Notas iniciais
Nos vemos lá embaixo?

Quando o intervalo bateu, ela tirou uma maçã da mochila e se dirigiu ao refeitório. Não era nova ali, então sabia sobre o que Rob estava falando, o montinho era o único destaque do campo que tinha nos fundos, o campo em si não era muito grande: havia uma quadra de futebol à esquerda e o resto do espaço era livre, até um horizonte próximo, e mais nada. Então de certo modo, um pequeno levantamento no solo tinha garantido muita importância àquela parte específica, o montinho.

De manhã, ela só tinha dado umas voltas por ali para tomar um ar, mas nunca foi de amigos, então nunca sentou naquele espaço. Geralmente só os "populares" ficavam ali, claro, qualquer coisa que se destacasse eram deles, um pequeno levantamento e se tinha uma visão melhor de tudo em volta. Era um privilégio, o prêmio de apostas, jogos, "eu-e-você-no-fim-da-aula". Havia uma árvore que fazia sombra, o que tornava melhor ainda, mas ela nunca se importou. Podia estar bem sentada em qualquer lugar, e o muro era mais alto e, o mais legal: pacífico. Ninguém ficava te encarando como se quisesse sentar ali, até porque tinha muro pra todo mundo.

Robert estava esticado, apoiado sobre os cotovelos, em sua direção no montinho. Ela o observou um pouco antes de aproximar, sua cabeça estava jogada pra trás e seus olhos estavam fechados, ele agia como se estivesse em uma praia, pegando sol. Praia… uma imagem representativa na TV, já que ela nunca tinha ido em uma. Mordeu mais um pouco a maçã e foi até o grupinho dele.

– Ei! — Disse subindo a elevação. Ele abriu um olho, e então sorriu.

– Cris! Sente aqui. — Ele bateu a mão ao seu lado e a esperou sentar. — Gente, essa é a Cris, uma amiga.

Uma garota com o cabelo pintado de verde parou de tentar pegar um isqueiro da mão de um garoto loiro que sorria de orelha a orelha enquanto se desviava dela. Eles e mais três pessoas — uma garota de óculos que estava no celular, outra sem mais espaço nas orelhas para colocar piercing e brinco que estava lendo e um garoto que estava com a cabeça no colo da que estava lendo — olharam pra ela.

Ela deu uma acenada com a cabeça.

– Então vocês são os populares… — Ela disse.

– O quê? — A de cabelo verde estagnou, com os olhos arregalados. — Que susto! Por um momento achei que você já tinha começado nos ofendendo.

– Nada disso, a Cris transborda simpatia. — Rob negou firmemente com a cabeça. Ela deu uma olhada de canto de olho pra ele.

– Só estamos aqui mesmo porque a Débora é meio que foda. — Disse o cara deitado olhando para a garota do celular.

– Se tem uma coisa que eu aprendi com minha vó, — Respondeu a garota, Débora. — é que não sou pouca merda, sou um pinico cheio.

– Débora, você é muito estranha. — A garota do livro levantou mais uma vez a cabeça da leitura e franziu o nariz.

– É culpa da minha vó... — A menina deu de ombros e voltou a teclar.

C também deu de ombros, colocou a mochila atrás dela e fez de travesseiro.

– Quer? — Ela estendeu a maçã já quase toda comida para ele, oferecendo.

Com ela ainda segurando, ele deu uma mordida. Ele estava ali, olhando-a de cima, e ela queria alguma coisa, alguma coisa dele, ela podia sentir.

– Está conseguindo recuperar as notas? — Disse só para quebrar o silêncio, ele franziu a testa, mas depois se lembrou.

– Então você ouve conversa alheia… — Ele debochou.

– Não posso fechar meu ouvido. — Ela mordeu a maçã e ofereceu a ele, de novo ele comeu a fruta ali mesmo na mão dela.

– Estou tentando... — Respondeu. — Mas não tenho todo esse tempo para me dedicar aos estudos — Ela assentiu silenciosamente. — Você é inteligente?

