Parte alguma de uma história sem fim

3 O que for preciso - Parte 1


Notas iniciais
Poxa, não tem mesmo ninguém lendo?

Merda, ela era uma garota comum! Porque, ta-da!!!, ela achava aquele prédio enorme repleto de salas e lotado de adolescentes comuns como ela um saco! E não há nada mais comum do que não gostar de ensino médio. Não era por causa da deficiência da educação pública, pelas paredes pichadas, pelos adultos que se sentiam deuses. Era a sociabilidade, a animação, as briguinhas, as intrigas, ela não tinha tempo para essas coisas.

Assim que chegou foi até a sala da secretaria, que apesar de minúscula e com UM ventilador de teto que mal resfriava, já parecia muito melhor do que toda a comoção lá de fora, e onde, ainda por cima, não dava nem para ouvir todo o barulho dos corredores.

– Essa sala é à prova de som?! Que inveja! — Ela disse à sra. secretária com óculos fundo de garrafa e uma verruga no pescoço que sorriu pra ela como se ela tivesse 4 anos. Adultos que se sentiam deuses… — Bom dia, gostaria de saber se eu podia ser transferida para o turno vespertino.

A fisionomia de compaixão se transformou em uma de presunção.

– No meio do ano? — Foi tudo o que disse.

Invés de responder sarcasticamente, ela pensou mais um pouco, sabendo que precisaria dela.

– Sim, senhora. Não pediria isso se não fosse muito necessário. E é. Estou usando meus últimos recursos aqui, entenda que só o faço porque é importante.

A sra. secretária olhou desconfiada, como se fosse passada pra trás várias vezes pelos alunos, o que provavelmente era.

– Primeiro é preciso ver se há vaga, se houvesse você precisaria preencher um formulário e mandar para o departamento estudantil. O vice-diretor cuida disso e estudaria seu caso. Só então poderia haver uma chance de você ser transferida.

– Demora muito?

– É o único colégio público do ensino médio de uma cidade pequena e falida. Todos os adolescentes que não têm pais ricos, o que significa a grande maioria, estão aqui, distribuídos entre os turnos. É muita gente, a chance de haver uma vaga já é mínima, mas o sistema pode dar conta rapidamente disso. Agora sobre a disponibilidade do vice-diretor de atender sua requisição já são outros 500, não é como se ele não se achasse muito importante.

“E você não?”, ela quis perguntar, mas de novo, não podia ser grossa.

– Entendo. Então você poderia olhar se tem vagas, por favor?

A mulher respirou profundamente, como se aquilo fosse lhe custar mais do que umas tecladas e um clique. C deu seu melhor sorriso de menina comportada e esperou. Passou-se uns 5 minutos antes que a secretária voltasse a falar.

– Há duas, até. Acredito que seja a do menino que foi preso por esfaquear uma garota e a da garota que está no hospital por ter sido esfaqueada. Ele: expulso, ela: tirada pelos pais.

C se sentiu vitoriosa por ter conseguido e mal pelo ocorrido.

– Nossa. — E deu uma pausa, pois não queria ser indelicada. — Onde consigo o formulário?

A mulher que agora só parecia entediada com tudo, deu uma folha a ela.

– Aqui.

Pegando o formulário, ela sentou numa cadeira no canto da sala, apoiou a folha no caderno, pegou uma caneta da bolsa e começou a escrever. “Nome completo”, “Data de nascimento”, “RG”, “Nome da mãe” (fácil), “Nome do pai” (Ha! Boa pergunta!), “Média escolar”, “Série”, blá blá blá, “Motivo” (o que seu irmão disse mesmo sobre apelar?).

Já estava no verso quando o barulho de fora preencheu a sala e voltou a calar, alguém tinha entrado.

– Bom dia. Estou aqui para resolver minha situação escolar, já estou no segundo aviso.

Aquela voz...

– Qual o seu nome, querido?

“Ah!”, pensou ela, “pra garotos era ‘querido’?! Ou só para os de olhos pretos e sorriso fácil?”

