Parte alguma de uma história sem fim
10 Tereza
Notas iniciais
Ela tentava fortemente esquecer que era seu primeiro beijo. Isso podia estragar tudo, de várias formas diferentes, como, por exemplo, começar a pensar que tecnicamente não sabia beijar e desandar o que estava acontecendo. Se pensasse, então isso se alojaria na sua cabeça e se estenderia até seus lábios que ficariam moles demais, ou duros, ou tortos, ou babaria tudo... É, melhor não pensar mesmo. Mas, ok, não é tão difícil esquecer isso quando se sente… se sente um pouco louca. Da forma mais maravilhosa.
Ele se afastou e seus olhares ficaram presos um no outro. Um sorriso moldou os lábios dela, que parecia estar anestesiada, não sentia nada que não fosse ele, os lugares em que eles se tocavam, o modo como ele a olhava, aquilo era… era como estar no carro e ele desce uma inclinação rapidamente e você para o que está fazendo porque o frio na barriga te faz sentir-se um pouco assustada, mas também surpresa pela experiência.
Rob subiu a mão por suas costas e segurou a sua nuca, fazendo um carinho ali. Ela involuntariamente fechou os olhos, e quando ele voltou a beijá-la, agarrou sua camisa. O contato com a língua dele era surreal, todo o seu corpo se espichou com aquilo e se beijaram e beijaram e beijaram até perderem o fôlego, se sentirem zonzos e desorientados. C jogou a cabeça para trás e escorregou até deitar no braço do sofá, respirou fundo enquanto ele se inclinava sobre ela, um braço sob o seu pescoço. Os dois sorriam por nada, por tudo.
C o puxou pra ela, encostou seus lábios na lateral do pescoço dele e inalou. Seu cheiro… Beijou ali, subiu para a sua mandíbula, atrás da orelha. Beijou suas bochechas, seus olhos, seu queixo, os cantos de sua boca. Queria tragá-lo para si, queria ficar sempre assim, embalada por ele.
– Cris.
Merda, ela ia amanhã no cartório trocar a droga do seu nome. Nunca se sentiu tanto Cris, ou nunca se sentiu tão identificada com um nome, como agora.
.
Eles conseguiram se desgrudar tempo o suficiente para comer. Enquanto se beijavam, o estômago de C roncou e eles começaram a rir.
– ARGH! Não sei de onde tiro tanta fome, quando já deveria estar acostumada!
– Você é magra por um motivo.
– Não por um que eu goste!
Ele se levantou, ajudando-a a fazer o mesmo e seguiram para a cozinha, onde estavam Ana e Louisa.
– Ajeita o cabelo — Lhe disse L baixinho enquanto passava por detrás dela. Carmim interrompeu sua mão que ia de encontro a um bolinho de queijo e levou bruscamente até sua juba. Poderia corar, mas não era disso.
Ela tirou o elástico, jogou o cabelo para trás e o prendeu de novo. Quando olhou para Louisa, essa piscou para ela, e C teve que reprimir a revirada de olhos mais o sorriso. Rob foi até Ana no lado oposto da mesa e a cumprimentou dando um beijo no topo da sua cabeça.
Ela, provavelmente, era a mais doce das três, “doçura” e “Débora” não pertenciam a uma mesma frase, e Lou era fofa, mas não como Ana. Ela era a mais delicada e quieta do grupo. De fato, C não havia trocado uma palavra com ela, e na verdade não sentia vontade, não porque tivesse alguma coisa contra a garota, não mesmo, mas talvez toda sua aparente fragilidade batia de frente com a aspereza dela.
– Aninha, cadê o resto do pessoal? — Perguntou Robert.
– Só vi a Deb até agora, Ro. Ela estava falando no telefone e parecia zangada.
– E o Carlos?! — Essa era C fingindo que era uma pergunta para todos, mas na verdade dirigida especificamente à Louisa.
– Se você adivinhar ganha um beijo. — L disse. — Mas não meu. — completou maliciosamente.
