Parte alguma de uma história sem fim

13 Velhas histórias em um novo lugar


É claro que Rob sabia que tinha alguma coisa errada, depois que saíram do hospital ele a parou.

– Ei, ei, ei... — Ele segurou seu cotovelo, fazendo-a voltar. — O que houve?

Ela olhou em seus olhos, mas quando se sentiu puxada pelo mundo contido naquela escuridão, desviou para o chão, suspirando.

– Eu menti — se ouviu dizendo. — Vamos sair daqui? — Tornou a dizer antes que ele a questionasse.

– Pra onde quer ir?

– Só... Longe.

Eles foram até a moto e partiram dali, mais uma vez R pegou a saída e dessa vez nada os impediu. Enquanto os minutos passavam, ela se permitiu voltar.

" — Não, não, não, sua safada! — Gargalhadas espalhafatosas pausavam as sentenças. — Me conte direito. Ele NÃO te pegou assim.

– Você que acha. Meu forasteiro tem pegada, eu não cansava de... — Risinhos contidos interromperam a fala. — Crianças, saiam já daqui.

A loura olhou pra eles e mostrou os dentes amarelos, havia muita maquiagem no rosto.

– Deixe as crianças onde estão, Laura. — Ela disse. — Isso é educação real, não esses desenhos que Pepeu está fazendo. Vem cá sentar no colo da titia, meu menino.

Um Pedro de 9 anos levantou os olhos de seus blocos de matemática e só a encarou antes de retornar ao que estava fazendo. A mulher não pareceu se importar.

– Além do quê, é papai, crianças. — Mais gargalhadas. Feias e solitárias.

– Tá, tá. — Laura resmungou impaciente por não ter mais atenção exclusiva.

– Laura! Você precisa perguntar. Nós duas, juntas, pense o que não arrecadaríamos. Diga a ele assim: Oh, meu benzinho, o que você acha de -

A porta da frente é aberta antes que ela possa continuar. Augusta, mãe de Laura, paralisa na porta ao ver a loura.

– Laura. — Sua voz sai grave em autoridade. — Acredito que vocês já podem ir embora.

A loura levanta dando muchocho e põe a mão na cintura.

– Tenho mesmo mais o que fazer, dona. — Lhe responde, pega a bolsa e sai devagar pela porta ainda aberta.

Laura dá um suspiro alto e revira os olhos, seguindo a amiga. Mas a mãe segura seu cotovelo ao chegar na porta.

– Não se esqueça de quem é essa casa. Nunca mais traga essa ou nenhuma outra das suas colegas aqui ou em qualquer lugar próximo dos seus filhos. — Disse incisivamente.

Meia hora após as duas saírem, a avó de Ca e Pedro ainda administrava um sermão de como não deveriam ouvir, falar ou chegar perto daquela mulher de novo."

Depois de um bom tempo não conseguiu pensar em mais nada, preferiu espairecer. Os minutos se transformaram em hora quando ela avistou uma imensidão azul escuro com espumas brancas tocando pedras, abaixo, e um pedaço de chão amarelo, areia. Ela só percebeu que estava boquiaberta tempos depois, eles estavam indo à praia. Nunca tinha ido à praia antes, mas reconheceu de filmes. Era verão, anoitecia tarde, ainda estava no começo do pôr-do-sol quando a moto atravessava a estrada ao lado do penhasco, logo estavam descendo e ela não via a hora de sair correndo para a água.

Foi o que fez, desceu da moto Rob mal tinha estacionado, jogou o capacete na areia e tirou os all star, correu até sentir a água gelada nos seus pés, rindo feito uma criança. Ela olhou por sobre o ombro, para encontrar um Rob com cara marota.

– É tão lindo! — Clamou, levantando as mãos para cima da cabeça.

– Uma linda vista, realmente.

– Vem, anda, o que está esperando?

Ele soltou um riso e foi de encontro a ela.

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Estavam sentados lado a lado na areia, olhando o horizonte cada vez mais indistinguível a medida que anoitecia.

– Posso lhe perguntar uma coisa? — Ele perguntou.

– Não preciso permitir, não prometo responder.

– Cadê seus pais?

Ela deu um risinho anasalado.

– Boa pergunta, até mesmo melhor do que seria se perguntasse que diabos houve no hospital.

– E por que isso?

– Porque a que você fez engloba tudo. Onde estão os meus queridos papais... Espero que no inferno.

Ela pausou, respirando, e ele esperou que ela continuasse quando estivesse pronta.

– Minha mãe era prostituta. Só vim descobrir isso aos 9 quando uma mulher, Bernadette, ou, por favor, Dora Maravilha, foi lá em casa, ela era extremamente vulgar e quando vovó chegou do salão em que trabalhava como cabeleireira ralhou com Laura por ter levado Dora lá, uma péssima influência para mim e meu irmão. Foi a única vez que vi Dora até a semana passada, agora consigo associá-la, mas também com todo o seu escândalo e conversas inapropriadas naquela tarde eu juntei dois mais dois. Pois bem, se eu devia chamar alguém de mãe, esse alguém era minha vó, já naquela época ela estava doente, veio a falecer 3 anos depois, 2 anos após sua morte eu acordei e Laura não estava mais, simples assim. — Ela deu um sorrisinho amargo. — Hoje vejo que ela até durou demais, suportou 2 anos com as terríveis pessoas que eram os filhos dela, a Su só tinha 3 e eu já praticamente era quem cuidava dela, Pedro já fazia trabalhos escolares em troca de dinheiro, enfim... Posso contar nos dedos meus dias felizes com minha "mãe", fico pensando o por quê dela não ter nos abortado, a Laura. Nosso pai sem dúvidas foi algum cliente, mas nunca soubemos ou conhecemos quem.

– Uau, já pensou em vender essa história?

Ela deu uma gargalhada.

– O dinheiro não cairia mal, mas eu teria que escolher a atriz que me interpretaria, você sabe, não posso deixar qualquer uma se chamar Catarina Guedes.

– Catarina Guedes, mal posso acreditar que já sei seu nome.

– E agora que sabe, o que vai fazer?

Ele deu de ombros.

– Continua sendo minha Cris.

Ela deu um sorriso transbordando vergonha. O que eles estavam fazendo? Antes que pudesse pensar muito, se inclinou para ele e lhe deu um beijo na boca.

– E você, qual é a história desse olho roxo?

– Justo. Pai bêbado. — Ele riu. — Que merda de vida nós temos... Minha mãe morreu quando eu tinha 12, foi então que o inferno começou. Tenho 2 irmãs mais velhas, 1 irmão mais velho e 1 mais novo. Juntos conseguimos segurar a barra do velho, mas às vezes não dá, ele implica com um coisa ou pessoa, até mesmo um de nós, e é a hora do pesadelo.

Ele passou o polegar pela bochecha dela, não dava pra imaginar porque se sentia tão... viva com ele.

– Me diga uma coisa estranha sobre você. — Ele pediu.

– Outra? — Ela arqueou a sobrancelha.

– Uma só sua.

– Pfff... Eu sou toda estranha... — Ela apoiou a bochecha na mão e o cotovelo no joelho, olhando pra ele. — Deixa eu ver... Hm, já sei. Se algo em mim coça, todas as outras partes começam a coçar também.

– O quê?

– É. Princípio da coceira irradiativa. Uma orelha coçando desencadeia um nariz coçando, a cabeça, o braço, o olho. Tudo começa a coçar um atrás do outro.

Ele riu até perder o fôlego.

– Você é mesmo estranha.

– Eu sei.

Notas finais
Voltando devagarzinho...