Parte alguma de uma história sem fim
11 Não é mais uma história boba de amor
Notas iniciais
Quando chegou, Ca encontrou o irmão mais velho acordado, ainda no sofá assistindo filme.
– hmmmpf!!!!! — Ela se jogou no sofá ao lado dele. — Eu disse que não era para me esperar, irmãozinho.
– Quisera você que isso fosse o que estou fazendo, sol. — Respondeu, tirando a perna que ela tinha jogado em cima dele.
– O que está fazendo, então?
– Não consigo dormir.
– Oba, então que tal irmos no supermercado comprar um ChapaMix?
– Que tal me deixar em paz?
– No pop feat. rock...?
Ele não respondeu, assistia James Bond se apresentar no que deveria ser a milésima vez. Se existia alguém orgulhoso de si, era esse cara. A personificação da autoconfiança. Otário.
– Cadê André?
– Por que eu saberia? — Respondeu a contragosto.
– Não, não, senhor, não permita isso! Minha vida já é muito difícil... — Ca jogou a cabeça para trás, colocando a mão na testa. — O que você fez dessa vez, Pedro?
Ignorando-a, aumentou mais o volume da TV.
– ARGH! Cala a boca, Bond. Estou conversando com meu irmão, e ele está prestes a me contar se é um perdedor por parte da querida mamãe ou do amado papai.
– Sua idiotice vem de que lado? — Ele lhe perguntou.
– Não faça perguntas difíceis, você sabe como a competição é acirrada. Agora, sério, o que será de mim sem o André?
– De VOCÊ sem o André? — Pe repetiu com uma sobrancelha arqueada.
– É claro, nós dividíamos sua chatice...
– Se eu fosse você, ia morar com ele.
– Se ele pelo menos gostasse pela metade da fruta!
– Você é ridícula, saia daqui.
Ela riu, se jogando em cima dele e o derrubando, deitado no sofá.
– Agora sério, quer conversar?
– Não.
– Merda, vou ligar pra esse garoto. Vou dizer umas e boas para ele. Ô seu imbecil, o que você fez com meu irmão? Vai começar assim... E então ele vai começar a choramingar e dizer merda, e eu vou ficar toda: O quê? Você se arrepende? É bom mesmo, meu chapa, porque sabe aquela expressão "pica das galáxias"? Foi feita para a pica dele.
Inesperadamente um estrondo soou na sala proveniente da gargalhada de Pedro. Era alto e poderoso, rouco também, como alguém que de fato não ri com frequência.
Ca riu satisfeita por ter feito o irmão rir, mas continuou.
– E essa pica, meu amor, você perdeu. Não espere encontrar outra igual!
– Besta... — Ele lhe disse ainda rindo, mas carinhosamente.
Quando as risadas se acalmaram, eles ficaram curtindo o áudio do filme juntos, mas sem prestarem atenção, até que Pedro quebrou o "silêncio":
– Ele deve ter cansado, eu não o culparia. Temos muita bagagem, tem que ser corajoso. Ou eu nem usaria esse adjetivo, mas... Eu realmente não posso culpá-lo.
– Por que precisamos ajudá-los a segurar essa barra que é gostar da gente? — Ela recitou a música.
– Não podemos dizer que é uma barra muito fácil…
– Pe — Ela refletiu, séria. — Vai ver essa barra é o nosso fator de seleção. Aqueles que aguentam, são os que nos merecem.
– Pode ser, Carmim, só não se iluda. Se apaixonar é muito fácil, se machucar é mais fácil ainda.
– Mas se tem uma coisa em que somos fera, Pedro, é em nos reerguermos.
– O que não torna menos doloroso.
Ele passou o braço em torno dos ombros da irmã e ela aconchegou a cabeça em seu peito enquanto o filme e o tempo passavam.
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Fins de semana eram um saco, assim como a semana e como toda a vida dela. Odiava ainda mais porque se lamentava, o que não era do seu feitio, só quando o ponto alto do seu dia era pensar no quanto era uma perdedora. Acabado esses momentos fundamentais de autodesprezo, ela se dava por satisfeita e ia arranjar alguma coisa pra fazer. Ficou ainda mais uma hora sem fazer nada na cama, na verdade se perdeu pensando na noite anterior e escondeu a cabeça debaixo do lençol para gritar no travesseiro. E então já era, sorriu feito uma boba.
Ca lembrou do rosto dele quando se despediram na porta de sua casa, ele estava encostado na lateral da moto, as duas mãos apoiadas no banco em cada lado do seu quadril estreito, um sorriso maroto no rosto e o roxo nos olhos que o deixava muito sexy. Aqueles olhos pretos, em que ela se pegava pensando a.todo.momento. eram surpreendentemente fofos, e machucados, então, faziam-na querer beijá-los para sararem mais rápidos. O que tinha acontecido?
De fato, ela podia apostar que o achava mais lindo do que ele realmente era, e fez uma careta por estar tão manhosa quanto a isso. Sacudiu a cabeça para não vomitar com os próprios pensamentos, ainda sorrindo, e se levantou.