Eles continuaram conversando sobre besteira, até que Rob passou para detrás dela e casualmente beijou seu pescoço. Ela estava tão cheia, e era uma sensação tão boa, pela primeira vez na vida se sentia satisfeita, o que para ela tinha algo a ver com não lembrar e, consequentemente, não sentir dor. Ela uma vez tinha lido uma frase sobre memórias, sobre não conseguirmos esquecermos apenas aquilo que temos medo de lembrar. Qual não foi sua surpresa ao saber que tinha medo de tudo, mesmo quando mostrava bravura. Ela era louca, mas não havia falsidade em suas emoções.
Rob sussurrou em seu ouvido:
– Vamos sair daqui?
Ca prontamente acenou, eles saíram da festa de fininho, mesmo que as meninas supostamente parecessem ignorá-los, e subiram na moto. Para onde iam não importava. Enquanto seguiam na direção da saída da cidade, seu pensamento vagava em uma linha sobre abandono e pertencimento; seria pertencer, se abandonar em algum lugar?
A iluminação na estrada era escassa, assim como tudo sobre Azeret. Tudo sobre a cidade era exatamente o que parecia. C sorriu no escuro, com a ironia entre aquele lugar e seu nome; "reza a lenda que vivia ali uma mulher, Tereza, filha de camponeses, prometida à colheita e ao trabalho duro, o que significava nenhuma esperança, mas ela tinha o dom. Estava no limite oeste das plantações de milho, perto demais de onde não devia: a casa principal do senhor daquelas terras. Era um homem cujo o qual seu pai era apenas um subordinado, e ela, uma zé ninguém. Tereza ouviu o casco de cavalos e risos, não podia se conter. Esperou e esperou, mesmo que ninguém pudesse vê-la ali, esperou até que o acidente aconteceu, e como se já previsse, foi até o filho de seu patrão, caído, com a perna sob o corpo em um ângulo improvável. Junto a ele, seu cavalo e o cavalo de seu irmão, que já havia descido para acudi-lo. O irmão saudável olhou de relance Tereza, que nenhuma beleza tinha para sustentar a vista dos homens das redondezas, e estranhando-a, a mandou partir. Tereza era um fenômeno da natureza, que permaneceu. Se aproximou do senhorzinho caído, segurou seu rosto com as mãos, e o fez olhá-lá intensamente, persistentemente.
"'- Eu posso ajudá-lo.', sua voz soou, e foi o necessário para que qualquer relutância se calasse. Aquela mulher, quase sem fisionomia, que nunca os atrairiam, para o que quer que fosse, os amedrontavam e fascinavam, e assim ela o fez. Com cuidado, mas firmemente, foi movendo a perna até que ficasse estirada, sob gritos de dor e agonia. O irmão que lhe apertava a mão pensou em pará-la, mas não se atreveu. Ela andava com um bolso de pano, amarrado em volta do quadril, em que nele continha seus segredos. Dizem que daquele objeto ela nunca se separou. E após tratar o cavaleiro com suas porções, folhas e murmúrios, rasgou a bainha de seu vestido para envolver-lhe a perna. Por uma última vez prendendo seu olhar no dele, partiu.
"Foram semanas difíceis para o herdeiro, muita febre e delírio em seu leito, mas acordou, e ao fazê-lo, apenas uma coisa lhe ocorreu:
"'- Cadê ela?'
"'- Ela quem?', lhe perguntaram.
"'- A moça dos meus sonhos.'
"Todos achavam que ele ainda delirava, seu irmão não estava por perto para fazê-lo são perante aos outros, então a ninguém podia recorrer além de às suas lembranças.
"'- Descreva-a à mim, meu querido.', pediu-lhe sua mãe quando já não mais encontrou meio de dissuadí-lo.
"'- Cheira como a primavera, seu cabelo é marrom como o outono, suas mãos tem o calor do verão. Mas seus olhos, seus olhos é nublado como o inverno e frio como eles, mas não de um modo ruim.'
"'- Quem é essa moça, meu filho?'
"'- É a minha salvadora.'
