandeja eu volto depois para buscar.
Eric suspirou, como quem não queria ceder.
– Você é o Pedro, mas sou eu que estou a reclamar da solidão aqui, se não percebe.
O canto direito da boca de Pe puxou com a referência à Raul, mas mal podia chamar de sorriso.
– Estou mesmo trabalhando. — Ele se justificou.
– E eu sou o patrão.
– Não realmente.
– Acredite, o amado papai não sossega até puxar tanto o meu saco que eu fico castro. Você deveria temer a mim.
– Não gosto de ser intimidado.
– Então sente e eu não o precisarei fazer. — Riu-se. — “Todos os caminhos são iguais, os que levam à glória ou à perdição.”.
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– Não, senhor. Não o conheço, tenho certeza. Agora que já constatamos seu estado podemos ir, não...-
– Não posso me enganar tanto, não é possível. Quando você entrou eu vi uma velha amiga passar por essa porta.
Ca meneava a cabeça, negando, e ao mesmo tempo querendo correr dali. Por algum motivo que desconhecia sentia uma coisa estranha na boca do estômago e lembrou a contragosto da mulher que a abordou ao caminho do colégio, lembrou até mesmo quem ela era.
– O horário de visita está acabando, nós temos mesmo que ir. Podemos voltar depois... — Ela dizia, mesmo que não fosse voltar a colocar os pés ali. Deu meia volta, já indo até a porta, Rob vinha com o cenho franzido atrás.
– O nome dela era Laura. — O desconhecido soltou apressadamente antes que C escapasse.
Catarina parou, sentindo a cabeça girar, o rosto empalidecer. De costas mesmo para ele, lhe respondeu:
– Não, não conheço nenhuma Laura.
Contada a mentira, finalmente foi embora.
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