Após tomar um banho e escovar os dentes, se vestiu com um short e uma bata e desceu. Susana estava dançando no meio da sala, enquanto tocava "poker face" de um mini aparelho.
– De quem é isso, Susana? — C lhe perguntou, mas ela fingiu que não ouviu enquanto fingia que cantava em inglês. — Pedro? — Ela dirigiu a pergunta a ele enquanto entrava na cozinha.
– Ela disse que uma amiga emprestou. Já a mandei devolver, mas agora só segunda.
– Seria só o que faltaria, alguém batendo aqui na porta para reclamar de um aparelho desaparecido. — C abriu a geladeira e pegou a última garrafinha de iogurte.
– Eu exportava essa menina para a adoção.
Pe desligou o fogo e jogou os ovos mexidos no prato, fazendo ela pegar um garfo e atacar sua refeição.
– Ei, é meu! — Bateu em sua mão.
– O que Susana comeu?
– A última porção de cereal.
– A última porção de cereal, o último iogurte, o último ovo. Hora de fazer compras... — Disse, levantando.
– Aqui. — Pedro lhe passou uma nota de 20 e uma de 10. — Não posso comprar, consegui um bico de garçom em uma festa, hoje, na casa do prefeito. Tenho que ir para o treinamento.
– O prefeito nem vive aqui.
– Mas quando se trata de festa, ele é ufanista. Aniversário do primogênito.
– Aposto 5 que o próprio aniversariante preferia faltar essa noite.
– Não vou te dar esse dinheiro tão fácil…
Ca fez uma cara de decepção e se levantou, indo até a sala.
– Vamos passear, Susana.
– Era pra eu ficar feliz?, não aconteceu.
– Não, é pra me obedecer. Já tomou banho?
– Já... — A outra disse, revirando os olhos e indo até o aparelho para desligá-lo.
– Então o que está esperando? — C gesticulou com a mão, chamando-a. A garota se arrastou com uma cara triste, e quando chegou na porta, olhou para trás, para se despedir de Pedro.
– Tchau, Pedro. — Gritou.
– Tchau, pirralha.
Esperaram o ônibus das 10 passar e foram para o mercado de sempre, no ponto mais próximo que puderam, saltaram, e continuaram o caminho a pé.
– Vou poder comer chocolate? — Perguntou a caçula.
– Você tem mesmo um problema com silêncio, não é?
– Não, só estou curiosa, você é que gosta demais de ficar calada.
– O que me impede de falar besteira...
– Você está sempre me tratando como criança — Respondeu indignada, revirando os olhos.
– Olha para o vento não passar e você ficar com os olhos pra cima. — Zombou C.
– Até parece que é verdade. — Susana bufou, afetada.
– Ah, não? Porque você acha que o Tadeu da padaria fica piscando os olhos daquele jeito?
Susana esbugalhou os olhos, mas ficou quieta se negando a acreditar.
– Ele não piscava daquele jeito até entrar em uma competição de quem piscava mais sem parar. O vento passou e... o resto você já sabe.
– Mentirosa, meus olhos não vão ficar pra cima... — Insistiu com a voz baixinha, já sem tanta certeza.
– É, então fique aí revirando os olhos pra você ver... — Ca controlou a voz, antes que começasse a rir. Muito controle mesmo, os olhos já se enchiam de lágrimas pelo esforço. Seguiram o resto do caminho em silêncio.
Para felicidade de Susana, Gina estava na casa. Ela correu para pegar um kitkat do balcão do caixa e entregou para a menina, fazendo Ca lhe passar um rabo de olho, ao qual Gina respondeu dando de ombros.
– Cadê o seu garoto? — Perguntou a garota. C teve que se segurar para não ser ela a revirar os olhos.
– Por favor, Gina…
– Seu namorado? Peguete, ficante, quebra galho, passatempo...? — Ela listou os apelidos, fazendo bico.
– De quantas formas podemos chamar? — Perguntou Susana.
– Não te interessa, moça, vá ver a Filó. — Espantou a mais velha, dando um tapa no seu bumbum. Com um muxoxo bem grande, ela obedeceu.
– Esse ensino público é de qualidade, viu? Fico admirada sempre que ela chega aqui sem falar "nigrinha", "cachorra", ou algum outro adjetivo "carinhoso".
– E porque seriam todos adjetivos femininos?
Gina se abaixou para pegar um pacote de queijo ralado que tinha caído.
– Por ter aprendido enquanto lutava pelo homem dela, é claro.
As duas caíram na gargalhada.
– Que o universo me livre dessa falta de graça. — Ca estalou os dedos em volta dela. — E não seja tão exagerada, ela ainda é muito nova.
– Rum. — Gina bufou. — Eu tenho uma vizinha, só um pouco mais velha que a Su, ela é muito bem vitaminada, se você me entende. Tem uma fila de menininhos.
– Que horror! Não quero soar ingênua, mas…
– Você é ingênua. — Interrompeu G. — Prova de que Deus existe.
C revirou os olhos, imediatamente irritada. Não gostava de ser elogiada ou ser tomada como uma pessoa de nenhuma forma melhor. Ela não lidava bem com expectativas, preferia não decepcionar e só não decepcionamos quando ninguém espera nada da gente.