"Quando seu irmão voltou da caçada, nenhuma outra mulher teve mais fama, porque ele confirmou sua existência. Uma comitiva foi preparada para encontrá-la, os irmãos pessoalmente foram em seu encalço.
"Mas não adiantou quando a acharam, porque a ninguém Tereza podia pertencer, e ao propô-la em casamento como agradecimento, ela retificou ao responder que melhor lhe agradeceriam, se livre ela pudesse ser.
"O cavaleiro, de nome Norton, não sabia o que fazer, pois suas noites eram dela e ao amanhecer, algo lhe faltava. Por causa disso, mais próxima do casarão ela morou, permitiu que ele a visitasse, mas nada além disso se sucedeu. Ela era da terra, sua música ecoava no vento, sua função estava na colheita e na fertilidade do solo. Viveu por anos, com suas plantas e orações, foi a curandeira, conselheira, parteira e ceifeira. Trouxe vida, e ao morrer, sobre seu cadáver uma grande árvore nasceu, que nunca perecia.
"Todos de quem cuidou, à ela foram eternamente gratos, se sentiam conectados e mesmo após a morte, sob sua árvore, orações pregaram, rituais fizeram, sacrifícios executaram. À Tereza da fertilidade. Azeret, Tereza ao contrário.
"Bom", pensou C, "Tereza deve estar se revirando no túmulo". O oposto de fertilidade estava a cidade que conhecia: seca, árida, sem vida, sem futuro. Cada vez mais só."
Ela abraçou Rob mais forte, queria ela ser livre como a fundadora.
Estavam fazendo uma curva, com a tal árvore da fertilidade à vista no horizonte à esquerda, quando Rob desacelerou e pela luz do farol ela enxergou o que ele via, um carro batido em um poste que deveria estar iluminando a pista, mas que provavelmente tinha uma lâmpada queimada. Fumaça saia do capô amassado e Rob estacionou logo atrás.
– Aqui, pegue meu celular e ligue pra ambulância. — Ele disse, retirando-o do bolso e lhe estendendo o objeto, enquanto se encaminhava para a porta do motorista.
Ela discou o número e esperou.
– Alô, boa noite, é uma emergência. Há um carro batido, logo na saída da cidade... A saída oeste após o posto de gasolina... Estávamos passando, não vimos acontecer... Ok, esperaremos... Não, tudo bem. Meu nome é Catarina. Catarina Guedes.
Quando desligou, foi para o lado de Rob dar uma olhada na vítima, para sua sorte estava de cinto e o carro tinha air bag, e do jeito que estava posicionado, ela não conseguiu identificá-lo, poderia ser alguém de passagem. Até para isso Azeret era o lugar errado.
Vinte eternos minutos passaram, com o braço de Rob em seus ombros por causa do frio, quando escutaram a sirene e as luzes iluminaram a estrada ao lado deles. Os paramédicos saltaram e pediram para eles se afastarem, logo atrás veio o carro de polícia para os interrogarem. Fizeram perguntas normais, seus nomes, idades, porque estavam ali, para onde estavam indo, que horas o encontraram, reconhecia a pessoa?, tocaram nele?, demoraram para pedir socorro? Por fim pediram seus contatos e após C e Rob negarem carona, partiram. Os dois deixaram que tanto a polícia quanto a ambulância fossem na frente e Rob lhe deu um beijo na testa antes de entrelaçar seus dedos nos dela até a moto.
– Muita emoção para uma noite só. — Ela brincou, fazendo-o sorir.
– Acho que já entendi como rola com você.
– É bom mesmo que entenda, e se acostume. Minha vida é pura aventura. 2 acidentes por dia.
– É mesmo? — Ele arqueou uma sobrancelha.
– Mas é claro, um ao acordar quando me bato na escrivaninha, um ao dormir quando tropeço no pé da cama.
Ele riu gostosamente, deu um beijo estalado em sua boca, o que a deixou tremendamente satisfeita, e subiu na moto. Quando ela fez o mesmo, partiram de volta pra casa.
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