Parte alguma de uma história sem fim

6 O recomeço de uma mesma vida


Pedro estava no que parecia uma campanha “nada-aconteceu-na-noite-passada”. Eles voltaram 5 horas da manhã sem trocar uma palavra. Ela subiu direto para o quarto, pensando mesmo em tomar banho antes que fosse dormir para tirar a noite que estava impregnada nela, mas só ter que pensar em encarar o banheiro, ela sentia que reviveria todo o pesadelo, e essa não era a intenção. Bateu a porta do quarto e a trancou. Tudo o que poderia fazer era dormir por horas e horas e horas.

Quando acordou, o sol já estava quase se pondo, e ela não conseguiu, por mais que tentasse, se preocupar sobre onde estavam seus irmãos, se Susana tinha ido pra escola, se Pedro tinha ido trabalhar, se estava sozinha em casa… o que ela pediu fortemente que estivesse. Ela queria ter acordado em sua própria casa para cuidar da sua própria vida, sem se preocupar sobre estar convivendo com alguém que de repente não conseguia confiar mais.

Doze horas de sono fazia uma pessoa acordar com toda a disposição, então se levantou sem preguiça, ligou o rádio no volume máximo e o sintonizou na sua estação favorita que não tinha comerciais, depois seguiu para o banheiro. Não conseguiu fechar a porta, se sentindo rapidamente caustrofóbica naquele cômodo, e mesmo sabendo que estava limpo, obra de alguém que não ela, o cheiro doce de álcool surgia como pontadas, como se ainda tivesse ali. Não só quando tomou banho, mas na cozinha, enquanto cortava pão velho para fazer torrada. Era uma assombração que ela tentava espantar cantando mais e mais alto.

“What doesn’t kill you makes you stronger, stronger! Just me, myself and I”

Enquanto as fatias de pão torravam, ela preparou uma sopa rápida e naquele dia, como haviam sido todos os outros até ontem, seus irmãos chegaram cedo.

– Carmim! — Veio Susana correndo até a cozinha. — O que aconteceu? Seu quarto estava trancado! Trancado! E eu bati e você não respondeu e não foi com a gente! Eu pensei que você nem estaria aqui porque foi como se você não existisse! — Ela parecia seriamente preocupada.

– Você pensou mesmo isso? — C sorriu.

– Pensei! Que susto. — E pôs a mão no coração.

– Muito obrigada pela consideração, querida. Mas que tal se recuperar lavando a mão para vir jantar? Já está saindo.

Susana saiu, também correndo, e jogou a mochila no sofá.

– Susana, a mochila. — Avisou Pedro.

– E a sua? — Respondeu, evidenciando a injustiça da de Pedro poder estar ali.

– A minha não é a sua, e a menos que você queira ver o que é bom, vai simplesmente me obedecer.

– Não é tão simples, né? — Apesar da malcriação, ela pegou a mochila e subiu.

Os dois que restaram continuaram sem se falar e ela sentiu que se aquela distância não fosse superada agora, aquilo só iria aumentar, como uma bola de neve, até que fosse muito constrangedor e/ou muito tarde para o gelo ser quebrado. Aquele tempo só remoeria mágoas, tornando-as mais fortes, mas ela não podia se a primeira a fazer aquilo.

Quando Susana desceu, eles jantaram. E o resto da noite passou totalmente pacífica, até mesmo fria.

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Como ela não podia fazer aquilo, também não podia sentar no banco do passageiro e se despedir quando ele a deixasse em frente ao colégio. Então levantou mais cedo, fez o que tinha que fazer, e saiu para o ponto de ônibus cujo o coletivo rodava toda a cidade gratuitamente. Não a deixaria em frente, mas subir a ladeira de certa forma era pouco em contrapartida à outra opção. Quando chegou, foi direto na secretaria e finalmente recebeu uma resposta.

– Srta. Guedes, o diretor analisou sua petição. Você conseguiu ser transferida e pode começar imediatamente.

Ela respirou aliviada e agradeceu à senhora. Depois pegou o ônibus novamente e saltou no último ponto da cidade, ao norte, antes do retorno, tendo que dar uma boa caminhada antes de chegar no Supermercado. Como aquele estabelecimento queria ser movimentado se era tão pouco acessível? Era mais para viajantes e alguns poucos chefes de família que tinham conseguido manter o carro com a recessão econômica da cidade.