– Não se engane tanto. — Respondeu, e já mudou de assunto para a outra não insistir. — Como foi a semana?
– Como sempre. Correndo do proprietário do imóvel, do ex-namorado e do seu Antônio do açougue. Ah, e gozando muito por telefone.
– Gozo lucrativo?
– Deu pra pagar um shampoo, já não aguentava mais o cheiro. Da próxima vez acho que só vou pegar emprestado daqui.
– Não resta dúvida de que você sabe manter uma semana em alto estilo.
– Nunca duvide, irmã. — Respondeu, piscando.
– Deixe eu vestir logo o uniforme, preciso colocar essa hora no registro.
Duas horas depois, enquanto C arruma as novas entregas de produtos de limpeza, surgi uma Susana com pirulito na boca. Ela até pensou em reclamar, mas não queria ficar tanto no pé, então disse apenas.
– Só espero que não tenha sido você a pegar...?
– Ganhei do Zé.
– Nunca se esqueça de que é errado e feio pedir ou pegar sem permissão.
– Eu sei, eu sei. — Ela ia revirar os olhos, mas se deteve.
– Já está com fome?
C estava agachada no chão, pegando os produtos da caixa, apreçando-os e os arrumando na prateleira, não olhava para a irmã, mas o fez ao estranhar a demora para responder.
– Susana…
Susana olhava por cima do ombro de Ca, embasbacada.
– O que... — Susana olhou para trás, para descobrir o que a irmã tanto admirava. E ela não pode impedir-se de admirar também. — O que faz aqui? — Perguntou, mas não de forma rude. Na verdade, ela tinha um sorrisinho estampado.
– Fazendo compras, o que mais seria? — Ele sorriu de lado, e ela suspirou internamente.
– O que mais seria? — Ela reforçou, arqueando uma sobrancelha.
Rob se aproximou e agachou-se ao seu lado.
– Não posso discordar que eu poderia ter outros motivos.
– Motivos interessantes, por favor, seria uma droga se você viesse aqui em vão.
– Oh, espero que não, mas na verdade só você pode me responder isso.
– Por favor, estou curiosa.
Ela sustentou o queixo na mão fechada e o braço, no joelho, se remexeu um pouco para ficar confortável, aquele banquinho ia de encontro a todos os tipos de normas sobre insalubridade e segurança no trabalho.
– Primeiro, — Ele disse, levantando o indicador em frente ao rosto e logo em seguida envolvendo o rosto dela com suas mãos. — isso. — E trouxe os lábios dela para um selinho demorado.
Ninguém prestava atenção em Susana agora, mas se o fizesse veria ela ficar boquiaberta e levar as mãos ao coração.
– Não me vendo por tão pouco. — Respondeu Ca quando eles se separaram.
– Então deixa eu fazer melhor.
Sim, ela enjoaria vendo essa cena numa tela de TV, mas era ela e Rob, não se comparava, por algum motivo, mesmo que ela não quisesse pensar o por quê. Só sabia que não era mais uma história boba de amor. Peraí! Amor? Oi... não devia nem estar usando essa palavra, era muito cedo. Não importava o quê, conseguia ficar sóbria do que estava sentindo o suficiente para perceber isso. Após um beijo mais que "ok", ele desceu os lábios pela sua bochecha, maxilar e pescoço, terminando ali.
– O que me diz agora? — Ele perguntou.
– Eu digo que agora sim você pode passar para o segundo tópico.
– Pois bem, eu estava pensando em passar no hospital para fazer uma visita àquele cara. Minha irmã às vezes é voluntária lá, algo a ver com pagar as dívidas com o Deus dela, não me pergunte, e disse que pessoas assim, sem identificação, acordam desorientadas e sozinhas e poderia querer ter alguma visita, mesmo que desconhecida. É provável que sejamos os desconhecidos menos desconhecidos que ele tem.
– Não agora, né?
– É, eu poderia só ligar ao invés de me dar o trabalho de vir aqui só para dizer isso, mas você não tem um celular.
– Graças ao Deus da sua irmã, assim você pode me ver E me beijar. — Ela respondeu com um sorriso maroto.
– Graças.
Eles ficaram se encarando, e mais uma vez ela lembrou dos seus machucados e da vontade de perguntar por eles.
– Ei. — Rob a despertou, mas não falava com ela, seguindo seu olhar, encontrou sua irmã ali parada. Ah, é, sua irmã. Se sentiu com pena de si mesma com as perguntas que receberia. — Oi, Susana.
Ca viu as bochechas morenas de sua irmã corarem furiosamente e só não riu para não constrangê-la ainda mais.
– O... O-Oi — gaguejou.
Depois de sorrir para ela, Rob voltou-se para C e deu um beijo na sua bochecha.
– Que horas posso te pegar?
– 17 na minha casa.
– Até lá então. Tchau vocês duas. — Ele piscou para C e acenou para Susana, depois foi embora. Só depois de perdê-lo de vista, é que elas voltaram pra Terra.
– Então... — Começou, passando as mãos pela extensão das coxas e depois se levantando. — Vamos comer?
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