– Rob Jones, 3º ano. Quer dizer, Robert. — Ele pôs os dois braços sobre a bancada, se recostando, e passou a mão nos cabelos quase raspados.

– Só um momento. — Retornou a sra. secretária.

Ele entrou ali sem a reparar, e não tinha o feito ainda. Talvez nem a reconhecesse quando a visse, talvez desse uma olhada rápida e ignoraria. Mas ela o tinha feito e se revoltou com isso, ela sempre reparava em tudo e todos antes dos outros, o que impedia de ser reparada antes de reparar, de olhar pra alguém e perceber que ele já estava a olhando. Agora ela ficaria ali, com a cabeça baixa, olhando de canto de olho, na expectativa dele olhá-la e ela perceber quando ele o fizesse, para ler no semblante sua reação. Por isso perdeu totalmente a atenção do formulário e parou de escrever.

Pelo visto ele era quase um caso perdido, só um milagre para ele passar de ano, o que significava muito esforço. “Segundo aviso” de três, 1º — sinal amarelo: faltando muito, o que baixa as notas e em casos extremos poderia significar uma possível perca por frequência (o que poderia acontecer com ela mais cedo ou mais tarde); 2º — sinal vermelho: notas baixas correndo grande risco de repetir o ano, ou ser expulso se já tiver repetido; 3º — sinal preto: sem salvação, ou repete ou é jubilado.

Ele apelou por uma segunda chance, o que significava maiores prazos e retificar trabalhos em troca de melhores notas. Uma nota baixa sequer após isso e ele perderia o privilégio, significando que seria quase impossível a recuperação.

– Vou mandar o alerta para os professores das disciplinas mais prejudicadas, provavelmente você conseguirá, porque tem bom histórico. Agora não pode permitir que chegue a esse estado novamente, tem que se comprometer com isso, pode ser?

– Pode sim, senhora. Obrigado!

C endireitou a coluna, porque sabia que ele ia se virar. Parecia desdenhosa, mas queria que ele a olhasse, vendo-o para ter certeza e ainda sem que ele percebesse que ela se importava. Era um trabalho difícil.

E então enquanto ia até a porta deu uma olhada para o lado, demorou-se 3 segundos olhando em sua direção (em sua direção, não, pra ela) e saiu. SAIU.

Sentindo-se indignada por tê-lo reconhecido sem reciprocidade, e com isso, tendo ganhado pela segunda vez em um jogo que ela nem entendia, ela terminou o formulário rapidamente e se dirigiu à secretária.

– Aqui está, senhora. — A mulher se surpreendeu, como se já tivesse se esquecido da presença dela, e ela pensou ironicamente que a secretária não era a única. — Eu levo até a sala do diretor ou…

– Não, pode deixar que é do meu encargo me responsabilizar por isso. — Ela pegou o papel da mão da menina. — Você será avisada quando sua situação for decidida. — Disse, dispensando-a.

C hesitou por um segundo, preferia fazer ela mesma para garantir que aquele formulário chegasse certinho e o mais rapidamente possível na mão do cara e quem sabe até chorar um pouco pra ele.

– Agradeço pela atenção, e sei o quanto a senhora é competente em seu trabalho, mas só queria frisar a importância disso para mim e minha família. Então se o vice pudesse ter em mãos ainda hoje…

– Eu sei, menina, eu sei. — Respondeu enquanto teclava provavelmente no bate-papo do facebook.

“Carmim” suspirou gravemente antes de se virar pra ir embora. Pela mulher e pela barulheira que a esperava lá fora.

– Olha só quem eu encontro. Eu sabia que nos veríamos mais vezes.

Antes que pudesse fechar a porta da secretaria e se habituar em estar novamente em meio aquele auê do corredor, ela se depara com aquele tal sorriso.

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“Pensa rápido: fingir desinteresse ou deixar transparecer que se importa? Eu sei a resposta, eu realmente sei.”

– Oh, você sabe quem eu sou?