– Sou.

Ele assentiu e sorriu, depois puxou sua própria mochila para alinhar com a dela e deitou, com as mãos atrás da cabeça. Ficaram por um tempo assim, e ela se sentiu sonolenta.

– Isso é legal, não é? — Disse Rob tão baixinho que ela mal escutou.

– O quê? — Sussurrou.

– Isso.

Naquela hora uma brisa boa passou por eles, o céu estava tão azul, nenhuma nuvem a vista, e mesmo não tendo certeza que sabia, ela conseguia entendê-lo.

– tsc – Grunhiu e cutucou a perna dele com seu pé. Ela virou a cabeça para o lado e ele estava com um sorrisinho de canto. — Se você quiser, eu posso te ajudar… com os estudos.

Ele virou a cabeça pra ela.

– Obrigado, eu quero sim.

– Eu consegui! Comida não vai faltar… — Débora de repente se pronunciou, e eles sentaram.

– É isso aí, garota! Você precisa me ensinar algum dia como é que faz isso. — O loiro a cumprimentou.

– Amigos de amigos e cobrança de favores, fácil.

– Débora trabalha na prefeitura, o que significa que ela é a garota pra quem você recorre se quer alguma coisa. Lado ruim? Nada com ela é sem preço, de modo que depois, quando lhe convém, ela sai atrás dos coitados para cobrar o que ela fez por eles. Meio cansativo, mas não pra ela. — Rob lhe explicou.

– O mundo é assim, meu querido. Aqui se faz, aqui se paga. Coitada de mim, isso sim, só porque sou boa com computadores e tenho uma posição privilegiada no gabinete as pessoas pensam que podem me explorar com suas caras de sofridas e roupas de pobre.

C arqueou as sobrancelhas. É por isso que ela não pedia favores... orgulhosa, você diria?

– Não pareça tão má quando não é verdade. — Disse a de cabelo verde. — E, aliás, Cris, graças à “posição privilegiada no gabinete”, — A garota zombou. — moramos sozinhas e vamos dar uma festa. Você está convidada.

Cris não queria agradecer. Primeiro, porque não iria. Segundo, porque não queria que aquilo contasse como um favor. Vai que o preço depois fosse muito alto.

– Não é um favor. — A leitora pareceu ter lido seus pensamentos.

– A não ser que seja um ao contrário — O garoto ao lado dela, que parecia que não dormia fazia noites, com olheiras escuras embaixo dos olhos, falou. — Já que a nossa Deb adora ter a casa cheia, quanto mais gente puder ir, melhor.

– Ok. — Foi tudo o que Cris disse, acompanhado de um sorrisinho rápido.

O sinal tocou e todos se levantaram. O menino do isqueiro pediu a mão da verde para ajudá-lo a se levantar, mas ela só bateu na sua mão estendida e desceu a elevação, ele sorriu mais ainda. Cris ficou um pouco pra trás, queria perguntar algo à Débora.

– Como se consegue um emprego na prefeitura hoje em dia? — Ela perguntou.

– No meu caso, minha mãe dormiu com o cara certo. — A menina soou indiferente e Cris finalmente simpatizou com ela.

#

Na saída, C viu Robert. Ele estava de frente pra moto e de costas para ela, a moto estava entre um jipe verde exército e um fusca rosa. O jipe devia ser do cara loiro, já que ele estava sentado no banco do motorista, virado para Rob e conversando com ele junto com o resto do grupo. Os dois casais estavam ao lado do jipe e Débora estava ao lado do fusca. C hesitou e depois desistiu. Não queria parecer grudenta ou coisa do tipo, e além do mais já tinha invadido o intervalo deles, não iria se instalar como uma praga em suas vidas.

Mas pelo visto não era só ela que decidia isso, ela já estava andando para o portão, quando ouviu a chamarem.

– Cris! — A voz era de garoto, mas não era ele. Ela se virou para encontrar o loiro acenando e percebeu que Robert ainda estava procurando onde ela estava. Para não parecer mal educada, foi até lá.