A conversa de Gina daquele dia era que estava sossegando.

– Graças a seu namorado, ele meio que me inspirou.

Ao ouvir sobre Robert, ela sentiu algo, o que era muito estranho. Afinal, ela só tinha, o quê, passado algumas horas com ele? E não o via há dois dias. Ele ainda era um desconhecido.

– Eu já disse que ele não é meu namorado.

Quando o turno terminou, ela bateu ponto com o gerente e se dirigiu à lanchonete para um lanche rápido. Fazendo depois todo o trajeto de volta.

Sentada em uma das carteiras da sala de aula, C só poderia pensar que química era um saco, e se a molécula não gostasse do que via no espelho, ela que fosse se lenhar com sua crise existencial por não ser um enantiômero. O bom mesmo era as polêmicas que geraram inimizades e que associadas com a ganância criaram guerras, golpes, controle, monopólio. Ela gostava de saber a idade e bagagem do mundo, e perceber pela milésima vez em sua filosofia de carteira o quão pequena era.

O sinal tocou antes que ela pudesse dormir para sonhar com a quiralidade do carbono, e ela saiu da sala para esticar as pernas e beber um pouco de água. Ainda faltavam duas aulas, intervalo, 3 aulas e casa!

– Garota nova? — Perguntou uma garota pendurada em um garoto, o que não era muito diferentes do resto das garotas ali.

– Não.

– Mas eu nunca te vi antes.

– Mas não sou nova.

– Pode ficar tranqui, não mordemos. — O cara deu um sorrisinho incisivo.

– É, mas eu sim. — Seu sorriso de resposta foi mordaz.

A garota fez uma careta para ela, provavelmente a posicionando, em sua mente, na lista das arqui-inimigas. Era demais para ela. Nada de novo, como já imaginava: intriguinhas, jogadas de poder para saber quem senta na melhor mesa do refeitório, mais intriguinhas... Deuses! Tudo era bem precoce na educação pública… Eles se afastaram, ela puxando-o pelo pescoço como seu cachorrinho, e o garoto só olhou mais uma vez para trás. Parecia mais babaca do que ameaçador.

– Fazendo amigos? Isso é tão sua cara…

Antes que virasse, ela conteve o sorriso de modo que só os seus olhos brilhavam. Só.

– Eu sei, certo? Essa simpatia toda deve exalar pelos meus poros e atrair as pessoas como moscas em plantas carnívoras.

– Desculpe, eu me perdi. Você tava falando de simpatia e então de plantas carnívoras… Não consigo relacionar.

– Essa sou eu, man.

Ele deu uma risadinha tão maravilhosa e contagiante que a fez lembrar que o que apenas havia sido algumas dias sem um riso genuíno, parecia mais.

– Ei, você tá bem? — Ele analisou melhor suas feições que pareciam terem se apagado em segundos.

– Por que não estaria? — Ela deu de ombros.

Ele a puxou para si e a envolveu em um abraço. Ele não era muito musculoso, mas ela era tão magra que foi como se perder ali dentro. Aquele gesto e um peso havia sido diminuído de suas costas, ela queria se afastar só por pudor, mas estava tão bom, ele era tão cheiroso, o que ia além de perfume ou óleo corporal ou qualquer coisa que fazia alguém cheirar bem. Ele simplesmente cheirava, era natural.

– Por n motivos que eu sei que você não irá me contar.

Passou alguns segundos, e ela respirou fundo, como que firmando a lembrança antes de fazer qualquer movimento para se afastar.

– O que te faz pensar que pode me abraçar? — Sua voz saiu abafada pela camisa dele. O queixo de Robert tocava no topo de sua cabeça, se ela ficasse só um pouquinho na ponta dos pés, poderia encaixar seu rosto na curva do seu pescoço, o que ela fez discretamente, como se tivesse tomando impulso para se livrar do abraço, as mãos em seu quadril.

– A quase certeza que tenho de que sou a única pessoa aqui que mais se aproxima de amigo seu.

Ela olhou pra ele com a sobrancelha arqueada, já solta na multidão, e sorriu.

– Uhum... O próximo professor já deve ter chegado, deixa eu ir… — Ela passou por ele para voltar a sala.

– No intervalo, saia pela outra porta do refeitório, tem uma área verde e um montinho à direita.

Ela suspendeu o polegar acima da cabeça e entrou na sala.

Notas finais
A tendência é melhorar, comentem!