“Então porque eu escolho a resposta errada?” Ele dá um risinho, que a tira dos nervos, e em resposta ela sorri sarcasticamente. Então se sente uma tremenda idiota e sai andando. Ela sabe que ele está atrás dela, porque o sorriso dele parece queimar, mas ela realmente não quer fazer isso. Um estranho qualquer pode mesmo despertar tal irritação?

C dá um suspiro longo, porque tem a consciência de que não deveria falar (ou ser a primeira a fazer), mas fala:

– Então, estranho né.

– Não realmente, eu já sabia disso, estou te dizendo. — Ele ainda está atrás. Só pra deixá-la com vontade de olhar, ela tem certeza.

– Ah, é, sua bola de cristal te avisou?

– Ela é meio temperamental… então só disse que tinha uma garota bonita no meu caminho.

Ela sorri a contra gosto, isso é clichê demais para não caçoar, mas reprimi o máximo que pode.

– Então eu fiquei intrigado, claro, não gosto muito de surpresas. E eu fiquei, tipo, vamos lá, Cris, me dá uma dica, não é como se eu não visse muitas garotas bonitas todos os dias, essa previsão não é nada.

“Cara de pau”, ela pensou.

– Cris?

– É, de “Cristal”. Me sinto mais à vontade nomeando as coisas. Dito isso, é melhor que eu saiba logo seu nome.

– Ou é melhor que não.

– Como assim? Eu não posso ficar te chamando de “a-garota-do-pop-feat-rock”, teria que abreviar para GPFR? Ou “aquela-que-deu-em-cima-de-mim”, AQDECDM?

– Ha! Faça isso e você verá eu me jogar em cima de você, mas pra te bater.

– A culpa não seria minha, é você que gosta de complicar as coisas. Complicadinha, posso te chamar assim?

Reviro os olhos, e ele provavelmente vê, porque retifica:

– Você não parece ser muito de diminuitivo, então “Jogo duro”? JD?

– Cara, o que você ainda faz aqui?

Nesse momento eles já tinham chegado ao lado de fora, no estacionamento. Ela não devia nem estar indo por esse caminho, deveria estar assistindo aula, mas se encontrou ali, restando ainda 2 horas para encontrar Susana e sem nada pra fazer.

– Tentando descobrir seu nome.

– Pergunta à sua bola.

– Já disse que ela não é tão direta, é difícil tirar alguma coisa. Ei, pensando bem, não é que vocês se parecem. Vou te chamar de Cris, então. É isso.

– Você não me acha direta!? Que tal isso: Você é um pé no saco e quero que você caia fora! Precisa que eu seja mais incisiva?

– Ai, meu coração dói. Essa magoou, você é assim mesmo tão dura?

Ela virou pra ele com as mãos nos quadris, encarando aqueles olhos que sim, tinham pupilas, era bem melhor reparar nisso quando eles estavam sob o sol intenso da manhã, mas que eram tão escuros que podia facilmente se atrapalhar. Não havia mais sorriso em seus lábios, mas os olhos, aqueles olhos, tinham um brilho divertido.

– Sinceramente? Sim, eu sou.

– Duvido.

– Se você já tem sua opinião sobre mim, então por quê pergunta?

– Para ver até onde você vai resistir. — Sorriso.

Ela tinha 2 horas vagas, poderia procurar uma sombra para sentar e esperar ou fazer alguma coisa, que era mais o tipo dela. Pensou em ir ao Supermercado, conversar com Geraldo, o gerente, sobre a sua posição, poderia tomar um ChapaMix e arrumar algumas prateleiras.

– Você não deveria estar em aula para ver se consegue não perder de ano?

– Estudo de tarde.

– Hm, você tem algum veículo? Poderia me recompensar por perder tempo com você me dando uma carona… — Ela deu seu melhor sorriso, que era sincero e travesso, e na verdade foi Robert que se sentiu compensado, admirando a forma que aqueles lábios, que só tinha dito coisas rudes ou sarcásticas para ele, podiam tomar.

– Será um prazer, Cris.

Notas finais
Ooooi