– Oi, e aí?

– Eu já ia perguntar a Robert como vocês se conheceram.

– Ela deu em cima de mim no pop feat. rock. — Explicou Rob.

– Nada disso, você lançou uma cantada podre para o meu lado e depois fez parecer que eu estava interessada. — Ela corrigiu.

– O Rob lançou uma cantada? — Perguntou a leitora, divertida.

– Pois é, ele disse: “Você vem sempre aqui?” — Houve um gemido coletivo quando C terminou de falar aquilo, como se estivessem rejeitando uma cantada tão triste e ela riu. — E eu fiquei, tipo, “não, cara, essa cantada não”.

Rob sorria, olhando-a enquanto ela contava e se surpreendeu com seu riso. Ela ria como se estivesse colocando pra fora, expelindo. Como se precisasse fazer. Ele não sabia se podia considerar como um riso feliz, ou se ao menos havia um riso que não fosse (exceto pelos fingidos, e ela não fingia). Era um riso estranho, que combinava com ela, único como a dona.

– Tá, tá, pare com isso, não foi bem assim — Ele voltou à conversa. — Você está distorcendo as coisas, eu não quis dizer aquilo exatamente.

– Eu sempre soube que você não era bom nisso, man... — Comentou o de olheiras.

– Vocês vão mesmo acreditar nela? — Rob fingiu indignação, apontado pra C. O pessoal assentiu. — Tá bom então. Não é porque a garota é bonita que todo cara que chega tem segundas intenções.

C ficou sem-graça pelo elogio, mas eles nem repararam.

– Não sabia que você era tão ingênuo, Rob. — Brincou Deb. Ele se esticou para bagunçar o cabelo dela enquanto ela tentava se desvencilhar e batia na mão dele, um pouco depois ela conseguiu se livrar: — Eu vou não ingenuamente encontrar o meu cara de segundas intenções. Tchau pra vocês.

Deb deu a volta no seu fusca e entrou. Os outros também começaram a se despedir, então C fez o mesmo. Quando ela ia se afastar, Rob disse:

– Sobe aí, eu te levo.

– Não quero incomodar…

– Muito tarde.

– Idiota — Retrucou, revirando os olhos e pegando o capacete.

Quando ele parou na entrada, esperando para adentrar na pista, uma buzina soou à esquerda deles e C olhou. Era o carro de Pedro. Ela respirou fundo, porque não iria com ele, mas também não podia colocar mais lenha na fogueira, ignorando-o. Afinal, estava tudo certo, tudo certo, como 2 e 2 eram 5.

Ela tirou o capacete e falou perto de Robert:

– Preciso descer.

– O que houve?

– Meu irmão. — Ela saltou da moto e entregou o capacete à ele. — Você me espera?

Ele assentiu, ela foi até o carro e ele dobrou para subir no passeio e estacionar ali só por um momento. Susana estava no banco de trás segurando uma barbie quase careca.

– Pedro. — Ela disse como um cumprimento.

– Entra aqui, Carmim. — Ele se esticou para abrir a porta do passageiro.

– Não. — Ela fechou. — Já tenho carona.

– O que deu em você? Te procurei por todo canto.

– Com medo que eu pudesse estar caída bêbada em algum lugar? Não somos tão idênticos assim. — Saiu desgovernado e se arrependeu na hora, por Susana e porque não era o local e o momento certo. Ele fechou a cara e pareceu miserável. Eles só tinham 17 anos… — Nos vemos em casa, Pedro.

Ela deu as costas ao carro e foi até Rob. Ele a olhou minuciosamente, parecendo capaz de lê-la, desvendá-la, e aqueles olhos pretos a fizeram se sentir nua. Ela pegou o capacete de volta.

– Vamos? — Lhe disse.

Ela fez que sim.

Notas finais
Eu sou louca? Sim, eu sou. Coloquei um "[1]", em uma frase em inglês do capítulo 4, mas nunca dei a referência... kkkk Bem, é da música "Ride (Monologue)", da Lana Del Rey.